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Archive for maio \29\UTC 2015

Requinte

Chegamos ao porto num sábado de manhã. Eu e o fotógrafo. De roupas simples. Não posso negar, nasci numa família tradicional, não tenho culpa disso, mas sou jornalista. Ou melhor: sou um duro. Minha mãe, meu pai, meus tios esbanjam dinheiro por aí. Eu sou e estou fudido. Nem herança tenho. Meu pai era a ovelha negra da família. Ovelhas negras não deixam herança, torram tudo.
Meu chefe me veio com uma história de que eu tinha de escrever uma grande reportagem sobre a máfia do porto. Estou cansado de ouvir falar que no porto há uma máfia. Em geral, protagonizada pelos sindicatos de classe. É a direita tentando desestabilizar a oposição. Chamam os estivadores de preguiçosos. Pelegos. Eu acho que a direita não tem razão em princípio. Eu quero que a direita se foda.
Mas, quem vai dar atenção às convicções pessoais de um bosta de repórter e um bosta de fotógrafo, perdidos no meio de um porto? Por outro lado, no meio dos estivadores há muita gente que faz jogo duplo. Ninguém me disse, eu sei. O mundo é assim.
O fotógrafo é nordestino, e isso era uma boa, eu lhe falei: “A maioria dos caras aqui são da sua região, Jumenta (era o apelido dele: Jumenta, não sei por que no feminino). Conversa com eles, fala do litoral, das mulheres que você comeu na Bahia.”
“Não comi ninguém na Bahia”, disse Jumenta.
“Então foi porque não quis”, eu concluí, rindo.
Puta que o pariu. A máfia do porto. De que ponto de vista? Dos empresários? Dos donos dos navios? Ou dos donos das cargas? Ou ainda da elite dos estivadores, organizados nos sindicatos? Claro que seria do ponto de vista do poder. Dos estivadores, jamais. Não quero dizer que eles são santos, não. Mas, máfia por máfia, a dos empresários é mais eficiente. Tem mais recursos.
“Jumenta, vou te confessar…”, disse ao fotógrafo, “não sei por onde começar.”
“Olha, vou te contar uma coisa”, retrucou Jumenta, “a maioria dos repórteres não sabe por onde começar. Você é exceção porque confessa. Os caras, a maior parte deles, se acham uns gostosões. E escrevem o que pensam que o patrão vai gostar. Ô gente filha da puta. Repórter e patrão!”
“Nem todo patrão é filha da puta, Jumenta”, eu disse com pouca convicção. “No meu jornal o que eu escrever, sai.”
“Só se for no teu. Mas, afinal, o teu é o nosso.”
E assim fomos. Chegamos ao porto, aquela balbúrdia. Homem sem camisa, burocratas, putas, policiais militares, policiais civis de bigodinho. Uma zona.
“Olha, cara, vou te falar”, disse Jumenta. “Aqui você vai ter de procurar o ponto de referência.”
“Como?”
“Um lugar onde todo mundo envolvido na sacanagem apareça. Só conheço um.”
“Eu também. A zona.”
“Pois é: a zona.”
Fomos para a zona. Deixei claro, de cara, que não estava a fim de comer ninguém. Mulheres horrendas. Putas fantasiadas de putas. Algumas pintavam boquinhas de batom sobre os próprios lábios, como num pastiche. Levaram-me a Mãe Ermínia, a cafetina-chefe.
“Que é que você quer, garoto?”
“Olha, Mãe Ermínia, com todo respeito, não sou um garoto; tenho vinte e quatro anos.”
“Pra mim tem cheiro de leite.”
“Eh, tudo é relativo… Vou confessar pra senhora: preciso saber como funciona o porto. É uma reportagem. Aí me disseram que todo mundo gira em torno da senhora.”
“Regra número um: se você falar de mim ou das minhas meninas, é um homem morto.”
“Já lhe disse. Não é uma reportagem sobre a zona, ou o seu bordel, é sobre o porto. É mais, digamos, genérica…”
“Tá bom. O que posso lhe oferecer é uma vaga aqui, no pedaço. Quer ser cafetão?”
“Não tenho jeito.”
“Tem mesmo não. Então, pra começar, vou te convidar para o nosso jantar. Às nove da noite em ponto.”
“Cedo.”
“Quem disse que puta séria dorme tarde? Em ponto.”
“Tá bom.”
Nove da noite, eu e Jumenta, numa mesa comprida e larga, no primeiro andar do puteiro, com as mulheres mais inacessíveis do mundo à nossa frente ou ao nosso lado. Inacessíveis porque, como putas, poderíamos tê-las a qualquer momento. Mas uma coisa é usar, fuder, penetrar, e outra é ter. Ganhar o afeto. Ser o dono emocional. Bobagem, né? Mas aprendi ali. A minha namorada, por exemplo, a Chandele, a gente se comia o tempo todo mas nenhum dos dois possuía o outro. Era só um jogo. De perdedores. Puta ensina muita coisa pra gente.
O cardápio, não podia deixar de ser, era peixe. E a bebida, cerveja.
“Tem vinho?”, eu perguntei, distraidamente, e Mãe Ermínia sacou.
“O boneco é fino, pois não?”, ela sarrou da minha cara.
“Sou nada, Mãe. Como diz Lady Sheyla, eu sou fino pra caralho”, respondi.
“Quem é Lady Sheyla?”
“É uma colega. É ela que gosta de dizer, quando lhe enchem o saco: ‘vamos parar com isso porque eu sou fina pra caralho e, quando eu sou fina, é foda.’”
“Vou lhe mandar servir um vinho”, anuiu Mãe Ermínia. “Tinto. Gente fina prefere peixe com vinho tinto e não branco, como todo mundo pensa. Sabe, eu gosto de você.”
“E eu da senhora.”
Vou confessar: jamais comi um peixe com um molho daqueles, tão requintado, que nenhum restaurante francês, nem em Paris e muito menos no Brasil, jamais me serviu. O vinho era um tinto português que passaria despercebido na prateleira de um supermercado, mas que se tornava harmonia pura quando confrontado, através das papilas, com o molho daquele peixe.
As putas, umas vinte, tomavam a mesa comprida. A maioria delas pediu cerveja. Jumenta, ao meu lado, quis beber cachaça. Mãe Ermínia acomodou-se à minha frente, do outro lado da mesa. Fazia observações bem-humoradas sobre suas meninas. Lembrava clientes, situações, viagens antigas. Uma família. Eu e o fotógrafo éramos os únicos homens do festim. Eu estava muito feliz, inclusive porque começava a ficar bêbado.
De repente, uma mulher de roupa normal, careta, parecendo mais secretária do que puta, apareceu na porta da sala e se dirigiu a Mãe Ermínia. Falou-lhe no ouvido. A Mãe virou-se para uma das meninas, vestido verde-esmeralda decotado, cabelos longos, boca carmim.
“Vai tu, Gisleide.”
“Quem é, Mãe?”
“O velho”.
“O polonês?”
“Ele mesmo. Vai logo. Senão mando outra.”
Depois fiquei sabendo: o polonês era um comandante sênior de fragata mercantil que só exigia das meninas alguma performance do tipo fashion: uma pose aqui e ali, pelada, um jeito romântico de mostrar os seios nus. Era um brocha, mas era lorde.
Gisleide voltou, feliz da vida, a tempo de alcançar a sobremesa, quarenta e cinco minutos depois, bendizendo o cliente.
“Ai, Mãe, se todos fossem como esse velhinho… Ainda me deu cem dólares…”
“Gisleide, olha o rateio!”, disse Mãe Ermínia rindo.
Torta de nozes, delícia de abacaxi, sorvete de creme artesanal: eu não conseguia distinguir o que era mais delicioso. Estava lambendo os beiços quando Mãe Ermínia esticou seu braço obeso e me tocou, do outro lado da mesa.
“Garoto, isto é o porto. Alegria e prazer.”
“Mas tem duas máfias, não tem? A dos patrões e a dos empregados?”
“Tem porra nenhuma”, disse Mãe Ermínia. “Tem uma máfia só, a máfia da humanidade. Cada um defende o seu, cada um pensa que fudeu o outro, e todos acham que fuderam a gente…”
“E não fuderam?”
“O mundo é um rio, seu jornalista. Nós todos somos levados pela correnteza, a caminho do Bem. E nós, as putas, vamos na frente. Somos as primeiras a ser fudidas.”
“Porque são mais puras”, eu emendei.
“Não, porque somos mais espertas!”, ela riu pra mim.
Neste momento, surgiu novamente aquela mulher que parecia uma secretária. Disse mais alguma coisa no ouvido da cafetina, que balançou a cabeça, afirmativamente.
“Condessa!”, gritou Mãe Ermínia, dirigindo-se à mais bela e bem-vestida profissional do jantar. “O coreano taí.”
“Caralho”, disse a Condessa. “Eu acabei de tomar o meu digestivo.”
“Pensa nas verdinhas”, disse Mãe.
“Já tou indo.”
Levantou-se, com muita graça, e passou bem próximo de nós, roçando o vestido longo, armado. Parecia, mesmo, uma personagem saída de um baile real, antigo.
“Há um problema com nosso jantar”, eu disse a Mãe Ermínia. “Ele é muito interrompido.”
“Você também não interrompe o seu domingo para cobrir incêndio?”, ela perguntou, esperta.
“É verdade. Interrompo sim.”
“Pois é. Trabalhador sofre.”
Condessa voltou, uma hora depois, com cara de nojo, e bebeu mais alguns digestivos. Outras meninas foram e voltaram. Jumenta ficou bêbado e dormiu com o rosto enfiado no meio dos braços, apoiados na mesa. Eu acabei a noite confessando a Mãe Ermínia que estava na missão errada: para mim, a putaria merecia uma reportagem muito mais rica e profunda do que aquela difusa “máfia do porto”.
“Quer saber de uma coisa?”, perguntou a cafetina. “O cara que te encomendou isso nem sabe do que está falando”.
“A senhora tem razão.”
“Então volta pro jornal e fala que a máfia não só ameaçou você como disse que iria matá-lo, também.”
“Matar a quem, também?”
“A ele, ao teu chefe. Ele vai desistir da reportagem na hora. Deve ser um cagão.”
“Deve ser, não. É um cagão! Mãe Ermínia, vou lhe dizer uma coisa: a senhora é um gênio! Esta é, realmente, a melhor saída.”
No dia seguinte, contei a Jumenta que um homem com uma cicatriz na testa me havia procurado no jantar das putas e me feito ameaças. A mim, a ele, Jumenta, e ao chefe.
“Então, caralho, vamos cair fora daqui já!”, tremeu o fotógrafo.
Antes de sair, dei uma passada pelo puteiro e procurei meu ídolo. Para agradecer e me despedir. De dia, Mãe Ermínia perdia um pouco do seu poder, fisicamente: parecia apenas uma senhora gorda. Mas, olhando bem, ela não perdia, refletida no rosto, a luz da genialidade. Eu iniciara, naquela época, uma das melhores amizades da minha vida. Ninguém jamais entendeu por que, de vez em quando, eu viajava sozinho para visitar uma velha amiga, “uma senhora muito requintada que mora perto do mar”.

Do livro “Allegro” – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003

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