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Archive for julho \03\UTC 2015

A falecida loquaz

Vocês podem imaginar: um ambiente respeitoso, música clássica a todo volume, e um anfiteatro bastante espaçoso, tendo, ao centro, o cadáver no caixão.
É assim, no Crematório do Sul. Trouxeram o corpo da indigitada, de tão longe, do interior, somente para dizer, quem sabe, que a cremaram na capital. Questão de status.
Foram-se chegando. Com seus ternos apertados, de domingo. Eu me informei: era a primeira vez que alguém da nossa pequena cidade seria cremado na capital e com toda aquela pompa. (Na verdade, a pompa resumia-se à seleção dos clássicos populares que um DJ distraído e meio bêbado escolhera para a ocasião.)
De qualquer forma, pareceu-me natural toda aquela procura por lugares no anfiteatro. E aí pensei uma coisa inviável: a falecida deveria estar vibrando. Onde quer que se encontrasse. Ela gostava disso.
Explico-me: sou um dos amigos mais próximos da moça que morreu, a Cleonides, médica psiquiatra que não exercia a profissão; preferia posicionar-se, socialmente, no que chamava elite, e gostaria de ditar a moda e os costumes. Tudo bem: fui um caso dela. Um dos. Eu a desfrutava na sua própria casa, às segundas, quartas e sextas, dentro do seu quarto, tendo toda sua família, pai, mãe e irmãos, ativos na sala, vendo jogos de futebol. Eram fanáticos. E se esqueciam do mundo e de nós.
Mas sempre soube que tinha outros rivais. O De Sotto, por exemplo. Ele não só a papava às terças, quintas e sábados, como, domingo sim, domingo não, a levava ao motel da estrada, o único no nosso município, o Red Rose.
Essa vida sexual tão ativa, porém tão discreta, jamais inibiu Cleonides de ditar normas e estabelecer regras dentro da nossa pequena cidade. E não posso dizer que ela não fosse extremamente generosa: obrigava-nos, ao De Sotto e a mim, pequenos empresários que somos, a liderar um movimento empresarial em prol da criança desamparada, e se não fosse por ela eu jamais teria dado condições de vida a cerca de vinte meninos e meninas que o nosso movimento acabara catando nas ruas da cidade.
Olho para o anfiteatro e vejo que todos os presentes de alguma forma foram influenciados por ela a socorrer os aflitos. Por que ela fazia isso? Não sei. Mas, se não fosse Cleonides, jamais teríamos alcançado o primeiro lugar de cidade mais pacífica do Estado, com apenas três assaltos, em média, no ano passado. E nenhum crime de morte.
Quando a estatística foi divulgada, pela imprensa nacional, é que nos demos conta dos acertos da nossa benfeitora: ela insistia que a criminalidade era uma questão de educação, que os bandidos cultos não chegariam a zero vírgula um por cento da população criminal. Tinha razão. Ser caridoso, para mim, era muito fácil: uma olhada rápida no faturamento do mês e uma assinatura num cheque de quantia irrisória, comparativamente falando.
Lá estava, no anfiteatro, o major Diogo, o padre Alípio, e o pastor Jeremias. O major é um líder espírita importante no Estado e que, por coincidência, é nativo da nossa cidade; o padre Alípio é praticamente uma criação da nossa amiga morta; ela o fez através de um programa de rádio que assumira, “O consolo aos que têm fome”, onde apresentava o consolador, ou seja, o padre.
A relação com o pastor Jeremias era um pouco mais complexa: ele era (era não, é) jovem e bonito, mas nossa amiga já não tinha agenda. E assim, na impossibilidade de envolver-se de uma forma mais direta, Cleonides o acompanhava aos bairros periféricos, onde o rapaz deitava sua falação evangélica e arrebanhava fiéis. A quem lhe perguntava o porquê de tanto ecumenismo, Cleonides dizia:
“Só existe um único Bem. O resto é performance.”
Ela tinha razão, sabem? Hoje a vejo no que seria o centro do palco, imóvel e rígida, mas percebo em cada mente, em cada rosto da nossa cidade, que Cleonides não pára de falar nos ouvidos deles todos, dizendo façam isso e aquilo, ajudem a fulano e sicrano, não sejam egoístas nem omissos, sejam como eu, que amo a vida, trabalho, rio, bebo, trepo com quem quero e morro quando tiver de morrer.
Com toda sinceridade, a memória da sua voz rouca continua a me incomodar; a sua insistência, a me oprimir. Ela me reapresenta às minhas próprias culpas, que não são poucas, e cutuca o meu egoísmo, imenso e devasso.
Não vejo a hora dessa cerimônia acabar. Mas acho, também, que não vou me livrar tão cedo da falecida.

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