Feeds:
Posts
Comentários

Archive for agosto \26\UTC 2015

Pássaro da memória

A vista, a partir do quadrado da janela, prometia beleza e paz, e eu conseguia ver tão pouco, dada a posição em que me encontrava na cama daquele apartamento: um córrego, algumas árvores, borboletas às centenas e uns e outros pássaros, extremamente coloridos, que jamais vira antes. Daquela posição conseguira observar, também, outros prédios, de pelo menos dez andares cada. Aquele era um complexo hospitalar imponente.
A enfermeira Cleusa, que me acompanhou a partir do primeiro dia e só me largava quando eu adormecia, sorriu para mim, com seu ar compassivo de sempre:
“Germana, você precisa se preparar. Algumas pessoas esperam por você nos jardins do lado de fora.”
“Eu já sei. Já estou preparada. Meu pai, minha mãe, meus tios.”
“E Nirlando…”
“Ele? Ele também? Não poderia ficar pra depois?”
“Ele tem feito muitos sacrifícios aqui, apenas para ajudar você. Tem sido um guardião. E ele é o que mais insiste em vê-la.”
“Só não sei como reagiria…”
“Não importa. Aqui é mais difícil a gente se esconder de si mesmo. Reaja como você é.”
Dispensei a cadeira de rodas, disse que faria um esforço, e Cleusa gostou de ouvir isso. Ela me incentivava a levantar da cama e ir até o banheiro, dava umas pequenas voltas comigo dentro do apartamento.
“O problema que afetou você, Germana”, ela me dizia, “deixa marcas bastante profundas no corpo, mesmo depois de algum tempo da manifestação. Você ainda sentirá algumas dores no abdômen. Mas nada que não possa ser vencido por sua força de vontade.”
Apesar de haver perdido a noção de tempo, imagino que tenha passado um mês internada, a partir do momento em que abri os olhos e vi a luz mortiça do cômodo: foi minha primeira imagem após a cirurgia. Depois, olhei de lado, ainda com muitas dores, e vi o sorriso claro da enfermeira.
Agora estava ali, no corredor, achando que não suportaria andar mais. Sentia como que punhais a me atravessarem a barriga. Mas nem gemi. Acreditei que minha vontade resolveria tudo. Quantas vezes, no passado, não resolvi problemas unicamente pela minha insistência em enfrentá-los.
Cheguei arfante à porta do terraço. Lá fora, vislumbrei, havia uma paisagem de sonho, com árvores de um verde indefinível, em vários tons, e o sobrevôo de uma infinidade de pássaros, diversos nas cores e nos cantos. Mas eu ainda estava extremamente concentrada na minha própria dor.
“Vamos, com mais cuidado…”, disse Cleusa.
Meio encurvada, procurei uma cadeira e fui sentando, já sem fôlego. Foi aí que levantei os olhos e vi, à minha frente, a figura enorme de Nirlando.
Não sei o que doía mais, se a dor física ou a dor da culpa ao enxergar novamente o meu ex-noivo, de alianças, como se usava antigamente, e que eu havia traído e destruído no passado, com um comportamento irresponsável.
Mas ele, que logo se levantou, lembrando-me do quanto me parecia imenso, com quase dois metros de altura e mais de cem quilos, era uma criança, ou um adolescente, na expressão do rosto. Como estaria me vendo, velha e carcomida? E ainda fazendo caretas de dor?
“Germana”, ele foi dizendo, “trouxe também dona Olair e seu Enéas…”
De que estava falando? Ora, ele permanecia ali, sozinho, todo desajeitado como sempre. Onde estariam minha mãe e meu pai?
Olhei para os lados; olhei além dos ombros de Nirlando; cruzei meu olhar com o de Cleusa e pedi socorro.
“Olhe, Germana, fique calma”, disse a enfermeira. É a primeira vez que você vê este lugar. A gente vai se acostumando aos poucos. A cada dia você vai enxergar uma realidade a mais.”
“Mas por que não vejo meus pais, Cleusa? Afinal, são os meus pais!”
“É difícil lhe explicar. São ajustes, evoluções.”
Nirlando, bem do jeito dele, parecia decepcionado. Mais uma vez ele não conseguia ver-me feliz.
“Germana, seu Enéas, dona Olair, eles… voltarão aqui, amanhã, outro dia, você vai precisar descansar mais um pouco, sabe?, é normal que não consiga vê-los..”
Eu me lembrei, subitamente, de como Nirlando se tornava prolixo na hora de justificar alguma coisa. Não pude evitar uma certa irritação, mas logo entendi que esse sentimento, assim como as pontadas internas, não passavam de memórias recorrentes. Olhei mais uma vez o grande vazio de afetos à minha frente. Mas, desta vez, apreciei melhor a paisagem magnífica. Um pássaro grande, de papo vermelho e penas como numa aquarela, pousou no galho mais próximo da árvore à minha frente. Ali ficou, como a me observar. Onde eu poderia tê-lo visto, uma vez? Na viagem que fiz à Amazônia? Num filme? Por que tive a impressão de que aquela ave tão exuberante estava sempre do meu lado, a me acompanhar, como um guarda da Natureza? Essa ideia me fez sorrir, e acho que pela primeira vez, desde a minha chegada, mostrei o meu rosto sem dor.
Nirlando tornou-se iluminado com essa minha reação e eu ganhei a perfeita consciência de como precisava corresponder, de alguma forma, ao amor daquele homem tão bondoso, tão especial.
“Perdoe-me, Nirlando”, e, sinceramente, eu falava sentindo um grande carinho por ele, “mas eu ainda estou meio confusa; não é todo dia que se morre.”
Ele ouviu, em primeiro lugar, com um ar preocupado; depois sorriu, com todos os seus dentes. E eu me conscientizei de que não amá-lo por toda uma vida fora uma grande perda; a maior, talvez.

Read Full Post »