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Archive for dezembro \30\UTC 2015

O jardim de Mrs. Marshall

Ela sempre chegava de mansinho, sem fazer qualquer barulho, andando devagar e usando tênis, e Jeremias sabia exatamente o momento em que, olhando para trás, daria com a figura brancosa de Mrs. Marshall, a americana, a olhar bondosamente para ele. Não era exatamente pressentimento, o que ele sentia, mas um perfume intenso, redondo, quase físico, que sempre acompanhava a velha senhora.
“Muito bem, senhor Jeremias”, disse ela, com um sotaque de doer no ouvido. “O senhor conseguiu nos livrar de todas as ervas daninhas… Agora, vamos ver se conseguiremos desenvolver os girassóis…”
Sorria, não mostrava os dentes, e Jeremias lhe retribuía com outro sorriso, sem se preocupar com a ausência dos caninos. Era pobre, mas vaidoso, e com qualquer outra pessoa ele não abriria a boca.
“Senhor Jeremias”, ela continuava, “ainda não sei o que o senhor é…”
“Como assim, dona?”
“As pessoas são como as flores, senhor Jeremias. Eu ainda estou em dúvida se o senhor é um cravo branco ou um crisântemo, também branco.”
O jardineiro começou a rir, mais do que gostaria, na verdade, porque achava que o riso, em especial o seu, poderia ser interpretado como desrespeito. Sobretudo diante de uma dama de posses, que tinha casa com jardim, e era, ainda por cima, estrangeira – e, mais do que isso, americana! Os americanos haviam se transformado na esperança de todos para derrotar a Alemanha nazista, inimiga comum.
“Mas está rindo de que, senhor Jeremias?”, ela perguntou, simpática.
“Não posso ser cravo, dona, porque sou preto.”
“Ora, senhor Jeremias… Eu sou branca, loura, mas me considero uma dália vermelha, que é a flor da paixão humana! Estou falando do seu temperamento, não da sua cor!”
“Desculpe, dona…”
“Nada, ora. Mas essa sua reação me ajudou a decidir quem o senhor é: um crisântemo!”
“Obrigado, dona…”
“Pois sim. Quando quiser almoçar, dê um toque lá atrás, na porta.”
Mrs. Marshall fechava a casa toda. ‘Certamente porque é sozinha e deve ter medo’, pensava o jardineiro, agora mais preocupado em descobrir que flor deveria ser sua mulher, Cleonides. Tão doce, tão pura: um lírio? Uma camélia? Já sua filha mais velha, Nezinha, mais doce ainda do que a mãe, ele não tinha dúvidas: era uma margarida. E o filho, Pepeu, vaidoso como os homens da família, só poderia mesmo ser um narciso. Jeremias já ouvira falar que os narcisos se orgulham de sua própria beleza. Pepeu era, realmente, um belo rapaz, com uma linda voz rouca que exibia nas rodas de samba.
No dia seguinte, no ônibus, indo para o trabalho no jardim, ele ainda tentava descobrir quem era o quê. Entrou na rua de Mrs. Marshall pensando nisso. Mas quase não reconheceu a casa branca, tão branca como as roupas da sua dona. Portas e janelas abertas, a casa expunha sua intimidade. De longe era possível ver retratos na parede, móveis pesados. E jarros com outras plantas, algumas flores. Os homens de terno e chapéu que invadiam a casa e o jardim olhavam com respeito para as flores. Trêmulo, Jeremias chegou até o portão. O engravatado mais velho, que saíra da casa naquele momento, apressou o passo até ele.
“Quem é você?”
“Jeremias. O jardineiro. Aconteceu alguma coisa com a dona?”
“Eu faço as perguntas”, disse o homem, cujo bigodinho havia sido pintado com uma tinta amarronzada. ‘Não sei que flor ele poderia ser’, pensou Jeremias, num reflexo. “Então, jardineiro”, completou o homem, ríspido, “você vai nos acompanhar ao quartel.”
Que dia! Até que os policiais (soube depois quem eram eles) o trataram bem, serviram-lhe um café com leite, e só lamentaram que ele fosse tão distraído.
“Mas, meu nego”, insistiam os dois mais jovens e mais nervosos, “você nunca viu ninguém chegando, ninguém saindo daquela casa?”
“Não, senhor, nunca!”
Mostraram-lhe várias fotos de homens e mulheres. Não, ele não vira – de verdade – nenhum deles. O máximo de que se lembrava era de um barulhinho, parecido com campainha de telefone, que ele e Mrs. Marshall ouviam, às vezes, quando ambos se ocupavam de assuntos do jardim; aí, ela pedia licença e entrava na casa.
“Era o rádio”, disse um dos rapazes.
“Você tem alguma ideia, jardineiro, da profissão da sua patroa?”
“Não, senhor.”
“Espiã nazista.”
“Ela me dizia que era americana. Não é?”
“Passava-se por americana. É alemã.”
Jeremias não acreditou. Uma nazista, capaz de fazer tudo aquilo que o povo dizia, não poderia gostar tanto de flores. Já haviam prendido outras pessoas inocentes, ouvira dizer. Certamente os homens iriam perceber o engano e mais dia, menos dia, mandariam a americana de volta para a casa branca. Jeremias decidiu que cuidaria do jardim, na ausência dela. Dálias vermelhas são flores bastante afirmativas, mas não fazem mal a ninguém.

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