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Archive for the ‘Histórias Inéditas’ Category

A doidinha tinha pouco mais de quarenta anos, era magra de dar pena, cabelo escorrido, muito negro, repartido ao meio no centro exato da cabeça. Era impressionante a precisão daquele repartido, e eu cheguei a usá-lo como argumentação de que sua loucura só poderia ser relativa, já que maluco algum teria o rigor e o capricho para tratar o cabelo daquele jeito. Naturalmente, minha argumentação não resistiria à lógica primária.
A doidinha era a grande atração do bairro, quando nós chegamos. Um lugar de classe média baixa, no entanto pretensioso, com supermercado e um pequeno shopping center que tentava imitar os do centro. No final do ano, o bairro inteiro se esmerava com suas árvores de natal coloridas, e acontecia uma ‘gastança de energia sem sentido’, como meu pai definia a extravagância.
Os moradores eram tão ciosos do seu pedaço que tentaram, certa vez, mudar-lhe o nome de ‘Rio Velho’ para ‘Rio Dourado’. A justificativa para o ‘dourado’ eram os raros ipês–amarelos que enfeitavam as margens do córrego sujo que atravessava o lugar. Mas o presidente da Câmara de Vereadores, um professor culto, acabou dando uma grande lição às comissões de moradores, demonstrando que o conceito de ‘velho’, quando dado a acidente geográfico ou agrupamento humano, possuía, ele sim, um charme aristocrático, ao contrário do plebeu ‘dourado’, que não passava disso mesmo, uma imitação de quinta categoria do bom e ‘velho’ ouro. O nome não foi mudado, mas o professor perdeu boa parte dos votos do bairro na eleição seguinte.
Não se podia negar que a nobreza estava longe de chegar ao comportamento daquela gente metida. Era o caso da doidinha, por exemplo. A diversão preferida dos garotos do lugar era jogar-lhe pedras, nas duas vezes do dia em que ela, com seus vestidos longos, impreterivelmente negros, apesar de puídos e desbotados, ia até a padaria para comprar leite e pão quente.
Eu completara dezessete anos, na época, e meu pai nos avisara, a mim e ao meu irmão, um ano mais novo, que teríamos de exercitar a paciência: em função de perdas nos negócios, ele seria obrigado a baixar o padrão, e por isso viveríamos por algum tempo naquele arraial presunçoso.
“Jamais se envergonhe do que Deus lhe dá, Mauro Sérgio!”, ralhava minha mãe com meu pai, de dedo em riste, imaginando que ele sofria muito com a queda de status. Minha mãe era uma católica progressista, humanista, compassiva, talvez um pouco autoritária. Sempre trabalhara como professora primária do governo, salário miserável, e justificava-se dizendo que o futuro poderia ser tão negro que seus ganhos humílimos nos impediriam de passar fome. Essa ideia nos tornara inseguros com relação aos negócios do pai.
Eu herdara a compassividade da minha mãe, mas Rio Velho (ou Rio D’ouro, como eu e meu pai chamávamos, zombeteiros, depois da campanha ridícula da mudança de nome) não era o meu lugar. Não pelo aspecto econômico, evidentemente, mas moral. Os pequenos burgueses mostravam-se, na verdade, muito mais intolerantes, racistas e preconceituosos do que os liberais do nosso antigo bairro, Boa Vista, este sim, senhorial, como meu pai enchia a boca para dizer, onde moramos durante boa parte da vida.
Ali, em Rio D’ouro, meus eventuais amigos, adolescentes por volta dos dezessete anos, vinham, além de bisbilhotar nossa família, convidar-nos para programas absurdos, como jogar pedras em uma pessoa. Pior: já haviam feito João, meu irmão mais novo, experimentar aquela emoção medieval.
“Mas péra aí”, eu disse a Sizeno, o garoto que parecia o chefe da gangue do bairro, e que me convidou para a lapidação, “esta senhora fez mal a alguém?”.
“Não é uma senhora, é uma doida!”
“Fez mal ou não?”
Aí meu irmão interferiu e fui obrigado a mandar-lhe calar a boca, não só com a minha autoridade de mais velho, mas impondo-lhe meu físico, superior ao dele.
“O Célio é assim mesmo, Sizeno”, havia dito meu irmão ao pequeno marginal. “É cheio de penas das pessoas.”
“Seguinte, Sizeno”, eu continuei, depois de mandar João ficar quieto, “não é uma questão de ter pena de ninguém, é que o apedrejamento está fora de moda há cerca de dois mil anos”.
O rapaz não percebeu a ironia, e passou a acusar a doidinha de querer se aproveitar, sexualmente, de meninos e meninas.
“Quem acusou?”, eu perguntei.
“Ué, a molecada.”
“Você sabe que crianças mentem, não é mesmo, Sizeno? Não quero afirmar que estejam mentindo, mas a tal doidinha precisa do benefício da dúvida, pelo menos.”
“Crianças não mentem, ô seu bonzinho”, disse Sizeno, meio irritado. “Deixa pra lá, eu só quis lhe mostrar o bairro, e lhe chamar para uma coisa que todo mundo por aqui faz.”
Foi aí que tomei uma atitude que poderia ter-me custado até a vida, como meu pai observou, mais tarde. Em compensação, ganhei definitivamente o respeito da minha mãe, que me garantiu: “se precisar de um soldado, conte comigo”.
“É o seguinte, Sizeno: se eu souber que alguém atirou pedras na tal mulher, que eu nem conheço, não vou chamar a polícia, pois não tenho vocação de dedo-duro, mas fique certo de que vou atrás de um advogado para defendê-la. Ela não pode ser julgada e condenada por vocês.”
O chefe da gangue não disse nada. Simplesmente deu as costas. João ia atrás, mas segurei-o pela gola. A partir daquele dia, apenas as crianças menores ameaçaram apedrejar a doidinha. Sizeno havia entendido que sua liderança se dividira. E o povo do bairro acabou ficando do meu lado, pois arruaceiros, como Sizeno, atraem viaturas policiais; ‘coisas de favela’, para eles. Depois, pensaram bem, gente fina não joga pedras. Em nada. Em ninguém.
Mas eu precisava conhecer aquela que seria, na verdade, minha primeira cliente, antecipando todo o meu futuro de advogado de presos políticos e fundador de partido de oposição.
A casinha, simples, ficava no alto de um outeiro. Havia flores na pequena varanda, além de uma cadeira de balanço de palhinha, bonita, antiga, e gatos por todos os lados. Bati palmas. Ninguém atendeu. Mas percebi que havia um furo na porta, logo acima da fechadura. ‘Está me observando’, pensei. Esperei um tempo. Nada. Bati de novo. Só os gatos se mexiam, preguiçosamente, na varanda. O maior deles acomodou-se na cadeira, como quem reafirma prerrogativas. Esperei um tempo e resolvi falar alto.
“Senhora (eu nem sabia o nome dela), eu sou um amigo! Vim conhecê-la porque acabei de chegar ao bairro. Nem todo mundo, a senhora pode acreditar, está a fim de lhe jogar pedras!”
Esperei mais ou menos um minuto e ela abriu a porta. Havia molhado o cabelo (ou tomado banho?) e o vestido negro parecia impecável, passado, apesar da sua desvanecida pobreza. Senti (que ironia, para Rio D’ouro), um jeito aristocrático na sua figura. Ela disse, muito séria, com voz bonita, de atriz:
“Maria Feliciana Abreu de Carvalho, filha de Roque Cintra de Carvalho e Rosângela Flores de Carvalho.”
Estranho, aquilo. Como se fosse entrevistada por autoridade policial. Era, também, uma forma de entregar-se completamente a um intruso.
“Dona Maria Feliciana…”, eu fui dizendo.
“Feliciana. É mais simples. Abra o portão, entre. Quando era pequena, meus pais me chamavam de Feliz”, ela sorriu. Dentes pequenos, escuros.
Serviu-me chá preto com bolachas murchas. Era o que tinha de melhor. Fiquei sabendo, em pouco tempo, que a casa era paga por um irmão, quase seu vizinho, que morava num casarão próximo, um dos maiores do bairro. O irmão tinha vergonha dela: proibia que ela o visitasse e revelasse o parentesco. Ela o fazia comigo, no entanto, porque vira em mim ‘um olho honesto’. Feliz recebia uma mesada semanal (“antes era mensal, mas ele achou que eu jogava fora o dinheiro, por ser louca; não sou, é que o dinheiro era curto, mesmo”); mas a pequena pensão acabava dando, sem folga, para seus míseros gastos, como os dois pães e o litro diário de leite.
A casinha, por dentro, era limpa, apesar de certo odor abafado de velhice. Tinha duas salas, um quarto, um banheiro e uma cozinha. Nem tão pequena assim.
“E o que a senhora faz, dona Feliz?”, eu perguntei, após ter-me apresentado, falado da minha família e dos meus sonhos.
“Estudo os gatos. Só isso. Não posso trabalhar porque sou louca.”
“Mas quem disse que a senhora é louca?”
“Os médicos.”
“E por quê?”
Ela fez um ar de resguardo, olhou de lado e não me encarou.
“Meu comportamento.”
“Não precisa me dizer mais nada, dona Feliz. Só quero ser seu amigo. Seu comportamento não me interessa. Não gosto que joguem pedras na senhora.”
“Acho que me jogam pedras justamente por causa do meu comportamento”, ela sentenciou, para depois ponderar: “mas o que eu faço, de vez em quando, é porque não consigo parar”.
Reparei, naquele momento, que rugas simétricas enchiam sua testa, como se ela vivesse em estresse permanente. Aparentava a idade que me disse ter, quarenta anos, mas ostentava um ar envelhecido, que nada tinha a ver com o físico.
O que ela fazia? Atacava, sexualmente? Escandalizava os meninos? Ou as meninas? As acusações de Sizeno eram vagas e genéricas, não mereciam crédito. Depois dessa primeira visita à doidinha, perguntei a outras pessoas, que já tinham ouvido falar das suas intromissões sexuais, mas ninguém conhecia qualquer ‘vítima’.
Agora ela estava ali, frágil, entregue, à minha disposição. Sorriu algumas vezes, com timidez. Resolvi, naquele dia mesmo, aprofundar-me na história dos gatos. Que fazia mesmo? Observava-os? Ela me trouxe um monte de cadernos escolares em que, numa letrinha miúda, descrevia o comportamento de cada um deles. Li aquela coletânea, fascinado: ela atribuía a cada bicho sentimentos humanos, como ciúme, inveja, generosidade. Eram peças de ficção. Cometia alguns erros, escrevendo, mas havia até certa elegância no seu texto.
A partir daquele dia, nunca mais jogaram pedras na doidinha. Mesmo os moleques menores. Eu a visitava pelo menos duas vezes por semana, mas não a levei a minha casa, com medo de que ela se apegasse à minha mãe como se havia afeiçoado a mim, e passasse a nos visitar com insistência. A mãe já me havia pedido: “querido, eu quero ajudar a tal doidinha, mas você sabe que, além de trabalhar, tenho de tomar conta da casa; não tenho tempo, por enquanto, pra nada. Quando tivermos dinheiro para contratar alguém que me ajude, eu serei a primeira a visitá-la, também”.
Meu irmão João se afastara de mim, depois do incidente com Sizeno, mas recebera alguns conselhos para que não se ligasse à turma do bairro. Ele seguiu, obediente.
Enquanto isso, Feliz continuava sua vida, de ir até a padaria, duas vezes ao dia, e de observar os gatos, que já eram quinze. Houve uma época em que ela passou a comprar apenas um pão por dia, porque o dinheiro do irmão encurtara um pouco, e ela, além das refeições, precisava se vestir e comprar ração, a mais barata, para seus bichanos. Nesse tempo, emagreceu ainda mais. Eu já trabalhava no comércio e resolvi presenteá-la com boa parte da ração que os gatos consumiam. No começo não aceitou, chegou a ficar agressiva, insistindo que não precisava de esmolas. “Por que eu não posso colaborar um pouco, Feliz? Eu também os amo, e somos amigos.”
Aceitou, ‘por eles’. E voltou a comprar os dois pães diários. Houve um sábado em que ela parecia mais agitada, elétrica. Perguntei o que se passava, ela não respondeu. Sumiu no seu pequeno banheiro. Minutos depois saiu de lá com um roupão surrado, que já havia sido negro um dia, olhou para mim e o abriu, revelando sua esquálida nudez. O cabelo, ainda molhado, repartido no centro exato da cabeça. Tive de fazer um grande esforço para parecer natural.
“Acho você linda e muito atraente, mas não sou o homem da sua vida, Feliz. Um dia, seu homem chegará.”
Ela fez um gesto de impaciência, fechou o roupão, trancou-se no banheiro novamente e não mais retornou. Deixei passar uns três dias e voltei. Ela me recebeu, melindrosa, mas me convidou a sentar e respondeu com monossílabos a tudo o que lhe perguntei. Depois pediu desculpas pelo episódio.
“Você viu, Célio, era por causa desse comportamento que me jogavam pedras.”
E foi aí que percebi, definitivamente, que a loucura de Feliz era a de se mostrar nua, certamente para os meninos, nos dias ‘em que não consigo parar’. Mas, em três anos de amizade, aquela foi a única vez.
Meu pai não permaneceria por muito tempo sob humilhação financeira, e acabamos voltando para o bairro da Boa Vista. Na despedida, vi Feliz chorar pela primeira vez. Um choro muito contido, sutil. Só os doidos são capazes de chorar assim.
“Vão me voltar a jogar pedras”, ela disse, “quando você for embora”.
Eu a convenci que não. Há três anos não acontecia. As pessoas se haviam esquecido daquela infâmia. O chefe da gangue, Sizeno, sumira do bairro com sua família problemática.
Senti que não fora convincente. Voltava a Rio D’ouro, de vez em quando, para vê-la. Mas fiquei longe seis meses, fazendo um curso na França. Da última vez em que estivemos juntos, parecia sombria, falou muito pouco, achei que estava deprimida por causa de Haron, seu mestiço siamês de olhos verdes que morrera de velhice, uma semana antes. Haron, segundo os cadernos de observações, era um bipolar perigoso, capaz de alternar carinho com sadismo.
Passou-se mais um tempo, uns dois meses, e fiquei sabendo por alguém do bairro que ela morrera. Mas o crime acontecera há quinze dias. Feliz estava deitada na cama, onde provavelmente dormia, quando sua cabeça foi esmagada por um tijolo. Assim, a sangue-frio.
Estudante de Direito, pedi socorro a um dos meus professores. Queria que resolvessem o problema, e sabia que um pedido à polícia, vindo de alguém importante, um catedrático, por exemplo, apressaria a solução do caso.
Um mês depois, recebi a informação de que o assassino estava preso e já confessara. Era um garoto de dezesseis anos, Túlio Guedes, que eu até conhecera, bem menor e muito tímido, com o rosto coberto de espinhas. Túlio contara à polícia que a doidinha tentara violentá-lo.
Aí eu a vi, mais uma vez, dentro da minha mente, abrindo o roupão surrado, com sua nudez de campo de concentração. Lembrava-me da cena como se não fosse eu, mas o moleque Túlio. Posso imaginar o susto do garoto que, provavelmente, fugiu apavorado. Não consegui entender porque voltou, depois, e jogou-lhe um tijolo na cabeça. Aquilo o teria perturbado tanto assim?
Não cheguei a sentir raiva do rapaz. Preferi considerar que o mundo está sempre pronto a jogar pedras, todos contra todos, sob qualquer pretexto.

Do livro “Memórias Embriagadas” – Editora Noovha América, São Paulo, 2008.

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O robe

Dorothea, a mãe, não bebia; qualquer um poderia apostar o contrário. Usava um robe puído, manchado (café? manteiga?) e costumava interpelar o filho antes de ele seguir para a escola, onde frequentava o último ano do curso médio. A voz de Dorothea: arrastada, mole, guardando, no entanto, um charme distante.
“Estou feia, Bezinho?”
“Não, mãe. Linda.”
“Não me goze. Já me olhei no espelho. Um trapo.
“A senhora é cruel consigo mesma.”
“Tá vendo? Me chamou de senhora. Só uma mulher feia pode ser chamada de senhora. Sou jovem, ainda. Quer dizer, vivida, sim, mas cheia de recursos…”
“Recursos?”
“Técnicas. Sou capaz de enlouquecer qualquer homem. Até um da sua idade.”
“Na minha idade é fácil, mãe. Os caras não se aguentam com os hormônios.”
“E você, se aguenta?”
“Isso não se comenta com mãe.”
“Tem razão, Bezinho. Eu me esqueço de que você é a pessoa mais séria da família, e a mais equilibrada.”
“A senhora também é, mãe. Só tem umas recaídas.”
“Sempre irônico, também. Mas ironia classuda… Não sou equilibrada coisa nenhuma, meu filho! Esse amor que perdi ontem… hoje pensei em todos os outros e sabe do que descobri? Perdi a conta. Só sei que neste ano foi o quinto.”
“Normal.”
“Como, normal? Se seu avô estivesse vivo me chamaria de spudorata… Uma vez me chamou de puttana. Mas se arrependeu.”
“Assim mesmo, em italiano?”
“Ele era italiano. Nunca disse um palavrão em português. Muito respeitoso, meu pai.”
“Incrível sua ideia de respeito, mãe. Mas eu acho normal a senhora ter tantos namorados. O pai morreu cedo. Claro, seus romances não ajudaram muito a minha formação psicológica, mas ninguém tem culpa disso.”
“Você também tem muitos namorados, bobinho. Não contei, mas acho que, pelo menos este ano, você teve mais do que eu.”
“Uns são só amigos.”
“Que nada, Bezinho. Homossexuais são vorazes. Como eu sou, também. Será que se eu virasse a mão, seria mais gulosa ainda?” – A voz dela, agora, parecia apenas charmosa.
“Mais ainda? A senhora? Acho difícil.” O rapaz sorriu.
“Sabe, Bezinho? Nas minhas orações, só peço que nós dois sejamos felizes. Você talvez já seja. Mas eu estou longe.”
“Ah, não se preocupe comigo. Tenho tempo. Você também: sua vida tem tudo para dar certo. Um príncipe vai surgir, o melhor de todos.”
“Você é um filho maravilhoso. Sempre pra cima.”
“Mãe, só vou lhe pedir uma coisa: lave esse robe; se você aparecer assim, talvez o escolhido não goste…”
“Ah, foi uma mancha de café, hoje de manhã. Vou passar um pano com sabão.”
“Agora, posso ir ao colégio?”
“Vá, vá. Eu fico aqui lhe esperando. Sou muito agradecida a Deus por ter um filho responsável.”
Ela escondia um espelhinho dentro do bolso do robe. Tirou, olhou o rosto. Os olhos ainda estavam manchados: rímel com lágrima.

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Perplexos diante de tão nefasta campanha encetada contra nossa instituição, nosso querido Esquadrão Justiceiro S.A., valemo-nos desta para informar-lhe que é tudo mentira, calúnia, injúria dos nossos inimigos gratuitos.

Quando da entrada de V. S. no quadro de sócios do querido Esquadrão Justiceiro, soube o Senhor Acionista de todos os nomes – destemidos, implacáveis! – que compõem nossa equipe profissional, a mais gabaritada do País, quiçá do mundo.

Lembra-se V. S., certamente, do começo de nossas atividades, tão alardeadas pela imprensa, de pronto combatidas pelos histéricos e histriônicos partidários do Comunismo Internacional, travestidos de liberal-democratas ou humanistas; atividades que, por outro lado, foram e são incentivadas pelo povo trabalhador desta querida terra, povo que já não suportava mais os revoltantes assassínios, rapinagens e toda espécie de barbárie cometida por tresloucados bandos de marginais.

O povo nos deu ânimo para prosseguir em nossa luta contra uma situação quase insustentável. Outrossim, também deve lembrar-se V. S. do grande debate promovido pelas forças vivas do País quando do féretro do terrível marginal alcunhado “Boca de Mochila”, eliminado por nossos quadros profissionais em um dos mais sangrentos tiroteios já travados em nossa cidade, saindo feridos os companheiros de códigos SO-19, MT-15 e FR-08, este último pai de cinco filhos legítimos.

No evento, quando a maioria absoluta do povo nos aplaudia de pé em frente aos seus televisores, ou mesmo nas ocasiões públicas e privadas em que todo tipo de homenagem nos foi prestado, resolvemos transformar nossa razão social de Ltda. para S. A., tal era o número de brasileiros que nos procuravam e pediam o nosso auxílio contra os mais variegados tipos de delinquentes.

Desde então, nossa cotação no Índice Bovespa subiu a extraordinários indicadores, até mesmo para nós, que, em dois meses, chegamos a construir prédios próprios, blindados e luxuosos, em todas as capitais do País e em algumas cidades importantes do interior.

Nossa atuação conseguiu erradicar, por bom tempo, o que os cientistas sociais, esquerdizantes e negativistas, chamavam de “propensão criminal, em face do desamparo social” do nosso povo.

Aleivosia!

Chegamos a erguer – nós sim, humanistas! – a Casa da Viúva Marginal para amparar mulheres inocentes, lamentavelmente envolvidas com as pústulas que eliminávamos. Agora, somos obrigados a admitir, nossa situação é delicada. Reconhecemos, sim, que o bandido cognominado “Ferreiro” possuía, pelas graças de Mefistófeles, uma extraordinária vocação para o “Football Association”. Reconhecemos que a sua atuação na Seleção Nacional, nos últimos dois anos, o levaria fatalmente aos campos da Europa e, possivelmente, ao galardão de Melhor do Mundo.

Ainda aceitamos a ideia de que ele seria considerado, quem sabe, o mais completo meia-armador de todos os tempos.

No entanto, Senhor Acionista, a absoluta seriedade de que se reveste nossa querida instituição, nos obriga a fechar os olhos diante de brilhos passageiros ou de disfarces – mesmo que excitem a ingenuidade popular – daqueles que, desviados de sua condição natural de “homo sapiens”, transformam-se em “bestas-feras”.

A eliminação do dito “Ferreiro” foi justa e necessária. Não havia sentido em preservá-lo. Sabe o Senhor Acionista – ou convém lembrar-lhe – que esse pústula foi responsável pelo desvirginamento criminoso, e ulterior exclusão social, de quatro de nossas filhas adolescentes, quase impúberes, nossas – filhas do povo! Já isso bastaria para justificar a supressão do delinquente.

É-nos absolutamente constrangedora a circunstância de que, neste exato momento, ouvimos, cada vez mais próximo, o alarido de uma multidão a exigir nosso abolimento do palco da vida. Percebemos, agora, que a súcia desarvorada invadiu o prédio e o empastela, sendo que as primeiras pancadas já se fazem ouvir à nossa porta, tornando iminente a ocupação deste escritório e a nossa consequente ocisão. Ainda assim, é nosso dever advertir a V.S., seja qual for o desfecho da pérfida campanha encetada contra nós, e do nosso propínquo sacrifício, que a justa eliminação de “Ferreir

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Quando voltei ao Brasil, a juventude sumida, o físico bombardeado, muito deprimido com o fim de um casamento sem filhos, encontrei-o quase que exatamente do jeito que o deixei, quando completei vinte e um anos e, radiante, peguei um avião para Nova York.

Lembro-me bem dele naquele dia distante, no aeroporto. Ali estava o folclórico Genival, a figura da família, o mais velho dos oito irmãos do meu pai. Comportava-se com aparente discrição, sempre, mas costumava se vestir com algo que chamava – e muito, às vezes – a atenção do público. Naquele dia da minha despedida gloriosa, a estrela da despedida foi um chapéu dos anos trinta, marrom, de abas, que imediatamente associei aos filmes de gângster. O tio ficou igual a um guarda-costas de Al Capone. Era viúvo e tinha quatro filhos adultos que fugiam dele socialmente; não o entendiam e sentiam-se envergonhados, apesar de ele ter sido, sempre, um ótimo pai. Anos depois, eu entenderia que o tio quis marcar minha memória, no dia mais importante da minha vida. Que chapéu, aquele!

“Marcelo”, disse-me, no aeroporto, nos intervalos dos soluços da minha mãe, “eu acho que você não voltará tão cedo. Gosto muito de você, que é o único sobrinho inteligente que tenho, mas você, infelizmente, é americanófilo. Você se deixou corromper pelos musicais coloridos e acredita na porra do capitalismo. Se existem demônios no mundo, para dar sentido a Deus, são eles, os Estados Unidos”.

Tio Genival sempre aprontava alguma em todas as suas aparições, e naquele dia perdeu mais uma amizade: foi a do meu irmão mais novo, Oscar, por causa da frase sobre ‘o único sobrinho inteligente’. Oscar, arrogante e desagradável desde muito pequeno, cortou-o de sua vida para sempre.

O tio sentia, realmente, certa predileção por mim. Segundo ele, astrológica. “Aquarianos e geminianos se dão bem, é histórico”, afirmava. Para ele, a Astrologia era a única ciência que se devia levar a sério, a mãe de todas as outras. Costumava discorrer, durante horas, sobre a lógica das estrelas; costumes de sociedades antigas; e líderes contemporâneos que se guiavam pelos mistérios do Zodíaco. “Até os filhos de Lúcifer, como Hitler.” Eu ria, com generosidade quase piedosa.

Agora, lá estava eu, quinze anos depois da minha partida, voltando ao mesmo aeroporto, ampliado e modernizado, com ar-condicionado até nos salões de recolhimento de malas. Eu peguei meu saco de viagem, muito usado, que havia comprado numa casa de produtos de caça, e que disfarçava sua indigência com o charme militar dos mil bolsos com zíper, e fui saindo de fininho, com medo de ser reconhecido por alguém do meu tempo. Não havia avisado a nenhum dos meus irmãos da minha volta. Nossos pais haviam morrido há anos e eles jamais perdoaram a minha ausência nos enterros. Oscar, o ‘não-inteligente’, parecia o mais revoltado. Eu ainda tinha alguns amigos, sim, como o João Sinfrônio, com quem jamais deixei de me corresponder. João se transformara em um empresário de muito sucesso e vivia me chamando para ajudá-lo na ‘divisão internacional’ da sua empresa, produtora de sucos de frutas tropicais. Havia outros, um ou dois, mas João era o mais próximo da minha necessidade de sobrevivência. Ele foi um dos poucos a me visitar nos Estados Unidos.

Tudo o que acontecia com as pessoas queridas vinha em forma de pequenas notícias que minha mãe escrevia. Ela não gostava de falar comigo ao telefone porque isso lhe dava a estranha ilusão de que eu jamais saíra da cidade. Meu tio figura jamais me escreveu ou telefonou, mas eu sempre recebia os recados dele, nas cartas da minha mãe: “diga ao Marcelo que não nos comunicamos fisicamente, através de papéis, mas que eu tenho certeza de habitar seu pensamento, assim como ele passeia pela minha mente”.

Era verdade. Eu o sentia sempre ao meu lado e, o que é mais incrível, dando-me conselhos. Ele insistia, surgindo como um guia virtual, que se intrometia nos meus mecanismos mentais. Chegava a ser invasivo, às vezes, repetindo que eu não deveria me casar com Joyce Lee, por exemplo. “Vai lhe cornear de todas as formas, com todos os seus amigos ou conhecidos”, era a voz do tio imiscuindo-se entre meus pensamentos, sempre irônico, o chapéu de Al Capone meio penso para um lado.

Quando surpreendi Joyce Lee transando na nossa cama com o vizinho, um policial aposentado do andar de cima, meu primeiro e surpreendente pensamento foi de preocupação com a mulher do sujeito, Catherine, uma irlandesa de sorriso bondoso, que carregava o marido para cima e para baixo, numa cadeira de rodas; dava-lhe banho, trocava as fraldas e limpava a bunda.

Oficialmente, o tenente Grover havia sido atingido a bala, na coluna, por um adolescente flagrado por ele, numa rua escura ali perto, com uns papelotes de cocaína.

‘Esse puto enganou todo mundo, fingindo-se de paraplégico, inclusive os médicos da polícia e até a pobre da dona Catherine, e ainda vem aqui comer minha mulher… ’ , foi o que me passou pela cabeça.

Joyce Lee pulou da cama, pelada, vestiu-se com uma camisa minha, que era o pano mais próximo, e disse-me com sua voz invariavelmente doce:

“Não nos faça mal, my darling, eu estou dando a Grover apenas a ilusão de que ele consegue trepar.”

O tenente não se mexia, a cabeça enfiada no travesseiro, e não pude deixar de me espantar com a brancura quase celestial das suas nádegas. Como se sangue algum corresse por elas.

“Oh, Jesus, oh, Jesus!”, soluçava ele num inglês texano. “Eu estou morto, mister Marcelo, sua esposa está sendo caridosa comigo…”

“É verdade, my darling, vamos ter de ajudá-lo para sair da cama. Ele é paraplégico. Ele imagina que seu tesão pode voltar… com alguém…”

“Logo com você.”

“Comigo, my darling. Eu sei que estou errada. Mas achava que fazia uma boa ação.”

Tive ganas de correr até o apartamento do filho da puta e trazer a pobre Catherine para ajudar-nos na remoção do corpo inerte que, afinal, poderia estar fingindo ou não sua imobilidade. Eu acreditava até que não, em função da minha confiança na polícia de Nova York. Como um idiota como Grover enganaria uma das melhores corporações policiais do mundo?

Assim, Joyce Lee e eu vestimos o pobre canalha e o ajeitamos na sua cadeira de rodas, deixando-o no elevador. Percebi, apesar da minha completa confusão mental, ódio misturado com ressentimento, raiva com piedade, que não houve sequer uma troca de olhares cúmplices entre o traste e Joyce Lee. Será que ela falava a verdade? Que estava tentando ser piedosa? A mente da minha mulher era bastante complexa. Bem que tio Genival, nas suas invasões da minha mente, aconselhara: ‘caia fora dessa vagabunda!’.

Nosso casamento, é claro, não sobreviveria à tragicomédia. E foi com esse estado de espírito que desembarquei no aeroporto, com vergonha de ser reconhecido. No entanto, lá estava ele, meu querido tio. Fiquei muito assustado: como descobrira que eu desembarcaria na cidade, naquele voo, naquela hora? Incrível como ele conservara o mesmo rosto que tinha há quinze anos, no dia da minha despedida gloriosa.

“O.k., você deve estar se perguntando como adivinhei sua volta, o que não tenho como explicar. Deu-me vontade de vir até o aeroporto. Pensava em você, sim, mas penso em você sempre. Só posso lhe dizer, mas já lhe disse mil vezes, que a vida é um mistério. Mas, esqueça! Não deveria lhe dar qualquer atenção, você não seguiu nenhum dos meus conselhos. No entanto, como sou idiota, vou preparar seu retorno à normalidade…”

Disse isso e me abraçou. E somente aí pude reparar o detalhe que vestiu para chamar a atenção de todo mundo. Um brinco discreto, de ouro, com um ponto azul, mínimo, ao centro. E ele já completara oitenta e seis anos.

Do livro “Memórias Embriagadas” – Editora Noovha América, São Paulo, 2008.

 

 

 

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