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De um tempo para cá, Zeca Mindingo começou a sentir pânico só de pensar no pessoal da tevê chegando e provocando a maior confusão; a equipe com câmera, iluminador, repórter, invadiria a praça e o obrigaria a dizer qualquer coisa.
Aquela fora a melhor praça dos últimos anos: quieta, afável. Levantara sua tenda havia uns três meses e os vizinhos dos dois lados da rua (que casas lindas!) não reclamaram. Confirmando, aliás, sua teoria de que rico não enxerga o mundo, a não ser pela televisão. Só vê o que está muito perto, o que está dentro de casa, ou no escritório, ou no clube.
Não perceberam, os ricos, que um invasor refestelara-se nos seus jardins além-muro. Zeca Mindingo era um homem escuro, de barbas compridas, e há mais de dez anos vivia debaixo de uma tenda negra. Gostava de invadir as praças mais floridas, mais charmosas. Ninguém jamais o incomodou.
Mas, se os ricos adultos não o viam, seus filhos, aquelas crianças iluminadas (os filhos dos ricos são as criaturas mais bonitas do mundo!) que saíam para tomar sol na rua, além das babás, cozinheiras e arrumadeiras, não só o percebiam como se tornaram íntimos.
“Aí, tio, vai uma torta de limão?”
Que maravilha, torta de limão! Os ricos possuíam as melhores receitas. E, assim, dos empregados ele ia aceitando tudo: comida, roupa, santinhos com orações. Menos sopa. Esse é um problema que as pessoas têm, ricas ou pobres: imaginam que todos os mendigos devam tomar sopa. Sopa não é refeição de gente.
Mas a paz estava perfeita por ali. E ele, paranóico, inventando situações hipotéticas como esse pânico de televisão. “Será que é este o meu problema?”, perguntava-se. “Não consigo viver como um cristão normal?”
Parecia que estava vendo a repórter, toda produzida, mas suada, metendo-lhe o microfone na cara:
“O que o senhor acha de viver na rua, no meio de uma praça pública, comendo, dormindo, fazendo necessidades?”
“Não acho nada.”
“O senhor não quer me dar sua opinião? O senhor foi expulso de casa? Veio do interior? O senhor…”
Sentia-se muito mal só de pensar. Porque já acontecera uma vez. Dez anos atrás. E ele vivia tendo pesadelos com aquela tragédia. Não era um repórter de tevê, mas de jornal. Muito simpático, maneiroso. E inteligente. Olhou para ele e saiu-se com esta:
“O senhor está aqui, nesta situação, somente porque quer, não é mesmo?”
Bem, era uma pergunta óbvia. Todos os mendigos, especialmente os que moram nas ruas, estão ali somente porque querem. Opções, eles sempre teriam. Mas o repórter achara um jeito diferente de amarrar uma conversa.
Foi aí, na confiança, que Zeca Mindingo se perdeu. Contou tudo ao repórter. Infância no casarão, o pai querido, a mãe doente, os amigos estranhos, a impossibilidade de se fixar em qualquer estudo, ou em qualquer trabalho, quando virou rapazinho, as moças apaixonadas; mas prevalecia aquela vontade irresistível de tomar mundo, sair caminhando, vento no rosto, ensopado de chuva. Pedir e receber. E apenas olhar o mundo do lado de fora – o mundo que os ricos não viam –, degustando tudo o que ocorria à sua volta.
O repórter escreveu uma história linda e, logo depois, a tevê apareceu. Quase o obrigaram a entrar na perua, ele não conseguiu resistir; depois o violentaram com banho, barbeiro, spray contra piolho. Depois, no estúdio, um sujeito bichoso perguntou as mesmas coisas que ele já havia dito ao repórter do jornal.
Começou a chorar.
O viadinho: “Que é que você está sentindo?”
“Estou com muita pena de mim”, ele disse. “Muita, muita pena. Estou quase chorando de pena de mim. Mas sinto pena do senhor também…”
Zeca não admitia que isso se repetisse. Foi a pior sensação da sua vida: sentir pena de si mesmo. Foi acordado do delírio por uma voz dulcíssima, sua conhecida.
“Zequinha, vai dormir mais um pouquinho hoje?”
Era Fernanda, a adorável babá da mansão azul em frente, protegida por guardas de metralhadora – e de piscina térmica no subsolo, segundo comentavam. Fernanda mais parecia a própria felicidade, na sua roupa branca, engomadíssima, uma exigência dos patrões. “Daqui a pouco lhe trago umas paçoquinhas de Minas”, disse ela, com o sorriso também branco.
“Nanda”, disse Zeca Mindingo, subitamente mais jovem, “meu dia estava mais ou menos; agora ficou perfeito…”
“Você não existe, Zeca…” A blusa do seu uniforme ostentava um decote em V quase generoso.
“Eu sei disso, Nanda. Eu sei que eu não existo.”

Do livro “Allegro” – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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“Geralda, sabe, não quero que você me leve a mal, mas acho que deveríamos sair desta recepção. O que nós estamos conversando não bate com os assuntos grupais daqui. Nosso assunto é sério. Mas não vamos sair assim, dois gerentes juntos, vai dar na vista; amanhã já viu, né, a fofocalhada. Vamos fazer assim: você sai antes, depois eu dou um jeito, e a gente se encontra no Bar do Ruço. Tá aqui um cartão dele. Tem estacionamento com manobrista.”
Técnica simples de afastamento de grupo. Umas doses no Bar do Ruço e, depois, cama. Ela tem jeito de quem sobe pelas paredes.
“Tá bom, Nércio, vou com você, o papo está legal, e eu queria saber um pouco mais desse livro do Milan Kundera que você leu. Como é mesmo o título?”
Finjo que não entendo a jogada. Esse Nércio deverá substituir o gerente-geral Arthur, que vai se aposentar. Deve estar confiante, o ego inflado. Mas estou interessada, mesmo, no tal do Milan Kundera.
“Gostou do Bar do Ruço, querida? O Ruço é ruço mesmo, meio sarará. Você achava que era russo com dois esses, não? Todo mundo pensa que ele é lá da antiga União Soviética. Mas é cearense. Olha, se você sentir muito frio, eu peço a ele pra diminuir o ar. O Ruço é supimpa. Vamos beber umas doses. A minha garrafa está aqui, guardadinha. Com meu nome. E o lacre, que eu mesmo pus, ah.”
Estou lhe tocando o braço (tive a impressão de que ela se arrepiou), quase que todo o tempo, e ela não retirou a minha mão, não reclamou.
“Ô Nércio, você manda aqui neste terreiro, né mesmo? Regula o ar-condicionado, guarda a garrafa de uísque. Veja só: bem escurinho, friozinho, para que um agasalhe o outro, e bebam mais um pouco para esquentar… E você já está me tocando, tudo bem, é um toque leve e respeitoso, mas é toque.”
Homem não inova mesmo. É sempre a mesma cantada. Ou piso no freio agora ou em meia hora este cara estará me metendo a mão pela blusa, amassando meus peitos.
“Geralda: tenho duas coisas para lhe contar, uma boa e outra ruim. Eu sabia que você ia querer a ruim primeiro. Ah, antes de falar essas coisas… você quer provolone à milanesa ou iscas de filé? O filé é legal, vem sem cebola, fique tranqüila. Aqueles salgadinhos lá da empresa são um horror, sempre. Acho que o cara lá do Pessoal, o Joca, ganha uma comissão da doceria… Bem, a coisa ruim, então, é a seguinte: eu não li o tal do Milan Kundera. Queria impressionar você. Sabe, venho observando você há muito tempo. Seu jeito de resolver os problemas, suas preocupações sociais. Observação humana, essencialmente humana. Todo mundo diz que mulher gosta desse cara, Milan Kundera. De onde ele é mesmo? Cubano? Ah, a boa, agora: eu não vim aqui com você pra lhe tocar, mesmo que seja com respeito; estou cansado de mulheres fáceis, você é diferente, é a sua alma que me chama a atenção, não repare o que eu digo, sei que é careta, talvez porque eu seja mesmo careta, mas a sua alma é linda.”
Recuo estratégico. Se ela continuasse com aquele papo de “já está me tocando”, esta merda iria acabar com um discurso feminista. As mulheres enlouqueceram mesmo. Antes gostavam de ser levadas no bico. Se excitavam com isso. “Me engana que eu gosto.”
“Pensando bem, Nércio, eu não sei o que a gente veio fazer aqui. Sinceramente. Eu estava interessada no Milan Kundera. E você, queria o quê?”
Corte brusco na enrolação. Cara-de-pau. E apelativo. Daqui a pouco vai dizer de cara lavada que a bunda da minha alma é o maior tesão.
“Geralda: você fez o curso de ‘Gerência Participativa’? Viu o que o conferencista carioca, o cara que fez ginástica no palco, falou sobre o ‘vício da descomunicação’? Lembra, ele explicou, ‘vou usar uma palavra que não existe, descomunicação – é que nós estamos viciados em dizer as coisas de uma maneira enviesada, evasiva, às vezes negando o que gostaríamos realmente de dizer; isto é descomunicação.’ Pois bem, Geralda: não vamos deixar que aconteça conosco – minha querida! Se estamos aqui é porque gostamos um do outro. Com limites, é claro. A nossa amizade está além do puro coleguismo, e aquém de uma situação, digamos, de alcova.”
É preciso, a todo custo, trazer a conversa para um patamar seguro. Ela poderia abrir um pouco a guarda, o uísque fazer efeito, pô.
“Olha, em matéria de descomunicação, o mestre é você, Nércio, e não aquele carioca de peruca. Desde que chegamos aqui, você só descomunicou.”
Encurralar o puto. Vai ter de dizer que só quer me comer. Me enganou, pensei mesmo que tinha lido o Milan Kundera. Gervásia chorou demais quando leu um romance do cara. Se encontrou numa personagem.
“Não sei mais o que dizer… Sabe, Geralda, na hora em que chamei você para cá, uma luz se abriu na minha mente. ‘Enfim, meu Deus, uma conversa inteligente nesta empresa’, eu pensei…”
“Olha, Nércio, chega! Você não está aqui a fim da minha inteligência. E muito menos da minha alma. Você quer é me comer. E eu não estou a fim de dar. Então, vamos parar de descomunicar, tá entendendo? Eu vim porque senti a possibilidade (veja bem: possibilidade) de você ser um papo legal, literário, de a gente trocar realmente umas idéias; idéias de fato, sabe, do mundo virtual, e não se enfiar um no outro como todo mundo faz por aí o tempo todo…”
“Você queria que eu lhe pedisse em casamento, princesa?”
“Princesa o caralho. Com a merda que você ganha, iria casar como? Com quem? E quer saber? Duvido que você vá substituir o gerente-geral Arthur. O Fernandão está muito mais preparado do que você. Emocionalmente, você é uma criança, ou melhor, um deficiente. Me arrastar até aqui pra me falar um monte de merda… Também a culpa é minha, eu vim…”
“Está falando alto demais, Geralda. Estão olhando. Vamos embora, vou pagar a conta.”
“Não vai pagar nada. Vamos dividir.”

Do livro “O Homem dentro de um Cão”, Editora Terceiro Nome, 2007

Uma figura: pequenina, enrugada, elétrica, a voz estridente, dizia pra todo mundo, com orgulho injustificável, que possuía uma altura rara: um metro e cinqüenta e cinco. Gostava de vestidos alegres, de cores fortes, ostentando flores em geral miúdas. Era um “anexo” da nossa família, como João Paulo, nosso irmão mais velho, a definia. Porque não era parente dos nossos velhos pais. Fora herdada junto com o espólio da avó Nicéia, mãe da minha mãe, que morava longe e proibia que a visitassem. Teria sido uma espécie de dama de companhia da vovó maluquinha, mas nem disso tínhamos certeza. Nosso pai conta que, quando foram pegar os móveis na casa da avó Nicéia, a figura, que atendia pelo nome de Zefinha, estava sentada na cadeira de balanço centenária, toda ansiosa, os olhos muito vivos, querendo saber para onde iria e que espaço ocuparia.
“Cuidei de Nicéia durante trinta anos”, ela disse, naquela ocasião. “Perdi a minha mocidade, deixei de casar, mas cumpri a minha missão. Ela morreu toda linda, bonitinha, asseada, somente porque parou de respirar. Milagre, também, não faço.”
Perplexos, nem o pai nem a mãe disseram nada. Mas a figura insistiu:
“E agora, onde vão me enfiar? Num quarto? Numa cama ao lado de algum menino? Vão fazer um puxado no quarto da empregada? Ou aumentar a casa do cachorro?”
O pai, sempre muito calmo, respondia que esperasse um pouco, só um pouco, que a resposta lhe seria dada.
Assim, Zefinha entrou lá em casa, pela primeira vez, cheia de razão. Contrariada. Eu era criança de uns seis, sete anos, e me lembro dela andando de um canto para outro, a perguntar “e eu, onde fico?” Também jamais esqueci de como eram viçosas, quase reais, as margaridas do seu vestido. Imagino, hoje, que aquela seria sua melhor roupa.
A casa era grande, mesmo, tinha oito quartos. E um deles, próximo da cozinha, o nosso preferido, pois era ali que se guardavam as bolas de futebol, os tênis velhos, os brinquedos antigos que sempre nos traziam as melhores recordações. Éramos seis irmãos, todos homens, com a diferença de dez anos do mais velho para o mais novo. E ficamos desarvorados quando soubemos que nosso espaço extra iria desaparecer para virar um quarto de hóspede. Meu irmão Daniel, mais velho do que eu, resolveu protestar publicamente e, além de levar um safanão da mãe, ganhou uma inimiga pelo resto da vida. Zefinha jamais o perdoou.
Na verdade, o mistério não era apenas Zefinha, quem era e de onde surgira, mas a própria avó Nicéia, sempre isolada, reservada, quieta. Ela apenas nos suportava, seus únicos netos, quando a visitávamos, juntos, para levar-lhe o presente de cada Natal. Somente minha mãe a via, durante o ano, mais ou menos a cada dois meses. Aliás, a família materna era muito diferente da família do pai, italiana, festiva, emotiva, alegremente confusa.
Por isso não sabíamos direito das origens de Zefinha. Segundo a mãe dizia, ela sempre estivera lá, na casa da avó Nicéia, pajeando-a com devoção, apesar de não parecer tão mais nova assim, e, quem sabe, não seria uma meio-irmã, filha bastarda do nosso bisavô materno que, segundo consta, era o maior galinha que a cidade já vira?
Mas Zefinha viera para ficar e, apesar de reivindicar, todos os dias, sua condição de aposentada, após “trinta anos, dia e noite cuidando de Nicéia”, fora a melhor coisa que acontecera na vida da minha mãe. A casa, desestruturada pela agitação dos seis rapazes (às vezes, jogávamos futebol até na sala de visitas), transformara-se, em pouco tempo, num reduto alemão. Zefinha pusera ordem marcial na bagunça, demitira empregadas, lavadeiras e passadeiras, chamara a atenção de todos nós, meu pai inclusive, para erros primários que cometíamos nas nobres artes da organização e da convivência. Melhor: ela conseguira pôr um fim ao desperdício geral, obrigando a cozinheira a fazer apenas a comida que seria consumida, cortando o excesso de refrigerantes e de gorduras. Sua vocação de administradora era simplesmente inacreditável.
No começo foi duro para todos nós, mesmo porque a figura ganhou as graças dos nossos pais, eles próprios incapazes de conviver com limites. Lembro-me bem que meu pai só reagiu na hora em que Zefinha tentou se meter no seu orçamento pessoal.
“Não tem sentido ficar comprando esse monte de revistas que você não lê”, ela lhe disse, um dia, indignada.
“Olha, Zefinha, com todo respeito, você tem o direito de mexer em noventa por cento das peças desta casa, mas nas minhas revistas ninguém se mete.”
Ela entendeu. A gente percebia que, do seu jeito enviesado, ela amava meus pais tanto quanto amara a avó Nicéia. E, quanto a nós, vivíamos em permanente tensão, tentando esconder dela nossos pequenos pecados, como o de roubar frutas do próprio quintal, coisa que Zefinha jamais permitira. “Aqui, consome-se a quantidade certa de frutas; por isso só se colhe o que se come. Se é para jogar fora, vamos dar aos pobres”, repetia, e nós odiávamos os raciocínios exatos do “anexo”, mesmo sabendo que, no fundo, ela tinha razão.
E assim o tempo foi passando, meus irmãos mais velhos casando, viajando, a casa cada vez maior, nossos pais envelhecendo e Zefinha com a mesma disposição do seu primeiro dia conosco. Ninguém sabia direito a sua idade, calculávamos setenta e sete ou até oitenta anos. Claro, ela já perdera boa parte da sua agitação física, quase ficara cega de catarata e só aceitou ser operada após um tombo que lhe quebrou um braço. Meu pai, com menos de setenta, parecia muito mais frágil, cheio de achaques, baixando hospital de vez em quando.
Certo dia, quando só estávamos meus pais, Zefinha e eu na casa imensa, ela nos comunicou, durante o jantar, com uma certa pompa, que de “amanhã à meia noite eu não passo.”
“Não passa, como?”, perguntou minha mãe, distraída.
“Ué, vou dessa para melhor.”
“Zefinha, você marcou a hora de morrer?”, riu meu pai.
“Deus marcou. Mas eu fui avisada.”
Ninguém se animou a perguntar como e o jantar transcorreu num constrangido silêncio. Eu imaginei que ela estivesse caducando, finalmente.
O dia seguinte aconteceu como qualquer outro, Zefinha administrou a cozinha, a copa e a roupa lavada; ainda deu um esporro no jardineiro, que deixara de aparar umas roseiras. Às dez da noite, após a última novela, ela se recolheu ao mesmo quarto que fora, uma dia, nosso amado depósito de bolas e brinquedos e que acabara por se transformar, com algumas reformas, numa confortável suite, em homenagem à Zefinha; tinha até televisão grande e ar-condicionado.
Mais ou menos às onze e meia eu não resisti e fui dar uma olhada, pela clarabóia, pra ver o que acontecia lá dentro. Então a vi, deitada com uma camisola florida (pareceu-me miosótis, de longe e no escuro), as mãos no peito segurando o que seria a pequena bíblia que costumava ler, apesar do tamanho mínimo da letra e de jamais termos sabido qual a sua verdadeira religião. Duas velas, no criado-mudo, iluminavam o ambiente. Estava de olhos abertos, mas de vez em quando os fechava e parecia balbuciar alguma coisa pelo movimento da boca.
Fiquei muito tempo olhando para ela e para o meu relógio, até que me cansei da posição na escada. Ela parecia ter adormecido. Já passara da meia noite.
No dia seguinte, acordei angustiado, antes das seis da manhã, hora em que Zefinha se levantava e começava a trabalhar. Quando cheguei em frente ao quarto dela, meus pais já estavam lá, tão aflitos como eu, os olhos fixos na porta.
“Vamos esperar até umas seis e pouco, depois a gente entra”, disse meu pai, muito sério.
Mas, pouco antes das seis, a porta se abriu e o nosso “anexo” foi saindo com sua roupa de trabalho, cabelo molhado, e a expressão do rosto revelando um mau humor inédito.
“Nenhum de vocês vai fazer qualquer comentário”, ela disse, para o nosso alívio e felicidade. E completou: “Nem agora, nem nunca!”

Do livro “O Homem dentro de um Cão”, Editora Terceiro Nome, 2007

O índio começou a coçar o saco (parecia, pelo menos) e, depois, foi-se chegando a Margarida, minha namorada e paixão; no começo, observou-a de uma forma selvagem, mas isso ainda seria natural, em se tratando de um índio, só que, de repente, arrancou-lhe os óculos escuros. Meu amor estremeceu, de susto, mas sorriu com aquele constrangimento que os civilizados demonstram diante dos silvícolas. Eu, um pouco mais afastado, ao lado dos sertanistas, de olho na cena.
O índio, Teruã, ou Teruanã, um nome de merda desses, continuou a examiná-la, e, dessa vez, deteve-se na miragem dos seus seios de estátua grega (Margarida permitia-se um leve decote sob a camisa safári, de cor cáqui, assim como as calças compridas cheias de bolsos) e demorou-se ainda mais no exame do baixo ventre do meu tudo, o qual arredondava, com muita graça, aquelas roupas de sertão; logo ali, no meu tesouro dourado, razão da minha vida, o puto foi enviar seus olhos pintados de baile à fantasia.
Então, aconteceu: Terabã, ou coisa assim, meteu a mão direita entre as coxas da vida da minha vida, e ela gritou, perdendo o equilíbrio, enquanto o índio agarrava e amassava (tinha mãos enormes, o depravado) as delicadas intimidades da minha paixão. Aí eu pulei. Foi somente um salto e já cheguei perto do Tramanbã, que se esquivou, com uma agilidade de índio mesmo, do soco que eu tentei lhe acertar. Pior para o padre, um tal de Belarmino, que pulou na seqüência, para proteger o selvagem, e acabou recebendo dois terços da pancada, mas no meio do nariz. Fez um ploc! que ecoou pela floresta amazônica. Ele caiu sem sentidos. Acredito que tenha sido o primeiro soco que levou na vida, não sei se vocês sabem, mas o primeiro é o que mais sangra. Foi inacreditável a quantidade de sangue que saiu do nariz do religioso, manchando toda a roupa, deixando até os sertanistas assustados, logo eles, tão acostumados a ver gente ferida e morta.
O malandro do Arauamã ficou por perto, só olhando, fingindo que não era com ele. A maçã direita do rosto meio avermelhada, com jeito de que ia inchar. Alguma coisa acertei. O meu tudo começou a chorar, quase histérica, e se afastou um pouco do grupo. Dois sertanistas me seguraram pelos braços, gritando “calma, calma!”, “índio é índio, porra!”, “você está louco?” e outros panos-quentes.
Contei essa história somente para ilustrar a minha atual situação, tanto tempo depois daquela visita à Amazônia: apesar de todo esse amor que dedico à luz da minha vida, meu sonho e meu tudo, minha Margarida, lá está o americano roçando o pinto nas coxas dela, no meio do salão de dança, nesta merda de night club em Nova York, que, por sinal, é um cu de cidade, com esse vento maldito, gelado, despenteando a gente a toda hora.
Minha empresa fez uma joint-venture com a company daquele merda, vamos produzir juntos alguns equipamentos agrícolas, eles nos passando know-how e nós ganhando mercado, e dividindo os lucros. Para nós, excelente negócio. Mas os americanos gostam de ficar bêbados à noite, e para eles é normal dançar com a mulher dos outros. O gringo me ofereceu a dele, aqui ao meu lado, um canhão branquelo, que enxuga todas e ri de qualquer bobagem, parece uma lesma albina, e já se insinuou (“às vezes, Jimmy me deixa muito só, por causa do business”, disse a bruaca, como se eu tivesse coragem de comer uma coisa daquelas).
Aliás, depois que me casei com o tudo do meu tudo, há dez anos, vivi uma única e fugaz oportunidade de traí-la, numa viagem de trabalho às Bahamas, porque a garota que nos ciceroneava, uma americana, por sinal, poderia constar da lista das dez mais gostosas do cinema, se atriz fosse, e ela logo simpatizou comigo, de uma forma radical, digamos, aparecendo no meu apartamento, numa noite, e perguntando se eu queria companhia. Foi duro dizer que não, mas na hora pensei na minha gatinha amada, sozinha no Brasil, trocando as fraldas da nossa filha única.
Que faço, agora, com aquele gringo, o tal de mister Jimmy? É inacreditável a cara-de-pau deles, quando agarram a mulher dos outros, ensaiando uns rodopios no salão, rindo alto, o cara deve ter mais de um metro e noventa. Não posso simplesmente quebrar a cara dele, como quase fiz com o índio, ou melhor, com o padre, não é uma coisa pessoal, eles encoxam todo mundo por aqui, e oferecem a mulher deles para que a gente tire um sarro, e tudo acontece de uma forma pública e cínica. Não gosto deste país.
Mas, quando a gente precisa, realmente, um gênio bom nos oferece uma luz, e a solução ideal me iluminou a mente. Tudo o que havia lido de Sun Tzu sobre a arte da guerra me surgiu muito nítido “A guerra é de vital importância para o Estado”, pontificara o genial chinês, há mais de dois mil e quinhentos anos. “É o domínio da vida ou da morte, o caminho para a sobrevivência ou a perda do Império: é preciso manejá-la bem.” A partir desse conceito, aqui entre nós meio óbvio, um dos segredos da vitória estava reservado “àquele que sabe como adotar a arte militar apropriada de acordo com a superioridade ou inferioridade de suas forças frente ao inimigo.” Juntei meus estudos de estratégia de combate às lembranças do tempo do colégio, onde interpretei, em papéis secundários, é verdade, mas interpretei, algumas peças de que não lembro os nomes. Aí, antes que o gringo bêbado baixasse-lhe as calcinhas e comesse Margarida em pleno salão, comecei a enxugar a testa com um lenço, coisa improvável, com aquele ar-condicionado de dez abaixo de zero. Jane, a medusa, percebeu meu incômodo, com olhares enviesados. Já não sorria, oferecida. Eu fiz umas duas ou três caretas discretas. E, de repente
“Jane, Jane, excuse me, but, I…”
Caí por cima da mesa, quebrando os copos, jogando longe o balde de gelo, ouvindo o grito agudo e desagradável da mulher do gringo e, em um minuto, se tanto, surgiram alguns médicos com bafo de uísque (respiração boca-a-boca, urgh!); constataram que eu respirava, e que meu coração batia, ainda que descompassado. A música ao vivo, um jazz burocrático, não parou, e meu tudo levou algum tempo para perceber que algo ocorria nas imediações da nossa mesa. Quando chegou, atirou-se sobre mim, desesperada, e senti o impacto do seu corpo sobre o meu, não pude conter um gemido.
“Ele está voltando, está voltando!”, disse, em inglês, à turba que me rodeava. Aí chegaram os paramédicos e em pouco tempo eu singrava as largas avenidas de Nova York, deitado numa maca, com um tubo enfiado na goela, e monitorado por dezenas de placas e fios. Não queira sofrer uma síncope nos Estados Unidos, você pode acabar morto pelo atendimento. A luz da minha vida chorava de soluços entrecortados, agarrada à minha mão direita, suplicando “não o deixem morrer!, não o deixem morrer!”, em português, enquanto os paramédicos já preparavam um calmante para injetar-lhe na veia. Eu, apesar do desconforto do tubo de oxigênio puro, sentia-me quase eufórico de estar longe daquele crápula priápico, que, momentos atrás, por pouco não estuprou a minha doçura, minha pequena namorada, minha paixão e delírio. E, apesar de tudo, não iria perder o monte de dinheiro que a joint-venture nos daria. Definitivamente, naquele momento, não poderia haver no mundo homem mais leve do que eu.

Do livro “O Homem dentro de um Cão”, Editora Terceiro Nome, 2007

Todos ali já esperavam a desgraça. Os cangaceiros ameaçaram invadir Tolentino várias vezes e se não o haviam feito, ainda, era porque seu comandante, o capitão Zé Crispim, tornara-se devoto da Santa.
Logo na entrada da vila, o major aposentado Bento Camargo, maior sitiante de Tolentino, montara uma gruta sempre florida acolhendo a imagem negra de Nossa Senhora Aparecida. Ele, homem de esperteza rara, sabia que Zé Crispim jamais arrasaria lugar onde houvesse a Santa por perto. Todos na cidade confiavam nisso.
Mas os macacos da polícia pegaram o capitão e parte da cambada lá na foz do São Francisco; e nem dos garotos tiveram pena, como um de quinze anos, chamado Itaguaçu. Os corpos chegaram ao Instituto Médico Legal da capital com mais de cinquenta buracos cada.
O finado Zé Crispim não era o mais importante dos chefes, naquele fim de mundo calorento, mas a morte dele foi comemorada pelo governo com foguete, cachaça grátis para a macacada e missa de ação de graças nas principais cidades do estado.
No entanto, toda Tolentino, onde não cabiam mais do que mil almas, chorou em vez de festejar: o capitão tinha prestígio. Até Bento Camargo ficou revoltado com a chacina. “Mesmo bandido merece morrer com decência”, criticou. O major aposentado também insistiu para que jamais deixassem a Santa sem flores, já que ela, em si mesma, era uma proteção.
Uma semana depois, um novo bando de cangaceiros apareceu ao pé da Serra da Capivara. Neco Choroso veio dar os recados à cidadezinha.
“Os homens me mandaram dizer que não querem ninguém armado, nem o major Bento. É pra jogar todas as armas na porta da igreja, arrumadas. Rifle junto de rifle. Pistola junto de pistola.”
“Quem é o chefe do grupo agora?”, perguntou Elesbão, que moldava bonequinhos de barro.
“O Escuro. Era um dos tenentes do finado capitão Crispim. Parece índio guarani. O que restou do bando se partiu em dois.”
“Quer dizer, Neco, que vamos nos desgraçar duas vezes?”
“Quer dizer.”
As ordens foram obedecidas. O major Bento Camargo queria se defender, sozinho, mas Turíbio, o sacristão que era quase padre, o convenceu de que a resistência de um só acabaria por matar muita gente inocente. Sem resistir, a chance de salvar todo mundo seria bem maior. E foi: os bandidos chegaram, pilharam tudo, se serviram de algumas mulheres, ficaram bêbados, dormiram e foram embora.
Mas todos em Tolentino sobreviveram, não só a essa invasão, mas à outra, feita pela segunda dissidência do bando, quinze dias depois, quando as pessoas ainda tentavam se recuperar da primeira humilhação. O mesmo Neco Choroso apareceu, desta vez mancando, porque um dos homens da segunda dissidência, que não simpatizara como ele, lhe esmagara os dedos do pé com o coldre do rifle.
“É engraçado”, disse Neco, “o bando de agora mandou fazer igualzinho ao outro: empilhar as armas no chão, mas não exigiu que fosse na porta da igreja, nem que pusessem tudo arrumadinho.”
“Não falou pra eles que não sobraram armas da primeira desgraça?”, perguntou Turíbio.
“Ficaram nervosos quando souberam que o Escuro já tinha aparecido aqui.”
“Disseram o quê?”
“Que iam comer pão com banha. Que queriam ser os primeiros a se servir das mulheres…”
“Quem é o chefe, agora?”
“É o Claro. Dizem que é filho de holandês. Galego danado de vermelho. Ele disse que se não tiver arma não carece pôr nada no chão. Mas se ele descobrir alguma, capa o safado que escondeu.”
O Claro entrou devagar em Tolentino, do mesmo jeito que o Escuro tinha feito. Mas não deixou seus cabras gritarem, nem dar tiros para o ar, como o Escuro fez. Nem destruiu, a tiros, o altar de Nossa Senhora Aparecida. Pelo contrário: parou na frente da gruta, no meio caminho entre o lugarejo e a Serra da Capivara, e fez o pelo-sinal.
O Claro se apresentou ao major Bento Camargo, que agora vivia em cima da cama, doente de desgosto, depois da invasão do Escuro. O cangaceiro exigiu que todas as pessoas da casa ficassem em pé, na varanda, e foi bastante objetivo:
“Pelo jeito não tem nada pra levar daqui. Só vou deixar os homens se aliviarem, que eles estão precisados.”
Disse isso e olhou para Janaína, filha única do major, que era viúvo. Janaína tremia e não parava de chorar. O major não disse nada. Foi como se a doença lhe tivesse tirado até a raiva.
“Né moça não, né?”, perguntou o Claro à menina, que acabara de completar quinze anos.
“O Escuro me fez mal”, ela balbuciou.
“Vou sangrar esse cabra depois”, garantiu o Claro.

Eu cresci ouvindo essas histórias, mas só fui entender melhor minhas origens quando tinha uns treze, quatorze anos. Zezinha e Amorina, as empregadas da casa, comentavam entre si, em voz baixa, toda vez que eu aprontava alguma coisa, como, por exemplo, o dia em que dei um chute, de raiva, na cadela Socó: “É coisa do Escuro”. Ou, quando eu obedecia, ou tirava nota boa na escola: “É jeito do Claro.”
Mãe sempre me disse que meu pai, um aventureiro, havia morrido muito cedo, eu nem nascido era, e que ele não passava tempo nenhum em casa. Fotografia dele? Dizia que não tinha.
Um dia puxei o assunto: “Mãe, a senhora é clara e eu sou claro. Eu puxei à senhora ou ao meu pai?”
“A mim”. E ela foi saindo para fechar a conversa.
“Meu pai era claro ou era escuro?”, eu insisti.
“Cor não faz vez pra gente aventureira”, ela disse, com o olho longe. “Igual camaleão: um dia é uma coisa, um dia é outra.”
Nunca mais perguntei nada. Mas sempre senti essa estranheza na vida: tem dia que me sinto Escuro, tem dia que me sinto Claro.

Do livro “Allegro” – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

Roleta paulista, nem pensar. Vocês sabem o que é, não? Era muito usada no tempo do meu pai. Você escolhia um cruzamento, a uma hora tardia, quatro da manhã, por aí, e apertava o acelerador, cruzando o farol fechado na velocidade mais alta possível. Freadas, batidas surdas, gritos… O problema é que você poderia matar também os outros.
Gostaria que meu projeto fosse, sempre, individual. Não quero ameaçar ninguém.
Por muito tempo, pratiquei alguns esportes radicais. O que mais me excitou foi o para-quedismo: deixava para puxar a cordinha no último minuto. Jamais errei, é claro.
“Você não quer se matar, Alemão”, dizia e repetia J. Meira, o psicoterapeuta, grifando o não. “Se quisesse, não estaria aqui”. Até ele me chamava de Alemão, apelido que ganhei logo na escola primária, por causa do meu cabelo quase branco, de tão louro.
“Acho tudo isso aqui, neste mundo, uma grande bosta”, eu tentava convencê-lo. “Não tenho vontade de fazer nada. Você é um homem feliz, gosta de ouvir as merdas dos outros, interpretar, essas coisas, mas eu não tenho vontade de nada.”
Cheguei a imaginar, por causa de umas observações estranhas, que J. Meira duvidava da minha opção sexual. Um dia, após uma pergunta cavilosa, perdi a paciência:
“Caralho, J. Meira, eu não sou viado coisa nenhuma. Nem me importaria se fosse. Quer saber, se eu gostasse de homem e se isso me desse vontade de viver, até que eu toparia. Mas não gosto. E atualmente também não gosto de mulher. Fuque-fuque. Fuque-fuque. Teve um cara que escreveu: ‘O coito é triste.’ Quem foi mesmo? Esqueci. Mas que é triste, é.”
Pobres terapeutas. Fiquei pensando no meu caso. Desde criança, olhando para a minha casa, ampla, com piscina, e com todos aqueles carrões na garagem, olhando para minha irmã, para meus pais, e me perguntando: ‘que porra faço eu aqui?’ E aí chegava à escola, aquela rotina de decorar conhecimentos todos inúteis, caceta, onde é que vou usar trigonometria?, perguntava ao professor de plantão, e ele não tinha resposta, aí inventava que eu era inconveniente, e me expulsava da aula, e vinha meu pai conversar, coitado, boa gente, meu pai, e eu lhe dizia: “pai, não adianta, eu não gosto da vida”.
“Mas a gente pode resolver isso, mando você pra fora, quem sabe, hem?, Suíça…”
“Não, pai, pelo amor de Deus! Você entendeu errado novamente: eu disse que não gosto da vida, da vida de um modo geral, e não dessa vida que eu levo.”
“O que? Viver não é bom? Queria eu ter sua idade, ah, com todas essas menininhas dando sem culpa por aí.”
“Ô pai, será que sua motivação se resume a isso? Fricção sob pressão? Dar uma trepadinha?”
“Não seja grosseiro. Claro que não é só isso.”
“E que mais? Dinheiro? Comida? Viagens?”
“Não vou lhe responder, Alemão.”
Claro. Dizer o quê? Pobre do meu pai. Da minha mãe, nem vou falar, ela só chorava à menção do meu nome, ou melhor, do meu apelido. “Meu filho, coitado, jogado por aí, usando umas roupas de mendigo, largado, come pouco, não estuda… Estamos investindo tudo nele, e ele não responde.”
Cheguei a propor à minha mãe sair de casa e me transformar num morador de rua, desde que ela não me tratasse mais como um investimento sem retorno. Ela percebeu que era sério, que eu iria pra rua mesmo, e deu até um jeito de inventar um fundo familiar de onde eu poderia tirar o dinheiro que me sustenta até hoje.
Não sei se vocês vão me entender. Mas eu acordo de manhã e me pergunto: pra que servem os dias? Vou me arrastar durante umas dezessete horas, por aí, sem ler, sem conversar com as pessoas, sem vontade de explorar o próximo, sem apetite para comida, bebida, drogas. Deito na cama, levanto, saio de casa, vou até a esquina, ou pego o carro, ando pelas estradas, ouço a rádio que só fala de desgraça, e nem incomodado eu fico porque mataram Fulano, ou o deputado Sicrano roubou o País… Agora também não procuro os esportes radiciais para ver se um acidente acontece. Até poderia deixar que acontecesse, eu comento isso com J. Meira. Assim: vou escalar uma montanha, sei que se errar a pisada, sabe, um erro de centímetros, aí posso despencar lá de cima e morro quase sem dor. A porra é que incomodaria os outros, não há como fazer alpinismo individual, é preciso muita infra, e nem todo mundo é como eu.
Completei trinta anos, um dia desses. Martinha me ligou. Eu disse, “perdão, mas não sei quem é você…” E ela: “não acredito, Alemão, já fizemos amor, até”. “Ah, foi, em que ano?” “Verão passado, Alemão, eu sou aquela que usava a rosa amarela na orelha, no baile de reveillon; está certo, fui eu que me cheguei, você estava sentado no muro olhando para o mar…” “Ah, lembrei, perdão, Martinha, mas eu sou assim mesmo. Não é pessoal. Sou doido, desligado.” “Mas você gostou de mim, naquela noite, foi carinhoso…” “Foi uma exceção, Martinha, sabe, não sou muito chegado a sexo.” “Mas, cara, nós fizemos amor e não sexo. Nós nos gostamos.”
Eu cheguei a pensar se a mãe havia contratado aquela moça para me “socorrer”, mas acho que não, eu devo, sim, ter dito coisas para ela. Agora me lembro melhor: disse-lhe que ela poderia ser um caminho para que eu entendesse o mundo.
No dia seguinte, bati à porta de J. Meira, sempre atrasado, o próximo cliente já estava esperando, uma coroa perfumada que me olhou com cara de cão. Eu sempre lhe roubava uns dez, quinze minutos.
“Estou achando você mais animadinho”, disse o terapeuta.
“Marquei um encontro com uma moça com quem já fiquei”.
“Ah, é? Imagino que vá ficar de novo…”
“Talvez. Na hora pode ser que dê vontade de fazer um pouco de…”
“Fricção sob pressão. Mas o ‘coito é triste…’”
“Porra, J. Meira: terapeuta não pode gozar paciente!”. Lembrei-lhe que lhe pagava uma fortuna só pra conversar abobrinhas.
Não sei por que suporto este merda do J. Meira. Aí ele desenvolveu a tese de que o coito, realmente, pode ser a maior tristeza, mas o coito em si mesmo. O coito proveniente de um sentimento, como o tal do amor, este não seria depressivo, mas complementar e dadivoso, a revelação do segredo de viver e blablablá.
No térreo do prédio há uma agência bancária e logo que saí do elevador vi que acontecia um assalto. Ouvi um barulho de tiro e, de repente, um dos vidros da agência se estilhaçou. Vi-me correndo, junto a outras pessoas, para me proteger debaixo das escadas rolantes. Quando chegamos lá, um porto seguro, percebi que era a primeira vez que me preservava. Que vergonha: motivado pelas idéias idiotas de J. Meira, quem sabe, ou ficando velho depois dos trinta, ou levando em conta que pode existir um caminho até o mistério no meio das pernas de Martinha.

Do livro “Allegro” – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

“Vi você, ontem à noite, primo Aderaldo, lá pro lado da casa dos gansos.”
“Era eu não, primo Ricardo.”
“Era. Com um rabo de saia do lado. Acaso não seria minha irmã (e sua prima) Jovina?”
“De jeito maneira. Além de não andar com mulher por aí, eu sou respeitador e, mais do que isso, temente a Deus. Como poderia conversar de noite com a prima Jovina?”
“O que eu vi não tinha nada de conversa, primo Aderaldo. Era função de homem com mulher.”
“Coisa horrorosa. Então, quem era? Porque eu…”
“Como eu tinha a intuição de que você iria negar, chamei outras pessoas para lhe ver junto da mulher. O rosto dela estava meio encoberto e a gente não reparou direito. Mas o jeito de andar era todo da minha irmã.”
“Quem são as outras pessoas, primo?”
“Seu Jeremias, o caseiro; a mulher dele, dona Rosa; e o meu pai, seu tio.”
“Tio Figo me viu?”
“Com a mulher junto. Fornicando.”
“T’esconjuro. Como é que vão acordar tio Figo pra fazer fofoca?”
“Tá com medo dele, primo Aderaldo? Eu, se fosse você, ficava mesmo. Pai disse que mataria o primeiro que tocasse a mão em Jovina.”
“Vai, vai me matar?”
“Não, porque ele não acreditou que fosse ela. Nem a gente falou, com medo de que, na hora, ele invadisse o território dos gansos e passasse fogo em você.”
“Ai, minha Mãe! Mas ele viu que era eu?”
“Claro. Seu rosto virado pra lua cheia. Dava pra ver até a cicatriz na testa.”
“Mas, o rosto da mulher, não?”
“Mulher é bicho matreiro. Ela escondia o rosto. Mas o jeito de andar…”
“Primo Ricardo, vou confessar. Nunca contei pra ninguém.”
“Era Jovina.”
“Não, primo. Já disse que não. E o meu respeito e o meu medo de Deus? Era a Cabrália.”
“O fantasma?”
“Ela, primo. Sei que é pecado vadiar com os mortos, mas tenho precisão e já não me sirvo das mulas.”
“Sei não, primo Aderaldo. Pai já viu a Cabrália no mato, mas foi nos tempos da Segunda Guerra; acho que o caseiro Jeremias até já se serviu dela. Aquela mulher que estava com o primo não tinha jeito da Cabrália, pelo menos pelo que sempre ouvi dizer dela. Pelo que sei, a Cabrália é mulher alta, de assustar.”
“Era ela sim, primo. Sei que estou pecando, mas fico me virando na cama com a vontade. E na hora da precisão, fantasma nenhum me intimida.”
“Mas a Cabrália, o povo diz, é fria.”
“Cê pensa. Furacão de fantasma. Enlouquecida. Faz de tudo e faz de novo.”
“E a pele? Amarela? Povo diz…”
“Rosinha. Cor-de-rosa. Igual a pele de cabaço. E com o cheiro daquelas umidades.”
“Tá brincando, primo Aderaldo. Então não é fantasma, é gente.”
“Fantasma, sim, porque não tem pé.”
“Como não tem? A gente viu.”
“Não, não viu. Vocês todos foram me bisbilhotar e não olharam para os pés da mulher. Fantasma não tem pé. Sempre soube, e ontem mesmo vi. Quer dizer: não vi.”
“Bem, é verdade que não olhamos pros pés. Mas, a falta dos pés não incomodou? Pé é bom, na hora do frege.”
“Precisão é a pior cegueira. Se não tivesse cabeça, acho que eu, mesmo assim…”
“Mas que precisão danada é essa, primo Aderaldo?”
“Dos vinte anos. Você, primo, já passou da fase.”
“Mais ou menos. Faço vinte e sete. Tenho minhas fraquezas, também.”
“Quer que apresente?”
“A um fantasma? Credo em cruz.”
“A um alívio, primo Ricardo. A gente, que precisa, não pode medir possibilidade.”
“Ela beija?”
“Quase engoliu minha língua. Beija feito mulher de cinema.”
“Não pode, primo Aderaldo. Cabrália é da antigüidade. De um tempo sem libertinagem.”
“E Sodoma?”
“Bem…”
“E Gomorra?”
“É, mas…”
“E a Babilônia toda? O harém do sheik?”
“Pode ser, primo Aderaldo. Cabrália traz o pecado de longe, então.”
“Pois é. Quer que pergunte a ela se aceita ir com você?”
“Estão íntimos assim, vocês dois?”
“Sabe como é. Eu me sirvo dela.”
“Não sei se vou ter coragem. Com um fantasma.”
“A precisão é a verdadeira força sobrenatural.”
“Vamos parar, agora, primo Aderaldo? Com essas conversas-moles? Quero saber se minha irmã Jovina está grávida, ou não.”
“Primo! A Cabrália…”
“Passou uma conversa parecida com essa na minha irmã? Que boba, ela.”
“Primo Ricardo, já jurei. Era a Cabrália.”
“Não podia ser, primo Aderaldo. A Cabrália, pouco antes de eu descobrir você e a irmã Jovina no território dos gansos, estava comigo. Não falei antes só pra ver até onde chegava sua história.”
“O fantasma, com você?”
“Exato. Fez coisa comigo pouco antes de eu descobrir vocês.”
“Fantasma danado. Com o mesmo dom de Santo Antônio. Ubiqüidade.”
“Confesse, primo Aderaldo. Minha irmã está grávida, não está? Diga de uma vez!”

Do livro “O Homem dentro de um Cão”, Editora Terceiro Nome, 2007