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O robe

Dorothea, a mãe, não bebia; qualquer um poderia apostar o contrário. Usava um robe puído, manchado (café? manteiga?) e costumava interpelar o filho antes de ele seguir para a escola, onde frequentava o último ano do curso médio. A voz de Dorothea: arrastada, mole, guardando, no entanto, um charme distante.
“Estou feia, Bezinho?”
“Não, mãe. Linda.”
“Não me goze. Já me olhei no espelho. Um trapo.
“A senhora é cruel consigo mesma.”
“Tá vendo? Me chamou de senhora. Só uma mulher feia pode ser chamada de senhora. Sou jovem, ainda. Quer dizer, vivida, sim, mas cheia de recursos…”
“Recursos?”
“Técnicas. Sou capaz de enlouquecer qualquer homem. Até um da sua idade.”
“Na minha idade é fácil, mãe. Os caras não se aguentam com os hormônios.”
“E você, se aguenta?”
“Isso não se comenta com mãe.”
“Tem razão, Bezinho. Eu me esqueço de que você é a pessoa mais séria da família, e a mais equilibrada.”
“A senhora também é, mãe. Só tem umas recaídas.”
“Sempre irônico, também. Mas ironia classuda… Não sou equilibrada coisa nenhuma, meu filho! Esse amor que perdi ontem… hoje pensei em todos os outros e sabe do que descobri? Perdi a conta. Só sei que neste ano foi o quinto.”
“Normal.”
“Como, normal? Se seu avô estivesse vivo me chamaria de spudorata… Uma vez me chamou de puttana. Mas se arrependeu.”
“Assim mesmo, em italiano?”
“Ele era italiano. Nunca disse um palavrão em português. Muito respeitoso, meu pai.”
“Incrível sua ideia de respeito, mãe. Mas eu acho normal a senhora ter tantos namorados. O pai morreu cedo. Claro, seus romances não ajudaram muito a minha formação psicológica, mas ninguém tem culpa disso.”
“Você também tem muitos namorados, bobinho. Não contei, mas acho que, pelo menos este ano, você teve mais do que eu.”
“Uns são só amigos.”
“Que nada, Bezinho. Homossexuais são vorazes. Como eu sou, também. Será que se eu virasse a mão, seria mais gulosa ainda?” – A voz dela, agora, parecia apenas charmosa.
“Mais ainda? A senhora? Acho difícil.” O rapaz sorriu.
“Sabe, Bezinho? Nas minhas orações, só peço que nós dois sejamos felizes. Você talvez já seja. Mas eu estou longe.”
“Ah, não se preocupe comigo. Tenho tempo. Você também: sua vida tem tudo para dar certo. Um príncipe vai surgir, o melhor de todos.”
“Você é um filho maravilhoso. Sempre pra cima.”
“Mãe, só vou lhe pedir uma coisa: lave esse robe; se você aparecer assim, talvez o escolhido não goste…”
“Ah, foi uma mancha de café, hoje de manhã. Vou passar um pano com sabão.”
“Agora, posso ir ao colégio?”
“Vá, vá. Eu fico aqui lhe esperando. Sou muito agradecida a Deus por ter um filho responsável.”
Ela escondia um espelhinho dentro do bolso do robe. Tirou, olhou o rosto. Os olhos ainda estavam manchados: rímel com lágrima.

Bestunto tomaria conta da porta. Ele era mesmo o mais inteligente do grupo, e sabia conversar com as pessoas. Por exemplo: se, na hora do assalto, alguém quisesse entrar no restaurante, Bestunto daria um jeito de afastar esses clientes. E tudo na conversa, com calma.
Eu (meu nome é Debandinha, porque ando meio torto, pendendo para um lado por causa de uma bala que se alojou pra sempre no meu quadril esquerdo) e o Acuado renderíamos primeiro os manobristas, depois o caixa e os garçons. Eu me concentraria no caixa, apontando o revólver pra cabeça dele. Minha especialidade é a concentração. O assaltado sente quem é frio e quem não é. Sou frio: jamais tremi com um revólver apontado para o outro. No caso, o caixa deveria ser o próprio dono do restaurante, e os donos sabem mais do que ninguém que é melhor não reagir. Eu estava muito seguro, como sempre. Acuado seria o encarregado de pôr todos os empregados e alguns clientes (claro que haveria alguns clientes) na cozinha. Ele não é tão inteligente como Bestunto, mas é jeitoso, pede “por favor”, sem deixar de mostrar a pistola.
Praga de Mãe seguraria o pessoal na cozinha. Praga sabe fazer bem isso, segurar, até porque a cara dele assusta até bicho.
A gente imaginava chegar por volta das duas da manhã, talvez um pouco antes, quando só estivessem por ali alguns clientes meio bêbados e os garçons.
Mas ninguém estava feliz. Antigamente, um pequeno grupo, como o nosso, reunia-se, conversava, escolhia a estratégia, e assaltava. Tudo na hora. No impulso, está certo, sem grande planejamento, mas com aquela vontade de acertar, de enfiar um monte de dinheiro no bolso. Minha porcentagem pessoal no ano passado foi muito boa: quarenta e cinco assaltos, sessenta por cento dos quais limpos, sem mortos ou feridos. Meu faturamento, no entanto, não chegou a ser alto: cento e sessenta mil dólares. Mas, comparado a este período de agora, o ano passado foi uma glória. Já estamos em outubro e eu realizei apenas vinte e uma operações, com faturamento de oitenta mil dólares brutos (estou levando em conta o rateio, em partes iguais, menos para o coordenador, que leva quinze por cento), sem contar as taxas de vinte por cento, que antigamente não havia, é claro, quando a gente ainda era iniciativa individual.
A diferença é que, a partir deste ano, passamos a trabalhar sob comando do Partido. Não planejamos mais nossos próprios assaltos: vem tudo preparado da Comitê Central, e temos apenas de cumprir as ordens. Por exemplo: o assalto a este restaurante foi um trabalho da Diretoria de Planejamento. Escolheu o objetivo, estudou a melhor estratégia e apresentou o projeto ao Comitê Central, que, por sua vez, nos escalou para a execução.
Este é um outro problema: gosto muito dos meus companheiros, são meus irmãos, mas não escolheria, se fosse o responsável pela ação, um quadro como Praga de Mãe. Ele é muito burro e, fisicamente, repulsivo. Estava em outra equipe, que assaltava lojas de departamento, e era só ele pôr o pé num shopping que os clientes chamavam a segurança. Um sujeito com aquela cara só poderia ser tarado ou assaltante. Aí foi afastado. Passaram-no para nosso grupo, que se dedica a assaltos menos sociais. A gente não reclamou de pena dele. Mas o Praga atrapalha. As pessoas podem entrar em pânico só de olhar pra ele. Hoje em dia, assaltos são operações delicadas, não devem fazer vítimas, isso joga a opinião pública contra nós. Não somos bárbaros, somos expropriadores.
Mas, pelo Partido, tudo. Admito que alguma coisa melhorou. Agora, temos os melhores advogados do País. Poucos de nós ficam presos por muito tempo. E há, ainda, o Comando Cássio Pilar, que resgata os que não conseguiram se beneficiar da Justiça. Cássio Pilar foi um dos nossos que tombou, heroicamente, numa operação de resgate, logo no início da atuação do Partido.
Bem, voltando ao trabalho aqui. Recebemos um relatório completo das atividades deste restaurante: número presumido de clientes em todas as horas; número de garçons; posição do caixa; manobristas e seguranças, e seus respectivos lugares no palco das operações. Tudo furado. Os manobristas eram, na verdade, os próprios seguranças, obedecendo aos novos tempos, que obrigam o profissional a desempenhar várias funções ao mesmo tempo. Um dos seguranças eu até conhecia, havia cumprido uns três anos comigo, na Casa de Detenção. Outro furo foi o cálculo dos clientes. Os planejadores não perceberam que havia uma igreja evangélica próxima, e que nela aconteciam reuniões às terças e quintas, no começo da noite, e que, nesses dias, um bom número de participantes acabava jantando no restaurante, ou seja, terça e quinta seriam dias inviáveis para o nosso objetivo. Foi o Bestunto, muito esperto, que acabou descobrindo isso, simplesmente porque, superprofissional, decidiu dar uma olhada no local da operação, dias antes, o que é terminantemente proibido pelo Partido. (Bestunto, na verdade, veio com uma história de que descobrira esses detalhes porque já conhecia a região, mas ninguém nasceu ontem).
Então, tudo pronto, vamos lá. Chegamos, dois pela esquerda, dois pela direita, e pegamos fácil o único manobrista/segurança, porque o outro, justamente o meu colega, já havia saído. “Quieto, viado, passa pra cá o revólver.” “Não uso.” “Não usa uma porra!” E tome uma coronhada na cabeça. Discreta. Foi Bestunto que deu. “Passa logo, ou te mato aqui mesmo”, disse ele. O pobre diabo olhou pro Praga e resolveu pegar a arma, presa na botina. “Agora vá na frente, rapaz, que vou te trancar na cozinha”, disse Acuado, empurrando o cara com delicadeza.
Entramos eu, Acuado com o manobrista e Praga de Mãe. Na hora em que o caixa, que era o dono, nos viu, adivinhou tudo. Ficou branco. Nem se mexeu de onde estava. “Eu gosto assim”, eu disse a ele, “os bons meninos ficam quietinhos.” Mas o sujeito começou a tremer. Esperamos que dois dos três garçons chegassem do salão, onde serviam a apenas um casal. Praga de Mãe já tomava conta, dentro da cozinha, do manobrista, do cozinheiro e de um auxiliar. Praga de Mãe não ameaçava ninguém, assim, de mostrar revólver. Só apontava o volume debaixo da camisa. Não precisava de mais nada.
“Eu tenho de falar uma coisa com o senhor”, disse-me o caixa.
“Depois, moleque (ele era muito novinho). Vamos primeiro limpar o salão.”
“Limpar, como? Vai atirar nas pessoas?”
“Claro que não, babaca. Vou esperar que os garçons voltem do salão.”
E eles logo voltaram, eram dois, um deles trazendo uma bandeja pesadíssima. Ao nos ver, perdeu o equilíbrio e caiu tudo no chão. Restos de sobremesa, molho de tomate, uns nacos de carne, sujeira grossa. E o barulho? Mas um casal, em confabulações amorosas, deu somente uma olhada, rápida. Acuado não deixou que aquele garçom juntasse as coisas, já mandou os dois pra cozinha. Depois, foi até o salão e convidou o casal a se juntar ao pessoal. A moça ensaiou gritar. Acuado mostrou a arma, ela se conteve.
Aí eu me virei para o caixa. “Que é que você queria falar comigo?”
“Senhor, quero pedir desculpas, mas eu só tenho aqui dinheiro meu. No restaurante, só aceitamos cartão de crédito e cheque.”
“Caralho. Não diga!”
“Infelizmente, senhor. Mas eu tenho alguma coisa. Talvez o cliente tenha, também.”
“Não, cara, eu vim aqui pegar a féria.”
“Não tem.”
‘Partido de merda!’, eu tive vontade de comentar, mas me calei. Mandei o caixa se levantar.
“Vai me matar?”, ele perguntou, lívido.
“Não, porra. Só pensa nisso?”
Levei-o até a cozinha. Tinha um cheiro horrível, de bosta, lá dentro.
“Que cheiro é esse, Praga?”
“O cozinheiro se cagou todo.”
“Que foi que você fez, idiota? Assustou o cara?”
“Só perguntei se ele tinha lasanha. Deu fome, meu. Aí ele disse que o restaurante não serve lasanha e começou a chorar…”
Fiquei deprimido. Pegamos o dinheiro de todo mundo, não chegou a dois mil dólares. A equipe de planejamento se esqueceu de examinar o cardápio. Estava lá escrito: “Só aceitamos cartões de crédito ou cheques especiais, para evitar assaltos.” Se eu tivesse, sozinho, pesquisado o ponto, planejado e operado, nada disso teria acontecido. O Partido é muito burocrático. É uma espécie de repartição pública. Confio em Bestunto: vou comentar com ele que não estou feliz com esse jeito de trabalhar. Eu sei que ele também é contra. Mas, o que a gente pode fazer? Se cairmos fora, poderemos acabar assassinados pelos nossos próprios amigos, que se sentem mais seguros pertencendo a uma organização com muito dinheiro para contratar advogados, comprar policiais e juízes. Nossa situação é a mesma dos funcionários do governo: ganhamos uma merda mas estamos protegidos. Não, não quero ser acusado de individualista. Mas essa não é a vida que pedi a Deus.
Do livro “O Homem dentro de um Cão”, Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2007

A notícia nos paralisou a todas. Janaína, Maria Nery, Cássia e Valdeci: mortas. Estavam muito feridas, mas deveriam escapar: Jônia e Helena. O restante, trinta e duas moças e o motorista do ônibus, com ferimentos leves. A única pergunta que todas nós fizemos às superioras: não seria algum engano? Os mortos são sempre os outros.

A verdade é que jamais estamos preparados para uma notícia dessas. Não acreditamos nela. Um rodamoinho se instalou na minha mente. Emudeci e me escondi na capela. Olhei de lado: as outras tiveram uma reação parecida. Pensei: noviças são quase iguais. Têm mais ou menos a mesma idade. Imaginam que possuem vocação idêntica. Sofrem os mesmos condicionamentos na sua educação. É lógico que reajam tão… coletivamente.

Não, nada é lógico. Quatro meninas, quase meninas, mortas. A dor seria diferente, mais intensa, talvez, se elas fossem meninas do mundo, com amores oficializados, casamentos marcados e sonhos de organizar famílias no futuro? A nossa dor é, quem sabe, mais modesta, e previamente consolada, pois as nossas meninas mortas são (seriam) meninas de Deus. Pobrezinhas, sem amores e (podemos dizer ou é crueldade?) sem futuro.

Que horror! É claro que possuíam um futuro, coitadas, eventualmente brilhante, porque se preparavam para servir à humanidade, de várias formas, dentro de hospitais de periferia, ou até nos confins do mundo (Maria Nery falava, o tempo todo, em trabalhar na África), ou, ainda, administrando o gigantesco patrimônio da nossa organização, que não deixa de ser uma multinacional de gerenciamento complexo.

Não teriam filhos, não trocariam beijos com os homens… ou, melhor, nem isso importava, já que poderiam até trocá-los se abandonassem o claustro e mergulhassem nas ilusões que o mundo oferece além desses muros altos.

Cássia, com quem tanto conversei sobre emoções e desejos, tinha muitas dúvidas da sua função no mundo. Os confrontos políticos a atraíam. Torcia quando surgiam, na tevê, reportagens sobre movimentos populares. Ela acreditava na inevitável igualdade das classes, e até das religiões, quando todos os terráqueos se sentissem exaustos da autodestruição, por meio de bombas ou de armas mais sutis da economia. Costumava dizer, a minha colega morta, que o potencial de destruição de um banqueiro era infinitamente maior do que o de um general enlouquecido. As pessoas falam isso como uma piada, mas não é, ela explicava, com sua rara inteligência, o quanto o dinheiro do povo se presta a lucros e jogadas financeiras. Seria um gênio da oposição, essa menina morta. Talvez não convivesse conosco durante muito mais tempo. O mundo lá fora a exigia.

É engraçado como, nessas horas, a minha mente, e eu desconfio que a mente de todas nós, se afasta da imensa consolação, tão grande como teórica, de uma vida no além. Em nenhum momento imaginei as quatro meninas a vivenciar uma realidade transcendente, como a chegada ao seio da Divindade. Talvez eu não tenha mesmo fé. Mas não sei se isso é grave. Depois de quatro mortes tão próximas, os conceitos se esgarçam e alguns podem sucumbir para sempre. A partir de hoje, eu sou outra pessoa.

Janaína é a minha dor maior. Na verdade, a minha única amiga, amiga pra valer. Talvez só eu e o confessor soubéssemos que ela estava apaixonada. Contou-me a mim, a mais amiga e confiável, os detalhes do seu sentimento, sem tocar no nome do ser amado. E eu a respeitei, não lhe fiz perguntas. Apenas indaguei a mim mesma: um dos técnicos em computação, que nos visitam freqüentemente? O coordenador do curso de Letras? O leiteiro? Ou alguém que ela conheceu numa visita à cidade, dentro de uma livraria, talvez?

Não me interessa, sobretudo agora. “Eu não entendo como um pecado”, ela me dizia, de olhos brilhando, “mas como um milagre que tomou conta de mim e me faz sentir viva, parte do mundo, porque essa é, também, uma linguagem carnal.”

Seria mais fácil afastar-se do desejo, pensei, mas Janaína valorizava mais o lado espiritualizado da sua paixão. Seria melhor que ela sentisse o apelo da carne, como se dizia antigamente, o impulso de entregar-se, como uma fêmea em ânsias, ao desejo do macho exasperado, repetindo a Natureza.

Por que ela jamais me contou quem lhe falava a linguagem do corpo?

Quando tento responder a essa pergunta, a minha dor progride e me toma por inteiro, projetando-se no meu próprio futuro. Ao me eleger confidente, até com certa insistência, Janaína poderia estar-me dizendo que não havia propriamente alguém amorável fora da nossa comunidade; que o Amor estava à sua frente: eu.

A mim, então, que jamais tive sensibilidade suficiente para assimilar linguagens sutis ou intensas, que fui privada pela Natureza das armadilhas do irracional, agora só me resta perplexidade, além da dor.

Pior: estou me culpando de ser a perfeita, a verdadeira e incorruptível menina de Deus. O que há de errado em mim que não me permite sequer correr o risco de cair nos regalos da carne, e, talvez daí, nas trevas exteriores, como os outros?

Do livro “Allegro” – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

A gênese

Na verdade, estava louco para ver, pessoalmente, o cliente ideal. Desde que comecei a pesquisar árvores genealógicas, ninguém me havia pago adiantado. Mas o Sr. Hermann pagou e nem me pediu desconto. Imaginava um sujeito meio baixo, magro, cabelo escovinha, de roupa escura e gravata burocrática. Jeito dissimulado, como convém a certos milionários. Ele era o meu primeiro cliente milionário. Meus clientes, na maioria, não passavam de intelectuais remediados, metidos a besta. Mas eu sempre errava quando julgava pela voz. A do Sr. Hermann era a de um mau-caráter. Chegava a ser sórdida na pontuação, nas pausas.

Ele chegou e me desmentiu. Alto, forte, bonito. A roupa elegantérrima; a gravata, certamente comprada em Milão. Era simpático, também. A voz, unida à imagem, dava-me a ideia oposta à que havia formado dele. Sentou-se, observando com discrição meu modesto escritório. Estava tenso.

“Eu prefiro”, ele disse, “que você me fale do trabalho antes de entregá-lo. Outra coisa: quero recebê-lo pessoalmente, não mande para a empresa”.

“Como o senhor quiser.”

“E aí? Conseguiu descobrir tudo? Nosso passado nos condena?” Essa última frase foi dita com falso humor.

“Depende do que o senhor entenda por condenação. Está se referindo ao Quilombo?”

Jamais, na minha vida, vi alguém empalidecer tão rápido. “Puxa”, pensei comigo, “fiz merda. Não sei mesmo lidar com humanos. Prefiro os cachorros”.

“O Quilombo… Bem, eu tinha uma ideia… É a nossa origem mesmo?”

“Sem dúvida nenhuma. Estou chegando a 250, 300 anos pra trás. Hoje, com as pesquisas de europeus e americanos, podemos chegar a muitas tribos no continente africano. Quando mergulhar mais fundo, talvez chegue além de Angola, eh.”

“Somos de Angola?”

A cor voltava muito devagar ao seu rosto.

“Na origem familiar consolidada, sem dúvida. Seguinte, seu Hermann: o sangue da sua família começou puro, sangue de negro real, sangue nobre, sangue que, com certeza, deve lhe trazer muito orgulho; depois virou mulato ou cafuzo, e, por causa disso, seus antepassados mais próximos devem ter comido o pão que o diabo amassou, já que os negros puros da época odiavam essas… miscigenações, digamos. Mas o Brasil é isso. Sua gênese é bem interessante, do meu ponto de vista. Até por que o senhor se chama Hermann…”

Aí ele me interrompeu. A voz se alterou um pouco:

“Eu soube que o sobrenome Hermann vem de um padrinho suíço, mas acho que na verdade esse personagem era amante da minha tetravó.”

“Pode até ser, seu Hermann, mas nem todo padrinho daquela época dormia com as comadres. Pelo jeito da documentação acho que era padrinho mesmo. Esse Hermann, pra mim, é um mistério. Ou não. Até bem pouco tempo, as pessoas da sua família eram descritas como ‘pardas’ nos documentos. O senhor foge desse padrão, é óbvio; o senhor não é um suíço, mas passa por italiano, espanhol, português. Acidente genético, pode ser.”

O homem não conseguiu segurar:

“Que absurdo!”, quase gritou. “Ora, pardo! Pardo é cor de quê? De rato? Que preconceito das pessoas! A gente é o que é!”

Minha cara deve ter traído a alegria zombeteira que me tomava, porque já não suporto gente, quanto mais renegado. O homem tornou-se formal. Empertigou-se na cadeira. Até procurei ser um pouco mais simpático:

“Bem, seu Hermann, o mapa, o documento final, como lhe disse, só fica pronto semana que vem… Isso foi só aperitivo.”

Ele se levantou, contrafeito, e se despediu de mim, rapidamente, como quem se recorda de um compromisso importante. Logo percebi que arqueara demais os ombros. Parecia, agora, feio, fraco e avelhantado. Mas nem tive pena dele. Não consigo sentir pena de gente desaceitada e, ainda por cima, rica. Pra falar a verdade, só tenho pena mesmo de bicho. Sou capaz de chorar quando vejo um vira-latas atropelado na estrada.

Pediram-me para receber Sua Excelência com tapete vermelho e eu o fiz. Do meu jeito, é claro, e dentro das minhas modestas possibilidades. O chefe queria que tivesse gente no cais, na hora do embarque, que eu me virasse e arrebanhasse quem fosse, para dar volume ao evento. Eu só conheço puta, pescador e bêbado. E foram eles que levei.

Fiquei olhando Sua Excelência. Estava vestindo uma calça cáqui bem safada, dessas de lojinha, mas era nova em folha. Deve ter pensado: o povo lá é modesto e eu vou me vestir do jeito dele. Filho da puta. A camisa social parecia elegante, mas já estava meio velhinha. O cara se fantasiara de pobre! Depois da nossa pescaria, ele jogaria fora aquela roupa ou, no máximo, a entregaria ao asilo mais próximo. Cachorro.

Sua Excelência se arvorava em dono do projeto de pesca de tubarão que daria, segundo ele, mais de mil empregos para aquela comunidade sofrida da Praia do Breu. Mentira. Eu é que fiz o projeto e apresentei ao governo. Não me gabo não, não fiz nada de mais, sou pago para isso. Nem todo biólogo como eu trabalha para os gringos, roubando nossa flora e criando transgênicos. Pelo menos eu sou uma exceção. Penso no povo e gosto dele. O povo cheira bem; a elite fede, está podre.

Vocês sabem, tubarão é pesca nobre, nosso litoral aqui está superpovoado deles, por causa do desequilíbrio ecológico, então temos mesmo de eliminá-los. E desses bichos se aproveita tudo: carne para comer, pele para fazer sapato, tripa para ração, e até os ossos servem para artesanato. Sem falar nas barbatanas que a gente exporta pros japoneses fazerem sopa e endurecerem os pintinhos. Que coisa! As putas aqui da praia fizeram para mim sopa de barbatana de tubarão durante semanas e eu permaneci meia-boca. Mas acho que é a cachaça que anda me tirando o tesão.

Aí, o filho da puta de Sua Excelência veio com essa história de que o projeto era dele. E eu iria fazer o quê? Contestar? Não tenho tribuna, não tenho assessor de imprensa, sou um merda no meio do mundo.

Por falar em assessor de imprensa, deve ter sido ele o ladrão do projeto. É que esse puto me entrevistou há dois meses, e me tirou todas as informações que acabaram por se transformar no projeto “Tubarão é a Solução”. Aí Sua Excelência assinou embaixo… Veio televisão do sul, vieram até equipes estrangeiras, de programas ecológicos europeus. Sua Excelência falava e a minha pessoa, junto com a cambada de pescadores, servia como imagem de cobertura.

O assessor de imprensa, que eu acho que é viado, resolveu tirar uma casquinha maior da mídia (como jornalista é preguiçoso, aceita qualquer coisa sem checar…) e inventou essa história mandrake de Sua Excelência fazer a primeira pesca experimental de tubarão, abrindo o projeto.

Mais uma mentira. Eu venho pescando experimentalmente há dois meses. Eu e minha canalha. Seu Zé, Arrudão e Chico Bosta. Já sabemos direitinho como abarrotar um pesqueiro de tubarão. Mas Sua Excelência declara que vai “inaugurar” a pesca…

E veio, o puto. E, a conselho do assessor de imprensa, trouxe um cinegrafista. Eu tentei apavorar os dois, contei um monte de casos de gente que virou sobremesa de tubarão no meio do mar, de naufrágios em tempestades de pesadelo, falei até da Cobra d’Ouro, a serpente marinha que andou devorando alguns caíques por aqui. Eles não desistiram. Mas a cara do cinegrafista não me enganou. ‘Esse corno vai enjoar’, pensei. E minha primeira providência foi jogar fora os remédios para enjôo. ‘Quero que esses putos vomitem a alma’.

E lá fomos para o mar. No primeiro balanço, o cinegrafista desmontou. Sua Excelência estava agüentando bem, mas quando a terra firme desapareceu de vista, e ficamos nós, o mar e Deus, eu senti uma certa angústia no olho do escroto.

“Você sabe, doutor”, ele me disse, e acho que já havia esquecido até do meu nome, “eu tenho compromissos à noite, não podemos ir muito longe, muito além… Me garantiram que com duas horas de alto mar a gente já pega alguma coisa. Para mim basta pegar um ou dois bichos. É uma pesca simbólica…”

Eu respondi “positivo”, o que não quer dizer nada, e o nojento ficou ainda mais angustiado. O cinegrafista já havia vomitado bile. Pedi a Chico Bosta para tocar mais rápido, furando as ondas. O barquinho balançava legal.

Quando chegamos ao pesqueiro, percebemos, todos nós da equipe, que tubarão não iria faltar. Sua Excelência e o cinegrafista doentinho nem se deram conta.

E aí eu apelei, piscando o olho para Seu Zé e Arrudão. “Bem”, eu disse, “agora é hora de jogar o sangue.”

“Jogar o quê?”, quis saber Sua Excelência.

“Sangue de boi. Para atrair os bichos.”

Dito e feito. Cheiro de sangue morto enjoa e até eu me arrepio ao sentir. Sua Excelência se juntou ao cinegrafista e ficaram os dois, cada um de um lado, jogando as tripas pra fora, sujando o oceano.

E os bichinhos vieram com tudo! Nunca vi tantos juntos, a maioria cabeça chata, mas tinha tintureiro, lombo-preto… Seu Zé, que entendia muito daqueles meninos, quase não precisava de anzol para içá-los ao convés. Meia hora e já tínhamos pegado uns oito. Eles pulavam sobre o barco, tubarões são duros de morrer. Para piorar a situação, como Deus é bom, armou-se uma nuvem negra a sudeste, e eu pedi a Chico Bosta pra pôr o barco bem embaixo da maldita.

A água lavou minha alma. Era uma chuva doída na pele, e as rajadas de vento poderiam nos jogar longe, se não nos segurássemos em alguma coisa.

“Vamos morrer, não vamos?”

Eu até já me havia esquecido de Sua Excelência, um trapo molhado olhando para mim, a expressão suplicante. Perdera os óculos e, balbuciando, me avisava que o estreito porão do barco estava todo inundado.

“A coisa agora ficou preta mesmo!”, gritou Chico Bosta lá do leme, e eu não entendi se foi pra encagaçar ainda mais aqueles dois merdas ou se falava a sério. Arrudão, que tentava tirar a água do barco, era religioso e começara a rezar. Este não estava brincando. Mas eu mesmo já sofrera tempestades piores, sem comparação. Naufragara uma vez. Fora salvo por milagre.

“A gente vai morrer?” Sua Excelência perguntou de novo, o lábio inferior pendido.

Deve ser o meu coração português que fica mole nessas horas. Olhei bem para o cafajeste e gritei para que minha voz não se confundisse com o uivo do vento.

“Não se preocupe que o senhor não vai perder a porra do seu compromisso hoje à noite!”

Mas eu não tinha certeza disso.

Do livro de contos “Allegro” – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003

Miseráveis

Ele já estava na minha mira havia muito tempo. Alto, mal vestido, mas de certa maneira elegante, apesar do vacilo corporal que o mal de Parkinson lhe provocava. Pedia esmolas no sinal entre as avenidas da União e Tomás Álvares, um ponto bastante movimentado e central da cidade. Ia, de carro em carro, a mão em pires, como fazem os pedintes. Não usava latas ou sacolas.

Da primeira vez que o vi, fiquei muito chocado. Ele se aproximou do meu Mercedes pela porta do carona. Acionei o vidro para desculpar-me. “Não tenho trocado”, desculpei-me. E não tinha mesmo.

“Vocês são tão miseráveis…”, ele respondeu, em bom português, mas com sotaque castelhano.

No dia seguinte, passei pelo mesmo lugar, e ele não estava por lá. Mais dois dias, passei naquele cruzamento à noite, acompanhado de uma amiga, Eliana. Linda, rica, produzida. Atrasei a marcha do carro para pegar o sinal fechado.

“Eliana, está vendo aquele mendigo ali? Se ele chegar perto da sua janela, vou abri-la. Negue a esmola. Você vai ver o que acontece.”

“Ele não me machucará?

“Não é louco.”

Ele se aproximou justamente da janela do carona, como da outra vez. Eliana fez que não com a cabeça. Primeiro, ele ficou paralisado diante da beleza dela; depois, rosnou:

“Miseráveis, vocês são miseráveis.”

“Viu, Eliana?”

“Que coisa. Ele é argentino?”

“Não dá pra saber. É de um país de língua espanhola.”

“Está na maior merda e ainda não aprendeu a ser humilde.”

“Acho que é mais do que isso, Eliana.” A moça, além de linda, era inteligente.

“O que você sabe que eu não sei?”, ela arregalou os olhos.

“Depois lhe conto.”

Dia seguinte, comecei a me preparar para a conversa que teria com aquela figura marcante. Escolhi inclusive a hora, de menor movimento, para que não houvesse chance de alguém nos atrapalhar.

Vim pela fila da direita. Ele apareceu. Desta vez na minha janela.

“Tenho esmola aqui pra você”, disse-lhe, mostrando um monte de dinheiro na minha mão. “Só que gostaria de conversar um pouco.”

Ele titubeou, mas acabou dando a volta. Abri a porta do carro por dentro, ele entrou. Um odor quase insuportável invadiu o Mercedes.

“Eu cheiro mal”, ele disse, feliz. “Os burgueses não estão acostumados.”

Tinha olhos azuis, percebi. E hálito de álcool. Levei o carro até uma pracinha próxima, onde, de pisca-pisca ligado, poderia ficar algum tempo.

“Não é que seu cheiro é mau”, disse-lhe. “É insuportável.”

“Onde está o dinheiro?”, ele olhou para mim com muito ódio, e ainda deteve o olhar no discretamente sofisticado painel do carro.

“Quero que, antes, me responda a algumas perguntas.”

“Jornalista você não é. Não existem jornalistas de Mercedes.”

“Não interessa quem eu sou. Sabe, cara, você é agressivo. Por duas vezes você me chamou de miserável.”

“E o que você acha, burguês? Vocês são todos miseráveis, de fato, assassinos sociais, matadores por omissão, desumanos e desprezíveis.”

“Eu pago meus impostos para que o governo cuide de pessoas como você.”

“Você é o governo. Você compra os Três Poderes, com dinheiro mesmo ou favores. Você paga, sim, a advogados, para livrá-lo da maioria dos impostos devidos.”

“Quem você é? Por que pede esmolas? Você é argentino?”

“Acabou a conversa. Quero dinheiro. Ou saio daqui correndo, dizendo que você me propôs sexo, que você é viado.”

“Você não pode correr. O Parkinson.”

Ele começou a rir, quase puxou as notas da minha mão. Seu riso exacerbou seu hálito medonho e eu tive vontade de vomitar. Ele saiu do carro e eu fui correndo pra casa, pra tomar banho, trocar de roupa e depois lavar o carro.

Ele não havia percebido a minicâmara disfarçada no teto e o gravador no porta-luvas. Nem o pessoal que o filmou da camionete logo atrás.

Agora, daqui a dois dias, vou entrar na reunião do partido e mostrar essa jóia política que me veio de presente. O grupo liberal ficará acuado diante do meu diálogo com o mendigo. Ora, mendigo! Um ativista internacional, direi eu. Eles invadiram, como vírus, o tecido social do nosso país. Estão em todos os setores da vida nacional, assaltando propriedades privadas no campo, infiltrados nos órgãos do governo executores de programas populares. Esse mesmo governo, que se diz comprometido com as regras de mercado, mas que, por trás, nos apunhala a todos, detentores dos meios produtivos, é o grão-protetor de todos esses párias. Há uma rede de ONGs apoiando-os, internacionalmente, diante das reuniões dos bancos de desenvolvimento, tentando dilapidar a globalização. Essa gente, como o mendigo com sotaque, está nas escolas, também, dirigindo-as ou atuando como professores, envenenando a mente das nossas crianças.

Nós somos um partido político e nosso primeiro compromisso é para com a sobrevivência da liberdade em nosso país, eu direi, e, dessa vez, aqueles liberais de merda ficarão sem ter como me taxar de direita, extremista ou militarista.

Não posso afirmar se, em pouco tempo, conseguiremos limpar a sociedade dessa praga. Mas alguém tem de começar.

Do livro “Allegro” – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

Pródigo

Eu sei, mãe, que sou um filho da puta. Com todo respeito, né, mãe, filho da puta não quer dizer filho da puta mesmo.

Chore não, mãe. Hoje em dia, a senhora sabe, um ano passa assim, num já! Viu?, olhe aqui, já tenho cabelos brancos! Sei, sei que fiquei fora mais de dois anos, mas a senhora sabe, estavam atrás de mim, devem estar ainda, só que agora , fodam-se, quer dizer, danem-se.

Vou repetir pra senhora o que já lhe disse naquele tempo: eu só consumia! Não traficava não… Aliás, devo lhe dizer, parei, parei aquele consumo pesado, sabe, todo dia, todo dia. Agora é só quando surge uma oportunidade.

Tô trabalhando. Tá vendo… a senhora riu! Que bom ver a senhora rindo de novo! Sou auxiliar de carga, fico junto do motorista do caminhão, sabe, e quando ele quer cochilar eu assumo o volante, mas ainda não consegui ser o titular. Quer dizer, voltar a ser. É difícil. Andei dormindo no volante, eu sei, mas isso foi só no começo. Se preocupe não, quebrei um braço, este aqui, ó, mas ele ficou novo em folha. O caminhão se danou todo, com a carga e coisa e tal, mas caminhão é coisa, né, mãe? Importante é a gente, viva.

Conheci o Brasil todo. Eta, Brasil! A senhora iria gostar de ver as coisas do Norte, e também do Sul, sabe, um frio… tão bonito, sem essas coisas aqui da cidade, essa violência. Não tem um estado do Brasil que eu não conheça.

Pois foi vindo pra cá, passando por Minas Gerais, que eu conversei comigo mesmo e disse: “Riobaldo, chega! Sua mãe não lhe vê há dois anos, você nem sabe se ela está viva ou não… chega!”

Mas, e a coragem de encarar a senhora de novo? A senhora sabe, mãe, eu nunca fui religioso, nunca fui nada, até zombava das meninas que iam ao culto, ou à missa, um dia zoneei no centro espírita… Meu Deus, eu acho que fui perseguido pelos santos de todas as igrejas, pois aprontava com todos. Mas o Exu, sabe, mãe, o Exu não é santo, não, é o meu chefe, o motorista titular, ele me viu meio jururu assim, pensando na senhora, nesse tempo todo sem lhe ver, aí ele perguntou: “Sei que você não é de se abrir, ô Dentada (sabe, mãe, de brincadeira me chamam de Dentada), mas tem coisa ruim passando na sua cabeça, não tem?”

Não respondi nada. Nem olhei pra ele. Ele continuou: “Seguinte, Dentada: tem uns negócios aqui, uns papéis, com umas coisas escritas. Essas coisas têm ajudado as pessoas desde que entrei nessa vida de caminhoneiro e convivo com o mundo. Vejo uma pessoa triste, aí eu digo: ‘olha esses papéis, escolhe um, lê’. Não tem religião nos papéis, não, sabe? Ou melhor, os papéis são de várias religiões, eu acho, bem, também não entendo disso. Só lhe digo o seguinte: ler essas coisas já me ajudou e ajudou todo mundo. Menos analfabeto, né mesmo, mas esses aí estão rareando. Hoje todo mundo lê, mal, mas lê. Quer ver as coisas?”

Continuei não respondendo, mas me virei pra ele e devo ter feito uma cara de quem diz sim. Tava chateado mesmo, mãe, pensando na senhora. Pois é: fui pegando os papéis, tinha revistinha, até em quadrinhos, tinha caderneta, página solta presa com grampo, tudo isso… e eu fui olhando, sem vontade de ler nada, mas me chamou a atenção uma foto, quer dizer, um desenho, de um homem barbudo que só podia ser o tal de Jesus, e umas coisas escritas embaixo.

Pensei mais ainda na senhora: mãe só falava de Jesus… Pois vou lhe dizer, mãe, quem me trouxe até aqui, quem me fez encarar a senhora não foi Jesus, não, foi um tal de Publius Lentulus. Pois é, nome complicado, né, mas é o nome dele. Depois o Exu, que até que é bem letrado, me explicou melhor, e é o seguinte: o tal do Publius Lentulus era do reino que tomava conta da terra de Jesus. Todo mundo era escravo naquele reino (esqueci o nome). E esse Publius Lentulus era um empregado do rei que tomava conta lá da terra de Jesus. O rei ficou sabendo que havia um homem fazendo milagres por lá e mandou perguntar ao tal do Publius Lentulus quem era essa figura.

Aí eu me achincalhei todo, mãe, quando comecei a ler o que Publius Lentulus escreveu sobre Jesus. Sabe, tirei um xerox. Depois vou ler tudo pra senhora, devagar, né, a senhora sabe que não leio bem, mas naquele caminhão, altas horas, eu lendo aquele negócio, pois é, mãe, não me agüentei e comecei a chorar. Mas chorar mesmo, de balançar a boléia. Me virei pro Exu e esclareci que não era boiola, mas que não estava me agüentando… Ele não gostou, levantou a voz: “Então alguém é boiola porque chora, ô Dentada? Você não imagina quanta gente já se debulhou toda, aqui, do meu lado, lendo esses meus trapinhos, esses papelzinhos… Já vi matador, gente ruim mesmo, se estourando aí do lado. Teve um que se danou comigo, gritou, me acusou. Disse: ‘você me deu isso de propósito, pra eu me emocionar…’ E não foi, não foi mesmo!”

Que foi que Publius Lentulus escreveu? Vou ler tudo pra senhora, mãe, calma! Sempre apressadinha, né? Mãe, ele disse como era o rosto de Jesus, o cabelo, a roupa, os olhos… sabe, mãe, ele escreveu assim, olha, pera aí, deixa eu pegar aqui dentro… ele escreveu, vou ler, não repare: “O olhar de paz é profundo e grave, com reflexos nos olhos de várias cores, e o que mais surpreendem é que resplandecem. As pupilas parecem raios de sol.”

Tá vendo: a senhora já ficou emocionada. Mas isso aqui é só aperitivo, mãe, o tal do Publius Lentulus estava apaixonado por Jesus! Vou dizer uma coisa pra senhora: pra variar, pensei bobagem, achei que esse negócio de achar homem bonito podia ser coisa de viado, mas ele descreve de um jeito que não tem nada a ver, assim como não teve nada a ver o meu ataque de choro.

Mãe, eu não vou virar evangélico, nem carola católico, nem coisa nenhuma, acho que vou ser meio errado o resto da vida, mas eu dei uma mudada, sabe? Já vinha pensando na senhora, durante a viagem, quando me caiu esse papel, que vou ler todo pra senhora, e por isso resolvi dar uma parada aqui. Fico uma semana, mãe, é o máximo que posso. Mas não vou largar a senhora mais nunca! E a senhora vê que coisa doida: tudo por causa de um sujeito que já morreu há dois mil anos, segundo o que Exu me contou, que se chamava Publius Lentulus e que achava Jesus bonito. É demais, né, mãe?

Do livro “Allegro” – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.