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Posts Tagged ‘alcoolismo’

Toda a família dera graças a Deus: após anos de internações por alcoolismo, perda de muitos empregos (chegara a perder, até, um emprego público), lágrimas e dor dentro de casa, com os filhos adolescentes revoltados, os irmãos ajudando com as despesas, muita novena e promessas, Yuri conseguira se acertar na vida. E tudo isso por causa do japonês.

Mestre Nagayama, como era chamado, muito mais do que um patrão compreensivo e generoso, era um verdadeiro guru para todos os seus empregados. Quando aceitou que Yuri tomasse conta da contabilidade da sua pequena indústria de produção de patinetes, foi logo avisando:

“Tomei informações do senhor e sei que tem problemas com a bebida, mas que é um profissional honesto. Se me permitir curá-lo do seu problema, seu emprego estará garantido. Se não, o senhor já sabe o que vai acontecer: o mesmo que ocorreu nos outros lugares onde esteve.”

A postura direta e generosa do novo patrão mexeu com os brios de Yuri e ele aceitou tentar curar-se. Já tentara de tudo, inclusive os Alcoólicos Anônimos, mas nada dera certo. Epifânia, sua mulher, perdera qualquer esperança, arrumara um jeito de faturar alguma coisa, vendendo perfumes naturais, do contrário ela e o casal de filhos iriam de vez para a miséria.

A transformação do ainda jovem contador foi pouco mais do que um milagre. Epifânia, os filhos, todo mundo, ninguém acreditou, nos primeiros meses. Não que Yuri fosse agitado ou violento, não era, fazia mais o estilo bêbado deprimido, que chora e pede desculpas. Mas a sua própria situação instável o deixava com os nervos à flor da pele, gaguejando, esquecendo-se de tudo, esbarrando nas portas, mexendo sem controle alguns músculos do rosto, como um piscar de olhos sem fim.

Agora, não. Sem beber um gole, pelo menos dentro de casa, tornara-se pacífico, afetuoso, compreensivo. E até fizera amor com Epifânia, numa sessão de ternuras e delicadezas que durara uma noite inteira de sábado.

“Foi o japonês também que ensinou essas técnicas pra você?”, perguntou a esposa, alegremente exausta.

“Foi. É Tantra Yoga. Nós nos tocamos, e nos tocamos, e não cansamos de nos tocar, porque você é minha deusa e eu sou o seu deus…”

“Foi o melhor jeito de fazer, Yuri, mas eu teria ficado mais feliz se você tivesse, ham, chegado lá.”

“Não, não. Se eu chegasse lá teria desperdiçado o meu amor. Seria o fim da comunhão entre nós dois. E seria a prova de que não consigo dominar meu próprio corpo.”

“Mas eu cheguei, Yuri, e nunca senti isso antes…”

“Quero que você seja feliz”, disse ele, enigmático.

Já se passara um ano de paz em casa e Epifânia participou à família, filhos inclusive, que o marido estava curado. Ganhara até um aumento na empresa, apesar da conta da livraria, um absurdo, e só de livros de meditação, espiritualismo, budismo, yoga.

Yuri evoluía mais. Tentava convencer os filhos sobre as excelências de um tal Quarto Caminho, mas não teve muito sucesso, assim como não conseguiu levar Epifânia às reuniões regulares do Grupo do Lótus Cambiante, presidido pelo genial Nagayama, cujos empregados acabavam de ganhar um prêmio de produtividade da Associação das Pequenas e Médias Indústrias. “Usamos técnicas de meditação transcendental”, ele explicara ao maior jornal da cidade, muito interessado no assunto. Na foto do grupo de meditação, lá estava Yuri, na primeira fila.

O contador, agora, pedia a Epifânia que liberasse o quarto de casal durante duas horas por dia, pois ele estava tentando mais uma técnica espiritual de equilíbrio psicossomático.

“Mas, meu amor, está tão bom assim… Você é outro homem com essas novidades todas, não precisa fazer mais nada.”

“Querida esposa: não há volta neste meu caminho. É a minha evolução, estou cuidando do meu futuro espiritual…”

Pelos livros que andava lendo e por algumas conversas ao telefone com outros adeptos, Epifânia e os filhos descobriram que Yuri tentava chegar à levitação, naquelas horas em que se recolhia ao quarto.

Certo dia, Ramiro, o filho mais velho, chegou pálido junto à mãe, que via televisão na sala, expulsa do seu canto preferido.

“Mãe, mãe, eu… estava olhando o pai pela fresta da janela…”

“O que, Ramiro, você fez isso?”

“Fiz, mãe, desculpe, mas é coisa mais séria, mãe: o pai está suspenso no ar lá dentro. Está a uns dez centímetros do chão…”

“Mentira.”

“Juro, mãe, juro. Vai lá ver.”

“Eu não. Eu respeito a privacidade do seu pai.”

Tempos depois, Epifânia respondia com alguma tristeza a quem da família perguntasse se tudo continuava bem entre eles. Ela mordia o lábio inferior (seu jeito de demonstrar preocupação) e balançava a cabeça, afirmativamente, mas não convencia. Estava tudo ótimo, ela dizia; melhor impossível, na verdade. Yuri é que andava bastante diferente. Os gestos cada vez mais lentos, harmoniosos. A fala mansa e cheia de pausas. Agora só comia arroz integral, verduras e frutas, perdera mais de vinte quilos e ganhara uma saúde inabalável. O lado afetivo, bem, desse ela não podia se queixar, mesmo. Mas alguma força superior se apoderara dele, força do bem, é claro, pois ele andava, assim, alheio ao que não fosse sua obrigação para com a família e a evolução do eu superior.

Ela não sabia se explicar direito, mas sentia que Yuri não conseguia pôr os pés no chão (literalmente, até) e isso não poderia ser, na verdade, o melhor dos mundos. Não combinava com a humanidade das pessoas e muito menos com a crueza da cidade. Talvez um pouco de boemia, de sacanagem, até uma certa inconseqüência, fizesse bem à vida dele e da família. Mas já perdera as esperanças.

Do livro “Allegro” – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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