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Posts Tagged ‘Allegro’

Não foi uma coincidência muito feliz aquela história do monstro aparecer na praia de Punta del Chifre.

Todas as piadas já haviam sido feitas com o lugar, até porque Punta del Chifre se tornara famosa pelo grande número de automóveis com namorados dentro, fazendo amor alegremente, muito longe de barulhos e indiscrições, a qualquer hora do dia ou da noite.

O monstro apareceu pela primeira vez na noite de oito de outubro, lua cheia. Foi visto pelo casal Ananias e Josefina, ele solteiro, ela casada, com dois filhos. Ela ficou tão apavorada que esqueceu todo decoro, reputação, família, e saiu correndo nua pela praia, pedindo socorro aos gritos. Ananias desmaiou. Saiu tudo nos jornais. E Punta del Chifre confirmou sua fama de reduto de traições.

O monstro, segundo depoimento da pobre senhora infiel, era um humanoide deformado, de dois metros de altura no mínimo, de braços e pernas um pouco mais longos do que os de um homem normal; e o que seria a pele era uma cobertura de algas marinhas, de odor ofensivo, que provocavam náuseas e vômitos. A cabeçorra e os traços do rosto não se divisavam bem, certamente pelo excesso de algas que lhe pendiam do alto da testa, como se cabelos fossem. Mas o pior era o grito pungente e dolorido que a criatura soltava ao sair do mar e se aproximar, com certa agilidade, das suas vítimas. Nenhum dos ouvintes soubera precisar se aquilo era brado de dor ou de fúria. Mas todos se arrepiavam.

A primeira notícia apareceu num jornal popular que a tratou com o deboche que o caracterizava: “Monstro ataca cornos em Punta”. Foi o sinal para que até programas de televisão nacionalmente famosos, além de pesquisadores europeus e americanos, transformassem a desprezível Punta del Chifre numa praia da moda. Desfiles de coleção verão de shorts e biquínis foram feitos por lá. Os donos das duas barracas de coco do lugar, que viviam cochilando, enquanto os infiéis faziam amor dentro dos carros, chegaram a quadruplicar seus lucros e houve até denúncias de periódicos de esquerda de que toda aquela agitação não passava de especulação imobiliária.

Como que respondendo diretamente a esta acusação, o monstro amassou as nádegas de Querênio Acosta, diretor de um semanário comunista, no dia em que ele e um grupo de amigos resolveram tomar banho de mar no território da entidade demoníaca. Era meio-dia, ou quase, e de repente Querênio começou a gritar, dentro d’água, e a tentar afastar alguma coisa que o estaria perturbando na parte posterior do próprio corpo. Numa dessas tentativas, sua mão direita se encheu de algas viscosas de um odor tão forte que não se despregou do seu olfato por semanas.

“É ele! É ele!”, gritava o jornalista, enquanto seus amigos riam do que imaginavam ser uma performance.

Dia seguinte, as calças abaixadas e as nádegas arroxeadas de Querênio foram estampadas nas primeiras páginas de milhares de gazetas do mundo, além de aparecerem na televisão, apesar dos protestos da vítima. O pior é que ninguém vira o monstro, dessa vez apenas uma sombra dentro da água, que em Punta del Chifre é um pouco turva, diferente das outras praias da cidade. Com essa quase aparição, somavam cinco as vezes em que o monstro fizera algum estrago. Na maioria delas, surgira repentinamente da água e se aproximara dos carros ou das barracas de coco. As pessoas saíam correndo, gritando, e pronto: o monstro desaparecia. A polícia, por sua vez, sempre se atrasava, de quinze a trinta minutos. Os moradores das casas mais próximas à praia apenas ouviam os gritos do monstro, inesquecíveis, segundo eles, verdadeiramente terrificantes. Mas, de alguma maneira, a aparição já havia virado rotina e o povo começou a se perguntar que diabo pretendia o estranho ser, aparecendo somente por ali.

Manfredo Ornellas, o único especialista em artes divinatórias, paraciência e esquisitices de um modo geral que se conhecia na cidade, acabou sendo contratado por uma marca de xampu e uma emissora de tevê para tentar explicar o fenômeno.

Na primeira noite, sempre com uma câmara a persegui-lo, Manfredo andou pela praia de Punta del Chifre, a essa altura absolutamente deserta, e perguntou ao mar e ao vento: “De onde você vem, monstro marinho?” O ambiente foi se condensando de tal forma que um dos câmaras da tevê patrocinadora, um rapaz extremamente sensível, sentiu-se enforcar por uma mão invisível, e acabou sendo retirado às pressas do local, com uma crise de ansiedade. Mas o guru, firme, passou a noite a conversar com o nada.

No dia seguinte, quando imaginavam que ele faria uma outra coisa, um pouco mais palpitante, Manfredo olhou para a luzinha vermelha da filmadora, com a experiência de quem já dera milhares de entrevistas, e anunciou:

“Já sei o que acontece.”

Correram para chamar a repórter e o especialista foi devidamente entrevistado. Descartou, de cara, uma conspiração imobiliária, ou de terroristas que tentariam insuflar o povo contra autoridades, impotentes diante do caso. Com uma simplicidade chocante, olhou para o alto, cofiou as longas barbas grisalhas e disse:

“Trata-se de uma egrégora criada pelos cornos.”

Teve de explicar que egrégora é uma força aglutinada a partir do pensamento de um grupo.

“Os cornos, vocês sabem, sofrem, consciente ou inconscientemente, a humilhação, que é muito pior do que a traição em si. Eles convivem, o tempo inteiro, com a mentira personificada por aquela (ou aquele) que o trai.”

Fez uma pequena pausa para explicar que corno não tem sexo.

“O desespero dos cornos, cujos traidores estiveram nesta praia, forjou no mundo astral esta pobre criatura que, apesar de monstruosa, apenas sofre e se lamenta da dor profunda, inenarrável, da perfídia. É um pobre coitado, o monstro. Não fará mal a ninguém…”

Manfredo Ornellas ainda foi obrigado a explicar um conceito meio complicado: o verdadeiro corno, segundo ele, não é a vítima, mas o traidor, porque só este tem consciência do crime e experimenta a culpa. Daí o monstro aparecer diante dos algozes e não das vítimas.

Todos se olharam, incrédulos; o fabricante de xampu ameaçou exigir do paracientista a devolução do dinheiro do investimento, mas, diante daquela revelação pública, o monstro não voltou a aparecer.

“Os aleivosos”, concluiu o médium, dias depois, “estão curtindo suas malfeitorias, alguns se arrependeram das torpezas praticadas, e bastou isso para desfazer a egrégora.”

A sensibilidade do mestre e o seu conhecimento profundo da lamentável condição humana lhe garantiram, no entanto, que o fenômeno certamente retornaria à cidade por meio de um novo símbolo.

“O corno”, ele admitiu, “é uma instituição secular da nossa cidade e quem sou eu para acabar com ela?”

A nova egrégora poderia repetir-se, formando um novo monstro do mar ou outra plasmação qualquer, talvez uma grande ave gasosa que atravessasse as matérias terrenas soltando grasnidos apavorantes. Seriam claras advertências àqueles que comem os parceiros dos outros:  pérfidos, pois não há dor maior do que chifres a nascer de testas inocentes!

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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A menina era magra, tinha uns dez anos, sardas e cabelos ruivos. Vestia uma jardineira meio suja de barro. Corria sob um sol manso de primavera, acompanhada de dois cães pastores, pelo jardim próximo da casa; na verdade, a área inteira era um imenso jardim, onde todos os tipos de plantas de uma floresta de chuva brotavam, exuberantes; eram árvores antigas aninhando trepadeiras jovens, frutas de vários tamanhos e cores a pender dos galhos folhados, um revoar constante de pássaros tenores e borboletas com asas de desenhos fractais.

O jardim, então, era um jardim dentro do jardim maior, e se constituía de um espaço próximo à casa, um pouco mais organizado do que no restante do sítio. Não era uma propriedade imensa: seu dono levantara alguns galpões de madeira, de telhas aluminizadas, onde cultivava alguns tipos de verduras pelo sistema de hidroponia.

A menina ia de uma flor a outra, de um canteiro a outro, andava e corria alternadamente, tão leve e graciosa que se confundia com o todo do jardim; movia-se ao sabor de um vento quase frio que começava a soprar mais forte.

“Madressilva”, dizia ela à flor, “dê um pouco da sua força à minha mãe.”

“Girassol”, insistia mais adiante, “a minha mãe está precisando de você; passe um pouco da sua energia, que é tão forte, tão bonita, à minha mãe, que está lá dentro, e está muito, muito mal.”

“Borboletas”, ia dizendo a menina a correr atrás das pequenas aquarelas voláteis, “se vocês quisessem poderiam, somente vocês, salvar minha mãe, com toda esse vigor em excesso que vocês têm.”

De repente, ela pareceu se lembrar de alguma coisa, e correu para o lado oposto da casa, onde havia um lago natural alimentado por um riacho de águas limpas mas escuras, refletindo o fundo lodoso. Os cães foram atrás dela.

“Ah”, ela falou em voz alta, “os peixes!”

Lá estavam eles, no riacho, preparando-se para cair nas águas mais tranquilas do lago e depois continuar a trajetória, passando para outro terreno, e para outro e outro ainda, até desaguar num rio sujo, próximo à cidade grande. Ali, procuravam uma outra saída em busca de vida, de oxigênio. Lá estavam: eram pobres tilápias e bagres, mas havia também os valorizados e agressivos black bass, que divertiam os pescadores de fim de semana, e que se confundiam com a água marrom.

“Garotos, garotos”, disse a menina, de cócoras à margem do riacho, “vocês estão cheios de vitalidade, agora, podem respirar bem, comer bastante… Deem um pouco dessa força à minha mãe, ela está morrendo lá na casa…”

Alguns peixes começaram a saltar, pouco antes da entrada no lago, como se sinalizassem um OK à menina, e ela sorriu. Os cães latiram, com todo aquele movimento. Ela então se virou para o maior deles, um macho de kuvasz suntuoso, de pelo branco brilhante:

“Você tem muita energia, também, Aghar. Por que não oferece um pouco à sua dona, de quem você gosta tanto? E por que não convence o Thame a doar também? Ele ainda é filhote, mas é muito forte, alguma força há de ter…”

Os cães foram se retirando, devagar. Venceram o aclive que levava ao riacho, atravessaram todo o jardim, quase colados, sem-ligar para as borboletas, os pássaros e as flores. Agora, um vento súbito, de chuva prometida, empurrou os girassóis. Os pastores entraram na casa, subiram as escadas e estacionaram à porta do quarto de sua dona. Ela estava recostada na cama, em dois travesseiros, o olhar fixo em nada. Ao seu lado, a médica e o marido não escondiam a inquietação.

“Não se preocupem, eu não vou ainda”, disse a mulher com voz titubeante. Era ruiva e sardenta como a menina. “Meu coração suporta mais um tempo”, continuou. “Quando chego aqui é como se tomasse todos aqueles remédios antigos, que me davam ânimo e agora não funcionam mais.”

“A gente pode morar aqui, em definitivo”, disse o marido, ajeitando, com carinho, os cabelos dela. “É o motivo que me falta para jogar tudo para o alto e passar a viver de plantar verduras…”

“Se ela se sente melhor aqui, acho que é uma boa decisão”, disse a médica.

“Só lamento uma coisa, e por favor não digam que estou louca”, disse a mulher. “Sobreviver não é tão bom assim. É adiar meu encontro com minha filha…”

Não conseguiu segurar o choro. O marido deu-lhe um lenço de papel que apanhou no criado-mudo.

“Não sei se a emoção, neste momento, vai lhe fazer bem. Não fale nela, pelo menos agora”, disse ele.

“Está certo”, disse a mulher. “Vou tentar.”

Aí ela viu os dois kuvasz parados à porta, olhando-a, compassivos.

“Venha, Aghar; venha, Thame.”

Eles quase pularam sobre a cama, balançando os corpos, chorando baixinho de felicidade.

A mulher mergulhou a mão direita no pelo profundo de Aghar.

Lá fora, o vento aumentou de velocidade, alguns galhos secos despencaram das árvores, e um sibilar estranho, que às vezes dava a impressão de um riso infantil, chamou a atenção de todos. Mas não era nada, somente a energia do campo.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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As noites têm sido frias, mas prefiro essa temperatura. A gente não transpira, não se sente desconfortável e, sobretudo, não é obrigada a suportar a irritação de todo mundo. É incrível como os humores mudam quando faz calor. Pelo menos no meio da rua, mesmo que esses homens tenham saído de casa para se divertir.

Os clientes têm achado graça da minha cadernetinha cor-de-rosa e da caneta da mesma cor que a acompanha, presa na lombada. Dizem as bobagens de sempre, que só gente como eu é que usa isso. Às vezes, essas coisas são ditas num tom agressivo, duro. Mas eu me acostumei tanto à minha função, que já não ouço nada. Assim como também nada sinto, fiquei anestesiada de vez depois do incidente no ano passado: corte na garganta, quatro pontos na cabeça, muito sangue. E foi o próprio cara que pagou o hospital, a plástica e a indenização de dois meses parada. Como as pessoas são estranhas: o monstro que me agrediu com tanta fúria é o mesmo que ainda me liga toda semana, que me manda flores, inclusive.

É por causa dele que fiquei indiferente a tudo, até ao carinho verdadeiro. Sabe, os boyzinhos são meigos, inseguros, fazem nanã, dão beijinhos. Um deles me disse uma vez: “Queria tanto que você fosse a Heleninha”. Que graça! Eu lhe disse: “Querido, a Heleninha vai acabar dando bola pra você, hoje em dia é tão difícil o amor, alguém que goste de alguém… Se você gosta dela, tanto assim, ela não deixará de perceber.”

Essa insensibilidade não é nada boa, não. Eu sou gente, e gente possui sentimentos… Como é difícil mentir o tempo todo! Dia desses, fui obrigada a pedir desculpas ao carinha, ele reclamou que eu estava fria. Ele disse: “Sei que faz parte, não vou querer que você goste de mim, mas você tem de fingir legal. Tem de ser atriz. Jogar o jogo”. Eu disse: “Cara, você tem razão, vou me esforçar…”

Acho que ele saiu feliz daquela noite. Por outro lado, essa frieza, essa indiferença têm lá suas vantagens. Às vezes é difícil ser tão profissional. Mas gosto mesmo é quando aparece um contador de histórias… Não quero largá-lo! Cada uma… As coisas engraçadas que as pessoas fazem, meu Deus, sobretudo nas cidades do interior… Um causo melhor do que o outro! Eu me ligo mais nas histórias de assombração, o eco dos passos dos fantasmas dentro dos casarões, os mortos-vivos que saíam dos cemitérios para dar uma volta, as noivas brancas que matavam as pessoas de susto dentro das velhas igrejas. Melhor que novela de televisão!

Agora, não tenho mais tempo de ouvir lorotas. Fico com o cliente uma hora, e pronto. Está dando certo. Hoje é dia vinte e um e já faturei mais do que em qualquer mês que me lembre. Aí os caras perguntam: “O que você está escrevendo na cadernetinha?” Eu respondo que não é nada, são umas coisas que lembrei de fazer em casa, quando voltar. Mas eu quero mesmo é ter o prazer de contar cada tostão que ganho, para sentir que estou cada vez mais perto de arrancar aqueles troços e virar mulher de uma vez.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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Encontrei J.G. Pearson num bairro longínquo da cidade, usando o nome falso de John Smith e conhecido na região como “o gringo”. Estava acompanhado da porta-bandeira da Escola de Samba Boca Vermelha, a sensacional Govinda. Não sei o que é mais incrível: se a incompetência da polícia de descobrir fugitivos, ou a ousadia do americano que, além de estar sendo caçado em todo o território nacional, é um dos primeiros da lista de inimigos públicos da Interpol. Que coisa: o cara ali, a menos de dois quilômetros de uma delegacia de bairro, passeando com um mulheraço famoso na cidade, e ninguém fica sabendo.

Eu mesmo o vi por acaso, apesar de fazer parte do grupo que o caça há tanto tempo. Estava voltando da casa de uma das minhas namoradas, a Séza, que mora por ali, quando me chamou a atenção o Mercedes do ano e a mulata ao volante. Govinda é um fenômeno, gostosíssima. Ela e o americano trocavam olhares de paixão.

O cabelo do cara é branco, de tão louro, e pensei comigo: ‘caralho, os gringos só são racistas na terra deles.’ Mas meu raciocínio é lento, reconheço. Levei muito tempo para me dar conta de que conhecia aquelas duas figuras. Só que aí não havia como alcançá-los. Mesmo assim, dei meia-volta e saí tesourando o trânsito das seis da tarde, com sirene e tudo, gritando palavrões para os babacas na minha frente, mas ninguém mais respeita nem polícia na hora dos congestionamentos. Até entendo: esta cidade está muito sofrida.

De qualquer maneira, seria fácil chegar a Govinda. Algum tempo depois, consegui o endereço. Fui lá direto. Era uma rua só de casas, calçada de paralelepípedos e cheia de árvores antigas. Crianças brincando, carrões entrando e saindo de garagens amplas. Lugar muito agradável. Minha paquera, que é do mesmo bairro, ou melhor, dos fundos do bairro, mora numa rua de merda, de asfalto carcomido e um buraco de esgoto sempre aberto, porque alguém rouba as tampas.

A casa de Govinda, dois andares, escada em S, estilo modernoso, estava fechada. Cheguei a cochilar na campana, poderia até ter sido assaltado: afinal, uso um carro de chapa fria. Mas está caindo aos pedaços, não serve nem pra desmanche.

A mulata voltou três horas depois, sozinha no Mercedes. Por mais que trepasse bem e posasse nua, jamais arrumaria dinheiro para comprar aquela máquina. Ali tinha grana pesada de J.G., como a gente o chama na polícia.

Porra, e agora? Poderia invadir a casa, dar um aperto na gostosa, mas J.G. não é burro: aquele não era seu real endereço. Fiquei rodando feito um peru pela rua, dei uma parada na padaria da esquina, lugar de viado, com um cafezinho três vezes mais caro do que o da rua da Séza. O cara do café, um tal de Riche, uniformizado, com bonezinho, todo falante, me entregou o ouro: Govinda comprava bebida light quase todo dia; chegava sacolejando os peitos, num decote criminoso, e aí o tempo parava, ouviam-se as moscas tentando pousar nos pães doces. Clientes embevecidos. Ela, de vez em quando, vinha acompanhada do gringo.

“Acho que sei quem é; acho até que já vi esse cara na televisão. Parece americano. Será que é artista?”, arrisquei.

“Nada, é trambiqueiro”, respondeu prontamente Riche. Sabe, tipo largadão, tatuagem no braço. Como é que ele iria comprar um Mercedes?”

“É mesmo. Que trambique seria?”

“Para com isso, cara. Tudo: pó, armas, essas coisas. O gringo é polivalente.”

Pedi licença, dei uma volta nos quarteirões vizinhos. Voltei à rua, não havia ninguém, subi na ponta dos pés e observei a casa. Só vi o rabo do Mercedes na garagem e um jardinzinho com cheiro de jasmim.

Voltei para mais um café; o Riche continuava excitado.

“Que você faz?”, ele me perguntou.

“Fiscal da Defesa do Consumidor. Estou procurando padarias que explorem os clientes com cafezinhos de ouro… Você acha mesmo que esta porra de café vale tudo isso?”

“O nosso é mistura: brasileiro e colombiano importado. Vale.”

“Vai-te à merda. Isso é café de supermercado, só que muito forte.”

Ainda estava reclamando quando uma visão do paraíso surgiu à minha frente. Não sabia que Govinda era mais alta do que eu. Porra! Também com aqueles tamancões que mais pareciam palanques de comício… Observei-a cientificamente, como ensinam na academia. Deu até pra medir, assim no olho, o diâmetro dos mamilos, colados à blusa branca. Usava uma calça comprida, também branca, de tecido muito leve, colada mas nem tanto, com a calcinha mínima a marcá-la. Eu, se fosse bandido rico, também investiria naquele produto.

“Quero falar com o senhor, meu senhor.”

Ela veio de dedo pra cima de mim, apesar do “senhor”.

“Eu? Nem me conheces, ó monumento!”

“Deixa meu homem em paz…”, ela pediu, baixando um pouco a voz.

Olhei para o Riche. Traíra, filho da mãe. Avisara à mulata. Bati no revólver debaixo da camisa.

“Sabe por que traíra não tem filho?”, perguntei ao puto.

“Não, não sei”. Ele estava sério, agora.

“Porque não vive pra isso. Traíra morre mais ou menos com a sua idade.

“Tá me ameaçando?”

“Claro que tô, imbecil! Depois a gente conversa.”

“Deixa o Riche em paz, o negócio é comigo”, interrompeu a esplendorosa.

“Cadê o J.G.?” Fui chegando perto dela com a mão na cintura. Ela deu dois passos para trás, os peitinhos tremeluziram como estrelas meninas no céu de Minas Gerais.

“O nome dele é John, ô tira. Deixa a gente em paz! A gente se ama. John não agüenta mais polícia atrás dele.”

“Por que? Quantos vieram aqui?”

“Você é o quarto.”

“Os outros pegaram bola?” Fui chegando mais perto.

“Que é que você acha?”

“Que pegaram.”

Disse isso e agarrei o braço da mulata. A pele era feita de chocolate meio amargo, importado. Senti o gosto. Riche, quando viu que eu não estava brincando, desapareceu dali.

“Não sou corrupto, poderosa. Não porque seja honesto. É que tenho vergonha de aparecer na televisão, no jornal das oito, tentando esconder a cara.”

“Que é que você quer de mim?”

“Faz isso comigo não, nega… Olha que eu digo! Mas uma das coisas que quero de você é dica. Informação.”

“Não vou trair meu amor.” Disse isso baixinho, já saindo, olhando por cima do meu ombro pra ver se tinha alguém por perto. Eu fui atrás.

“Você tem uma carreira pela frente”, falei no ouvido dela, sorrindo, embevecido, sentindo a flagrância do seu perfume floral. “A cidade vai cair aos seus pés, lindona. Acho que esse seu amor é um homem morto. Se a gente não o pegar, a Máfia italiana vai metê-lo numa mó de moinho. Até as digitais desaparecem. Sabe, ele está muito encrencado.”

“Ai, meu Deus!” O timbre da voz de Govinda já era de viúva.

“Vamos lá, conversar na sua casa. Pode deixar que eu dou um jeito dele passar o Mercedes pro teu nome.”

E lá fomos. De vez em quando eu espiava às minhas costas. Riche poderia ter uns amigos metidos. Ainda perguntei à gostosa de onde tinha tirado “Govinda”, já que deveria se chamar Lucineide ou coisa assim. Ela disse que achou o nome numa loja de produtos naturais. Estava calminha. Já se conformara. Conheço quando alguém está prestes a abrir o bico.

“Vou lhe dizer uma coisa, majestosa: você tem os seios mais lindos que já vi na minha vida. São irmãos gêmeos, idênticos, mas têm vida própria, cada um deles. Não pode haver poesia e nem música sem os seus seios por perto. Deus exagerou quando fez você…”

Depois me arrependi um pouco do que disse. A gente não deve tomar liberdades com informantes.

Do livro “Allegro” – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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E Joana, que até agora não veio?

Talvez sejam os meus próprios fantasmas que estejam fechando o cerco sobre mim. Não são poucos. Agora, que tenho o dia inteiro pra pensar, descobri que todos eles vêm da infância. E é engraçado: quanto mais erros encontro nos meus saudosos pais, mais os perdôo e os amo.

Minha filha Joana, assim como seus irmãos, Maristela e José, ainda refletirão muito sobre os erros dos seus próprios pais, ou seja, sobre os meus erros, sobretudo os meus, porque Florbela foi uma santa em todos os sentidos.

Sinto muito medo. Sempre senti. E aí, nos mergulhos mais fundos da alma, deitado aqui nesta preguiçosa, a televisão desligada, que não a suporto mais, fui pesquisando a origem desse medo, e lamentando as estratégias que usei, durante toda a vida, para negá-lo. Poderia ter vivido a minha própria vida, mas acabei vivendo (e estendendo aos outros, inclusive aos meus filhos) a negação de mim mesmo.

Para não reconhecer esse pavor dentro de mim, gritei, bati, ameacei, abandonei, traí. Fui, em resumo, um grande filho da puta.

Esse medo volta agora, denso, indócil. Velho como estou, e em tudo dependendo de Joana, sou a vítima preferencial do meu próprio pavor. E a única. O meu medo já não me usa para fazer os outros sofrerem. Nem Joana, coitadinha, a única que me restou e que é a cópia exata de Florbela. Tão doce. Tão carinhosa. Não consigo entender por que está solteira ainda.

Onde está ela?

São onze da noite. Ela nunca demorou tanto assim. E também não me avisou. A última aula acaba às nove e trinta. Ela poderia ficar conversando com alguma amiga, ou até namorando, mas ela prefere voltar correndo para casa e ver como anda seu velho pai. Disse-me que ia comprar um telefone celular somente para conversar comigo enquanto estiver fora. Minha santinha.

Na semana passada, nosso bairro atingiu o recorde histórico de vinte e sete crimes em uma semana. Deu no rádio. Estamos longe de ser o ponto mais perigoso, mas, com esses números, chegamos também ao quinto lugar no ranking de violência da cidade. Que tristeza!

Eu tinha uns sessenta anos, na época, portanto não faz tanto tempo assim: a gente descia lá no ponto final da linha de ônibus, a dois quarteirões, e vinha a pé até a casa para caminhar um pouco, mexer-se. A qualquer hora do dia ou da noite. Quantas vezes, às duas, duas e meia da manhã, saí do escritório (ou de algum bar), desci no ponto, vim caminhando tranqüilo, curtindo minha cervejinha, um cigarro no canto da boca. Alguns cachorros latiam, um ou outro bêbado tentava puxar conversa. Seu Joveci, aqui da esquina, ainda estava vivo e sofria de insônia. Quantas vezes não me convidou para uma saideira!

Hoje, as ruas ficam desertas por volta das oito da noite. Dizem que são as novelas de tevê, mas eu tenho certeza de que é o medo. A perua cobra um pouco mais caro, mas acaba deixando Joana na porta de casa, porque nem ela nem ninguém se arrisca a andar dois quarteirões à noite.

Os crimes também acontecem de dia. Busilis, o filho de dona Ninha, morreu praticamente na minha frente, atingido por dois tiros que um cara gordo, de camisa aberta na barriga, disparou. Busilis era traficante, todo mundo dizia, e o cara gordo seria um agente policial. Acerto de contas lá entre eles. Meu coração bateu muito forte quando vi o menino caído, imóvel, a poça de sangue se formando debaixo dele.

Preciso conversar com alguém sobre Joana. Mas estou adiando esta conversa porque minha outra filha, a Maristela, não gosta que eu ligue para ela tarde da noite. Na verdade, acho eu, sente ciúmes. “Só liga pra mim pra falar de Joana”, ela reclama. “Nunca quis saber nem de seus netos…”

Não é bem isso. Um velho se sente muito frágil, pode desmaiar, pode cair, fraturar o fêmur. Quem cuida de mim? Joana.

“Maristela, me desculpe, aqui é seu pai.”

“Boa noite… quase bom dia, pai. Que foi?”

“Filha, estou preocupado…”

“Já sei: Joana não chegou.”

“Filha, me desculpe, sei que é tarde e seu marido não gosta, mas Joana não costuma se atrasar.”

“Pai, Joana é normal, é mulher, o senhor entende?”

“Antes de mulher, ela é filha.”

“Sabe de uma coisa, pai?”

“Não… Eu tenho medo de que alguma coisa tenha acontecido com ela, Maristela. É quase… meia-noite!”

“Sabe de uma coisa? Joana precisa se soltar no mundo, arrumar um namorado, tomar um chope, chegar em casa de pileque.”

“Não diga isso, Maristela, eu estou sofrendo.”

“Sofrimento? Eu conheço, pai. Por que Joana não liga pro senhor? Ela não é rica? Não vai comprar celular?”

“Está bem, Maristela. Boa noite.”

Não queria, não queria depender de ninguém. Nem de Joana. Mas tenho aqueles remédios para tomar antes de dormir, e preciso de um pouco de ajuda para sair da cadeira de rodas para a cama. Da cadeira para a privada, até que me acerto bem. Não sei o que vai acontecer. Talvez ela volte mais tarde mesmo, de pilequinho. Aposto que vai pedir desculpas, quase chorando, de ter-me deixado aqui, nessa agonia. E eu vou dizer assim: “o que é isso, filha? Você também tem o direito de conhecer o mundo…”

Do livro Allegro – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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Já fazia uma semana que Nhá Sirvina não pisava na loja. “Alguma coisa errada tem”, pensou seu Ferreira. Outra que não aparecia era dona Rosa Machado, mas esta só há uns três dias.

O português, apesar da aparência largada, barba por fazer, camiseta regata, e de soltar uns palavrões que, de vez em quando, deixavam as pessoas arrepiadas, era muito cioso das suas conquistas comerciais. E aquelas duas mulheres, entradas em anos (Nhá Sirvina já passara dos setenta), visitavam todos os dias, com rigor religioso, a lojinha de tecidos. Compravam, no máximo, três peças por semana. Um zíper hoje, uns botões amanhã, e entretelas, agulhas, linha. Coisinhas. Mas compravam.

Seu Ferreira estava convencido de que dona Rosa Machado guardava ilusões românticas a seu respeito, apesar de comportar-se como uma dama, sempre; já o problema de Nhá Sirvina era de solidão mesmo: sozinha no mundo, morando com o filho único, o Lulão, que jamais aparecia em casa, ela precisava conversar com alguém. Escolhera o português.

“O que está errado na porra desta loja?”, perguntou seu Ferreira para si mesmo, em voz alta, assustando umas clientes que olhavam peças de algodão cru. “Será que elas não vêm por causa dos assaltos?”

Imaginou, por um momento, que o noticiário da televisão sobre os perigos da zona portuária, onde se estabelecera, estaria afastando a clientela. “Mas, grandes merdas”, dizia-se sempre em voz alta. “Os bairros ricos são os mais perigosos, aqui só tem pé de chinelo, uns coitados que roubam pra beber cachaça… Será que tem alguma coisa a ver com Xibiu?”

Lá estava Xibiu, olhando para ele com um “amor desesperado que me faz chorar”, como o próprio seu Ferreira definia o afeto que o adolescente, portador da Síndrome de Down, lhe dedicava. Xibiu estaria completando, agora, uns quinze anos. Seu Ferreira até evitava encará-lo por mais tempo, pois o rapaz soltava um urro assustador, de amor puro, levantava-se desengonçado (estava engordando demais) e corria até o português para abraçá-lo e cobri-lo de beijos.

“Ô, pare com isso, maluco, pare, pare…”

Seu Ferreira dizia “pare, pare”, mas, no fundo, não podia passar sem aquele carinho. Nunca tivera irmãos, namoradas, amantes. Servia-se das prostitutas ali de perto, uma de cada vez para não “pegar costume”. Dona Adélia, sua querida mãe e até então a única afeição da vida, morrera em Trás-os-Montes aguardando a passagem para viajar ao Brasil. Mas isso já fazia uns vinte anos. O segundo afeto do português era o Xibiu.

“Xibiu, você fez alguma coisa com dona Rosa Machado e com Nhá Sirvina?”

O garoto balançou alegre e violentamente a cabeça, de um lado para o outro, enquanto emitia seus impressionantes ruídos guturais.

“Entende tudo, o puto”, pensou seu Ferreira, sem deixar de sentir uma ternura definitiva pelo garoto. Xibiu surgira na sua vida há treze anos, quando uma mulher jovem e bem-vestida apareceu na lojinha. Trazia uma criança num saco às costas, o que não era muito comum por ali. De relance, porque atendia a outros clientes, seu Ferreira pensou tratar-se de uma criança japonesa. “Pai japonês, ou chinês”, pensou consigo. De repente não viu mais a mulher e, quando foi fechar a loja para almoçar (era o único comerciante que ainda fazia isso na rua), descobriu, numa pilha de tecidos desfraldados, que haviam sido arrumados como um berço, a estranha criança, dormindo. Teve certeza, depois, que lhe haviam dado alguma droga para que não fizesse barulho.

“Mas que filha duma puta!”, foi sua primeira reação. Correu para a rua atrás da mãe desalmada, mas nem sinal. Preocupado, logo voltou à loja vazia, e o garoto ainda dormia.

Desconsolado, mostrou o troféu para seu Golinho, do bar ao lado, e dona Aírdes, do brechó da esquina. Seu Golinho não teve reação, já estava tão calibrado àquela hora do dia que confundiu o garoto com um delirium tremens inédito.

“Que agonia!”, foi seu único comentário.

Já dona Aírdes encantou-se.

“Tão engraçadinho”, ela disse, sempre de coração mole. “Dá pra mim, seu Ferreira?” E ele, cuja reação natural seria livrar-se do problema o mais rápido possível, surpreendeu-se com a própria resposta: “Não, não. Já que veio, agora é meu”.

Recebeu, depois, todos os conselhos para procurar a polícia, o Juizado de Menores, as associações que cuidam de crianças com Síndrome de Down, mas negou-se, com firmeza. “Se veio é porque Deus mandou; se mandou, Ele sabe o que faz.”

“Mas você é sozinho, não tem nem mulher”, dizia-lhe o pessoal da rua. “E se você morrer? ”

“Bem, se eu morrer estarei fudido, mas o maluquinho vai ficar fudido e meio e aí alguém dará um jeito…”

Assim, a criança foi criada sem nome e sem documentos. O único cuidado que seu Ferreira tomou foi o de procurar Augusto Preto, o policial que dava proteção ao comércio da rua. Preto lhe garantiu: se ele chegasse à delegacia com a criança, iriam levá-la na hora para uma casa de caridade qualquer. “Ah, esta não, Augusto. Deus não iria me perdoar. Se Ele mandou…”, repetia seu Ferreira, com sua lógica inamovível. “Vai levando, vai levando…”, desconversou Augusto Preto, especialista na arte de fingir que não via.

Desde os cinco anos o garoto olhava para as pessoas com aquele “amor de fazer chorar”, mas com seu Ferreira era diferente. Além do olhar profundo, melado, ele agitava braços, pernas, o corpo todo ao ver o português. Um fenômeno de afeição. Seu Ferreira não aguentava. Mas, agora, ele sentia que o filho adotivo aprontara alguma.

“Diz pra mim, Xibiu, que foi que você fez?”

Neste momento apareceu Lulão, que há muito tempo não via. Andava com raiva dele: como podia largar a própria mãe, às vezes por semanas, e sumir no mundo? Não é atitude de filho. E o português sempre o cobrava de uma forma rude:

“E aí tu somes, ô gajo, e sou eu que tenho de aguentar as baldas da tua mãe…”

“Ah, seu Ferreira, casa com ela…”

“Estás louco, patife? Pensas que tua mãe é uma misse?”

Lulão soltava gargalhadas. Era todo errado, mas bem-humorado e paciente. Muito, muito safado. Fora ele que dera o apelido de Xibiu ao garoto. Lulão não perdia uma chance de inventar alguma maldade. Somente anos depois da chegada do filho adotivo, seu Ferreira foi descobrir que xibiu era nada mais nada menos do que um dos muitos apelidos populares de vulva.

“Ó canalha”, irritou-se o português, “por que destes o nome de buceta ao meu menino?”

“Ele parece, seu Ferreira.”

“Mas como parece, canalha, se nem pelos tem no rosto…”

“É o jeito, a expressão…”

“Canalha!”

E lá estava Lulão, com seu sorriso cínico. Por que aparecera? Cumprimentou o rapaz e aproveitou para perguntar pela mãe dele.

“Não pisará mais aqui”, disse Lulão.

“Mas por quê? Que aconteceu?”

“Xibiu mostrou o pinto pra ela. Parece que tava meio doidão. Coitada, mãe não vê isso há mais de trinta anos. Ficou traumatizada.”

“Mas é só um menino, Lulão. E maluquinho.”

“Mas pelo jeito é uma grandeza.”

“Grandeza que nada. É um pinto qualquer. Você conhece caralho, não conhece?”

“Só o meu.”

“Que é isso, Lulão? Venha cá, vou mostrar pra você…”, disse o português dirigindo-se ao garoto, que continuava a expor sua eterna felicidade.

“Não, não, pode deixar, seu Ferreira. Quero ver não…”

“Não fala asneiras, pois.”

Então era isso. O garoto virando rapazinho e, sem noção de coisa alguma, mostrava o pinto às freguesas. O português ganhara um problemão. Não poderia tirá-lo da loja, prendê-lo em algum lugar. Não adiantaria dar-lhe uma surra, ele não iria entender. Arrumar uma prostituta para aliviá-lo, nem pensar. Nesta idade, recordou, tesão não tem fim. Ou seja: o garoto continuaria a mostrar o pinto.

“Estou falido”, decretou o português, “se não der um jeito nisso, o mais rápido possível.”

Naquela noite passou horas diante de Xibiu tentando adverti-lo, inclusive com gestos dramáticos: se mostrasse o pinto às mulheres, elas poderiam reagir, cortando-o com uma tesoura. Mas o garoto não deu mostras de ter compreendido. Acabou dormindo, como um anjo, nos braços do pai.

“Por que Deus, que lhe tirou o juízo, não lhe tirou também o tesão?”, indagou-se seu Ferreira. “Uma coisa deveria depender da outra…” Depois, concluiu que Deus sabe o que faz, pediu perdão a Ele na oração noturna. Quando acordou, no dia seguinte, a solução do problema veio junto. Deus ouvira suas preces. E a solução era simples.

Seu Ferreira levou dois dias ensaiando o que dizer às duas mulheres escandalizadas. Primeiro iria procurar Nhá Sirvina, o caso mais complicado; depois, dona Rosa Machado. Pôs seu paletó branco de dez anos atrás, vestiu Xibiu com sua melhor roupa, que já estava apertadíssima, e lá foram os dois, rua afora, recebendo cumprimentos e sorrisos. Eram extremamente populares no bairro.

Foi a própria Nhá Sirvina que atendeu, e não parecia zangada ao vê-los.

“Seu Ferreira, que milagre, esta é a primeira visita que o senhor me faz!” – disse, abrindo a porta e convidando os dois a se acomodar na mínima sala de estar do sobradinho.

Apesar dos protestos do português (“já comi, estou inchado”), Nhá Sirvina serviu cafezinho, ofereceu bolos e doces. Xibiu aceitou por ele e pelo pai adotivo. Comia com volúpia.

“O assunto é de grande constrangimento, Nhá Sirvina”, iniciou o português. “Mas sou obrigado a lhe falar…”

“Que aconteceu, seu Ferreira?”

“Bem, fiquei sabendo que o Xibiu aqui mostrou o pinto para a senhora lá na loja.”

Ele não esqueceria aquele silêncio pelo resto da vida. Nhá Sirvina ficou pálida, primeiro; depois se levantou, sem rumo, arrumou a mesa, que não carecia de arrumação. Disse, com a voz trêmula:

“Ninguém me mostrou nada, seu Ferreira…”

“O maluquinho não lhe mostrou o pinto, Nhá Sirvina?”

“Nada, nada, nada, seu Ferreira”, a voz já havia se transformado, elevara-se alguns decibéis.

“Mas que canalha!”

“Quem, seu Ferreira? O menino não fez nada…”

“Não, não é o Xibiu, não. É quem inventou essa história…”

“Ah, não ligue, seu Ferreira. O senhor tem certeza de que não aceita compota de goiaba?”

“Sabe, até vou aceitar. Me saiu um peso da cabeça…”

E ali ficou, quase uma hora, a loja fechada, ouvindo a mulher discorrer sobre a gripe terrível que se abatera sobre o bairro e que derrubara muita gente, ela e dona Rosa Machado inclusive. Seu Ferreira olhava, de vez em quando, para Xibiu, pensando que o garoto era mesmo o seu único e definitivo amor, e o rapazinho lhe retribuía em dobro, às vezes ronronando, às vezes soltando uns gritos arrepiantes, enquanto devorava o último naco de goiaba da compoteira.

Do livro Allegro – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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“Ela agora é um vegetal.”

Foi assim que dona Larissa, de volta do hospital, definiu Toninha, sua própria filha, às vizinhas reunidas na sua casa. Havia um clima de velório, ali, e as crianças estavam muito confusas com aquela história. Dona Larissa ficou com vergonha de confessar que esquecera o nome da doença de Toninha e preferiu dizer que nem os médicos sabiam.

“Ela voltará a si?”

“Pode voltar, pode não voltar. Pode ficar assim por uma semana e morrer. Pode ficar assim para o resto da vida.”

Uma semana depois, quando Toninha retornou a casa, de ambulância e de maca, as crianças suspiraram: o “vegetal” era a mesma Toninha de sempre, meio criançona apesar dos vinte e dois anos, e que gostava de se vestir de bruxa para perseguir a molecada da rua. Era uma farra. Agora, como iria dormir sem hora para acordar, a brincadeira ficara adiada, sabe-se lá até quando. Aquele pessoal com menos de onze anos sentiu muito.

Mas nem se passaram cinco dias, quando o povo, ainda chocado, viu dona Larissa, sempre com um enorme lenço de choro no bolso, receber o caminhão da “Sorte é pra quem pode”, promoção das Lojas Sol. O veículo ocupava metade da rua, que era meio torta, com muitos problemas no calçamento e poucas árvores, e estacionara em frente à pequena casa.

“Dona Larissa! Dona Larissa!”, gritou um palhaço, acompanhado de uma câmara de televisão, “a senhora ganhou a troca de todos os seus móveis e aparelhos domésticos! A sorte é pra quem pode!”

Uma pequena multidão se acercou da casinha, e dona Larissa, cujo marido havia se engraçado por outra, e que vivia de produzir bolos e doces, já não conseguia controlar o choro e o riso, que agora vinham intercalados. As vizinhas, eufóricas, confluíram rapidamente. Ela, no centro das atenções, não largava o lenço grande, orientando a equipe de carregadores a acomodar os móveis novos, belíssimos, e a retirar os antigos, lamentáveis.

Na confusão, um dos carregadores lhe pediu para acordar a mocinha lá dentro, a fim de trocar a cama, e aí dona Larissa caiu num choro mais dramático, correu até Toninha, beijou-a muitas vezes no rosto.

“Ela não acorda mais, senhor. Come, faz necessidades, tudo, tudo, sem sair da cama. Mas, de vez em quando, chora. Eu fico preocupada: será que ela está vendo o que acontece aqui?”

O homem, muito impressionado, disse que seguramente não. Mas, com certeza, e até pra compensar sua situação, ela estaria desfrutando dos mais lindos sonhos que um ser humano poderia ter.

“O senhor acha mesmo?”

“Tenho certeza, dona. Conheci uma pessoa assim que, quando acordou, contou os sonhos que teve. Eram, assim, coisas impossíveis de descrever, de tão bonitas. Eu mesmo achei que valeria a pena dormir daquele jeito”, insistiu o homem, com um hálito de cerveja recente.

“Será?” Dona Larissa guardou o lenço grande, já imaginando uma forma de acomodar a filha na cama nova.

Dona Cléssia, da casa da frente, veio dar um abraço na amiga e lhe garantir que a sorte, de fato, não é pra quem pode, mas pra quem merece.

“Depois de Cristo, a pessoa que mais sofreu foi você, Larissa”, ela garantiu, acomodando no ombro a cabeça da amiga. “Você merece todos esses móveis lindos, e essa geladeira, você viu?, é enorme, de duas portas…”

“Vai ter de ficar na sala, porque na cozinha não cabe”, lamentou dona Larissa. “A televisão é muito grande também, mas entrou no quarto. Se eu usasse uma cama de casal, como antigamente, não daria.”

“Os móveis velhos vão ser um problema, não, minha amiga? O pessoal do caminhão vai levar?”

“Eles vão me indenizar, é um bom dinheiro, faz parte da promoção…”

“Meu Deus, mas que sortuda!” Dona Cléssia aproximou os lábios do ouvido de dona Larissa. “Será que é por causa da doentinha, essa sorte?”

“Não sei, não pensei nisso…”

O palhaço, que acabara de distribuir balas e balões coloridos às crianças que iam aparecendo, veio chamar “a dona da sorte” para dar uma grande entrevista, falando da felicidade que as Lojas Sol lhe haviam proporcionado.

“Não precisa falar da moça com problemas”, disse o palhaço. “Só coisa boa, coisa boa! E meta esse lenção no bolso!”

Ela falou, do jeito que lhe disseram, mas não foi possível demonstrar toda a alegria que eles queriam. A entrevista acabou suspensa porque dona Larissa percebeu que uma pessoa estranha entrara na casa. Ela gritou, dando o alarme. Os carregadores ajudaram a tirar, lá de dentro, um bêbado que procurava comida na geladeira nova.

“Porra! Essa zona toda aqui e tem uma mulher dormindo lá dentro”, ainda comentou o bêbado, antes de levar um empurrão mais agressivo.

“É o vegetal”, esclareceu Neivinha, uma menina de dez anos, da rua ao lado.

Antes de voltar à filha imóvel e de especular sobre aqueles sonhos lindos com que ela se deleitava, dona Larissa ainda atendeu dona Júlia, proprietária de um salão de belezas ali perto, que gostaria de tocar, apenas tocar a menina adormecida, além de fazer uma oração para o seu despertar.

“Eu deixo, dona Júlia. Mas, por que mexer nela?”

“A senhora não entendeu, dona Larissa? Ela dormiu para lhe dar sorte. Vou confessar pra senhora: nunca vi um fogão de tantas bocas, assim, pessoalmente. Mas eu estou precisando, também, de algumas coisas. Sei que pedindo para ela serei atendida. Acho que esse sono dela faz uma ligação direta com os Santos Anjos.”

Dona Larissa agradeceu, esperou ali ao lado que dona Júlia completasse seu pedido e, quando ela saiu, dirigiu-se à filha adormecida, acariciando-lhe a testa imóvel. Toninha não mudou a serena expressão do rosto, própria de quem viaja através dos tais sonhos indescritíveis.

“Eu queria lhe agradecer, minha filha, por todos esses presentes”, disse dona Larissa, “mas eu trocaria tudo, tudo, pelo presente maior que é ver você acordada”.

Tirou o lenço grande do bolso e, como não havia ninguém por perto, assoou o nariz.

Do livro Allegro – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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