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Posts Tagged ‘cadela’

Seu Beato gostava de ver aquele sorriso de simetria perfeita, dentes enormes, sob o bigode negro e grosso. O sorriso vinha de um homem muito jovem, chegando pelo lado oposto, sem pressa.

“Muito bem, Zé Tião”, disse seu Beato, carregando a bíblia na mão direita e protegendo-a contra o peito. “Com um sorriso desse tamanho, parece que hoje vai ter muita alegria pra tu!”

Os dois se moviam no cenário estropiado da Favela do Luque, uma das maiores da cidade. Cruzavam-se num beco imundo, onde mal cabiam os dois.

“A alegria”, disse o homem sorridente dos bigodes grossos, “é só porque eu gosto de provocar os cachorros”.

“Não…”, disse seu Beato, muito sério de repente, estacando, “tu não vai fazer o que eu tô pensando”…

“Vou sim, seu Beato!”. O sorriso perdeu um pouco o brilho, mas não se apagou. “Queria garantir pro senhor que é só desapropriação. Não vai ter violência. Reze pro trabalho dar certo, seu Zé!”

Seu Beato, que já passara dos sessenta, parou o rapaz, segurando-o pelo braço, e assumiu um ar paternal.

“Meu filho, como pode garantir que não vai haver violência num assalto à mão armada? A danação pode vir de todo lado, pode ser da polícia contra você, ou, se a vítima estiver armada, pode estourar tua cabeça. Depois, toda fuga é perigosa, você pode se matar sozinho, até jogando o carro contra um poste. Eu já fui bandido, Zé Tião, eu sei!”

O sorriso do homem mais jovem foi-se apagando. Retirou com delicadeza a mão de seu Beato, que apertava seu braço com força, e segurou-o pelos ombros, com um carinho de filho.

“Sei que o senhor só quer o meu bem, seu Beato, mas meu parceiro na empreitada é o Rafa. Ele é artista, seu Beato. Tá estudando o caso há mais de um mês.”

“Deus seja louvado, Zé Tião! Rafa é um demônio aqui na Terra! Já disse que ele vai ser sua perdição, meu filho”…

“Não, não, seu Beato, Rafa é meu amigo e eu seguro a ruindade dele. O senhor não precisa se preocupar.”

O velho se desvencilhou do rapaz e seguiu em frente, andando mais rápido, a testa franzida, como quem não quer saber mais de conversa. Zé Tião correu atrás.

“Me entende, seu Beato, me entende: não posso fazer esse serviço junto de um parceiro sem experiência!”

“A vida é tua, Zé, e quem resolve é tu. Eu já cansei de lhe dar conselhos.”

Seu Beato apressou ainda mais o passo, além das possibilidades da sua idade e reumatismo, e Zé Tião desistiu. Aí começou a procurar o que lhe trouxera até aquele pedaço de favela, de becos tortos e estreitos: cadelas no cio.

Ele sempre levava, para os assaltos, em geral a sítios e mansões, uns paninhos encharcados de sangue das cadelas. Aprendera, ao longo de dez anos de crimes, que isso anulava os cães de guarda. Extasiados com o odor paradisíaco, os bichos sequer latiam. A coisa só complicava um pouco quando os cães de guarda eram, justamente, cadelas. Mas isso era raro.

Uma hora antes do encontro marcado com Rafa, na entrada de uma das BRs mais movimentadas do Estado, Zé Tião preparou-se para roubar um automóvel. Procurava algum estacionado, sem ninguém por perto. Não gostava de assaltar. Escolhia uma marca popular, um carro discreto, para não chamar a atenção das rondas da polícia militar.

Encontrou um, de cara, numa rua deserta. Procurou o alarme: não tinha. Abriu-o com extrema facilidade: bastou araminho com um gancho na ponta, entrando por um vão do vidro da porta; puxou a trava. Foi tão fácil que teve de fazer hora, tomando café num bar ali perto. Também não gostava de permanecer muito tempo com carro roubado, apesar da certeza de que o dono daquele ali dormia tranquilo em casa. Mas, se alguém desse o sinal… Aí resolveu efetuar uma segunda operação, afinal tinha tempo de sobra: furtou uma placa, de um outro veículo, e trocou-a pela do primeiro. Melhor assim.

Sentiu-se mais seguro e saiu devagar para o encontro marcado, dirigindo cuidadoso como se o carro fosse seu. Rafa não se acertava com furto de carros, não tinha nervos para isso. Era melhor de campana, exímio observador das vítimas e seus costumes. Dessa vez, escolhera um sítio próspero, onde vivia um avô com a neta adolescente. De guarda, somente um pastor alemão e um vira-lata. A casa, certamente, guardava dólares e joias, e o automóvel do velho, um modelo importado muito caro, renderia um bom dinheiro no desmanche de Evandro Roxo.

Zé Tião chegou e não gostou do jeito do Rafa, que ria muito e pra si mesmo.

“Amigo”, perguntou Zé Tião, ensaiando seu sorriso largo, “você andou se turbinando”?

“Que é que você acha, Zé?”

“Que se turbinou.”

“Então tá: me turbinei.”

Zé Tião suspirou fundo.

“Olha, amigo, eu vou lhe dizer uma coisa muito séria: você não vai atirar em ninguém, não vai barbarizar, nem cheirar, nem fumar.”

“Se não, acontece o quê?”

“Eu apago você.”

“Nunca te vi assim, Zé Tião. O que é isso?”

“Promessa. Que eu me fiz a um amigo. E não vou falar mais nada.”

Rafa parou de rir e os dois seguiram para o sítio. Rodaram horas na BR. Chegaram por volta das três da manhã. Zé Tião desceu do carro com os panos do cio na mão.

“O Pastor Alemão, você me disse, é macho. O vira-lata também é?”, perguntou Zé Tião.

“Isso não sei. Não me lembro de ter visto tetas no bicho. Deve ser.”

Zé Tião agitou os panos, tentando impregnar o ar com o odor. Os cachorros não latiram. Os dois homens, duas sombras, foram se aproximando sorrateiramente. Só se ouviam os sapos. O portão principal do terreno, de madeira grossa de lei, tinha mais de dois metros de altura. Dentro, luzes em profusão, spots imensos por todo lado. Haveria segurança eletrônica, com certeza.

Zé Tião também era um especialista em arrombamento sutil. Com seus fios elétricos e algumas ferramentas mínimas, conseguiu abrir a tranca do grande portão. Tão novo que a madeira emanava um cheiro bom. Os cães continuaram mudos. Os panos, que haviam sido apenas agitados contra o ar, funcionavam mesmo.

Zé Tião abriu apenas uns centímetros de portão e viu os dois cães a poucos metros, olhando para os lados, mas tranquilos. O Pastor Alemão pendia a língua, ofegante. A luz forte mostrava sua exuberância: todo cinza, com uma capa negra sobre o dorso. Lindo. O outro, provavelmente filho bastardo do Pastor, era amarelado e desprezível.

Zé Tião atirou os panos para um lado do terreno, a uns vinte metros da entrada, e os cães seguiram, vagarosamente, em direção à isca. O caminho estava aberto.

“Zé”, disse baixinho o Rafa, voltando a rir, “quando você vir a neta do velho, vai esquecer daquela história de me matar por causa de merda. Eu deixo você comer primeiro.”

Bem que seu Beato tentou evitar o homem do sorriso grande. Viu que era ele, aí virou o rosto e apressou o passo. Já estava uns metros adiante quando Zé Tião, dessa vez usando certa força, segurou-o firme pelos ombros, imobilizando-o. Quase um abraço.

“Não quero falar com você…”, resmungou seu Beato.

“Acho que vai querer, sim. Não fala mais com quem segue seus conselhos?”

Zé Tião relaxou o abraço e seu Beato se desvencilhou, mas não conseguiu, uma vez mais, resistir ao sorriso do rapaz, hoje mais luminoso do que nunca.

“Que é que tu fez, Zé?”

“Resolvi pra sempre o problema do Rafa.”

“Tu?”

“Isso.”

“E o revertério? O pai dele, aqueles irmãos bandidos, os amigos…”

“Todo mundo está dando graças a Deus que ele se foi. Nem eu consegui segurar a ruindade dele…”

Seu Beato fez uma oração silenciosa pela alma danada do bandido, mesmo certo de que o inferno seria pouco para ele. E começou a se preparar, mentalmente, para convencer o amigo a mudar de ramo. Com aquela inteligência e simpatia, e aquela proteção tão forte, bem que Zé Tião poderia se transformar num estelionatário competente, desses que nem chegam perto de armas de fogo. O mercado de carteiras de identidade, cartões de crédito, passaportes, holerites, atestados de residência, todos falsos, crescia cada vez mais no Brasil. Com sua habilidade, Zé Tião, quem sabe, poderia até imprimir dólares, que são fáceis de repassar.

O pastor abandonara aquele mundo informal, mas o conhecia como poucos. Zé Tião era um caso especialíssimo que seria assistido – seu Beato não tinha a menor dúvida – pelo próprio Jesus.
Do livro “Memórias Embriagadas” – Editora Noovha América, São Paulo, 2008.

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Atravessara a cidade, subira umas dez ladeiras, engatando primeira-segunda, primeira-segunda, embrenhando-se naquela Vila Péricles de sobradinhos iguais; superara até o medo de ser assaltado só para fazer a cachorra cruzar. “Realmente sou uma besta”, confidenciou à linda pastor belga ao seu lado. Com seu olhar piedoso, ela pareceu concordar. E ele, falando sozinho, alto: “É aqui, número oito… mas que prédio esquisito… três andares…”

Desceu da picape do ano, enorme, importada. “Ainda vão me pegar aqui”, pensou, dando uns tapinhas na cabeça de Gini, “mas você me defende, não é, minha paixão?” Gini mais uma vez olhou para ele com piedade e mexeu o corpo para descer do carro. Não havia ninguém na rua. Também, num domingo à tarde…

“Ô de casa!”, ele gritou, com uma voz máscula, meio agressiva, até. Um recado para o provável assaltante.

“Ê, ê!”, respondeu uma voz de mulher, mais agressiva ainda. “Ê, meu senhor! Tô aqui!”

Olhou pra cima e só viu uma cabeça grisalha despontando da varanda do último andar. Rosto redondo. Quem seria? Onde estaria o sujeito que marcou com ele, o dono do reprodutor?

“O senhor veio é cruzar, né mesmo?”, perguntou a cabeça lá em cima, esforçando-se para aparecer mais. Desconcertado, ele olhou para Gini, ao seu lado, e achou melhor não responder “e o que é que a senhora acha?” Nada de ironias. Segundo o pessoal do Kennel, naquele lugar horroroso vivia o mais belo pastor belga gronendael da cidade. Bonito e prolífero: com ele, as cadelas pariam dez, doze filhotes.

“O Hermano não está?”, perguntou à cabeça longínqua. “Marquei com ele aqui…”

“Meu filho é um irresponsável, viajou”, disse a mulher, sem hesitação. “Olhe, dez minutos atrás eu já sabia que o senhor estava chegando. O louco ficou todo alvoroçado, andando de um lado para outro… assim, resfolegando, nervoso… é um louco…”

‘Louco? Será que ela se referia mesmo ao reprodutor?’

“Mas é melhor o senhor subir, não é, meu senhor? Senão, não acontece nada… É só empurrar o portão…”

Ele foi subindo, puxando Gini pela coleira. Degrau que não acabava mais. Perdeu o fôlego. “Preciso aumentar o tempo do personal training”, ia pensando, até que um vulto negro, imenso, deu um salto à sua frente, rosnando como a Besta do Apocalipse. O coração, que já saltava de cansaço, agora disparou.

“Minha senhora, segure esse bicho!”, implorou, enquanto tentava deter Gini, que disparara escada abaixo. Perdeu o equilíbrio, agarrou-se na mureta, quase rolou pela escada. Levou um tempo para se refazer.

“Calma, meu senhor, é que esse louco é maníaco, também. Olhou pra sua menina e já ficou empolgado… Sai pra lá, tarado! Cisca daqui, doidão!”

O cachorro, belíssimo, obedeceu com o rabo entre as pernas. Aí ele examinou melhor a mulher. Baixinha, uns sessenta e poucos anos, avental, sandálias, jeito de mamma italiana. Havia nela uma energia poderosa, autoritária, mas legítima.

“Pode entrar, meu senhor, pode sentar. Não leva muito tempo…” Olhou fixamente para a tímida Gini. “É a primeira vez dela?” Ele fez que sim com a cabeça. “Mas como esse louco tem sorte!”, brandiu, olhando para o acuado pastor belga e depois para o homem. “Sabe, meu senhor, a maioria das meninas que vêm aqui é virgem! Mas pode deixar os dois aí soltos, na sala mesmo, sem problema nenhum… Primeiro é aquela cachorrada, quer não quer, morde não morde, depois o louco vai lá, e crau!”

Ficou por ali, tentando encontrar alguma coisa para olhar, enquanto a mamma observava com ar de reprovação o pega amoroso que já começara. Gini, sempre muito sensível, parecia sofrer com a iniciação brutal. Seus olhos diziam isso.

“Sabe”, disse a mamma, “eu fico olhando assim o senhor, todo riquinho, cheiroso, cabelinho com gumex, cafetinando cachorra num domingo de tarde. Credo! Mas tem doido pra tudo e gosto não se discute… Vamos lá, tarado, acaba logo com isso!”

O homem teve a nítida impressão de que alguma coisa muito profunda estava errada com sua própria vida. Sentiu-se, mesmo, um miserável.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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