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Posts Tagged ‘Câmbio’

 

 

Quando acomodou-se no banco traseiro do Mercedes sentiu que alguma coisa acontecia com suas nádegas.

Apalpou-se todo por trás: era a nádega direita que se desprendera do corpo, petrificando-se.

Saltou do carro com as duas mãos segurando firme a pesada (bronze? ferro? aço?) escultura de si mesmo.

Entrou em casa (casa o quê! Palácio…) e se tivesse forças correria ao laboratório particular para identificar cientificamente o material em que a nádega se transformara.

O videofone tocou, ele atendeu com dificuldade.

“Ah, Geodésio…”

“O senhor pediu para ligar.”

“Comprou Vale do Rio Doce?”

“Sim. E também Banco do Brasil.”

“Petrobras?”

“Hoje não foi possível.”

“Imbecil!”

“Sou, sim.”

Neste momento, o videofone caiu com seu braço direito junto, petrificado. Do mesmo material da nádega. Ele ficou inquieto com a possibilidade da linha também cair. Usou o braço esquerdo para apanhar o videofone. Quase não conseguiu.

“Geodésio!”

“Aqui, senhor!”

“Compre Petrobras. A qualquer preço. Eu mando!”

“O senhor manda.”

A nádega direita já arrastara as calças para o chão.

“Geodésio: não tenho muito tempo. Só uma coisa: vendeu Sul América?”

“Claro, senhor.”

“Ainda bem. Desligo.”

“Sim senhor. Câmbio…”

“Câmbio é brincadeira, Geodésio?”

“Apenas inconsequência.”

“Não entendo você.”

Desvencilhou-se finalmente das calças, deixou o braço no chão, arrastou-se para a escada que dá direto ao solário. No terceiro degrau, seu conjunto sexual, incluindo pelos, desabou por dentro das cuecas. Aí, decidiu:

“Tenho de chegar ao solário, à minha senhora…”

Não sei se precisamente: mas no sexto degrau o outro braço caiu (do mesmo material, tudo indicava, e que diabo: bronze? ferro? aço?). No oitavo degrau foram as duas pernas. Faltavam mais dois degraus e ele levou aproximadamente quarenta minutos para chegar à entrada do solário. Foi extenuante. A senhora estava lá, à beira da piscina, nua, cor de bronze (seria bronze, o material?).

“Amor de minha vida!”

“Benzinho! Você ficou interessante assim, fragmentado.”

“Esqueci! Esqueci!”

“O que o atormenta, Baby-Boy?”

“Preciso falar de novo, já, com Geodésio!”

“Eu faço a ligação, ternurinha.”

(Pururum – Pururum – Pururum – Pururum – Pururum – Pururum – Pururum)

“Geodésio, boa tarde. Meu esposo tem pressa.”

“Sim.”

Ele falou mais alto que de costume.

“Geodésio: esqueça aquelas ações. Dê máxima urgência ao Projeto dos Fundos para a Estátua!”

“Claro. Agora. O nosso escultor-executivo está como sempre de plantão. O senhor quer vê-lo?”

“Não. Quando ele chegar aqui a estátua estará pronta, só precisa armar. Geodésio: minha cabeça pesa, a qualquer momento cai.”

“Dez minutos e ele estará aí. Um ótimo escultor.”

“Você também é um ótimo secretário, Geodésio… Geodésio:  minha senhora conseguiu o bronzeado total no corpo!”

“Dou-lhe os parabéns.”

A mulher sorriu, lisonjeada. Voltou-se ao marido.

“Já posso desligar; tudo do meu tudo?”

“Claro, amor.”

“Então desligo. Ah… queridinho: quando sua cabeça desabar, quanto tempo teremos de diálogo?”

“Imagino que três minutos, no máximo.”

“Escute, paixão: tomei a liberdade de encomendar um dizer. Posso lhe segurar um pouco a cabeça para alongar o diálogo?”

“Pode. E faça o que quiser com o epitáfio, ou o dizer. Não tenho tempo para dar opiniões. Mas que material você vai usar para o dizer, se nem eu sei em que tipo de metal estou me transformando, queridíssima?”

“Sua cabeça já está solta e petrificando-se, vida da minha vida. É melhor deixá-la cair.”

“Deixa cair.”

“Caiu. Ploft: caiu.”

“Vidinha: tenho segundos de diálogo. Qual o material em que me transformei?”

“Aço. De boa liga.”

“Por que, paixão?”

“Coisas da vida, açúcar.”

“Meu bem: conseguimos vencer a morte convencional. Fomos feitos um para o outro, não? Nosso casamento foi mesmo um sucesso, não…”

Esgotado o tempo, não houve resposta. A mulher nua bronzeada discou o videofone.

“Geodésio, é a senhora.”

“Sim.”

“A estátua do meu esposo deve ser inaugurada na próxima quarta-feira. Não vai ficar no jardim de inverno, como pensávamos, mas na antessala dos computadores, já que se trata de aço puro. É mais condizente. Concorda, Geodésio? Os convites estão prontos? Quero a melhor sociedade do centro-sul e toda a imprensa para a inauguração.”

“Evidente, senhora. Câmbio…”

“Câmbio, dito assim no videofone, não lhe parece um tanto…”

“Apenas inconsequência, senhora. Seu bronzeado é uniforme.”

“Até na sola do pé, Geodésio! Olha! Olha aqui!”

“Sim. Lindo. Mas não consigo me fixar na sola do seu pé, senhora. Há um ponto mais interessante.”

“Ah, Geodésio… Assim você me faz ficar vermelhinha de vergonha…”

“Impossível, senhora. Seu bronzeado não o permitiria. Câmbio…”

Do livro “Querido Senhor Assassino” – Editora Símbolo, São Paulo, 1979.

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