Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘clientes’

As noites têm sido frias, mas prefiro essa temperatura. A gente não transpira, não se sente desconfortável e, sobretudo, não é obrigada a suportar a irritação de todo mundo. É incrível como os humores mudam quando faz calor. Pelo menos no meio da rua, mesmo que esses homens tenham saído de casa para se divertir.

Os clientes têm achado graça da minha cadernetinha cor-de-rosa e da caneta da mesma cor que a acompanha, presa na lombada. Dizem as bobagens de sempre, que só gente como eu é que usa isso. Às vezes, essas coisas são ditas num tom agressivo, duro. Mas eu me acostumei tanto à minha função, que já não ouço nada. Assim como também nada sinto, fiquei anestesiada de vez depois do incidente no ano passado: corte na garganta, quatro pontos na cabeça, muito sangue. E foi o próprio cara que pagou o hospital, a plástica e a indenização de dois meses parada. Como as pessoas são estranhas: o monstro que me agrediu com tanta fúria é o mesmo que ainda me liga toda semana, que me manda flores, inclusive.

É por causa dele que fiquei indiferente a tudo, até ao carinho verdadeiro. Sabe, os boyzinhos são meigos, inseguros, fazem nanã, dão beijinhos. Um deles me disse uma vez: “Queria tanto que você fosse a Heleninha”. Que graça! Eu lhe disse: “Querido, a Heleninha vai acabar dando bola pra você, hoje em dia é tão difícil o amor, alguém que goste de alguém… Se você gosta dela, tanto assim, ela não deixará de perceber.”

Essa insensibilidade não é nada boa, não. Eu sou gente, e gente possui sentimentos… Como é difícil mentir o tempo todo! Dia desses, fui obrigada a pedir desculpas ao carinha, ele reclamou que eu estava fria. Ele disse: “Sei que faz parte, não vou querer que você goste de mim, mas você tem de fingir legal. Tem de ser atriz. Jogar o jogo”. Eu disse: “Cara, você tem razão, vou me esforçar…”

Acho que ele saiu feliz daquela noite. Por outro lado, essa frieza, essa indiferença têm lá suas vantagens. Às vezes é difícil ser tão profissional. Mas gosto mesmo é quando aparece um contador de histórias… Não quero largá-lo! Cada uma… As coisas engraçadas que as pessoas fazem, meu Deus, sobretudo nas cidades do interior… Um causo melhor do que o outro! Eu me ligo mais nas histórias de assombração, o eco dos passos dos fantasmas dentro dos casarões, os mortos-vivos que saíam dos cemitérios para dar uma volta, as noivas brancas que matavam as pessoas de susto dentro das velhas igrejas. Melhor que novela de televisão!

Agora, não tenho mais tempo de ouvir lorotas. Fico com o cliente uma hora, e pronto. Está dando certo. Hoje é dia vinte e um e já faturei mais do que em qualquer mês que me lembre. Aí os caras perguntam: “O que você está escrevendo na cadernetinha?” Eu respondo que não é nada, são umas coisas que lembrei de fazer em casa, quando voltar. Mas eu quero mesmo é ter o prazer de contar cada tostão que ganho, para sentir que estou cada vez mais perto de arrancar aqueles troços e virar mulher de uma vez.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

Anúncios

Read Full Post »