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Posts Tagged ‘condomínio’

A mulher com um buraco na cabeça surgiu, pela primeira vez, em outubro do ano passado, e quem a viu foi a menina Dayuma Casares, filha do veterinário equatoriano.

Dayuma, após retirar a bicicleta do depósito, resolveu dar uma volta por toda a garagem subterrânea. A mulher com um buraco na cabeça andava à sua frente, e por isso Dayuma não pôde ver-lhe o rosto. Nem lhe dera atenção, na verdade, mas, ao passar rente a ela, viu o furo emergindo da cabeleira loura, na parte posterior do crânio, segundo descreveu. A menina teve uma reação retardada, achou estranho que uma pessoa com um ferimento exposto, de dez centímetros de diâmetro, mais ou menos, andasse pela garagem. Mas não olhou para trás e apenas comentou, distraidamente, com o pai, durante o jantar. Constantín, o veterinário, registrou o incidente como excesso de criatividade de uma criança.

No dia seguinte, foi a vez de seu Ernesto, o velho zelador do prédio, chamado “Maison des Lis”, dar de cara com a mulher com um buraco na cabeça. Ele a encontrou na portaria de serviço, às sete da manhã, e a viu de frente. Disse “bom dia, madame”, e ela não respondeu.

Seu Ernesto a descreveu de várias maneiras, confundindo todo mundo; mas, segundo os policiais que depois tomaram conta do caso, a primeira descrição inicial seria a mais precisa, por uma questão de estatística: testemunhas confusas costumam acertar mais na primeira. Assim, a mulher teria um metro e sessenta e oito a um metro e setenta e dois; uns quarenta e oito a cinquenta e dois anos; e possuía um número incrível de rugas ao redor dos olhos, tantas que chamou a atenção do zelador, homem muito distraído, até por causa da idade, e pouco afeito a esse tipo de observação. Os cabelos dela eram louros de raízes negras, ou seja, pintados, e havia em sua expressão alguma coisa indescritível, um ar de sofrimento, de expectativa, de zombaria até – seu Ernesto não soube precisar. Mas aquela visão produzia impacto. Confessou o zelador que “algo ruim” correu por sua espinha, e ele maldisse intimamente os condôminos por receberem hóspedes sem avisar à zeladoria. Seu Ernesto estava cansado disso, pois, se algum estranho aparecesse no prédio, ele seria cobrado, incontinenti.

A mulher fixara os olhos do velhinho e, sem dizer nada, virou-se para sair. “Ela não fez barulho quando andou”, lembrou-se, depois, o zelador, mas ninguém deu atenção a esse detalhe. De qualquer forma, ele se assustara ao ver um buraco na cabeça dela, um enorme orifício, como se uma bala de fuzil tivesse entrado ali.

“Mas havia manchas de sangue no cabelo, ou vestígios de sangue na roupa?”, perguntaram os policiais, com dificuldade de conter o riso.

“Não, não, só o buraco. Não tinha bordas. Era uma coisa preta no meio do cabelo, e pronto.”

“E por que o senhor não a chamou, já que ficou desconfiado dela?”, insistiram os tiras.

“Não fiquei desconfiado, fiquei irritado com os condôminos que não me avisaram da nova hóspede.”

“O senhor sentiu medo?”

“Não, quer dizer, só senti o arrepio de coisa ruim, mas acabei ficando preocupado com ela. Uma pessoa ferida não pode andar por aí assim.”

“Mas, por que ferida, se não havia sangue?”

“Olha, moço, um buraco na cabeça, mesmo sem sangue, não é um ferimento?”

Seu Ernesto e a menina Dayuma eram mesmo as únicas testemunhas do incidente. Sem qualquer dúvida. Porque, depois que a história se espalhou, vários outros moradores também viram a tal mulher, mas os policiais não acreditaram neles. Só de adolescentes foram oito, os visionários. Quando os tiras ameaçaram submeter suas histórias a um detector de mentiras, eles sumiram.

Foi o veterinário equatoriano que chamou a polícia. Sempre preocupado com possíveis ameaças a Dayuma, quer de “bandoleiros” ou “pervertidos”, Constantín associou a história do zelador às fantasias trágicas que criava sobre sua própria filha, e concluiu que alguma coisa andava errada por ali. Fora apenas um incidente, mas… Sua preocupação nada tinha a ver com o detalhe do furo na cabeça da falsa loura (afinal, seria uma ilusão de ótica), mas com a mulher em si, uma desconhecida, provavelmente uma ladra, a circular impunemente pelo condomínio.

Logo depois das andanças da polícia pelo prédio, alguns moradores começaram a se impacientar e exigiram uma assembleia extraordinária. Alegavam que a lenda da tal mulher com o buraco na cabeça era ridícula e que eles se sentiam constrangidos de encontrar, quase todos os dias, uma radiopatrulha em frente ao edifício, ou homens acintosamente armados, bisbilhotando pelas garagens e corredores. Um deles, disseram, teria beliscado a empregada do apartamento vinte e oito. Mas Constantín, o veterinário, com apoio da maioria, usou uma contra-argumentação definitiva (“crianças não mentem, nesses casos”) e, ao contrário dos outros, afirmava sentir-se protegido pela presença de policiais.

“Mas que tipo de mal uma mulher loura, com um furo na cabeça, pode fazer contra nós?”, perguntava, patético, o doutor Alcebíades, morador do cento e doze. Ninguém lhe respondeu, mas a maioria decidiu que a polícia teria carta-branca até que a situação fosse explicada.

Doutor Alcebíades ainda tentou uma outra saída: “Sabem, essa história pode acabar nos jornais, na tevê, e, se se espalhar pela cidade que nosso prédio é assombrado, os apartamentos valerão a metade do preço.”

A maioria, mais uma vez, estranhou a versão de que a mulher seria uma prosaica alma penada. A maior parte dos condôminos não acreditava nisso, mas sentia medo dos vivos, ou melhor, da viva, estranha figura vista várias vezes dentro do prédio, em atitudes suspeitas.

“Paco” Soares, o síndico, imediatamente propôs a instalação de circuito interno de tevê, com uma receita extra de cinquenta por cento do rateio do próximo mês. A quase unanimidade aceitou a proposta, apesar de correr à boca pequena que “Paco” angariava quinze por cento de toda e qualquer compra feita pelo prédio. Daí seu apelido de Quinzinho.

Logo depois dessas agitadas reuniões, surgiu o professor Rebouças, sociólogo, conhecido de alguns moradores, e que desenvolvia uma tese de mestrado: “A Sociologia do Mágico”. O professor pretendia entrevistar os moradores sobre a aparição da mulher com um furo na cabeça. Ele havia confidenciado aos amigos que estava convicto de que fenômenos desse tipo acontecem a partir das raízes interioranas do grupo em questão. Seria essa cultura caipira que poderia justificar o fato de que, em plena megalópole, vivendo numa caixa de concreto, a quilômetros e quilômetros do campo, e no começo do século vinte e um, as pessoas ainda vissem fantasmas.

Os moradores, mais uma vez, garantiram que não se tratava de um problema de magia, mas medo de roubo ou assalto. Ainda assim, o professor Rebouças insistiu e foi entrevistar todos os que tinham visto a mulher, os de fato, que eram apenas dois, e os criativos. Todos haviam nascido e sido criados em cidades grandes. O professor preferiu retirar-se.

Mas dona Ângela, do cento e cinquenta e oito, também conhecida no prédio como “O Cavalo”, por receber, mediunicamente, entidades afro-brasileiras, não tinha a menor dúvida de que a mulher com um buraco na cabeça pertencia ao mundo extracorpóreo. Ela, que promovia sessões em seu próprio apartamento, o qual lotava de amigos e simpatizantes toda sexta-feira à noite, decidiu investigar espiritualmente a questão.

E aí aconteceu: um espírito que jamais baixara antes, uma mulher falando como antigamente, inclusive palavrões arcaicos, que ria como uma rampeira e se identificou como “a devassa Cilene”, tomou posse do corpo da médium e se negou a abandoná-lo, apesar de todas as tentativas dos médiuns auxiliares.

Na impossibilidade de livrarem-se da entidade, os médiuns resolveram passar aquela noite no apartamento d’o “Cavalo”, para evitar qualquer contratempo. Mas dormiram, exaustos, e dona Ângela foi vista no elevador, pintada como uma meretriz, vestindo um robe escuro envelhecido. Encontrou-se lá com Eugênio Simões, do quarenta e cinco; logo ele, evangélico e tradicionalista.

“Boa-noite, dona Ângela”, cumprimentou-a Simões, que a via como um gentio carente de conversão. Ele confessaria, depois, que todo aquele batom o assustara um pouco.

No meio da viagem de elevador, dona Ângela, ou a “devassa Cilene”, abriu o robe e mostrou-se completamente nua. Como se não bastasse, gritou, ou quase isso, para o devoto:

“O que eu quero é rosetar!”

O homem, aterrorizado, deu murros na porta do elevador, como se pudesse detê-lo, e na primeira parada, que não era no seu andar, saiu destrambelhado, berrando “não entrem aí, ela está louca e tirou a roupa!”

Seu Ernesto, o zelador, confessou depois que jamais iria esquecer daquelas risadas da entidade cúpida/devassa. A história correu por todo o condomínio, naturalmente, e houve quem defendesse uma queixa na polícia por atentado ao pudor. Algumas senhoras católicas, pelo contrário, sugeriram que o evangélico praticara assédio sexual e inventara a história pra se safar. Mas ficou por isso. Doutor Osmar Guerra, o advogado do cinquenta e três, lembrava em voz alta que, a julgar pela veracidade do relato de Eugênio Simões, os invisíveis são também inimputáveis. “Como enquadrar uma puta fluídica?”, perguntava ele,  zombeteiro, deixando as pessoas constrangidas.

Por causa de todas essas loucuras, segundo justificou, o doutor Alcebíades, administrador de empresas do cento e doze, resolveu deixar o prédio e ir morar em local mais discreto. Mas alguns condôminos estavam certos de que ele temia, mesmo, a polícia. Talvez porque ninguém soubesse qual era exatamente a sua profissão, por sinal bastante lucrativa, a julgar pelos automóveis importados que ostentava: o dele, o da mulher e um terceiro, que havia dado à filha única. A hipótese mais provável dizia de um esquema de contabilidade paralela para um grupo de políticos ligados ao governo.

“Depois que a mulher com um buraco na cabeça apareceu, isso aqui virou de pernas pro  ar”, queixou-se o suspeito a uns poucos amigos, enquanto dava ordens ao pessoal da mudança. “Eu só lamento ter comprado essa unidade aqui; em pouco tempo não valerá mais nada.”

Mas a mulher misteriosa, loura e quarentona, seria vista, um mês depois, deixando o elevador na garagem, ao lado de um sujeito estranho, de fraque e cartola. Ambos haviam entrado num automóvel e saído a toda velocidade.

A testemunha era Crízio Jericó, o mais recente e o mais jovem empregado do condomínio e que, como os outros, havia sido alertado por “Paco” Soares, o síndico, sobre a misteriosa personagem. Crízio, ao ver a mulher loura, ali mesmo, no prédio, não teve dúvidas: ligou imediatamente para o telefone secreto que o síndico lhe dera, e alertou as autoridades.

Um automóvel, com uma loura e um homem de fraque dentro, foi capturado a algumas quadras dali, e os dois suspeitos levados imediatamente à delegacia. O homem de fraque, chorando, pedia que o soltassem porque iria perder a finalíssima de um concurso famoso na cidade, “Brilhos e Beldades”, onde um grupo criava uma situação fictícia e a interpretava com roupas alegóricas. O homem de fraque era seu Isoldo, morador do vinte e um, magro e feminino, que havia concebido um conjunto intitulado “Quem disse que Mandrake não tem namorada?” Ele fazia, é claro, o papel do mágico, e a moça, a loura estranha, era seu amigo Ortiz, vestido com notável criação drag queen. Nem o funcionário do condomínio dissera, nem a polícia perguntara: “e o buraco na cabeça?”

Não havia nada disso. Os dois amigos não chegaram a tempo e perderam o concurso, o que acabou sendo comentado por uma revista de tititi. Ortiz entrou na Justiça, exigindo do condomínio uma indenização por perdas e danos, e, dois anos depois, ganhou em primeira instância.

A partir daí estabeleceu-se de vez a confusão, com acusações de todos contra todos, além de brigas esporádicas, maledicências lançadas no ar e ironias que acabavam por virar inimizades. A guerra no prédio, que depois seria ampliada com a divisão em duas alas, os contra e os a favor dos animais de estimação, fez, realmente, o preço dos apartamentos cair quase pela metade, assim como o aluguel. O veterinário Constantín Casares e sua filha Dayuma voltaram para Quito; seu Ernesto, o velho zelador, sofreu um enfarte fulminante em plena garagem. Quando o encontraram, já estava morto havia algum tempo.

Ninguém, àquela altura do quiproquó, imaginou atribuir o ataque cardíaco a uma aparição da mulher loura com um buraco na cabeça, mas foi exatamente isso o que aconteceu. Seu Ernesto vinha, cabisbaixo, à procura da prancheta onde marcava todos os serviços do dia, já que não confiava muito na própria memória. Por isso mesmo, abandonava a prancheta em todo lugar.

Deu de cara com a loura. Era aquela mesma de meses atrás: quarentona, um metro e setenta, e uma penca de rugas que lhe circundavam os olhos borrados. O velho zelador sentiu que seu sangue havia sumido, estremeceu de frio e não conseguiu emitir nenhum som, nem um pedido de socorro. A mulher olhou bem para ele, sorriu um sorriso casual porém luciferino, e voltou-se devagar para que ele examinasse o buraco na cabeça.

Seu Ernesto despencou por ali mesmo. Morreu de olhos arregalados.

Do livro “O Homem dentro de um Cão” – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2007.

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