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Posts Tagged ‘cooker spaniel’

Diorinda gritou de um jeito que o prédio inteiro deve ter ouvido:

“Corre aqui, Camurça, que seu Tinho teve outro troço!”

Camurça saiu da cozinha muito além do que os seus sessenta anos permitiriam, atravessou a sala aos saltos, para não desarrumar os tapetes persas, passou por cima do cocker spaniel azul ruão com pintas brancas, que disparou logo atrás, e chegou à porta do banheiro, enquanto a enfermeira se esgoelava:

“Acode logo, Camurça, seu Tinho tá com mais de cem quilos!”

Mas quem entrou no banheiro foi o cachorro, e pulou sobre o corpo inerte de seu Tinho, oitenta anos, desabado dentro do boxe, e começou a lamber, e a fazer festa, agitando nervosamente seu toco de rabo.

“Camurça, tira o Ubalu daqui, pelo amor de Deus! Chispa, cachorro chato! Ai meu Deus…”

Ubalu, como era chamado pelas duas mulheres, mas que ganhara, originalmente, o nome de “White Blue”, criação de seu Tinho, por sinal, pressentia quando a cozinheira ameaçava tirar o chinelo. Aí gania, como se tivesse sido realmente atingido, e fugia, sempre esbaforido, para se esconder no armário das vassouras e do aspirador.

“Me ajuda, Camurça!”, insistia a enfermeira, mas a cozinheira plantara-se imóvel, de costas, diante da porta aberta do banheiro.

“Diorinda…”

“Vem logo, mulher. Que é, mulher?”

“Ele tá nu?”

“Nu? Ora, Camurça, não está tão gagá a ponto de tomar banho de roupa. É claro que está nu! Vem cá, mulher!”

“Com as vergonhas de fora?”

“Camurça, pelo amor de Deus! Essas vergonhas já morreram faz tempo, mulher. Me ajuda se não eu quebro a coluna.”

“Morreram, não, Diorinda… Eu é que sei.”

A enfermeira, cujo peso não ficava atrás do de seu Tinho, sentou-se, extenuada, no chão mínimo do boxe ao lado do corpo do homem. Não se importou de molhar todo o uniforme branco.

“Ah, é? O velho bolinou você?”, ela perguntou, ofegante.

“Virgem Maria!”, reagiu Camurça, em voz alta. “Não tá nem louco de fazer isso. Mas… me ameaçou.”

A enfermeira olhou para o velhinho, mais largo do que alto, completamente calvo, corpo brancoso e aparentemente morto. Ela tentou se levantar, foi difícil, desabou de novo.

“Bem, Camurça, estamos aqui numa situação terrível. O homem caído, eu destruída, e você aí de costas na porta, negando-se a prestar socorro. Sabe que isso é crime? Omissão de socorro?”

“Eu acho que ele não tá desmaiado, não, Diorinda. Tá fingindo.”

“Para com isso, Camurça, este homem não consegue fazer mal a uma mosca.”

“A mim fez, com a história do Papa.”

“Mas que Papa, Camurça…”

“O Papa, ora, o velhinho lá do Vaticano. Seu Tinho veio me dizer que o Papa fazia cocô igual a nós… ‘Mas é homem santo, seu Tinho’, eu respondi. E ele ficou me azucrinando, me dizendo asneiras. Que o Papa fazia cocô e outras coisas.”

“Mas que loucura…”, disse a enfermeira com voz desistente. “E por onde é que o Papa vai pôr o que comeu, Camurça?”

“Sei lá. Seu Tinho também fez um inferno comigo com a história do encruamento.”

“Quem foi que encruou, mulher de Deus?”

“Eu. Segundo disse seu Tinho. Falou que eu tinha encruado porque sou virgem. Eu ainda passei vergonha no médico, que começou a rir.”

A enfermeira olhou para o corpo de seu Tinho com muita raiva. “Eu vivo aqui dentro desta casa e não sei de nada… O velho safado atazanando a pobre da Camurça…”, disse para si mesma, resmungando.

“Ele não faz essas coisas com você, não?” A cozinheira ensaiou uma olhada no boxe, mas logo voltou à posição inicial.

“Comigo? Dou-lhe uma porrada…”

“Se der mesmo, mata!”

Diorinda conseguiu se levantar, com muita dificuldade, empurrando a cabeça do velho do seu colo. Pegou uma toalha ali mesmo, enxugou os braços e saiu do banheiro empurrando a cozinheira.

“Que é isso, Diorinda?”

“Nunca vi coisa mais ridícula… Não atender ao pobre do homem por causa das vergonhas de fora. Vou ver se o zelador está por aí. Ele sobe e me ajuda.”

“Não é nada disso, não, Diorinda. É que seu Tinho quer brincar… Ele chega de repente, assim, me apertando aqui as bolotas do braço, dizendo ‘neném quer nanã…’ Seu Tinho tá louco.”

A enfermeira desapareceu no meio da sala, andando rápido, desarrumou os tapetes persas na passagem, mas foi obrigada a dar meia-volta por causa dos gritos desesperados que ecoaram, súbito, vindos do banheiro. Ainda chegou a tempo de ver seu Tinho, arrastando-se pelo chão, com um ar zombeteiro no rosto, a cravar as unhas na batata da perna esquerda da cozinheira.

“Agora te peguei, te peguei!”, gritava o velhinho, enquanto a outra, histérica, não conseguia se mexer. Só gritar.

O cocker spaniel, desta vez, hesitou um pouco antes de disparar, lá do fundo do apartamento, e saltar sobre o dono.

“Que frege, meu Deus, que frege…”

Diorinda achou que estava na hora de mudar de profissão, enquanto Ubalu, lambendo a cara de seu Tinho, parecia ensaiar uma espécie de culto de celebração da vida.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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