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Posts Tagged ‘demônio’

Ontem chegou um sujeito engravatado, sorriso falso, com um tique nervoso, assim, puxando o pescoço para um lado, que ele tentava disfarçar de todo jeito. Parecia um bicho. Um urubu. Ele falou, falou. Ou melhor: perguntou muito. Eu não dizia nada, o homem era de más intenções. Queria saber da minha técnica.

“O seu trabalho é perfeito. É incrível. A gente nem sabe direito o material que o senhor usa… O monstrinho do meu filho foi quebrado em pedacinhos, o senhor consertou e ficou perfeito!”

“Não fui eu que consertei esse monstro, senhor. Eu me lembro de todos os meus consertos. Esse aí, não.”

“Mas claro, claro que foi o senhor. Bem, foi minha mulher que trouxe o monstro. Parece um dragão e um pato ao mesmo tempo. Todo verde. Esses desenhos malucos de hoje. No meu tempo era só o Pato Donald. Seu nome é doutor Aristóbolo, ela me disse. O ‘doutor das bonecas.’ O senhor.”

“As pessoas me chamam assim, mas alguém está tentando se passar por mim”, respondi, procurando encurtar a conversa. Era mesmo um sujeito baixo-astral, aquele. Autoritário. Não gostou nada do que lhe disse. Veio com ironias.

“Mas, meu Deus, quem ousaria se fazer passar pelo famoso doutor Aristóbolo? Famoso, não: famosíssimo.”

“Eu não sei quem. Quanto a famoso, é o senhor quem está dizendo. Mas não mexi nesse tal monstro com cara de pato.”

“Bem…” (o sujeito ficou sem saída) “Mas o senhor, doutor, me deixaria ver alguns dos seus trabalhos? Sabe, são tão conhecidos…”

Sou diferente do meu pai. Viúvo da minha mãe, ele me criou sozinho e me ensinou tudo, inclusive a consertar brinquedos. Era o seu hobby preferido. Para mim, é profissão. Mas papai era um pouco medroso do mundo. Para ele, gente de paletó e gravata era sempre autoridade. Reverenciava os ricos e poderosos. Eu não. Não gosto dos que têm riqueza ou poder. São egoístas e os egoístas estão num patamar abaixo da humanidade.

“Não, não vou mostrar meus trabalhos”, falei para o engravatado, que disse se chamar Clarêncio, “porque não conheço o senhor. Só por isso.”

“Mas, e se eu quiser que o senhor conserte um brinquedo para mim?”

“Onde está o brinquedo?”

“Bem, não está aqui agora.”

“Traga, então. Dependendo do que for pra fazer, eu aceito ou não.”

Sabe, o mundo é louco. Um dia desses apareceu um rapaz, de uns vinte e cinco anos, querendo que eu pusesse pênis nos seus bonecos infantis. E, num deles, além do pênis, um par de peitos. Expliquei que só trabalhava com brinquedos quebrados de crianças.

“Mas eu pago o dobro, cara.”

“Não vou fazer.”

No ano passado, um outro queria que eu esculpisse duas figuras de demônio. Trouxe-me o modelo numa revista italiana. Não conheço essa língua, mas estava claro que era um demônio de missa negra. Recusei, e esse também quis me pagar o dobro.

Imagine se eu contasse a eles como faço o que todo mundo chama de obras de arte. Uma parte papai me ensinou: argila misturada com areia de uma determinada textura; parafina derretida a uma exata temperatura, etc., coisas de artesão. Mas não é isso o que dá “vida” aos brinquedos quebrados, e sim a minha vontade de torná-los perfeitos, para que as crianças voltem a ficar felizes. É simples, mas é só isso.

Certa vez, pus umas seis bonecas enfileiradas sobre minha mesa de trabalho: uma não tinha um braço, que eu seria obrigado a copiar; outra fora pisada na cabeça, estava com o “crânio” afundado; e a mais problemática de todas perdera o mecanismo do choro. Era uma boneca argentina, difícil de encontrar algo parecido por aqui.

E eu apenas senti vontade de que elas voltassem a produzir felicidade. Aí tudo aconteceu: apesar da precariedade do molde de gesso, o braço perdido ficou perfeito; o crânio da outra voltou à posição num “ploc”, coisa meio milagrosa; aí foi só retocar a pintura. E uma senhora do bairro trouxe-me um monte de brinquedos velhos, imprestáveis. No meio daquele lixão, um mecanismo de choro argentino, quase novo. Coincidência? Não, a minha vontade. Como posso ensinar isso a um engravatado egoísta?

Mas ele não se conformou, pelo jeito. Hoje de manhã apareceu o policial. Barriga estufada de muita cerveja, ar de deboche, a pistola aparecendo debaixo da camisa. Mas não parecia má pessoa.

“Como é teu nome mesmo?” (Nem “bom-dia”, nem “olá”, nada.)

“Aristóbolo. O povo me chama de doutor Aristóbolo.”

“Ah, médico… Ginecologista, também?”

“Como assim?”

“Trata da bocetinha das bonecas? Faz o talho nelas?”

“Que é isso, seu…”

“Calminha.” Pôs a mão direita sobre a arma. “Aqui, ó, sou autoridade.”

“Que história é essa?”

“Que história é essa me responda você.”

Gordo, mas forte, me empurrou e adentrou a oficina pisando duro. Não conseguiu esconder um ar de encantamento, um tanto equivocado, mas encantamento, ao ver as bonecas arrumadas, umas ao lado das outras, e os carrinhos eletrônicos de corrida, prontos para zarpar, os bichos de pelúcia, costurados e lavados. Havia até uma fileira de velhos soldadinhos de chumbo, a maior parte deles já restaurada. Os colecionadores também me procuravam.

O tira, que era mais conhecido como Ernesto Duro, mexeu em cada centímetro do lugar. Mas até a folhinha, com o mês atrasado, mostrava paisagens de inverno e não mulheres nuas.

“É, cara, parece que você está limpo…”, disse-me o barrigudo.

“Isso foi uma denúncia, não foi?”, perguntei.

“Claro, bicho. Você acha que a gente bate na porta das pessoas de graça?”

“O cara que me denunciou é um sujeito engravatado, magro, assim, com uma cara de urubu?”

“Isso eu não sei. Problema do chefe.”

“Esse cara que descrevi quer me prejudicar. Eu me neguei a lhe contar sobre as minhas técnicas de trabalho.”

O policial sorriu para mim pela primeira vez. Parecia sincero, aquele sorriso. Aí contou que tinha uma filha, apesar de não ter se casado, e que uma das bonecas da menina estava com problemas.

“Traga a boneca”, disse. “Não sei qual é o problema, mas resolverei rápido pra você. Afinal, você não me prendeu.”

“Tá bom, eu trago, mas só se você me cobrar e me contar qual é a sua técnica”, ele sorriu.

Aí eu lhe disse que o meu segredo era muito simples: bastava querer que o brinquedo voltasse à sua principal função, que era a de dar alegria.

O gordinho me olhou um tempão e saiu dizendo que, por incrível que parecesse, existiam no mundo pessoas iluminadas. E que eu era uma delas.

“E, sabe mais?”, ele completou. “Estou começando a achar que o cara de urubu que lhe denunciou tem parte com o diabo. Só o diabo quer ver o Bem na cadeia…”

Eu não me acho nada daquilo que ele disse. Mas que o urubu parecia o diabo, parecia. Vejam: fiquei todo arrepiado.

Do livro “Allegro” – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

 

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