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Posts Tagged ‘duplo’

Via cavalos bravios a correrem por dentro da sala; ouvia o tropel deles, cascos sobre o piso de cerâmica.

Via cegonhas (ou seriam emas?) voando à altura do lustre trabalhado em cristal e seu Romão se espantava de que nada quebrava, nada saía do lugar. Por um motivo simples, talvez: as imagens em movimento nada tinham a ver com o fundo. Tratava-se, tão somente, de uma justaposição.

“Alguém já lhe disse, minha filha”, perguntou ele a Gezinha, ali perto, “que existem mundos sobrepostos, cada um vivendo sua própria energia? Que coisas radicalmente diferentes acontecem ao mesmo tempo, no mesmo espaço, no meio desta casa, por exemplo?”

Gezinha já ouvira falar nisso, é claro. Aprendera, desde criança, a respeitar as esquisitices do pai, ao contrário dos seus irmãos que agora riam do velho. De fato, Jovelino e Maria Antônia não tinham mesmo jeito: continuavam crianças, a rir de tudo, encarando a vida como uma festa. E o velho pai apenas servia de animação, talvez a mais criativa.

Mas seu Romão sempre fora assim. Antigamente, quando ainda era viva, a mãe dele, vó Augusta, é que contava, história atrás da outra, coisas que o filho fazia desde criança. O causo mais famoso era o do falso coronel Diogo Ascânio, o herói da cidadezinha, Santana do Monte, e do seu retorno triunfal ao povoado, após uma sangrenta batalha com os índios. Estes, normalmente pacíficos, haviam sido massacrados pelos brancos, liderados pelo coronel: era bala contra arco, flecha e borduna; mas as flechas estavam envenenadas.

Os brancos voltaram eufóricos. Haviam contado apenas uma baixa, de um almocreve sem prestígio, meeiro das roças de baixo, as piores e mais alagadas. Sabiam, apenas, que se chamava José. Levara uma flechada no meio do coração. O resto dos atingidos estava apenas ferido: João Sertão, com uma pancada na cabeça, roxa de as moscas quererem pousar; Sifrônio, com um rasgão nas costas, de flecha também, e já medicado com óleo de copaíba, para neutralizar o poderoso veneno; e um mestiço, Leô, que, no meio da briga, pisara em cobra de veneno fraco.

Santana do Monte ouviu os gritos e as risadas longe dos homens voltando a quase dois quilômetros de distância. As mulheres também riram, as crianças se alvoroçaram. Todos estavam preocupados, no entanto: deveria haver uma baixa ou outra, e não fazia sentido tanta alegria. O menino Romão, que não tinha mais de treze anos, virou-se para sua mãe Augusta e disse, olhando os olhos dela:

“Convém esperar, mãe. Não se fie pelas risadas.”

“Esperar o que, Romão?”

“O espectro. A primeira figura que aparecer na cidade não é um cavaleiro; ele e o cavalo são espectros, feitos pela mágica dos índios que estão agonizando.”

“Por que, meu filho? Morreram muitos índios?”

“Quase todos.”

“Ah, meu Deus”, choramingou Augusta, que admirava os selvagens e só se tratava, e ao menino, com os remédios deles. “E dos nossos, quantos morreram, menino?”

“Só o meeiro de que ninguém gostava.”

“Seu pai tá vivo?”

“Pai tá. Nem arranhão.”

“Então o espectro que está vindo na frente é do meeiro?”

“Não, é do coronel Diogo Ascânio.”

“Mas, ele morreu? Você disse que só um morreu…”

“O espectro existe antes da nossa morte, mãe. Todos nós temos o nosso.”

Por algum motivo, Augusta acreditou no provável delírio do filho e pediu ao pessoal que se reunira no barracão que só saísse quando todo mundo apontasse na estrada. Que deixasse o primeiro cavaleiro passar.”

“Por que, Augusta?”

“Pode ser cilada.”

“De quem, Augusta?”

“Não sei, façam o que digo.”

Todo mundo se lembrou, depois, dos olhos da figura do coronel Diogo: não fitavam coisa alguma, como acontece com os espectros. Os olhos do cavalo, também, pareciam feitos de pedra colorida. Mas os dois se moviam, e chegaram a dar uma meia-volta em frente ao barracão. Os gritos dos homens, no entanto, vinham mais atrás.

Ninguém conseguiu impedir que o velho Zé Sansão, poupado da guerra porque bebia demais, abrisse a porta lateral do barracão para abraçar o que ele imaginava ser o coronel. O cavalo fantasma empinou, o cavaleiro ergueu o braço e soltou um grito tão doloroso que o velho bêbado caiu ali mesmo, chafurdando na lama da estrada, e se debateu um pouco antes de morrer. Logo depois chegaram os homens, com o verdadeiro Diogo Ascânio à frente.

Todo mundo vira o acontecido e Augusta não guardou segredo sobre as previsões do seu moleque. O coronel, enquanto esteve no mundo, conversava de vez em quando com Romão: não se conformava de possuir um espectro em vida. Mas o menino, e depois o rapaz, e mais adiante o homem feito, sempre repetia: “Todos nós temos o nosso”.

Essa história vinha sendo contada há quase setenta anos e, agora, sua única testemunha era o próprio Romão. Que, durante a vida inteira, soubera muito mais do que falara, certamente com medo de ficar marcado como bruxo. Hoje, na extrema velhice, andava relaxando e contando as coisas que seus olhos extraordinários viam. Jovelino e Maria Antônia riam dele, preferiam cuidar dos porcos e dos cavalos. Agora era tudo mais fácil. Os caminhões traziam as coisas do mundo dos ricos e já não havia índios na floresta, só uns pobres mendigos que descendiam deles. Mas Gezinha levava o pai a sério, talvez porque imaginasse que, um dia, ele poderia prever a chegada do seu futuro marido a Santana do Monte. Esperava há cinqüenta anos esse momento.

“Continua enxergando muita coisa acontecendo no mesmo espaço, meu pai?”, ela perguntou carinhosamente ao velho Romão, que abriu um sorriso e coçou a barba branca, rala.

“Gezinha, lá perto do paiol, na curva das jabuticabeiras, tá vendo?”

“Tô. Um homem. Quem é, pai?”

“Eu. Eu vou me encontrar comigo, Gezinha. E você sabe que quando isso acontece…”

“Diz que vai morrer, não, pai…”, as lágrimas começaram a se formar nos olhos da mulher.

“Gezinha, não tenha medo dos meus olhos, quando meu espectro chegar mais perto, vindo lá do paiol. Esse duplo é assim mesmo; ele não vê, nem sente. Só espanta.”

Gezinha preferiu não ver o encontro. Correu pra dentro de casa e se trancou no quarto. Soube exatamente o momento da morte do pai com a sensibilidade que herdara dele. Seu corpo queimou, como se tivesse sido atacado por lacraus de fogo, e sua cabeça latejou do lado direito. Quando voltou, o velho estava recostado na cadeira de balanço, branco como uma vela. Seu rosto, no entanto, dizia que o encontro com o espectro não fora tão difícil assim. Romão sorria. E seu sorriso estava vivo, ainda.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

 

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