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Posts Tagged ‘energia’

A menina era magra, tinha uns dez anos, sardas e cabelos ruivos. Vestia uma jardineira meio suja de barro. Corria sob um sol manso de primavera, acompanhada de dois cães pastores, pelo jardim próximo da casa; na verdade, a área inteira era um imenso jardim, onde todos os tipos de plantas de uma floresta de chuva brotavam, exuberantes; eram árvores antigas aninhando trepadeiras jovens, frutas de vários tamanhos e cores a pender dos galhos folhados, um revoar constante de pássaros tenores e borboletas com asas de desenhos fractais.

O jardim, então, era um jardim dentro do jardim maior, e se constituía de um espaço próximo à casa, um pouco mais organizado do que no restante do sítio. Não era uma propriedade imensa: seu dono levantara alguns galpões de madeira, de telhas aluminizadas, onde cultivava alguns tipos de verduras pelo sistema de hidroponia.

A menina ia de uma flor a outra, de um canteiro a outro, andava e corria alternadamente, tão leve e graciosa que se confundia com o todo do jardim; movia-se ao sabor de um vento quase frio que começava a soprar mais forte.

“Madressilva”, dizia ela à flor, “dê um pouco da sua força à minha mãe.”

“Girassol”, insistia mais adiante, “a minha mãe está precisando de você; passe um pouco da sua energia, que é tão forte, tão bonita, à minha mãe, que está lá dentro, e está muito, muito mal.”

“Borboletas”, ia dizendo a menina a correr atrás das pequenas aquarelas voláteis, “se vocês quisessem poderiam, somente vocês, salvar minha mãe, com toda esse vigor em excesso que vocês têm.”

De repente, ela pareceu se lembrar de alguma coisa, e correu para o lado oposto da casa, onde havia um lago natural alimentado por um riacho de águas limpas mas escuras, refletindo o fundo lodoso. Os cães foram atrás dela.

“Ah”, ela falou em voz alta, “os peixes!”

Lá estavam eles, no riacho, preparando-se para cair nas águas mais tranquilas do lago e depois continuar a trajetória, passando para outro terreno, e para outro e outro ainda, até desaguar num rio sujo, próximo à cidade grande. Ali, procuravam uma outra saída em busca de vida, de oxigênio. Lá estavam: eram pobres tilápias e bagres, mas havia também os valorizados e agressivos black bass, que divertiam os pescadores de fim de semana, e que se confundiam com a água marrom.

“Garotos, garotos”, disse a menina, de cócoras à margem do riacho, “vocês estão cheios de vitalidade, agora, podem respirar bem, comer bastante… Deem um pouco dessa força à minha mãe, ela está morrendo lá na casa…”

Alguns peixes começaram a saltar, pouco antes da entrada no lago, como se sinalizassem um OK à menina, e ela sorriu. Os cães latiram, com todo aquele movimento. Ela então se virou para o maior deles, um macho de kuvasz suntuoso, de pelo branco brilhante:

“Você tem muita energia, também, Aghar. Por que não oferece um pouco à sua dona, de quem você gosta tanto? E por que não convence o Thame a doar também? Ele ainda é filhote, mas é muito forte, alguma força há de ter…”

Os cães foram se retirando, devagar. Venceram o aclive que levava ao riacho, atravessaram todo o jardim, quase colados, sem-ligar para as borboletas, os pássaros e as flores. Agora, um vento súbito, de chuva prometida, empurrou os girassóis. Os pastores entraram na casa, subiram as escadas e estacionaram à porta do quarto de sua dona. Ela estava recostada na cama, em dois travesseiros, o olhar fixo em nada. Ao seu lado, a médica e o marido não escondiam a inquietação.

“Não se preocupem, eu não vou ainda”, disse a mulher com voz titubeante. Era ruiva e sardenta como a menina. “Meu coração suporta mais um tempo”, continuou. “Quando chego aqui é como se tomasse todos aqueles remédios antigos, que me davam ânimo e agora não funcionam mais.”

“A gente pode morar aqui, em definitivo”, disse o marido, ajeitando, com carinho, os cabelos dela. “É o motivo que me falta para jogar tudo para o alto e passar a viver de plantar verduras…”

“Se ela se sente melhor aqui, acho que é uma boa decisão”, disse a médica.

“Só lamento uma coisa, e por favor não digam que estou louca”, disse a mulher. “Sobreviver não é tão bom assim. É adiar meu encontro com minha filha…”

Não conseguiu segurar o choro. O marido deu-lhe um lenço de papel que apanhou no criado-mudo.

“Não sei se a emoção, neste momento, vai lhe fazer bem. Não fale nela, pelo menos agora”, disse ele.

“Está certo”, disse a mulher. “Vou tentar.”

Aí ela viu os dois kuvasz parados à porta, olhando-a, compassivos.

“Venha, Aghar; venha, Thame.”

Eles quase pularam sobre a cama, balançando os corpos, chorando baixinho de felicidade.

A mulher mergulhou a mão direita no pelo profundo de Aghar.

Lá fora, o vento aumentou de velocidade, alguns galhos secos despencaram das árvores, e um sibilar estranho, que às vezes dava a impressão de um riso infantil, chamou a atenção de todos. Mas não era nada, somente a energia do campo.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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