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Posts Tagged ‘energias sutis’

“São energias sutis”, disse o Mestre, “as que você vai experimentar em Portal das Canoas. Elas podem ser fenomenais ou não. Mas o que acontecer sairá de dentro de você, e será ditado pelo seu Eu Superior.”

Não tenho por que duvidar do Mestre. Já o fiz uma vez, e quase encerrei minha experiência no planeta. “Acautele-se com relacionamentos apenas brilhantes”, ele me advertira, e eu fingi não entender que Sidnéia era um relacionamento assim.

Mas como deveria interpretar o “apenas brilhante”? Tá bom, Sidnéia não chegava a ser um gênio, mas sua exuberância carnal e seu desempenho na cama fariam qualquer um esquecer esses preconceitos. O que me importaria se ela não soubesse discutir comigo sobre os últimos avanços da filosofia clínica ou as origens do politeísmo dos druidas? Ela falava a língua contemporânea do rock pesado ou da música tecno, das malhações e dos shoppings, uma atleta sexual incansável, insaciável, quantitativa. Eu e ela, recriando nossa própria Sodoma, com muito gelo no uísque, ao som do Guns N’Roses, uma fixação dela.

Aí tocaram a campainha. Fui atender enrolado numa toalha, ainda ofegante das flexões da minha amada. Relaxado, nem perguntei quem era, antes de abrir a porta, e, quando o fiz, a Delegacia de Entorpecentes em peso passou por cima de mim, como um tufão. “Está presa! Presa! Sissi do Pó, finalmente!”, eles exultaram, os brutamontes, mandando a moça se cobrir rápido, mas sem deixar de admirar suas formas. A mim, só me olharam com desprezo, gritando: “Se vista, panaca!”

Meu advogado precisou valer-se de um amigo importante para evitar que eu dormisse na cadeia, naquela noite, e fosse enrabado pelos marginais. Cobrou-me uma fortuna por isso.

Como eu poderia saber que estava envolvido com uma traficante? Juro, nunca cheirou na minha frente! Quando se trancava no banheiro, era apenas pra satisfazer necessidades fisiológicas, mesmo. Nem se preocupava em fechar a porta. Jamais ouvi batidinhas de gilete no vidro, ou fungadas, ou vestígios naturais que os cocainômanos deixam. “Claro”, esclareceu-me o doutor Massa, meu rico advogado, “ela é apenas traficante, e competente; os competentes não cheiram.”

Agradeci o esclarecimento, paguei com cheques pré-datados e fui correndo procurar o Mestre. E aí ele me relembrou o precioso conselho que eu já esquecera: “fuja do que é apenas brilho.”

“Vou me dar um tempo”, respondi, amuado como uma criança. “Por muito pouco, Mestre, não perdi a invencibilidade. O senhor precisava ver a cara dos malandros na cela. Olhavam pra mim e babavam!”

“Culpa sua, meu caro.”

“Sabe, Mestre, é um problema sério, esse meu. Sou heterossexual exaltado. Olho pra mulher e saio do sério.”

“A maioria dos homens sábios que eu conheço tem vida sexual, mas normal.”

“E não é normal namorar com uma gostosa que me aparece?”

“Não a Sissi do Pó”.

“Juro que não sabia”.

“Precisa desenvolver seu terceiro olho. A intuição. Ela aponta o que é apenas brilho.”

Não iria adiantar muito continuar aquela conversa. Eu lhe disse que precisava respirar e deixar de ter pesadelos com prisões, delegados e o baterista do Guns N’Roses que me olhava, rindo, e ameaçava em inglês: “Vou te comer! vou te comer!” Aí o Mestre me sugeriu: Portal das Canoas.

São três horas pela BR Oeste, subindo a serra. No começo pensei em ir sozinho, depois resolvi levar o Golias, meu pinscher anão, de dois anos. Afinal, Golias é um cão de guarda, um protetor, um dobermann que encolheu. Senti que, de alguma maneira, ele me protegeria. Eu estava, como falam nas novelas, “fragilizado”.

Pelo telefone, o sujeito da pousada achou esquisito que eu viesse sozinho. Disse-lhe que levaria Golias, mas logo esclareci sobre a natureza do meu companheiro. Ele suspirou com alívio.

‘Deve ter mesmo muita bicha’, eu pensei, ‘viajando para esses retiros energéticos, cidades altas, muita montanha, árvores, céu estrelado, cachoeiras de águas geladas, um frio de rachar à noite’. ‘As bichas precisam entender melhor seu próprio carma’, foi o meu segundo pensamento a respeito do assunto, e logo me veio a figura do Mestre, e me arrependi com sinceridade, juro, da torpeza dos meus preconceitos.

Mas Portal das Canoas, como o próprio nome indicava, era mais conhecida também como um point de canoagem. Até um campeonato brasileiro já havia sido disputado lá, numa de suas corredeiras. O rafting é, para nós, buscadores espirituais, um esporte ecológico e de altíssimo astral. Isso também me animou a decidir pelo Portal naquela minha semaninha de folga. Não que eu quisesse competir, imagina, mas pelo menos observar o pessoal voando na água com seus caíques infláveis, que repicavam nas pedras e caíam das pequenas mas violentas cachoeiras. Uma farra.

Levei muito tempo subindo a encosta. Minha pobre picape gemia e soltava gases pelo esforço inaudito. Uma viagem interminável. Então, depois de rodar alguns quilômetros perdido, mal orientado pelos capiaus, a cidade apareceu-me de repente. Tão pequena que nem tinha periferia. Adentrei-a já na rua principal, com farmácia, cartório, delegacia, um bar – tudo estranhamente deserto. Avistei a pousada que reservara, lá do fim da rua. A cidade inteira era aquilo ali, aquele miolo, cinco, seis ruas, no máximo. Casas do começo do século, estilo colonial, piso de paralelepípedos, calçadas altas. Golias passou a latir desesperadamente, mas as únicas coisas estranhas eram a ausência de pessoas e uma névoa azulada que caíra de súbito. Lá fui eu, a picape saltando nas pedras, o cachorro latindo no meu ouvido, em direção à pousada.

Lá dentro, somente o tal rapaz que falara comigo ao telefone. Chamava-se Sergei. Estava apressado.

“Santinho”, disse ele, “seu quarto é o de número quatro, aí neste corredor.”

“Tudo bem. Que horas começa o jantar?”

“Hum… Às oito. Às sete e meia vai chegar uma senhora, dona Nicéia, mas o santinho não deve se assustar com ela: é surda, corcunda, um horror.”

“Vai chegar de vassoura?”

“Mais ou menos. Mas ela é a única que não sofre com a queima de velas.”

“Que diabo é isso?”

O rapaz pegou minha mochila imensa, colocou-a atrás do balcão, perguntou se eu queria um café. “Quero. Tem torradas?”, eu perguntei. Estava morrendo de fome.

“Umas bolachinhas eu consigo. Seguinte: vamos sentar ali, que eu lhe explico tudo.”

O café ralo, mas bem quente, e umas torradas deliciosas, salgadinhas, me deram um novo ânimo. Servi Golias, que latiu feliz. Ele se calara ao entrar na pousada, quando recebera um carinho do Sergei, que parecia gentil com bichos.

“Antes de mais nada”, continuou Sergei, “devo lhe dizer que estou me esforçando para me reformar moralmente, e, por isso, prometi não mentir a ninguém. Então, preciso lhe revelar que não me chamo Sergei, mas José Aparecido.” Fez uma pausa suspirante. “É que acho o nome Sergei tão bonito…”

“Pois é, eu sou Júlio Câmara, como você sabe, mas pode me chamar de Dercy.”

“Uai, você é gay?”

“Claro que não, Sergei Aparecido. Não vê que estou tirando um sarro?”

Ele me olhou de lado, examinou Golias de novo, não sei se o convenci.

“Meu santinho, eu tentei fazer com que você mudasse o dia da sua chegada, lembra?, para amanhã, mas você insistiu…”

“É que a minha reforma moral é mais urgente do que a sua.”

“Pois é. Seguinte: uns dias antes da festa de solstício de verão, que vai acontecer quarta-feira que vem (a festa você sabe, né, comemora a chegada da mais alegre das estações, faz-se a louvação do sol, das frutas, dos dias mais longos que as noites), um pessoalzinho especializado promove a queima das velas. É um ritual pagão, muito fechado, e… vai acontecer hoje à noite.”

“E daí? Tô cagando. Se for divertido, vou até ver.”

“Ver? Está louco? É coisa da pesada.”

“Já sei. Os bruxos. Wicca. Magia celta. Xamanismo. Tudo isso é baboseira infantojuvenil. Se fosse uma Missa Negra, eu já sairia correndo daqui.”

“Bem, você é que sabe”, concluiu Sergei, engolindo em seco. “Eu vou ficar longe.”

“Que puta cagaço, hem? Que mal faz, cara, uns bruxinhos queimarem velinhas na floresta? Eu vou e ainda acabo cantando parabéns pra você”.

“Não, santinho, não é vela de altar não. Essas ‘velas’ são, como diria, formas-pensamentos que serão atraídas e queimadas pelo pessoal especializado, a fim de que a região, a cidade, eles próprios se purifiquem para a festa do solstício…”

“Bem, eu nunca vi isso, mas acredito que seja mais ou menos como um filme de terror. Vai aparecer um monte de monstrinhos, aí o pessoal os queima, e pronto.”

“Santinho: da única e última vez que eu fui ver, com mais uns três idiotas do meu colégio, na época, uma forma-pensamento, criada por uma mulher que morreu de tuberculose, se grudou em mim e eu tossi durante dois anos. Não teve remédio que desse jeito. Esse pessoal especializado acabou me arrancando pela boca um pedaço da forma que havia se enfronhando nos meus pulmões. Sobre meus amigos, não quero nem pensar.”

“Fala, cara.”

“Um virou travesti na capital, outro ficou gago e o terceiro se deprimiu tanto que acabou tentando se matar…”

“Ora, ora, Sergei, a bicha apenas arrumou um pretexto para assumir, e os outros são frouxos, mesmo, como você”, eu ri alto, mas logo depois me arrependi de mais essa manifestação de preconceito.

“Olha, se você quiser, vá. Daqui a pouco o pessoal vai chegar. E vem direto pra cá. As roupas do ritual estão todas aí, na sala. É aqui que eles se hospedam.”

“Por que você os chama de especializados?”

“São os maiores bruxos do país.”

“Quantas velas eles queimam?”

“De cem pra cima.”

“Já vi mais, no cinema.”

“Então vá lá. Não perca.” O rapaz ficou meio irritado.

“Claro. Vou mesmo. De peito aberto.”

Esperei que Sergei Aparecido sumisse, na sua moto, e fiquei me perguntando o que diria meu Mestre das minhas novas aventuras. Meu Mestre tem telefone, computador, e-mail, celular, e é empresário. Todo mundo pensa em um mestre como uma figura mística, de hábito de monge, ou fraldas brancas, magérrimo, de turbante. Meu Mestre andava até meio gordinho, certamente por causa dos litros de vinho que consome. Além do mais, é um gourmet. No mundo de hoje, o mestre, como antigamente, aliás, é tão-somente um homem de grande sabedoria. E não se consegue sabedoria vivendo longe do mundo real.

Mas eu é que não trouxera meu celular, de propósito, e por isso não haveria chance de falar com o Mestre. Na pousada não havia telefone, e esta era uma de suas atrações. “Aos queridos clientes”, dizia um cartaz sobre o balcão da entrada, “não temos telefone nem tevê; se quiser, use os seus portáteis.”

Eu não deveria falar com meu Mestre! Porra, não posso depender dele pra tudo! Tenho de agir por mim mesmo. Sem me sacanear, como no caso da Sissi do Pó.

Fiquei pensando: quem iria me garantir o ingresso na queimação dos bruxos? Bem, isso seria resolvido depois. Decidi conhecer um pouco mais de Portal das Canoas. Desci até o rio, que se alongava, poético, acidentado, formando refluxos, exibindo pedras altas e negras que apareciam e desapareciam em meio à espuma. Água límpida, de vez em quando saltava um peixe. Um paraíso, aquele lugar. E continuava deserto. Todo mundo resolvera mesmo dar uma volta. Ali, só eu e Golias, que começara a explorar melhor a região, afastando-se e voltando correndo, com aquela alegria sem motivo que os cachorros têm.

A névoa azulada caía mais densa, agora, e eu divisei, no começo da rua principal, um pequeno grupo de homens e mulheres. Vinha sem pressa nenhuma. Imaginei que havia deixado o carro na entrada, num pequeno campo de futebol. Fui andando, também sem pressa, até eles. Golias teve um dos seus ataques, latindo contra o grupo, mas mandei-o fechar a boca ou o jogaria no rio. Ele entendeu direitinho e não saiu do meu lado, quieto.

De todas as surpresas que já tive na vida, e de todos os sustos, inclusive aquele que me custara o sono e a enrabação iminente, nenhuma foi maior do que a de reconhecer Sidnéia, ou Sissi do Pó, à frente daquele grupo de bruxos. Eram cinco homens e três mulheres.

Eu a via, de longe mesmo, e a via nua, porque já decorara todo o seu corpo; não havia saliência, reentrância, dobrinha que não soubesse de cor. Estava com roupa normal, camiseta e calças jeans, uma mulher simples mas elegante. Por cima da roupa eu via seu púbis e seus pêlos, elegantemente insinuados em direção ao umbigo – me ajuda, Mestre! Fui-me chegando, cada vez mais devagar, e um dos homens passou à frente. Havia todas as idades ali, o mais novo com pouco mais de vinte anos; a mulher mais velha com uns setenta. Sidnéia, eu sabia, completara vinte e seis. O homem que se adiantara deveria ter cinquenta e poucos. Sidnéia, ou sua sósia, bateu o olho em mim, empacou, olhou para trás e para os lados, depois disse alguma coisa ao homem mais próximo e se afastou do grupo, para ir colher umas frutas silvestres ali bem perto. O homem que se adiantou sorriu para mim e gritou, de longe:

“Olá, boa tarde, você é turista?”

“Mais ou menos. Vim dar uma relaxadinha.”

“Sabe quem somos nós?”

“Sim. E queria pedir para assistir à queima de velas”, respondi, alternando o olhar entre ele, que era simpático e sorridente, e Sidnéia, de costas para nós, mexendo no arbusto. Que coisa! Ela surgira do nada. Mas, seria ela mesma? Uma irmã gêmea? O engraçado é que, apesar do susto, e da semelhança entre as duas pessoas, eu duvidava que aquela fosse a minha Sidnéia. Será que teria a mesma energia básica, a expressão, o astral? Fisicamente, era igual à Sissi do Pó, ah, isso era. Mas que fenômeno seria esse? Onde estariam as “energias sutis” de que meu guru falara? Coincidência demais, loucura demais. A essa altura, o grupo de bruxos e eu já estávamos frente a frente. Foram, todos, muito afáveis, durante as apresentações mútuas. Sidnéia, de longe, olhou para nós e sorriu com mansidão.

“Quer assistir ao espetáculo? Não é exatamente uma diversão… Mas você é bem direto, não, rapaz?”, disse-me o cinquentão sorridente, que se chamava Pablo Viveiros. Pablo dirigiu-se aos seus amigos: “Pessoal, que acham?”

“Ele é transado”, disse dona Mirna, a que parecia ter uns setenta anos. “E deve ter consciência dos perigos que corre.”

Aí me contaram o que Sergei Aparecido já havia dito. Eu lhes esclareci que pertencia a determinada ordem, que era guiado por um mestre, mas que, de quando em vez, cometia alguns equívocos. Espiritualmente, estava mais ou menos preparado para a seção da tarde. Ou melhor, da noite.

Dizia tudo aquilo sem tirar os olhos de Sidnéia que, agora, desinteressara-se das pequenas frutas (eram amoras, acho) e olhava para longe, em direção do rio, andando de um lado para outro. Salvai-me, Mestre! Ela mexia comigo de longe, e apesar de todas as complicações e mistérios da situação. Porra, a minha namorada estava presa como traficante na capital e aqui, no interior de um outro Estado, encontro uma mulher igual a ela. Pior: vou-me sentindo envolver, fisicamente; excito-me pelo exercício de vê-la, como a uma miragem, e a memória potencializa essa exaltação dos sentidos, remetendo-me a momentos inesquecíveis, curtidos com uísque doze anos, muito gelo e um cedê maluco do Guns N’Roses.

O grupo pediu licença para conversar entre eles, e eu me afastei. Foi uma conferência bem rápida. Eles voltaram sorridentes, balançando a cabeça, afirmativos. “OK”, disse a mulher mais velha, que simpatizara, evidentemente, comigo. “Você pode ir e nós ainda vamos lhe proteger.”

Aí pediram licença para dar um pulo à pousada deserta. Era o que eu queria: ficar a sós com a minha amada. Sidnéia II olhou para mim e fez um movimento em minha direção, também. Minha respiração ficou suspensa quando nos olhamos nos olhos e o meu rosto chegou a alguns centímetros do seu.

“Você…”, eu consegui balbuciar.

“An-ham…”

Sorriu levemente e apertou minha mão.

“Como é que pode, Sidnéia, você…”

“Não fala.” Ela pôs um dedo sobre os meus lábios. A voz era a dela, e estremeci de emoção pura.

Não havia mesmo o que dizer. Enlacei-a pelo ombro e fomos, com uma certa pressa, em direção ao meu quarto na pousada. Estávamos tremendo de amor. Ficáramos uma semana longe um do outro. Abri a porta, acendi a luz, puxei-a para mais perto de mim e fui abrindo os quatro botões da sua camiseta. Ela arquejava, suas narinas se abriam e se fechavam, e isso me excitou ainda mais. Comecei a me recordar da nossa primeira vez, mas ocorreu uma interferência. Eu me preparava para beijar muito intimamente seu corpo, quando de súbito ela deixou de ser ela mesma e se transformou no meu Mestre: completamente nu e tão excitado como eu.

Primeiro o susto, depois o pensamento sobre os “relacionamentos apenas brilhantes”.

Deve ter sido a única vez na minha vida em que recuei após chegar tão próximo de um objetivo. Os deuses sabem o quanto custou. Diante da cara de espanto de Sidnéia, que retornara à aparência anterior, pus minhas calças correndo e saí, sem camisa, para o lado de fora do prédio. Golias deu o seu segundo ataque e desta vez deixei-o de lado. Ele era capaz de permanecer horas latindo.

“Seu Pablo! Dona Mirna! Todo mundo!”, gritei com todas as minhas forças.

Dona Mirna estava na varanda, vestida totalmente de preto, parecendo mais jovem. Ela chegou a se assustar.

“Dona Mirna, quem é aquela moça que estava à frente de vocês e se afastou para colher umas frutas na hora em que eu apareci?”

“Somos duas mulheres no grupo, eu e a Mary, que não é propriamente moça…”

“Dona Mirna, a moça, bonita, alta, vinte e seis anos…”

“Sua… namorada?”

“Digamos que sim. Então ela é…”

Vi o pânico surgindo no rosto de dona Mirna e ela começou a gritar alto algumas frases incompreensíveis numa língua que me pareceu inglês. No meio das frases, entendi que ela chamava, também, os seus companheiros. A velhinha virou-se para mim.

“Neste ano, as formas-pensamentos chegaram muito antes do que esperávamos, rapaz. Você as trouxe, inconscientemente. Sua energia é muito forte, mas precisa ser equilibrada…”

Olhei para trás, para a entrada da pousada, e vi a minha amada, mais bonita ainda, estendendo os braços para mim. O rosto estava lavado de lágrimas. Ela ia dizer alguma coisa, mas eu a interrompi, falando alto para a velhinha de preto ao meu lado.

“Que é que eu faço, dona Mirna?”

“Fique aí, rapaz. Não saia daí. Veja o que está vindo por trás da… coisa.”

Não é possível descrever. Havia um garçom, elegante e antigo, carregando uma bandeja onde repousava a cabeça ensanguentada do meu Mestre. Ao lado do garçom surgia o mais assustador daqueles presos que, na semana passada, quase me haviam papado. O espectro, ou o que fosse, ajeitava os cabelos com as mãos.

“Não acredite neles, rapaz”, disse a velhinha. “São ilusões, são pensamentos. Não acredite em ninguém, nem em mim!”

Dona Mirna me sorriu como se fora uma avozinha. Dei-me conta de que a névoa azulada virara treva e que a noite baixara de vez em Portal das Canoas.

Estava na hora de queimar as velas.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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