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Posts Tagged ‘espíritos da Natureza’

Era um canário belga estabanado. Sempre saía do ninho num voo rasante, passando em alta velocidade entre as roseiras, e eu temia por Nancy. Fadas possuem um coração muito frágil, assustadiço, mas Nancy exagerava. A qualquer prenúncio de trovão, ou latido de cachorro, mesmo longínquo, o pequeno ser gritava um “uiii” dolorido, como se uma abelha a picasse, e aí desfalecia. Se fosse um ser terráqueo, gritaria “ai, meus sais”, como as damas antigas ao desmaiar.  No fundo, Nancy era mesmo uma fresca.

Mas, em se tratando de uma pequena fada, que possui asas e voa, a vertigem pode levar a uma situação mais perigosa: não que Nancy corresse o risco de se esborrachar no chão, ela nem tinha peso para isso, mas mesmo caindo suavemente, até com uma graça de bailarina, os cães seriam atraídos pelo cheiro de flor que as fadas exalam, e algum entre eles poderia abocanhá-la.

Claro, fadas não morrem, mas os cães, assim como quaisquer outros animais, não devem se traumatizar com manifestações esporádicas do Mundo Superior. E como se sentiria um cão, ao abocanhar uma coisa que parece uma flor, se essa coisa lhe some da boca? As leis naturais exigem respeito, e os seres do Mundo Superior, por definição, jamais devem interferir na faixa de onda em que vivemos. Fadas, como outros seres do Mundo Superior, possuem um desenvolvidíssimo “sistema imunológico”, autopreservação automática, que as fazem pular de uma dimensão a outra ao menor sinal de incongruência. Não é natural um cachorro mastigar uma fada.

É por tudo isso, aliás, que a nossa comunicação com o outro lado é tão complicada.

Eu não conhecia nada disso, e muito menos os via, os do outro lado, ou me comunicava com eles, até que ganhei um vizinho novo: Amadeo.

O antigo dono da chácara ao lado da minha, um bondoso executivo francês aposentado, havia morrido um mês antes. No dia da sua morte, senti a minha primeira desconfiança de que algo estranho acontecia no pedaço de terra ali ao lado.

Seu Galdino, o caseiro, veio me contar da morte do patrão. Chorava, coitado, e pediu-me para ir até a casa e telefonar para alguma autoridade, um médico, ou a polícia. Galdino era um homem muito simples e não sabia como tratar a morte dos superiores.

Eu estava por ali havia apenas três meses, tentando me refazer de um casamento frustrado, e mal conhecia o francês. Mas fui atrás do caseiro. Já no portão, senti uma sensação de bem-estar que jamais experimentara na vida; ao atravessar a longa trilha até a pequena casa de madeira (estranhamente, o francês dera a casa grande para o caseiro, que tinha família, ao contrário dele), foi como se ouvisse, não com ouvidos físicos, mas dentro da mente, um concerto erudito de deslavado romantismo, lembrando Schubert.

“Você está ouvindo, Galdino?”

“O senhor nem me pergunte o que eu ouço aqui…”, respondeu o homem, misterioso.

Ao olhar o corpo de Henri no leito de morte, não acreditei que estivesse morto: não há mortos corados, parecendo mais jovens do que quando vivos, mas acreditei no caseiro e telefonei para o hospital, dizendo que havia uma pessoa “que parecia morta”, na chácara tal, etc. O pequeno quarto de monge, com toras de madeira em vez de paredes, estava coberto com uma luminosidade estranha, feita de pequenas partículas de luz, e a melhor definição talvez fosse mesmo um título de música antiga, “Poeira de estrelas”.

Então o cadáver saudável de Monsieur Henri foi enterrado, na própria chácara, e dois meses depois apareceu Amadeo. Era o oposto do francês: gordo, mal-educado, direto. Não me visitou. Mandou Galdino me convocar.

“Melhor o senhor ir, o homem não é flor…”

Galdino contou-me que havia sido expulso da casa grande e que agora morava com mulher e três filhos no cubículo monástico do francês.

“Pois fala pro teu patrão, Galdino”, eu disse irritado, “que eu quero mais que ele se foda!”

“Digo isso não, doutor…”

“Então não diga, mas eu não vou.”

No dia seguinte, a figura bateu lá em casa.

“Eh, vizinho, chamei você lá pra lhe mostrar umas coisas…”

“Entre, sente-se, tome um café e vamos nos apresentar”, eu propus, gentil mas nem tanto.

O sujeito usava botas de cavalgar, embora não tivesse cavalos; e um chapelão quase mexicano, apesar do tempo nublado naquele dia. Era empresário do setor de transportes. Tinha frotas de ônibus.

“Conhece meu sítio aí?”, perguntou, após dizermos quem éramos.

“Estive lá uma vez, quando Monsieur Henri morreu.”

“Sabe que é o dobro do seu?”

“Sei.”

“Que possui uma casa maior, que tem reserva de mata atlântica?”

“Sei, sei. Mas está perguntando por quê?”

“Quero saber se quer trocar.”

“O quê? Um sítio pelo outro? Posso até pensar no assunto. Mas quero antes saber o motivo real desse seu desejo.”

Amadeo tirou o chapéu, coçou a cabeça, serviu-se de um pouco mais de café e cruzou as pernas, anunciando que não sairia tão cedo.

“Estava aqui pensando numa boa mentira pra lhe dizer, mas vê-se que você é gente fina e isso poderia até estragar nosso negócio. Dane-se se você vai acreditar ou não, mas o meu sítio é assombrado…”

Sorri. Ele não gostou. Aí me deu vontade de rir. O vizinho ficou uma fera:

“Não é que seja assombrado de gente morta, pô, não!”, ele esclareceu. “É… é morada de elementais. E quando eles escolhem um canto, babau. Não saem de lá nunca mais.”

Eu sabia o que eram elementais, ou espíritos da Natureza, mas não acreditava nisso e muito menos que um sujeito grosso como Amadeo os levasse a sério. E ainda usasse isso para promover um negócio absolutamente desvantajoso… para ele.

Tem mutreta aí, pensei. Mas já estava muito curioso para cortar o assunto.

“Então vamos lá, seu Amadeo”, propus. “Vamos ver as fadas e os duendes da sua chácara.”

“Por enquanto não há duendes, só fadas e ondinas”, ele disse, sério. “Mas onde há fadas em geral há salamandras, só que estas eu não vi.”

Na entrada da chácara não senti o mesmo que no dia em que Monsieur Henri morrera. Mas que o clima se tornava espiritual, leve, harmonioso, em que até a temperatura parecia mais baixa, disso não havia dúvida.

Os dias seguintes foram os mais fantásticos que vivi em toda a minha vida. Amadeo, uma figura grosseira, inconveniente, quase repulsiva, passou a me dar aulas práticas de mundo espiritual – ou de encantamento.

“Eu vejo essas coisas desde menino”, ele explicou. “E vejo outras também, mas estas eu prefiro não lhe dizer…”

“Nem quero saber!”, eu reforcei, e fui atrás de Amadeo para perto do lago, abastecido por uma pequena cascata natural.

“Olha ali no meio da queda, na curva da água”, ele me apontou. “Fixa, não tira o olho!”

Não vi nada, o que deixou meu vizinho meio irritado. Mas ele se conteve. No dia seguinte, como combinado, tentei de novo, e nada. Uma semana depois descobri que um pedaço da água vertendo não era água, mas uma outra forma.

“Fala, fala como é a forma, caceta!”, gritou Amadeo.

“É… difícil. É como… uma mulherzinha. Uns dois palmos de altura…”

“Puta que o pariu! Você está vendo, cara! Está vendo! No começo é assim, só a silhueta. Depois, a forma completa, e com um pouco mais de tempo você conversará com ela!”

Sessão encerrada, Amadeo abriu algumas bebidas, que recusei, e comecei realmente a entender o motivo da proposta da troca da chácara. Amadeo não conseguiu dar o terceiro gole no seu uísque. Passou mal.

“Veja você”, ele disse. “Em terreno de elemental a gente não pode nem beber, fazer sacanagem, nada.”

“Agora entendi. Lá em casa pode, né?”

“Não tem um puto de um elemental na sua chácara. É tudo limpo. Quer dizer, tudo propício.”

Eu refleti um pouco sobre a complexidade das dádivas celestiais: um desclassificado como Amadeo conhecia o mundo espiritual na intimidade; e uma pessoa de bom senso como eu só conseguia ver silhuetas. Mas Deus sabe o que faz e as minhas aulas continuaram. Foi a condição de aceitar a troca de terrenos. Tive mais sorte: ganhei seu Galdino de presente.

Em três meses, travei o meu primeiro diálogo com uma fada (elas me pareciam mais acessíveis que as ondinas): foi a Nancy. Sua voz fininha e lamurienta entrou pela minha audição mental aos poucos, mas em dois dias eu descobri que até entre os duendes e afins há quem fale pelos cotovelos.

Vivi uma história longa com Nancy (ainda vivo), que conto depois. Havia esquecido de lhes dizer: sou artista plástico. Pinto a óleo quadros imensos. E, de um certo tempo pra cá, minha obra tornou-se mágica, mística, encantada. Passei a vender toda a minha produção simplesmente retratando o que meus novos olhos viam. Tenho grande procura. Estou ficando caro e importante no mercado.

Mas não pude resolver o problema de Amadeo. Após a troca dos terrenos, ele viveu alguns meses feliz, promovendo bacanais e todo tipo de farra no meu ex-sítio. Até construiu uma piscina cara, com pérgula e tudo.

Primeiro foram as salamandras: após uma das bebedeiras, quando os amigos farristas de Amadeo se recolheram à casa grande e acenderam a lareira, as salamandras começaram a jogar brasas sobre eles. Foi uma correria, um agito. Que acabou em briga, com direito à polícia e satisfações na delegacia, porque um pensou que fosse brincadeira de mau gosto do outro.

Mais tarde, as ondinas passaram a sussurrar orações na audição mental das mulheres peladas que enchiam a piscina, o que as deixou constrangidas e até emocionadas. Uma delas chorou, ruidosamente, e jurou que jamais voltaria a ser garota de programa.

Amadeo me procurou.

“Você estimulou tanto os elementais a viver no seu pedaço que eles agora estão invadindo o meu”, choramingou a figura.

“Você deveria estar feliz”, eu respondi. “O Bem o persegue. Não querem que você pratique qualquer pecado. Não é à toa que você nasceu com o dom.”

“As fadas estão contra mim”, ele choramingou, ainda. Mas percebi que já não recendia a álcool, como nos últimos tempos.

Do livro Allegro – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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