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Posts Tagged ‘exterminador’

A secretária do Instituto de Testes Vocacionais (Intevoc) olhou sorrindo para mim (sorrisos, odeio sorrisos).

Nem Ciências Exatas… disse ela, mordendo a tampa da caneta esferográfica (uma porca)…

“… nem Biológicas!”

Deu uma risadinha fina e eu, não suportando, lancei-a a três metros de distancia, no chão, com um murro no seu rosto. Ela caiu de pernas para cima, ostentando o fundilho fummée.

“Oh…”, ela fez, tentando se levantar, querendo consertar os óculos partidos. “É exatamente isso! É isso!”

Levantei-a pelo pescoço, o rosto dela arroxeou todo (havia só uma pequena circunferência marcada, do murro) e ela ainda gemeu: “É isso, acertamos…”

“O quê? O quê? O quê?”, eu disse, mordendo a língua, a língua sangrando e eu cuspindo sangue na cara da mulher. “O quê? Hem, sua vaca?”

“Sua única vocação”, disse ela estrangulada, ainda segura por minhas mãos enormes, “é para o homicídio profissional . . .”

Fiquei surpreso e larguei-a. A secretária jogou fora os óculos, tirou outros da mesinha (onde também havia um pronto-socorro portátil) e, ainda sorrindo (sorriso deformado pelo inchaço, já não me irritava tanto), completou:

“O senhor é a pessoa mais agressiva que já passou pelo Intevoc. Por favor, vá correndo procurar o Sinexin (Sindicato dos Exterminadores Independentes), vá correndo… Agora!”

E, ao dizer isso, aproximou seu rosto espancado do meu e suplicou, com cheiro de Halitol (odeio perfumarias).

“Me mata agora, bem. Me mata.”

Um clip, que eu já havia transformado em arma com minhas mãos nervosas, foi-lhe enfiado no pescoço, à altura da jugular. A secretária caiu, sangrando, exclamando na agonia: “Meu amor…” (Mas que ódio!)

Sai do Intevoc derrubando a porta com os pés. O Sinexin ficava a alguns quarteirões. Com um paralelepípedo, que apanhei na rua para qualquer eventualidade, esmigalhei o crânio da mulatinha que me veio vender pentes (tenho ojeriza a gente pobre e de cor parda); imobilizei o guarda de transito da esquina, tomei-lhe o revólver, pedi que ele abrisse a boca, ele abriu, e eu descarreguei o revólver dentro. Ouvi as pessoas comentarem perto:

“É um Exterminador! De berço! Dos bons! Incrível! Chuchu-Beleza!”

As pessoas estavam encantadas e eu muito orgulhoso. Enfim, sabia, tinha certeza da minha verdadeira vocação.

O prédio do Sinexin, como você sabe, imbecil, é uma fortaleza blindada com o robô Armando à porta. Armando engatilhou sua metralhadora, acendeu as luzes e perguntou, com a voz de fita já meio estragada:

“Falar com quem? Falar com quem? Falar com quem?”

Saltei de lado, com minha agilidade nata, a metralhadora disparou automaticamente, matando pelo menos quinze pedestres. Com aquele mesmo paralelepípedo amassei a velha lataria de Armando. Ele caiu, só uma luz vermelhinha ficou piscando, mas a fita não se danificou.

“Falar com quem ? Falar com quem ? Falar com quem?”

Irritadíssimo com aquela ladainha nos meus ouvidos, evitei o elevador e subi as escadas de mármore, dois degraus de cada vez. Cheguei ao décimo andar em alguns minutos e nem estava cansado (não fumo, não bebo, não jogo).

Havia uma porta de jacarandá anunciando: Presidente. Num impulso inconsciente (quase todos os meus impulsos são assim), tentei derrubar a porta, não consegui, fui tomado de fúria absurda. Fiquei como um tonto, um louco, procurando no chão alguma coisa pesada, para derrubar, ou forçar, aquele impedimento (não posso ser impedido). Mas a porta abriu-se sozinha e o Presidente apareceu, portando uma metralhadora igual a de Armando. Eu já o conhecia de fotografias nos jornais e da tevê.

“Você é brilhante”, disse-me ele, e a voz também me pareceu gravada. (Seria um robô, talvez?]

Fiquei muito feliz e preocupado ao mesmo tempo porque senti que o elogio destrói  90% do meu potencial agressivo. Então reagi:

“Brilhante é sua mãe, corno safado! Chupador de buceta! Cara de sapo! Cocô de galinha!”

Ele repetiu “você é brilhante”, enquanto arremessava, com um gesto de mágico, quase imperceptível, um punhal sobre o meu peito. Por um segundo, eu me senti como uma câmera de Cinema Novo (e logo eu, que odeio o Cinema Novo!), meus olhos acompanhando a queda do meu corpo, rodando pela sala, fixando um detalhe aqui, um relógio de ouro na parede, o pedacinho do carpete queimado de cigarro, eu morrendo no duro, e os arrepios da morte lembrando sensações esquisitas do tempo em que eu comia (ugh!) mulheres, e o Presidente do Sinexin, com a voz sumida (em off, em off) afirmando que, realmente, eu sou um gênio, uma capacidade, um exterminador nato, eu sou Jesus, Jesus!

Do livro “Leonora Premiada”, Editora Duas Cidades, São Paulo, 1974.

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