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Posts Tagged ‘família assassinada’

O que é que Mr. Thompson J.J. poderia fazer com toda a família assassinada à sua volta? A mulher de bruços – posição adequada à sua obesidade; o filho mais velho, um morto sentado no chão de boca aberta, como se estivesse bêbado, era uma posição familiar; o mais novo – Mr. Thompson sentiu certa raiva do mais novo – caído no chão com os olhos esbugalhados (olhos verdes, de  bola de gude) para o teto, mostrava que havia morrido em pânico. Era o mais covarde da família, alguém lhe dissera isso um dia, talvez Mr. Thompson mesmo, e o rapaz baixara a cabeça, chorando.

Os urros vinham do sótão e Mr. Thompson imediatamente antipatizou com eles. Seria O Búfalo? O Chimpanzé Dolicocéfalo? O Tartamudo Anônimo?

Mr. Thompson subiu correndo ao sótão. O Búfalo – era mesmo o Búfalo – estava lá, urrando. As patas cobrindo o focinho. Chorava? Arrependido?

“Ei.”

O Búfalo olhou para o homem, sem surpresa, apenas incomodado por sua presença. Ia voltar a cobrir o focinho, quando, quando…

“Ei, Ei!”, o pai da família insistia.

“Quero ficar sozinho…”, disse o Búfalo.

“Eu sou o pai da família assassinada”, esclareceu Mr. Thompson.

“Muito prazer”, disse O Búfalo.

“É todo meu.”

“O quê?” O Búfalo, surpreso.

“O prazer. É o prazer que é todo meu.”

O Búfalo, envergonhado, ainda olhou para o homem. ‘Quando ele dizia’ pensou, “o prazer é todo meu”, estaria ironizando’?

“Reconheço que não foi um bom trabalho…” O Búfalo balançou a cabeça, ameaçando chorar de novo.

“Isso eu notei!”, disse o pai de família. “Trabalho muito sujo. Sem sutileza. A casa encharcada de sangue. E os corpos espalhados no chão. Uma desordem.”

Mr. Thompson gritou, de repente:

“Você não é uma pessoa asseada, Búfalo! Não é não! Como foi o contrato com o Sindicato? Hem? Hem? Como, como?”

“Serviço completo”, suspirou O Búfalo. E depois recomeçou a chorar.

Mr. Thompson J.J. saiu do sótão, deixando os urros para trás, irritadíssimo. Passou aos saltos sobre os cadáveres (a expressão do filho caçula quase lhe causa arrepios de nojo) e entrou na biblioteca. Apanhou a cabeça de antílope que enfeitava a parede (uma enorme cabeça de poliéster que ele havia comprado na Zona Franca; baratíssimo) e a enfiou na própria cabeça, como uma máscara. Depois, com alguma dificuldade (a máscara pendia para um lado e outro, ameaçando cair) abriu a gaveta da escrivaninha, apanhou o revólver. Ia voltar ao sótão, mas alguém bateu na porta.

(Hesitação. Mr. Thompson em dúvida: abrir a porta antes ou depois de liquidar O Búfalo?)

“Quem é?”, perguntou o chefe da família, com o ouvido grudado na porta.

“O pão!”, disse uma voz alegre do outro lado.

“Estão todos mortos, vá embora!” Mr. Thompson estava com pressa. O Búfalo ainda urrava lá em cima.

“Então, o senhor conseguiu a Magna Permissão?” A voz do lado de fora ficou mais alegre. “Então, parabéns Mr. Thompson! Não anistiou ninguém? Ninguém mesmo? Nem unzinho?”

“Estão todos mortos, palhaço! Caia fora! Se quiser mais informações, diga a todo mundo que o número do edital da Magna Permissão é 187/73.”

Mr. Thompson J.J. não quis falar mais e subiu as escadas equilibrando a cabeça de antílope. Mr. Thompson poderia perdoar tudo neste mundo – até a família – menos um profissional desleixado, anti-higiênico.

Do livro “Leonora Premiada”, Editora Duas Cidades, São Paulo, 1974.

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