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Posts Tagged ‘globalização’

Estávamos em um daqueles ônibus antigos que, após o desembarque do avião, nos levam da pista até o aeroporto. Eu ia justamente pensando no eterno atraso em que vivemos com relação a outros lugares. Devemos ser um dos poucos países que ainda usam esse tipo de transporte, bastante complicado porque atrasa a operação em pelo menos meia hora, o que é incompatível com as necessidades contemporâneas de otimização do tempo. Só temos desembarque civilizado em uma ou outra grande cidade.

Eu sou um defensor assumido da globalização da economia e da modernidade dos costumes. Não podemos viver num mundo de parasitas, de viciados em previdência, de doentes e idosos.

Bem. Pessoas como eu não são a maioria dos contribuintes. Ainda. E assim me vejo obrigado, sempre, a conviver com as baldas do Terceiro Mundo. Tenho pensado seriamente em pedir transferência para uma das nossas filiais nos Estados Unidos ou no Canadá.

E lá vinha meio perdido nesses pensamentos, porque não há nada a fazer num ônibus de embarque e desembarque, quando o sujeito ao meu lado, terno impecável, cabelo à escovinha, gravata gloriosa, começou a berrar para ninguém:

“Não vou fazer isso! Quero que você se dane! Chamo de você, sim, seu incompetente!”

Gravei todas as suas palavras, pois foram ditas, além do volume altíssimo, com firmeza e convicção. Só que, após os gritos, o homem, que não tinha mais de trinta e cinco anos, transformou-se completamente. De furioso virou um cordeiro, pálido, balbuciando “me desculpem, me desculpem”, para mim e outros próximos, e aceitou o lugar que alguém lhe ofereceu em um daqueles banquinhos laterais.

Cabisbaixo, envergonhadíssimo, fez todo o percurso com o olhar fixo em nada e foi o primeiro a descer, quando o ônibus parou. Chegou a empurrar uma senhora à sua frente, que protestou: “ah, que mal-educado…”

O fato não me passou despercebido. Pelo contrário. Tudo bem, já disse que sou favorável à economia globalizada e à competitividade na sua expressão máxima, ou do contrário nos transformaremos nos mendigos do Planeta, a exemplo de alguns países africanos e asiáticos, de economias engessadas e difusas, sem produtividade e eficiência. Ou, por outro lado, sofreremos do mesmo jeito, se mergulharmos em modelos nacionalistas ultrapassados. Não, precisamos reagir. Mas sou obrigado a reconhecer que esse estilo de desempenho econômico nos tem levado a alguns exageros mais ou menos ridículos.

Os workalholics, por exemplo. Carentes, com problemas de auto-estima, os viciados em trabalho têm sido os palhaços da globalização, e só têm servido, na verdade, aos inimigos declarados dos novos tempos, que não são poucos. O rapaz do ônibus era, sem dúvida, um workalholic.

Quando o vi, no dia seguinte, numa foto de jornal dizendo que se jogara de um viaduto, fiquei chocado, é claro, mas achei o fato imensamente lógico. Ora, um cara que, sem mais nem menos, começa a gritar dentro de um ônibus, dirigindo-se a um chefe imaginário, chamando-o de incompetente, sem levar em conta o cenário social em que se inseria, sinceramente… está louco ou quase louco. Nada a estranhar se se jogou de um viaduto. Li, distraidamente, que ele trabalhava para a South World and Co, uma company da Nova Economia, bastante conhecida pela sua ousadia nos negócios e seus métodos pouco ortodoxos, como acusações de suborno a altos funcionários do governo em troca de favorecimento em concorrências públicas.

Mas, uma semana depois, aconteceu algo parecido com “Sammy” Oliveira, um outro executivo meu amigo e que, por coincidência, trabalhava na South World.

Modéstia à parte, sou muito bom naquilo que faço. Como auditor de alto nível, sou capaz de seguir uma pista, desmascarar um cúmplice, desfazer tramas diabólicas. O meu sininho interno soou firme, dizendo que havia alguma coisa errada na South World. E, afinal, os filhos de “Sammy” Oliveira costumavam jogar boliche com os meus. E sua viúva, Carminha, era amiga da minha mulher. Eu ficara muito desconfiado. “Sammy” ainda não completara quarenta anos.

Puxei pela internet as ocorrências policiais nos grandes jornais, mas descobri que os crimes só merecem a mídia quando acompanhados de evento: um assalto, uma vingança, uma atitude passional. A morte de pessoas por doenças comuns, como infartos, mesmo que sejam executivos destacados, dificilmente é noticiada. Fui obrigado e procurar a Secretaria de Segurança para aprofundar minhas pesquisas e, pasmo, acabei descobrindo que, nos últimos quatro meses, mais de vinte executivos haviam morrido muito jovens, de acidentes ou doenças súbitas, a maior parte deles ligada à South World.

Naturalmente, fazia tudo isso fora do meu horário de trabalho, durante o almoço, ou mesmo à noite, que não sou de engabelar as empresas para quem presto serviços profissionais. Pois estava eu, posto em sossego, quando bateram à porta da minha sala, delicadamente. Ninguém faz isso. Ou me avisam pelo interfone que gostariam de falar comigo ou enviam um delicado e-mail solicitando uma audiência.

Só uma pessoa faria isso: Anthony, the Boss. Pois era ele mesmo, em pessoa. Não pude conter a emoção. Eu me entrevistara com Anthony, the Boss, uma única vez, havia dois anos, quando assinei o contrato com a empresa. Não conhecia ninguém que houvesse conversado com ele, além do gerente executivo, que o via três vezes por ano.

“Dá licença, querido Gerson…”, ele foi dizendo em inglês. “Por favor, não se emocione, eu sei que minha presença é uma raridade.”

Pediu-me que me sentasse, e eu obedeci. Ele puxou o cachimbo, acendeu.

“Soube que está muito interessado nos acidentes envolvendo executivos da South e – não sei se já descobriu – houve também alguns acidentes envolvendo funcionários nossos, e de outras empresas internacionais. Não é só a South…”

“Bem, não foi minha intenção…”

“Não, não, não. Não se justifique, nem peça desculpas. O senhor é um homem inteligente. Vi na sua biografia eletrônica.”

“Muito obrigado, senhor.”

“Não, não, também não agradeça. Sabe, aquelas pessoas, aqueles executivos, não existiam.”

“Como assim?”

“Bem, um dos nossos gerentes, Mister Mondley, resolveu pesquisar alguns desses incidentes, muito antes do senhor. O senhor deve ter percebido que, antes de sucumbirem, vítimas de acidentes graves ou males súbitos, esses executivos de alguma forma se notabilizaram, negativa ou positivamente. Uma briga doméstica com intervenção policial, ou gritos dentro de um ônibus no aeroporto… o senhor sabe do que estou falando, não?”

“Claro.”

“Pois bem: Mister Mondley, que é… que era um fabuloso hipnotizador, acercou-se dessas pessoas e, com muita habilidade, conseguiu levá-las ao transe hipnótico.”

“Sim, mas qual era a teoria?”

“Ah, Mister Mondley acreditava que os incidentes ocorriam como uma manifestação de autopunição. Eram elas, as pessoas, que provocavam os incidentes, que chamavam a atenção do público, de alguma forma.”

“E aí, hipnotizando-as, o tal do Mister Mondley chegaria ao cerne da motivação auto-punitiva”, comentei, ainda chocado.

“Sim, o senhor já entendeu tudo… Mas sabe o que o nosso hipnotizador descobriu? Que aquelas eram pessoas sem memória. De carne e osso, com certeza, com identidade e passaporte, mas que viviam unicamente o minuto presente, como se fossem replicantes programados a distância. Não se recordavam nem da família, da esposa, dos filhos, dos próprios pais, da infância… Eram máquinas… equivocadas. Cascas. Unicamente cascas.”

“Mas… essas cascas não seriam substitutas das verdadeiras personalidades? Seriam cascas alienígenas? Invasores?”

“Não saberemos jamais. Algo apagara suas memórias. O quê… ainda hoje me pergunto. Mas você sabe, meu querido Gerson: nós, executivos internacionais, estamos reunidos em uma grande associação particular destinada à nossa própria defesa. Não poderíamos permitir que algum inimigo desconhecido minasse nossas bases profissionais.”

“Aí, eliminaram os desmemoriados!”

“Oh, meu querido Gerson, não seja tão pouco sutil. Estou aqui em nome da associação para lhe pedir, encarecidamente, que dê um basta às suas pesquisas. No mundo em que vivemos, as grandes questões não valem a pena ser pesquisadas tão a fundo. Você não acha?”

“O senhor, por acaso, não pensa que eu sou uma casca, pois não?”

“Oh boy: você não estaria mais aqui se eu pensasse isso. Imagina se você iria esquecer aquele momento magnífico em que nós dois estivemos em Bonito, a pescar pacus…”

“Nós dois? Em Bonito?”

“Brincadeira, meu caro! Não se assuste. Estou aprendendo com vocês, brasileiros, a brincar assim. Tão divertidos, tão bem-humorados…”

Claro. Sem dúvida alguma. Somos uns palhaços. Mas o que poderia eu fazer diante daquela ameaçadora entrevista? Pensei nos meus filhos, em Priscilla, minha mulher, e quase chorei, imaginando que seria morto na próxima esquina, como uma queima de arquivo. Pensei em “Sammy” Oliveira. Será que ele era uma casca mesmo? É verdade que só falava bobagens, mas tantos são assim…

Durante meses, andei em pânico. Só que nada aconteceu e, ao contrário, passei a ser um dos homens de confiança de Anthony, the Boss.

Ligava-me, diretamente, pedindo informações sobre pessoas e processos. Aos poucos, fui desconfiando que uma boa parte não só do mundo executivo, dos pilares da economia, mas da própria humanidade, não passava de cascas vazias, carnes sem memórias. Alguns desses tiveram de ser destruídos pela associação. Mas, pensando bem, não sei se eles nos fariam mal. Talvez fossem inofensivos.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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