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Posts Tagged ‘homossexual’

O robe

Dorothea, a mãe, não bebia; qualquer um poderia apostar o contrário. Usava um robe puído, manchado (café? manteiga?) e costumava interpelar o filho antes de ele seguir para a escola, onde frequentava o último ano do curso médio. A voz de Dorothea: arrastada, mole, guardando, no entanto, um charme distante.
“Estou feia, Bezinho?”
“Não, mãe. Linda.”
“Não me goze. Já me olhei no espelho. Um trapo.
“A senhora é cruel consigo mesma.”
“Tá vendo? Me chamou de senhora. Só uma mulher feia pode ser chamada de senhora. Sou jovem, ainda. Quer dizer, vivida, sim, mas cheia de recursos…”
“Recursos?”
“Técnicas. Sou capaz de enlouquecer qualquer homem. Até um da sua idade.”
“Na minha idade é fácil, mãe. Os caras não se aguentam com os hormônios.”
“E você, se aguenta?”
“Isso não se comenta com mãe.”
“Tem razão, Bezinho. Eu me esqueço de que você é a pessoa mais séria da família, e a mais equilibrada.”
“A senhora também é, mãe. Só tem umas recaídas.”
“Sempre irônico, também. Mas ironia classuda… Não sou equilibrada coisa nenhuma, meu filho! Esse amor que perdi ontem… hoje pensei em todos os outros e sabe do que descobri? Perdi a conta. Só sei que neste ano foi o quinto.”
“Normal.”
“Como, normal? Se seu avô estivesse vivo me chamaria de spudorata… Uma vez me chamou de puttana. Mas se arrependeu.”
“Assim mesmo, em italiano?”
“Ele era italiano. Nunca disse um palavrão em português. Muito respeitoso, meu pai.”
“Incrível sua ideia de respeito, mãe. Mas eu acho normal a senhora ter tantos namorados. O pai morreu cedo. Claro, seus romances não ajudaram muito a minha formação psicológica, mas ninguém tem culpa disso.”
“Você também tem muitos namorados, bobinho. Não contei, mas acho que, pelo menos este ano, você teve mais do que eu.”
“Uns são só amigos.”
“Que nada, Bezinho. Homossexuais são vorazes. Como eu sou, também. Será que se eu virasse a mão, seria mais gulosa ainda?” – A voz dela, agora, parecia apenas charmosa.
“Mais ainda? A senhora? Acho difícil.” O rapaz sorriu.
“Sabe, Bezinho? Nas minhas orações, só peço que nós dois sejamos felizes. Você talvez já seja. Mas eu estou longe.”
“Ah, não se preocupe comigo. Tenho tempo. Você também: sua vida tem tudo para dar certo. Um príncipe vai surgir, o melhor de todos.”
“Você é um filho maravilhoso. Sempre pra cima.”
“Mãe, só vou lhe pedir uma coisa: lave esse robe; se você aparecer assim, talvez o escolhido não goste…”
“Ah, foi uma mancha de café, hoje de manhã. Vou passar um pano com sabão.”
“Agora, posso ir ao colégio?”
“Vá, vá. Eu fico aqui lhe esperando. Sou muito agradecida a Deus por ter um filho responsável.”
Ela escondia um espelhinho dentro do bolso do robe. Tirou, olhou o rosto. Os olhos ainda estavam manchados: rímel com lágrima.

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Era simpático, o… velhinho, eu escrevi velhinho, mas doutor Fausto não poderia ser chamado assim. Ele não tinha idade, quer dizer, não se pensava nisso ao conversar com ele. São poucos os idosos desse grupo.

“Dema”, meu pai dizia, quando eu ainda era adolescente, “os seres não têm idade; você precisa assimilar, neles, a energia, o astral. Você já percebeu que os grandes poetas não envelhecem? Eles podem ter oitenta, noventa anos, mas nós os vemos como uma energia comunicativa e não como pessoas físicas normais”.

Pai dizia isso e me dava exemplos vivos, de gente nas quais não enxergávamos a aparência, apenas a expressão poético-espiritual.

“Mas eu lhe estou apontando, Dema, gente famosa”, pai continuava. “É fácil de ver, neles, a energia. Quero que você aprenda a sentir isso nas pessoas comuns. Há jovens extremamente alquebrados, porque renunciaram à vida, espiritualmente falando. Há aqueles que se entregaram às drogas – estes são zumbis. Você precisa reconhecer os especiais. Só que, para isso, sua própria energia precisa vibrar em harmonia com a deles.”

Todos os dias eu descobria uma lição nova do meu pai. Doutor Fausto foi uma delas. Ele comprou o sítio ao lado do nosso, e sua primeira providência foi nos visitar.

(Este sítio vizinho já havia feito história. Na verdade me pertencera, anos atrás, quando vim para a região, após o fracasso de um casamento. Este meu sítio atual fora comprado por um sujeito engraçado chamado Amadeo, que se incomodava com presenças espirituais no terreno e me propôs uma troca. Aceitei, lógico, o dele era bem maior e mais bonito que o meu…)

“Muito prazer”, disse o novo vizinho, com um largo sorriso. “Meu caseiro me disse que o senhor e sua esposa são pessoas maravilhosas. Jovens cultos que decidiram viver trabalhando a terra. Este foi um sonho meu que jamais realizei, por covardia pura. Preferi trabalhar em multinacionais. Quase arrasei a minha saúde e o dinheiro que ganhei só me comprou problemas, mas aqui estou eu de volta ao sonho.”

Era simpático sim, e deveria sentir, em mim, a tal energia benéfica, para se abrir desse jeito.

“Neste lugar”, eu lhe disse, devolvendo a confiança, “o senhor terá muito tempo para encontrar as razões que o levaram a trilhar um outro caminho. Minha mulher e eu poderíamos estar nas mesmas multinacionais, mas decidimos aprimorar nossos espíritos. Assim, cuidamos de algumas vacas, de galinhas e gansos… É o suficiente para nos manter.”

“E comprar muitos livros…”

“Comprar alguns livros, ligar o computador permanentemente à internet, porque jamais vamos fugir do mundo…”

“Que coisa admirável…”, ele concluiu, apesar dos meus protestos.

“Não nos elogie, doutor Fausto, somos gente comum.”

Chamei Ana Maria e a apresentei ao novo vizinho, que logo elogiou sua beleza, em especial a pele fresca, de maçãs rosadas no rosto, como figuras de quadros renascentistas. O campo transformara Ana Maria numa deusa.

“Infelizmente sou viúvo”, lamentou-se o doutor Fausto. “Não tenho uma companheira para lhes apresentar. E não tenho planos de me casar de novo”.

Mostrei todo o nosso sítio ao ex-executivo, que se entusiasmou com as soluções simples para as criações e com a saúde dos bichos. Ele demorou muito a tocar no assunto:

“Dema. Posso lhe chamar de Dema, não posso? Eu estou aqui há menos de uma semana. Mas há alguma coisa estranha neste lugar, não? Alguma coisa não humana?”

“Doutor Fausto, os lugares não são apenas humanos. Nenhum…”

“Não, Dema, me ajuda. Seja mais objetivo. Eu ouço ruídos à noite e não são os meus cachorros que, em geral, dormem perto de mim; só fica um do lado de fora que ressona o tempo inteiro. Não são bichos, pássaros, os ruídos… não são provocados por coisas físicas. Ademais, o som, o som desses ruídos é percebido de uma forma diferente, como se uma outra concepção de som os produzisse. É claro que você me entende…”

“Claro”.

“Então, meu filho, o que acontece?”

“O senhor quer mesmo saber?”

“Sim, sim. Estou lhe perguntando…”

“Da última semana pra cá, o que o senhor está sentindo é uma grande agitação entre as ondinas… o senhor sabe o que são ondinas, não?

“Acho que sim. Elementais. Como fadas.”

“Que vivem na água ou perto dela. Como há muita água por aqui, elas gostam do lugar. No começo a gente as vê como fachos de luz. Depois, com o tempo e a confiança, elas ampliam suas formas…”

“Meu Deus, vejo fachos de luz por todos os lugares lá do sítio!”

“Mas essa agitação”, eu lhe disse, “tem uma outra causa. Não quero que fique preocupado, mas há um outro elemental, de uma natureza que não conheço, rondando os nossos terrenos. As ondinas e as ninfas, assim como as fadas, são seres muito delicados, não assustam. Mas esse elemental tem quase o nosso tamanho, e se forma não exatamente da água, mas da umidade…”

“Como… como ele é? Pode ser perigoso?”

“Correr perigo é inato à nossa condição, doutor Fausto”, disse sorrindo, e depois me arrependi, porque não se deve dar certas lições, assim diretamente, a homens quarenta anos mais velhos do que a gente. “Precisamos descobrir quem ele é e o que quer de nós.”

“Mas o que é que ele faz?”

“Barulhos, agitações. Atrai lufadas de vento gelado. Assusta um pouco os animais. Quer se comunicar.”

“E não haveria um jeito… místico de atraí-lo para uma conversa?”

“Não gostamos de magia ritual. Vamos seguir o curso do tempo.”

Doutor Fausto agradeceu muito e se retirou. Horas depois enviou flores para Ana Maria.

“Ele é gentil e de bom coração”, ela comentou.

“Só precisamos saber o que o gordo tem a ver com ele.”

Chamávamos o estranho elemental de “o gordo” pela sua largura incomum. Ana Maria o via melhor, sobretudo à noite, e conseguia descrevê-lo com alguma precisão. Eu tentava afastar o sentimento de uma certa inveja dela porque fui eu que lhe ensinei a se concentrar para ver além da forma física.

“Ele não é propriamente gordo. Parece… desproporcional.”

“Sumiu, não foi, Ana?”

“Sumiu. Nos últimos dias.”

“Você percebeu o que acontece?”

“Sobre ‘o gordo’? Não, querido, o quê?”

“Há um envolvimento do ‘gordo’ com o doutor Fausto. O ‘gordo’ o precedeu e agora ficará por lá, no vizinho. Estamos livres dele…”

“Mas ele não faz nada, coitadinho.”

“Interfere demais no plano físico e isso não é bom. Muita inquietação, muita tensão.”

Nessa noite, após enchermos a lareira de lenha, comecei a sentir as primeiras lufadas de vento gelado.

“Você está enganado”, disse Ana. “Ele não nos abandonou, vem aí.”

Os ruídos não tardaram a aparecer. Os animais se agitaram. Luka, nosso pastor alemão, chegou a uivar. A temperatura caiu abruptamente.

Fizemos nossa meditação antes de sair para o terreno. Eu estava mais assustado do que Ana.

Levamos uma tocha, Luka nos acompanhou. Estava tão frio que não tive dúvidas: amanhã vai gear e nossa horta pode ir pro brejo. Pensei em cobri-la com plástico grosso.

Não houve tempo. Tomamos um susto aos vê-los no meio do lago.

Ana Maria enxerga melhor do que eu, mas eu nunca havia divisado uma forma espiritual com tanta nitidez como a do doutor Fausto, ao lado do “gordo”. Dançavam, os dois, e imaginamos que fosse um tango. A forma do “gordo” eu não via bem. Mas a forma ovalada, que era o doutor Fausto, mais ou menos parecida com a do velho executivo, transmitia toda uma energia afável e simpática. Era impossível não gostar dela. Já o “gordo” era neutro para mim.

Ali estavam eles, poeiras concentradas, cinesias etéreas a rodar e rodar, entrelaçando-se, mesclando-se, para depois se separarem quase que completamente, presas apenas por duas pontas finas, como se fossem mãos, daquela quase matéria, ou quase fumaça – até que, num movimento súbito, corriam um para o outro e se uniam novamente… para, mais uma vez, rodar, e rodar…

“Sabe o que me ocorreu agora, Dema?”

“Sei. Li seu pensamento. São duas formas masculinas apaixonadas.”

“Mas o doutor Fausto disse que era viúvo…”

“Qual é o problema? Talvez ele nem saiba que é homossexual…”

Ana Maria ia replicar, mas uma ideia mais forte a impediu.

“Faz sentido, Dema. Se for assim, então, o novo companheiro do doutor Fausto deverá chegar ao sítio nos próximos dias. E aí o “gordo” deixará de nos incomodar com esse gelo todo…”

“A gente não tinha mesmo pensado nisso, Ana, é um reencontro!”, eu me alegrei.

Nos próximos dias, ficamos, minha mulher e eu, excitadíssimos com a chegada iminente do amigo do doutor Fausto. Imaginávamos que ele fosse um homem grande e gordo, ou um gigante musculoso, alguém assim, fora dos parâmetros.

Havíamos aprendido um pouco mais sobre nós mesmos, humanos. E nossas possibilidades infinitas de vivenciar as afeições. Aí conversamos mais profundamente entre nós e resolvemos parar com aquela ansiedade e não especular mais nada. Para nós, que já havíamos adiantado um pouco a nossa evolução, ficou definitivamente claro que o amor é simplesmente um fenômeno que se compraz a si mesmo.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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