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Posts Tagged ‘Ícaro’

Eugênio, o técnico de televisão, acordou às oito da manhã em ponto no seu apartamento à prova de tudo. Acordou com aquela sensação rara de que hoje as pessoas lhe seriam suportáveis. Sorriu, até sorriu. Escovou os dentes, mas não tomou café: correu ao grande cofre da sala, ficou ali durante quase meia hora, manipulando o complexo segredo. O cofre abriu-se, enfim, e Eugênio tirou de lá, com forte carinho, o seu tubo-voador. Olhou demoradamente (como sempre fazia) para o tubo, que ele mesmo havia construído, como se olhasse para o espelho. Falou com o tubo, ninou-o, chamou-o de “li-liu, li-liu”, beijou-o e foi ajeitá-lo nas costas, com os cuidados redobrados, na sala pressurizada.

Olhou medroso a saída do apartamento. Hoje (que sorte!] não havia ninguém, nem um fotógrafo ou um primo. Subiu devagar as escadas até o terraço do prédio. E lá estava o zelador, rindo só com as gengivas, os olhos fixos no tubo.

“Bom-dia, majestade!”, disse o zelador, sem fitá-lo, tentando entrar no tubo com os olhos.

“Tua mulher te trai”, respondeu furioso Eugênio, o técnico de televisão.

“Sim senhor, sim senhor.”

Eugênio se equilibrou nas bordas do terraço, perto de uma antena de tevê que, ele já havia descoberto, não provocava interferência no engenho. Ligou o pequeno, mas poderoso jato, tocando um botãozinho amarelo à altura do peito, e saiu voando imediatamente, com o zelador dando adeus de lenço branco. Viu, sorrindo, a cidade embaixo. Bonita, bonita. O sol perdido num céu azul de santinho. O mar longe, verde, as ilhas. O altímetro, preso à outra correia do tubo, indicava seiscentos metros. As pessoas já o haviam descoberto, pulavam em terra, apontando para ele. As crianças se excitavam. Era sempre assim, sempre assim. Deu uma revoada sobre o prédio do Banco do Mundo e um dos guardas da segurança, de prontidão no heliporto, o cumprimentou. Eugênio, o técnico de televisão, respondeu com uma banana. O guarda agradeceu. Procurava Antúlia! Procurava Antúlia! Era a mais bela, sexy, inteligente e rica adolescente da cidade. Procurava Antúlia! Como todas as mulheres, ela corria para entregar-se a ele, fazia-se também na multidão do fã clube em torno do prédio onde ele construíra o seu apartamento à prova de tudo. E Antúlia (linda, linda!), ao contrário das outras, não tinha absolutamente cheiro de nada. Procurava Antúlia!

Baixou a trezentos metros sobre a casa da bem amada, ‘oh!, eu te levarei nos meus braços!’ Antúlia, ao lado de toda a família, estava no terraço, olhando para ele no céu. Ela o queria, também, ‘oh, eu te levarei no meu colo!’

Reverteu o jato do tubo-voador, para um pouso tranquilo. Mas não desceu no meio das pessoas da família de Antúlia. Ficou afastado uns vinte metros, no fundo do quintal, e gritou, galante:

“Vem, Antúlia, vem!”

Ela correu de braços abertos, os olhos fixos no tubo-voador. Disse “meu amor, meu bem, meu sonho”, olhando para o tubo, mas agarrando-se ao técnico de televisão, que sentiu-se morrer. Também Antúlia não conseguia vê-lo?

“Queres voar? Voar?”

“Sim, sim, meu albatroz!”

Levou-a nos braços, sem dar atenção à família sorridente em terra, até o Bosque das Virgens Azuis. Lá, tirou o tubo-voador das costas, com aquele mesmo cuidado. E nesse momento – somente nesse momento – ele e Antúlia identificaram-se, amando juntos o tubo, sorrindo, deslumbrados.

Depois, ele tentou amá-la. Assim, fisicamente. Mas ela o abraçava olhando de lado, balbuciando “amor, bem, meu bichinho”, com os olhos pregados no tubo-voador. Eugênio, o técnico de televisão, não suportou. Frustrado, puxou Antúlia do chão de folhas azuis do bosque.

“Não dá! Vamos embora, vamos embora!”

Antúlia, que não percebeu sequer a interrupção do quase ato, fez a viagem de volta dizendo carinhos em francês. Só em francês. Ele retornou a todo jato, desceu à casa da família que, em transe, cercou a escolhida. A família, liderada por um punhado de tias gagas, quase ataca a moça:

“És vi-virgem? És vi-vi-virgem? Ele te-te fez? Te fe-fez?”

Mas um encanto esquisito baixara sobre Antúlia e ela nunca mais falou em português. Eugênio, o técnico de televisão, voltou ao seu apartamento solitário. Fugiu do zelador, chegou a ser displicente na sua correria pela escada (podia afetar o engenho, não podia?) e trancou-se lá, durante dois meses. Quando saiu, toda a cabeleira e a barba, que crescera muito, estavam brancas.

“Maria Antonieta!”, gritou o zelador, do portal.

“Tua mulher te trai”, disse Eugênio.

“Sim senhor.”

“Me chama de Ícaro, eu agora sou Ícaro”, disse Eugênio, o técnico de televisão, apresentando as grandes asas de cera que construíra naqueles meses.

“Ícaro!”, obedeceu o zelador.

Então, Ícaro subiu ao terraço do prédio, olhou o sol assassino e precipitou-se, batendo as asas. Voou durante horas em torno do sol (usava óculos ray-ban) e nada aconteceu. Voou cinco horas. Chorando, desesperado, voltou ao terraço, onde o zelador o esperava, com o mesmo deslumbramento, olhando fixamente as asas de cera.

“Minha mulher me trai!”, gritou feliz o zelador, antes que Ícaro pudesse abrir a boca.

Do livro “Leonora Premiada”, Editora Duas Cidades, São Paulo, 1974.

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