Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘iniciado’

1

Culpado sempre se aponta, e Leonides Trifas, do 7º. step, foi o acusado.

As testemunhas do caso ficaram conhecidas por sua grande covardia e omissão, mas elas confidenciaram a amigos íntimos que, naquele dia de horror, Leonides aproveitou-se de uma rápida saída de dona Fitinha, a iniciadora de História, quando ela correu a atender ao telefone. Era o seu mais recente namorado, esse um pouco mais magro que os outros, comentavam as meninas da outra ala da Nossa Iniciação, separada da ala masculina por um muro de quatro metros e cães pastores treinados, além da guarda de segurança. As meninas comentavam e riam, e riam muito, que o novo namorado de dona Fitinha ostentava um enorme saco, a julgar pelas calças muito frouxas, calças de despiste, mas que não conseguiam esconder totalmente suas desproporções.

Naquele dia, Leonides Trifas teria escondido na bolsa um tijolo e, na ausência da iniciadora, mirado o rosto pio da Madonna, no vitral de traços acadêmicos, só que acabou acertando-lhe o halo indicador de santidade.

Ouviu-se, então, não um ruído de vidros estilhaçados, mas um grito de volúpia, ou dor carnal, consentida.

O grito, que ao mesmo tempo era excitante e aterrador, acabou num eco que o confirmava, eco sem-motivo, porque a sala do 7º. step da ala masculina fica muito distante da concha acústica, para as apresentações dos corais Verbo Divino (meninos) e Maria Mártir (meninas). Depois, o eco tomou conta de cada sala, corredor, banheiro, desvão, e isso nas duas alas da escola, passando por cães e guardas e muro alto, como se, em cada canto, estivesse um Leonides Trifas jogando pedras nos vitrais, basculantes, vidros de mesa, óculos, até o cinzeiro de cristal de dona Clara John, a iniciadora-maior. Tudo foi ruindo, foi cedendo, foi caindo não se sabe de onde. Alguns meninos e meninas chegaram a comentar depois, em suas respectivas alas, naturalmente, a visão de Aparecida Medina, 14 anos e um busto de mais de 20: o cinzeiro em forma de bola de cristal da iniciadora-maior, onde a cinza, quando depositada com razoável concentração mental, sugeria formas humanas e animais, interpretadas pela mística senhora como a antevisão dos seus próximos dias, ao espatifar-se no chão soltara uma densa fumaça avermelhada de onde surgiu a figura de um gigante completamente nu, numa escala aproximada de 1:50. E não era um gigante qualquer mas a figura de Ionesco da Silva, o iniciador-proprietário da Nossa Iniciação. Suas mãos agarravam-se à própria cabeça, e o rosto de óculos quebrados era uma careta só, de uma dor insuportável: no lugar do sexo, uma enorme borbulha de sangue, de onde também escapavam esguichos, e foi um desses esguichos que desenhou o sinal da cruz no rosto contraído de Aparecida Medina. A garota não soubera explicar como transpusera o muro, a guarda, os cães, e fora aparecer ali, na ala masculina, num step masculino, onde dona Clara John pusera seu cinzeiro inseparável. Naquela hora, Aparecida desmaiou, gritando antes:

“Amém, Dr. Ionesco, amém, amém!”

Mas não foi somente Aparecida quem transpôs a muralha entre as duas alas. Durante a queda e quebra de todos os vidros ocorreu uma confusão inexplicável. Ninguém ficara no seu lugar. Houve pânico, um pânico muito parecido com o que acontece dentro de aviões caindo, conforme lembrou um iniciado, o Josués, que estivera naquele famoso Boeing que explodiu na Ilha dos Adventos, sendo um dos três sobreviventes. Pois se o primeiro vitral quebrado do 7º. step masculino lembrava certo clamor de úteros, o que se seguiu de ruídos, durante muito tempo, era o áudio completo, em volume de discothèque, dos últimos instantes de Sodoma e Gomorra. Gemidos, gargalhadas, sem exceção, pois todos se despiram, total ou parcialmente, iniciadas, guardas de segurança, funcionários, iniciadores, todos se atracaram, sem preocupação alguma de separar sexo, idade ou grau de intimidade. Pelo contrário: a não ser os iniciadores, que lecionavam nas duas alas, e também alguns funcionários mais velhos que tinham licença especial de se encontrarem após o término das iniciações, meninos e meninas só vieram a se conhecer nesse dia, ensaio de fim de mundo.

Foi coisa de poucos minutos, apesar da impressão de um dia inteiro.

Quando se fez o silêncio, todos arfavam, esgotados, o coração saltando por dentro. Dona Heliomara, por exemplo, a iniciadora de Fundamentos da Filosofia (e logo ela, que sempre guardava metro e meio de distância ao se dirigir a qualquer homem ou menino), dava de mamar a um dos pastores-alemães da equipe de segurança, cachorro de nome Pitt, que se destacava dos demais pela eterna voracidade, sempre à procura de restos de lanche nos pátios. Dona Heliomara gritou e Pitt fugiu levando um negro mamilo entre as presas.

Todos tentavam se refazer, sem se encarar, abotoando calças e baixando vestidos. O iniciador- proprietário, Ionesco da Silva, era o único que esbarrava nas pessoas (míope, quase cego), à procura do serviço de som para anunciar que todos estavam dispensados, que, por favor compreendessem a situação caótica provocada pela quebra dos vidros, que telefonassem aos seus pais ou responsáveis para virem buscá-los o mais rápido possível, pois até as peruas da Nossa Iniciação, estacionadas nos pátios, tinham seus vidros quebrados, que todos entendessem…

Dr. Ionesco não pôde falar mais, chorava. O microfone lhe foi tomado por Rudolf Berna, o assessor de Política Interna da Nossa Iniciação, homem de óbvia formação militar e sangue frio proverbial, que nem se incomodava de estar só de cuecas, longas cuecas de algodão, manchadas de sangue e esperma. Berna acompanhava a retirada dos iniciados com explicações em voz pausada e grave, estranha à situação geral:

“Atenção, iniciados e iniciadas, podem ir saindo, mas, enquanto saem, ouçam a voz da razão, por favor. Não fiquem confusos, todos vocês sabem, alguns até já estudaram o assunto, que ruídos acima de determinados decibéis podem afetar o cérebro, impondo fantasias e ilusões aos suscetíveis. E todos nós somos sensíveis a isso! Faz parte da condição humana e … animal. Não se deixem levar pelo alvoroço dos sentidos, pois nossa mente foi simplesmente bombardeada de ruídos de quebra de vidros, algo muito lógico, tão lógico (vejam vocês…) o que aconteceu.”

Limpou a voz com um pigarro viril:

“Iniciados e iniciadas: o irreal não pode ser levado em conta, o parapsicológico está devidamente repelido pela boa ciência, portanto não devem vocês dar proporções de realidade a alucinações de decibéis acima do suportável… E mais, queridos iniciados e iniciadas: Deus mais uma vez foi bom e justo para com todos nós, pois ninguém, absolutamente ninguém, a não ser o caso de uma iniciadora mordida por um cão assustado, ninguém sequer se arranhou com todos os vidros que caíram… Verdadeiro milagre… E nós tentaremos, queridos iniciados e iniciadas, nos inspirar na Justiça Divina e abrir um inquérito rigorosíssimo a fim de punir o responsável pelo…quebra-quebra. Rigor e hombridade são características centenárias da Nossa Iniciação, desde 1864 zelando por vossa educação e pureza de espírito. O último dos estabelecimentos de iniciação a cultivar a Moral e os Bons Costumes num país arrasado pela anarquia liberalizante!”

Alguém o lembrou que ele estava de cuecas, e cuecas comprometedoras, mas ele não ouviu, inflamado:

“Aguardem, todos podem aguardar que os responsáveis serão punidos! E a chamada para o reinicio das iniciações será feita através dos jor…”

Dr. Ionesco da Silva empurrou-o, tomou-lhe o microfone (já havia encontrado seus segundos óculos, de acrílico, e constatara que nada de acrílico fora afetado nos prédios), desligou o serviço de som e, com o rosto muito vermelho, gritou ao assessor político Rudolf Berna:

“Se você, imbecil, tocar na palavra jornais, será apontado como o causador dessa… dessa… tragédia!”

O assessor ajoelhou-se e beijou-lhe as mãos trêmulas, dizendo, comovido, que dos humildes é o reino dos céus.

2

Dr. Ionesco tinha motivos para temer os jornais. Quando vistoriava os prédios, ao lado de funcionários mais velhos, caiu numa depressão funda, que sequer tentou disfarçar. No meio do vidro picado contavam-se dezenas de peças de baixo, denunciando que, para grande parte das meninas, a virgindade se fora, sanguinolenta.

“Mas em tão pouco tempo…!”, tentava raciocinar, e quase não era possível raciocinar, porque o rosto apavorado de Aparecida Medina (que seios, meu Deus, que seios!) não lhe saía da cabeça, ela olhando para ele e gritando “amém!”, mas deixando-se sodomizar, oferecendo-se, escancarando-se, ajustando-o, pois ele não era assim tão jovem para aquela expedição, e ela depois desmaiada entre urros de prazer, enquanto ele gritava palavrões, uns que já havia esquecido, em francês, aprendidos nas suas iniciações em Paris, na década de 30.

“Está tudo perdido”, disse o Dr. Ionesco aos funcionários. “Comecem a atender aos telefonemas dos pais revoltados, fechem as portas, pois até pressinto que teremos vingança por aqui e… bem, vamos esperar…”

Ele próprio esperou, ao lado do PABX, e apenas recebeu telefonemas comerciais, ou um outro pedido de dispensa de iniciados através das vozes sempre benevolentes de pais e mães. À noite, ele próprio tinha dúvidas do que ocorrera além da quebra dos vidros, dos seus momentos absurdos e másculos com Aparecida Medina, e certa frustração toldou seu pensamento. Mais dentro da noite, pois não conseguia dormir, o Dr. Ionesco imaginou que suas próprias dúvidas seriam as de todos, sim, é claro!, a dose de loucura fora tão forte que não seria possível acreditar nela… e … absorvê-la psicologicamente. Mas havia a questão somática. “Como essas meninas vão explicar o defloramento?”, perguntava a si mesmo, até que a manhã trouxe os jornais da cidade e em nenhum deles leu-se qualquer menção ao acontecido. Nem ao acidente com os vidros, muito menos às consequências.

E foi a partir desse imenso alívio que o Dr. Ionesco da Silva resolveu criar a figura de “O Culpado”. Dezenas de alcaguetes vieram contar-lhe que fora  Leonides Trifas, do 7º. step, a causa primeira do quebra-quebra. Mas o Dr. Ionesco resolveu que Leonides ficaria para depois, se surgisse alguma oportunidade.

3

As reformas levaram apenas uma semana. Os vidros foram substituídos pelo inquebrável acrílico, cada família sendo avisada que surgiram problemas com algumas janelas e que as iniciações perdidas seriam repostas, assim como os óculos de alguns iniciados que se quebraram naquele dia, por causa de alguns sustos etc.

Mas, se o Dr. Ionesco da Silva estava quase certo de que o assessor político tinha razão, que o ruído desnorteara a todos, criando ilusões, foi tomado de certeza contrária no dia da volta às iniciações. Cabisbaixos, falando pouco, desconfiados, confidentes, iniciados e iniciadas tomaram seus lugares. O recreio deixou de ser a balbúrdia de sempre, nas duas alas, e aqueles grupinhos reunidos aqui e ali certamente comentavam os acontecimentos da semana passada.

“O Culpado” era a melhor novidade da Nossa Iniciação para, ao menos, desviar um pouco a atenção dos iniciados daquele assunto desagradável.

(Dr. Ionesco da Silva continuava perplexo consigo mesmo, pois, na hora da visita à ala feminina, por mais que tentasse escapar, deparou-se com o sorriso maravilhoso e puro de Aparecida Medina. Disse-lhe “bom-dia” gaguejando e não entendeu a resposta: “Eu estou muito feliz do senhor não estar ferido”. “Muito obrigado”, respondeu, de reflexo).

O iniciador-proprietário fez questão de ir de step em step, apresentando o grande boneco de isopor, coberto de lona grossa, revestido ainda de material absorvente, um papel vermelho esponjoso, removível e renovável:

“Meus iniciados (ou minhas iniciadas): seguindo as teorias do iniciador lusitano Ramos d’ Almeida, que em toda a sua vida pesquisou causas e efeitos da agressividade, especialmente a juvenil, resolvemos adotar no nosso estabelecimento, na Nossa Iniciação, está figura libertadora da agressividade…”

Apontou o boneco, que balançava levemente, suspenso dez centímetros do chão, preso no teto por linhas de náilon que lhe foram amarradas por baixo dos braços. O boneco era apenas cabeça, tronco e membros, sem maiores semelhanças a um homem comum. Teria um metro e 80, se tanto.

“Todos vocês estão vivendo uma idade perigosa, de uma agressividade às vezes incontida. Pois bem: este boneco, que podemos chamar de “O Culpado”, servirá de catarse, de alívio dessa agressividade. Façam isto: quando estiverem com raiva, ou com impulsos, digamos, incontroláveis, com ódio mesmo de alguma coisa, batam, chutem, cuspam (com perdão da palavra) no “Culpado”. Ele, sim,  sim, compreenderá… Alguma pergunta?”

“Por que está pintando de vermelho?”

“Digamos que “O Culpado” seja um porco marxista…” (Risos gerais)

“Dr. Ionesco: por que ele só tem forma de gente? Porque não tem nariz, orelha, dedos das mãos…”

“O que falta ao boneco, meu caro iniciado, sobra na sua imaginação… E atenção! ‘O Culpado’ poderá ser espancado na hora do recreio, mas se alguém sentir uma necessidade real de desafogar seus impulsos, é só pedir licença ao iniciador ou iniciadora que estiver dirigindo o step… Eles compreenderão…”

“Dr. Ionesco da Silva, com sua licença e sua bondade: onde está nossa querida iniciadora Heliomara Nunes? Sentimos tanto sua falta…”

O iniciador-proprietário olhou feio para Leonides Trifas. Teve vontade de dizer: “Você, maldito, é que deveria estar no lugar do “Culpado”. Mas acabou sorrindo para iniciado-problema, que não conseguia esconder sua expressão satânica.

“Meu caro Leonides: dona Heliomara Anunciata Nunes goza, atualmente, de licença prêmio, que ela muito merecia…”

Alguém falou baixinho por trás de Leonides Trifas: “Mas dona Heliomara não goza…” e isso bastou para que o step inteiro caísse numa risadaria agressiva.

Dr. Ionesco fingiu que não ouviu, o iniciador de Biologia, ali ao lado, também fingiu, mas o iniciador proprietário exigiu que um dos mais atacados de riso viesse até ele.

“Agora que vocês riram não sei de quê, vamos fazer um teste.”

Olhou para o rapaz, excitadíssimo, mal podendo fechar a boca.

“É claro, meu iniciado, que esse seu riso fora de hora e de propósito significa a frustração de algum instinto. Você está reprimido, meu caro. Então vá: dê um murro no “Culpado”, no culpado pelo seu descontrole nervoso…”

O garoto socou o boneco à altura do que seriam os testículos; Leonides Trifas gritou “Uuuuuu”, e um novo ataque de riso, esse bem mais escandaloso, tomou conta do 7º. step, mesmo quando o iniciador-proprietário berrou, na iminência de um mal súbito:

“Todos fora, todos fora, três dias de suspensão e zero nas cadernetas de todos vocês! Todos fora! Anarquistas! Subversivos!”

Dr. Ionesco saiu quase correndo do 7º. step e, nem soube por que, foi parar ao lado do seu carro no estacionamento nobre do pátio. Entrou, saiu cantando pneus, algo que jamais fizera, em direção ao consultório do seu psicanalista.

4

Dona Heliomara Nunes estava voltando do psicanalista.

Abalada, a gente via pelas olheiras, e bem mais magra após a intervenção que sofrera para a implantação de um mamilo de silicone. O pior era o choque, o choque de todos os dias ao acordar gritando que havia um cachorro comendo-lhe o outro seio, ou o nariz, o sedem (ela nunca usou e nem mesmo pensou na palavra “bunda”). Recebera todos os cuidados da Nossa Iniciação, toda a compreensão dos colegas iniciadores e, ali mesmo, o braço amigo de Miss Mary Pereira, a ampará-la. Miss Mary era sua vizinha de apartamento no Doce Lar Vicentino, comunidade de senhoras solteiras (viúvas não eram aceitas) e respeitáveis, além de bem postas financeiramente.

Miss Mary convencera a combalida de que seria bom passear pelo Shopping Center, por que não, minha caríssima? E pelo fato de a temperatura estar baixa, dona Heliomara não teria o desprazer de se ver próxima dos decotes das perdidas, ou de homens de camisa aberta ao peito, ostentando pelos. As duas estavam olhando umas luvas quando dona Heliomara virou-se bruscamente, pois, para ela, o terror sempre fora intuitivo.

“Mary, miss Mary, ele está ali! Olha o caule dele, o caule!”

Miss Mary procurou (caule?) uma loja de flores próxima e nada descobriu, enquanto dona Heliomara arregalava os olhos de pavor, e fincava os dedos nos braços da outra, porque ali, a quase um metro e meio, Pitt, o pastor-alemão, apresentava-se de língua salivante, olhos cúpidos e ao mesmo tempo eufóricos de quem enxerga também em cores, e o pênis vermelho vivo que crescera descontrolado e, como um chicote (léput!léput!), zigue-zagueava no chão, molhando o ladrilho, enrolava-se sobre seu próprio corpo peludo, jogava-se na direção da pobre senhora, como uma serpente, o caule, a língua da serpente, “tem alguma coisa viscosa respingando na minha perna, miss Mary, miss Mary!”

NOTA IMPORTANTE:

Naquele mesmo dia, na sala do 7º. step, o Dr. Ionesco da Silva foi encontrado empalado por um rodo marca “Brunni”. Agonizava e – incrível! –  parecia feliz, sem contrações no rosto. Nenhum suspeito. Na sala, apenas “O Culpado”, em que algum irresponsável pintou uma boca risonha. Como o Dr. Ionesco estava vestido de um velho hábito de monge, a conclusão das autoridades não evoluiu do “suicídio, porém estranho”. Dr. Ionesco chegou morto ao Hospital Geral, mas antes pronunciou, com ar irreverente e boca torcida, a palavra “bonhéco”, “bonhéco”.

Do livro “Querido Senhor Assassino” – Editora Símbolo, São Paulo, 1979.

Read Full Post »