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Posts Tagged ‘Memórias Embriagadas’

Eu ainda gritei “Maria, desgraçada, não vai abrir a porta?”. Mas a campainha tocou de novo, após algum tempo. Um toque leve, de gente educada. Maria deveria ter saído cedinho. Pra namorar, com certeza. Maria ia acabar engravidando, aos dezesseis anos, e a gente seria obrigado a devolvê-la à família no interior.

“Já vai! Espere um pouco!”, berrei lá de dentro. Estava nu, preparando-me para o banho que tomava, pontualmente, às oito da manhã. Meus dois filhos àquela hora já haviam iniciado o trabalho na oficina mecânica, no prédio vizinho. Eu, com meus direitos de coroa, sempre chegava atrasado. E a vontade era a de atrasar mais, a cada dia. Também, cinquenta e três no costado… Trabalhando desde os doze…

Quem seria, àquela hora? Vesti a camiseta que estava jogada sobre o cesto. Meio fedida. Dane-se. A inútil da Maria ainda não recolhera a roupa suja. E se um dos meus rapazes transasse com ela? Não, não, eles tinham juízo, e arrumavam mulher quando e onde queriam. Igual ao pai.

Devo ter aberto a porta meio no tranco. A menina, uns dez anos, sobressaltou-se. Que gracinha! Simpatizei com ela imediatamente. Rostinho redondo, cabelo curto, lourinha. Covinha só de um lado. Usava uma roupa meio estranha, larga, parecida com uma jardineira. Um tecido… amarrotado, como se fosse papel. Já não havia visto aquela criança antes?

“Desculpe, minha filha, se assustei você…”

“Não… não…”, ela fez, com um sorriso lindo. Olhou para mim com muita curiosidade, como se procurasse alguma coisa no meu rosto.

“Então diga, minha filha, que você deseja? Já sei… O carro do seu pai ou da sua mãe quebrou.”

“Não…”, ela balbuciou novamente, e era extremamente gracioso o jeito de articular a palavra. “Nada disso, eu só vim te ver, vovô.”

E logo depois consertou:

“Eu não deveria ter vindo, mas vim. Desculpe. Sabe, amo você. Olhei pra você agora e amei você… ainda mais! Já amava antes.”

Eu sorri, meio forçado, até porque sentia que havia algum sentido naquela doidice. O rosto da menina me era familiar.

“Querida”, eu disse sorrindo, “deixe de brincadeira. Não sou avô, meus filhos têm vinte e dois e vinte e quatro anos, nem pensam em casar. Mas eu até gostaria mesmo de ter uma neta como você… assim… tão simpática”.

Uma pausa. Fui ficando nervoso. Quem resolvera tirar sarro da minha cara? E contratara uma menina inocente pra isso?

“Vô: não sou filha nem do Zezinho nem do Tião. Minha mãe é Inês, lá do Rio de Janeiro.”

Empalideci. Inês. Estava agora com a idade daquela menina na minha frente. Dez, onze anos. Duvidei todo esse tempo que Inês fosse minha filha. Sua mãe, Dora, tinha outros namorados. Mas ela sempre afirmara: “Mãe não se engana; Inês é sua!” Depois, magoada: “Sabe, se não vai assumir, o problema é seu! Deixe que eu dou conta…”

Fazia uns dois anos que eu não as via, Inês e a mãe. Ninguém sabia desse meu segredo. Nem os meus filhos. Só o padre, que não espalha pecado dos outros, e Rubens, meu amigo-irmão, meu confidente. Mas Rubens não iria fazer uma palhaçada dessas comigo. Até porque estava morrendo de cirrose. A pele verde, o olho branco.

“Minha querida: você é muita novinha pra ser usada numa brincadeira de mau gosto. Quem mandou você aqui? Diga, por favor, o que é que você quer?”

Acho que vi lágrimas em formação nos olhos da menina.

“Vô… desculpe. Eu não devia ter vindo. Mas eu precisava ver o senhor. Minha mãe fala tanto no senhor. Ela é apaixonada…”

“Querida, querida, escute aqui: eu não sei como você sabe de Inês, das minhas histórias no Rio, acho que alguém está me gozando, mas, pense bem: Inês deve ter a sua idade… é um pouco mais velha, talvez. Inês só poderia ter uma filha do seu tamanho daqui a uns vinte anos…”

Parei de falar porque comecei a ver na menina uns traços de minha mãe, do meu filho Tião e até meus, como o jeito de olhar de lado, o sorriso meio tímido. De repente, ela saiu correndo. Sem olhar para trás. “Tchau, vô, depois… depois a gente…” Não entendi o final da frase. Corria em câmara lenta, leve, sobre a calçada arborizada, como se fosse voar, a minha neta.

Do livro Memórias Embriagadas – Editora Noovha América, São Paulo, 2008.

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