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Posts Tagged ‘merda’

O diretor de segurança perguntou a si mesmo muitas vezes, naquela semana, porque havia aceito aquele maldito cargo no condomínio gigantesco. Cinco prédios. Mil e quinhentas pessoas. O presidente do condomínio, major Setúbal, preferia dizer “mil e quinhentas almas”. O diretor achava engraçado: como se estivessem todos mortos.

De certa maneira era verdade. O próprio major, com a idade que tinha, e os achaques cada vez mais freqüentes, não parecia exatamente um ser vivente. Mas como enchia o saco!

O major-presidente vivia sobressaltando a todos, no meio das reuniões da diretoria, quando, após qualquer contrariedade, era tomado de ódio tragicômico, avermelhava o rosto e caía duro, literalmente. Quando todo mundo entrava em pânico (“morreu! morreu!”) e a ambulância chegava à esquina, se esgoelando, o major abria os olhos e repetia velhas perguntas de romances arcaicos: “Onde estou? O que aconteceu?”

Conviver com o major e com a velharia toda que o acompanhava na administração já não era fácil. E agora, com aquele mistério das tulhas de cocô que alguém fazia aparecer em locais realmente insuspeitados, como o refeitório (duas vezes), a academia de ginástica, e a “sala dos brasões”, um espaço ridículo que só existia por força da vaidade provecta do major e dos seus amigos; eles, que formavam um certo “Clube dos Cavaleiros”, contemplavam aquelas imagens de escudos esquisitos, mostrando leõezinhos de rabo virado, coroas, bandeiras, e outros desenhos estranhos, e afirmavam que, ali, naquelas figuras, reconheciam sua verdadeira origem.

“Não tem curiosidade de saber de onde vem sua família, seu Maia?”, perguntavam-lhe os velhinhos.

“Nenhuma”, respondia o jovem diretor de segurança, para espanto deles.

Era, verdadeiramente, um estranho no grupo e isso só se justificava pelo fracasso do último diretor que, aos setenta e seis anos, além de ter-se dado um tiro no próprio pé (literalmente), durante uma confusão entre adolescentes, usava o cargo para obter favores sexuais das empregadinhas. Apelidado de “Kid Gatilho”, transformou-se numa espécie de atração turística do condomínio. Os rapazes pregavam-lhe peças, estourando bombas juninas à sua passagem, passando-lhe trotes por telefone ou enviando-lhe revistas pornográficas.

O condomínio carecia, realmente, de uma nova liderança e o Maia que, além de jovem, jogava futebol com a molecada e reclamava de tudo, foi o escolhido. Eleito por unanimidade. Tentou cair fora, mas o major Setúbal fora duro e direto:

“Se não aceitar o cargo, jamais lhe darei direito a uma reclamação, seja qual for…”

Ele pensou bem, e aceitou. Mas agora a coisa se complicara. Superara, sem grandes traumas, os trotes que começou a receber: do outro lado, alguém gemia, como se estivesse em pleno ato sexual, e lhe pronunciava o nome, com interjeições devassas. O pior: era mulher. Conversou com uns amigos na companhia telefônica e acabou descobrindo a origem: a casa do respeitável Doutor Rebouças, que vivia ali com esposa e duas filhas. Convocou as duas, que não passavam dos vinte anos, comunicou-lhes a descoberta e concluiu:

“Certamente alguém usa sua casa para fazer essas coisas. Mas cabe a vocês descobrir quem é…”

“Fui eu mesma que fiz”, respondeu a mais velha, com olhos cúpidos, enquanto a outra ria, divertida. “É que acho você o maior tesão.”

Encerrou a reunião imediatamente, disse que não estava ali para brincadeiras, mas até que se sentiu vaidoso. ‘Agora entendi por que o poder subiu à cabeça do meu antecessor’, pensou consigo. ‘Preciso me cuidar’.

E assim foi resolvendo os pequenos problemas, conversando com um e outro, descobrindo quem roubava bicicletas, ou quem atirava dardos envenenados nos gatos de rua que invadiam a área. Mas aquela história do cocô era demais. Da última vez, um monte de bosta surgiu no banco traseiro do Mercedes de seu Adelino, o empresário de construção, que exigiu do condomínio a troca do forro.

“Já lavei três vezes e o cheiro não sai! Vocês têm de dar um jeito nisso!”

Marcou uma reunião com o major Setúbal, reservada, e propôs a contratação de detetives.

“Com que dinheiro, seu Maia?”

“Ora, de uma reserva qualquer, a gente precisa descobrir essa história…”

“Impossível. Só a convenção de condomínio pode autorizar gastos extras.”

A tulha seguinte chegou dentro de uma cesta de flores, deixada na portaria do prédio e endereçada ao próprio presidente. O porteiro desconfiou por causa do odor estranho, nada floral, e chamou o diretor de segurança que se encontrava no meio de uma reunião de trabalho, longe do condomínio.

“Tô trabalhando aqui, Lisomar.”

“Mas veio com um bilhete, seu Maia.”

“Ah, é? Então já já chego aí.”

O bilhete, assinado por mais de vinte nomes de mulheres, revelava que a brincadeira havia sido inventada por um certo “Movimento Feminista O Grelo”, cujo objetivo era “entregar o poder do condomínio a mãos mais competentes e sensíveis, capazes de interpretarem os anseios comunitários gerais”. E ameaçava transformar aquele espaço num bostal sem fim. Desconfiado, o diretor foi verificar nome por nome. Todos fictícios.

No dia seguinte, três ocorrências: um monte de merda surgira dentro de um armário, na Sala de Ginástica; outro na mesinha usada pelo professor de tênis, num canto da quadra; e o último, que revelava grande ousadia, não era exatamente um monte, mas dois imensos cocôs, individuais, que chamavam a atenção pelo tamanho descomunal e a ausência de odor, surgiu sobre a cabeça da réplica do Discóbolo que enfeitava a entrada do condomínio. Examinados, viu-se que eram de plástico, tão idêntico ao original como a própria réplica.

Mais um dia e surgiram tulhas de verdade na capela, em vários bancos, e aí o jovem diretor de segurança decidiu chamar a polícia, sem consultar sequer o Major Setúbal.

Um delegado e um tira comum chegaram em menos de uma hora, com risos sarcásticos no rosto. Seguiram para a sala de reuniões, onde o diretor sentiu um cheiro estranho, que atribuiu a uma certa mania de perseguição. Mas o delegado, logo após aboletar-se na poltrona negra, saltou, incomodado, e logo descobriu uma pequena tulha debaixo da almofada.

“Bem”, disse o delegado, sério, “vamos começar examinando o material em laboratório”.

“Pra que?”, perguntou o diretor de segurança.

“Bem. Pra saber se tem alguma coisa especial…”, respondeu o delegado.

“O que? Vermes?”

“Sei lá. Alguma pista…”

Aí desistiu da polícia. Até porque o Major Setúbal chegou, gabando-se da sua condição de oficial da reserva do Exército, e dispensando os policiais.

“Foi um erro chamar os senhores… Nosso diretor de segurança é ainda muito verde…”

Mais um dia e a calamidade se instaurara. Surgiram cocôs em todos os ambientes do condomínio. Maia reuniu-se com a mulher e os filhos, que ainda eram pequenos, de dez e doze anos, e perguntou se eles se incomodariam de mudar dali.

“Mas o apartamento é nosso”, reagiu a mulher. “E fizemos muito sacrifício para pagá-lo…”

Tudo isso era verdade, ele reconheceu, mas estava à beira da loucura. Tanto que, após essa conversa, saiu do apartamento em direção à sala de reuniões, onde pretendia, no computador da segurança, digitar sua carta de demissão. Aí viu que o doutor Golias, do edifício Girassol, carregava, furtivamente, um saco plástico, bastante suspeito. Ao se deparar com o diretor de segurança, gaguejou para articular um simples “bom dia” e continuou seu trajeto, quase correndo.

Mais adiante, dona Mirén, do edifício Uirapuru, olhava para dentro de uma grande bolsa escura, com uma certa cara de nojo… que haveria ali dentro? E, assim, o diretor foi flagrando um número inacreditável de condôminos em atitudes estranhas.

Resolveu convocar o Major Setúbal, pois afinal descobrira que todos eram culpados. E que, de algum modo, sentiam-se felizes por atentar contra a lei, uma forma, afinal, de fugir da rotina cruel a que pareciam submetidos.

Esse pensamento acabou por tirá-lo da depressão, e ele começou a listar as mudanças de comportamento a partir da primeira tulha aparecida. As inscrições para a prática de esportes haviam aumentado; os pedidos de reserva para festas nos três salões disponíveis dobraram; e percebia-se, mesmo, um certo desembaraço geral das relações humanas naquele microcosmo.

‘Talvez eles descubram alguma coisa menos desagradável para se expressar, se desrecalcar’, pensou o diretor de Segurança, achando que não valeria mesmo a pena sair atrás de outra comunidade para viver com a família. Aquela, pelo jeito, caminhava a passos decididos para a normalidade.

Do livro “Allegro” – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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