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Posts Tagged ‘metralhadora’

Um dos tiros atingiu o gancho do quadro do Coração de Jesus, pregado na parede da sala do barraco há mais de trinta anos. O quatro desabou e o vidro partiu. A imagem, impressa, perdeu carisma e status, solta no chão: ficou parecendo uma folha de calendário, em meio aos cacos de vidro e pedaços do reboco da parede. Bode Gil achou que aquilo era um mau presságio.

“Por favor, Crise, pega uma pistola e atira pra fora, de qualquer jeito, não precisa olhar nem mirar, é só pra dar um pouco de cobertura, fazer barulho.”

“Tenho medo, Gil.”

“Mas há chance de escapar, Crise. Com você atirando, também, essa chance aumenta.”

Bode Gil e sua namorada Crise estavam encurralados no velho barraco, que pertencera aos pais dele, e para onde ele sempre fugia, quando se complicava. Era o mais alto do morro, o mais protegido. De lá, Bode Gil via a cidade e o resto do mundo.

Os tiros continuavam, esporádicos: pistola, revólver, escopeta. Por algum motivo, os atacantes não usavam metralhadoras. Bode Gil achava isso muito estranho: todos os seus inimigos possíveis prefeririam atirar de metralhadora. O pessoal do tráfico já nem sabia usar outra arma. Ele mesmo tinha uma, israelense, importada, mas por azar não conseguira pentes de bala no último fim de semana, como lhe haviam prometido. Seu fornecedor, o Azulão, fora apanhado pela polícia e já ocupava uma gaveta gelada do Instituto Médico Legal.

“Me ajuda, Crise. Não sei quantos são. Daqui a pouco, um deles, ou um grupo, pode invadir os fundos do barraco, eu não consigo estar em todos os pontos ao mesmo tempo.”

“Estou morrendo de medo de morrer, Gil.”

“Você sabia que viver comigo é um puta risco.”

“Mas eu não tinha visto isso, antes, Gil. Tô apavorada. Minhas mãos tremem.”

Sem saída, o rapaz, de pouco mais de vinte anos, corria de um lado para outro, atirando. Através de uma fresta na porta da frente, ou nas janelas laterais entreabertas. Agora, uma bala arrombara a gaiola do curió, e ele fugira na sequência, ileso.

“Puta que o pariu!”, gritou o rapaz. “O curió do meu pai… Estava há mais de dez anos aqui em casa. Por que será que essa gente só atira na parte de cima da casa?”

“Quem é que quer nos matar, Gil?”

“Sei lá… Bufão, Noves Fora, Cajamar… um deles.”

“Mas você não tinha feito acordo com todo mundo?”

“Fiz. Tudo selado. Territórios demarcados. Você sabe.”

“E então?” A moça quase chorava.

“Acordo é pra ser desfeito… Não é a primeira vez, não vai ser a última.”

“Você sempre me disse que o tráfico é ético. Palavra empenhada é sagrada.”

“Sempre foi.”

Uma bala passou zunindo muito próxima à cabeça do rapaz, que se distraíra em frente à porta principal. Ele entendeu que o inimigo se aproximava cada vez mais e jogou-se no chão. A namorada gritou, imaginando que o tivessem atingido.

“Meu amor! Mataram você?”

“Ainda não, Crise. Fique calma.”

“Não quero morrer com vinte e um anos, Gil”, disse a moça, lágrimas lavando o rosto. “Quero um filho teu.”

A última frase pegou o rapaz desprevenido. Ele titubeou. Deu ainda uns dois tiros, na porta e na janela direita, antes de falar.

“Quer se salvar mesmo, Crise?”

“Claro que quero, Gil. A gente não merece morrer.”

“Mas vai ter de sumir daqui. Tenho um trato com o Formigão…”

“O delegado?”

“Ele. Me passa o celular.”

A moça jogou-lhe o telefone, ele ligou, a voz do outro lado perguntou se ele afinal se decidira a passar o serviço.

“Onde está o helicóptero, Formigão?”

“Bem perto de mim… Estou ouvindo o barulho.”

“Dá pra mandar à casa do meu pai? Sabe onde é, né? Estou encurralado. Em quanto tempo chega?”

“Um minuto. Dois. Falei que iriam te trair. Mas quero saber do meu serviço.”

“Pode vir que eu espero aqui.”

O barulho das hélices foi precedido de muitos gritos no morro. Era uma coisa infernal: o barulho da máquina, a ventania que provocava, e os estampidos secos das balas que vinham lá de cima. Durou menos de cinco minutos e tudo silenciou.

“Agora, Crise, os tiras vão chegar e eu vou passar o serviço. Eles vão dar um jeito de nos mandar pra longe. Depois eu negocio as identidades novas. Mas vamos correr riscos.”

A moça se abraçou com o rapaz, beijaram-se e esperaram meia hora por Formigão e sua turma. Bode Gil não teve coragem de abrir a porta, e ainda permaneceu em guarda, com a pistola engatilhada.

“Que vergonha, Bode Gil!”. Era o vozeirão do delegado, do lado de fora. Você estava encurralado por dois meninos, pelo jeito são irmãos, um é a cara do outro.

‘Os gêmeos’, pensou Crise, na hora. ‘Por isso que eles atiravam pra cima; pra não me atingir.’

A moça empalideceu, mas o namorado jamais perceberia. O delegado entrou, com mais três homens, arfando pelo esforço de subir o morro.

“Te salvei a vida, hem, cara? Dois moleques…”

“Parecia um exército, chefe. Tiro pra todo lado… O senhor conhece eles?”

“Nem eu nem ninguém. Esquisito.”

O delegado encarou a moça.

“Minha gata, a Crise”, adiantou-se Bode Gil, apresentando-a.

“Hum…”, fez o policial. “Minha filha, venha cá…”

“Que foi?”, reagiu o bandido.

“Nada, Bode Gil, quero um particular com a moça.”

O delegado pôs os braços imensos sobre os ombros dela e a levou até os cadáveres dos gêmeos.

“Sei que você os conhece. Que coisa romântica, menina. Eles vieram resgatá-la do bode velho. Qual deles era a sua paquera? O de camisa vermelha ou o de camisa azul?”

“Melhor o senhor não tocar nisso, doutor, eu gosto do meu homem.”

“Tá bom, criança. Mas estou impressionado. Achei que o romantismo tinha acabado.”

A moça voltou, chorando discretamente. Bode Gil quis saber da conversa, ela lhe disse que o delegado queria ter certeza de que não conhecia os agressores.

“Mas ele nem me chamou pra ver os corpos…”, disse o rapaz. “Por que logo você?”

“Acho que ele vai te chamar. Sei lá por que fui primeiro.”

Naquele dia, as principais quadrilhas foram apanhadas nos seus redutos. Um casalzinho bem vestido, ele de óculos escuros e cabeça raspada, ela transformada em loura, viajou para um estado do Nordeste. A moça levaria muito tempo para esquecer o incidente. Chorava de vez em quando. Sentia uma tristeza diferente, misturada ao orgulho que passou a nutrir por um certo cadáver de camisa vermelha.

Do livro “O Homem dentro de um Cão” – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2007.

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