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Posts Tagged ‘monstro’

Não foi uma coincidência muito feliz aquela história do monstro aparecer na praia de Punta del Chifre.

Todas as piadas já haviam sido feitas com o lugar, até porque Punta del Chifre se tornara famosa pelo grande número de automóveis com namorados dentro, fazendo amor alegremente, muito longe de barulhos e indiscrições, a qualquer hora do dia ou da noite.

O monstro apareceu pela primeira vez na noite de oito de outubro, lua cheia. Foi visto pelo casal Ananias e Josefina, ele solteiro, ela casada, com dois filhos. Ela ficou tão apavorada que esqueceu todo decoro, reputação, família, e saiu correndo nua pela praia, pedindo socorro aos gritos. Ananias desmaiou. Saiu tudo nos jornais. E Punta del Chifre confirmou sua fama de reduto de traições.

O monstro, segundo depoimento da pobre senhora infiel, era um humanoide deformado, de dois metros de altura no mínimo, de braços e pernas um pouco mais longos do que os de um homem normal; e o que seria a pele era uma cobertura de algas marinhas, de odor ofensivo, que provocavam náuseas e vômitos. A cabeçorra e os traços do rosto não se divisavam bem, certamente pelo excesso de algas que lhe pendiam do alto da testa, como se cabelos fossem. Mas o pior era o grito pungente e dolorido que a criatura soltava ao sair do mar e se aproximar, com certa agilidade, das suas vítimas. Nenhum dos ouvintes soubera precisar se aquilo era brado de dor ou de fúria. Mas todos se arrepiavam.

A primeira notícia apareceu num jornal popular que a tratou com o deboche que o caracterizava: “Monstro ataca cornos em Punta”. Foi o sinal para que até programas de televisão nacionalmente famosos, além de pesquisadores europeus e americanos, transformassem a desprezível Punta del Chifre numa praia da moda. Desfiles de coleção verão de shorts e biquínis foram feitos por lá. Os donos das duas barracas de coco do lugar, que viviam cochilando, enquanto os infiéis faziam amor dentro dos carros, chegaram a quadruplicar seus lucros e houve até denúncias de periódicos de esquerda de que toda aquela agitação não passava de especulação imobiliária.

Como que respondendo diretamente a esta acusação, o monstro amassou as nádegas de Querênio Acosta, diretor de um semanário comunista, no dia em que ele e um grupo de amigos resolveram tomar banho de mar no território da entidade demoníaca. Era meio-dia, ou quase, e de repente Querênio começou a gritar, dentro d’água, e a tentar afastar alguma coisa que o estaria perturbando na parte posterior do próprio corpo. Numa dessas tentativas, sua mão direita se encheu de algas viscosas de um odor tão forte que não se despregou do seu olfato por semanas.

“É ele! É ele!”, gritava o jornalista, enquanto seus amigos riam do que imaginavam ser uma performance.

Dia seguinte, as calças abaixadas e as nádegas arroxeadas de Querênio foram estampadas nas primeiras páginas de milhares de gazetas do mundo, além de aparecerem na televisão, apesar dos protestos da vítima. O pior é que ninguém vira o monstro, dessa vez apenas uma sombra dentro da água, que em Punta del Chifre é um pouco turva, diferente das outras praias da cidade. Com essa quase aparição, somavam cinco as vezes em que o monstro fizera algum estrago. Na maioria delas, surgira repentinamente da água e se aproximara dos carros ou das barracas de coco. As pessoas saíam correndo, gritando, e pronto: o monstro desaparecia. A polícia, por sua vez, sempre se atrasava, de quinze a trinta minutos. Os moradores das casas mais próximas à praia apenas ouviam os gritos do monstro, inesquecíveis, segundo eles, verdadeiramente terrificantes. Mas, de alguma maneira, a aparição já havia virado rotina e o povo começou a se perguntar que diabo pretendia o estranho ser, aparecendo somente por ali.

Manfredo Ornellas, o único especialista em artes divinatórias, paraciência e esquisitices de um modo geral que se conhecia na cidade, acabou sendo contratado por uma marca de xampu e uma emissora de tevê para tentar explicar o fenômeno.

Na primeira noite, sempre com uma câmara a persegui-lo, Manfredo andou pela praia de Punta del Chifre, a essa altura absolutamente deserta, e perguntou ao mar e ao vento: “De onde você vem, monstro marinho?” O ambiente foi se condensando de tal forma que um dos câmaras da tevê patrocinadora, um rapaz extremamente sensível, sentiu-se enforcar por uma mão invisível, e acabou sendo retirado às pressas do local, com uma crise de ansiedade. Mas o guru, firme, passou a noite a conversar com o nada.

No dia seguinte, quando imaginavam que ele faria uma outra coisa, um pouco mais palpitante, Manfredo olhou para a luzinha vermelha da filmadora, com a experiência de quem já dera milhares de entrevistas, e anunciou:

“Já sei o que acontece.”

Correram para chamar a repórter e o especialista foi devidamente entrevistado. Descartou, de cara, uma conspiração imobiliária, ou de terroristas que tentariam insuflar o povo contra autoridades, impotentes diante do caso. Com uma simplicidade chocante, olhou para o alto, cofiou as longas barbas grisalhas e disse:

“Trata-se de uma egrégora criada pelos cornos.”

Teve de explicar que egrégora é uma força aglutinada a partir do pensamento de um grupo.

“Os cornos, vocês sabem, sofrem, consciente ou inconscientemente, a humilhação, que é muito pior do que a traição em si. Eles convivem, o tempo inteiro, com a mentira personificada por aquela (ou aquele) que o trai.”

Fez uma pequena pausa para explicar que corno não tem sexo.

“O desespero dos cornos, cujos traidores estiveram nesta praia, forjou no mundo astral esta pobre criatura que, apesar de monstruosa, apenas sofre e se lamenta da dor profunda, inenarrável, da perfídia. É um pobre coitado, o monstro. Não fará mal a ninguém…”

Manfredo Ornellas ainda foi obrigado a explicar um conceito meio complicado: o verdadeiro corno, segundo ele, não é a vítima, mas o traidor, porque só este tem consciência do crime e experimenta a culpa. Daí o monstro aparecer diante dos algozes e não das vítimas.

Todos se olharam, incrédulos; o fabricante de xampu ameaçou exigir do paracientista a devolução do dinheiro do investimento, mas, diante daquela revelação pública, o monstro não voltou a aparecer.

“Os aleivosos”, concluiu o médium, dias depois, “estão curtindo suas malfeitorias, alguns se arrependeram das torpezas praticadas, e bastou isso para desfazer a egrégora.”

A sensibilidade do mestre e o seu conhecimento profundo da lamentável condição humana lhe garantiram, no entanto, que o fenômeno certamente retornaria à cidade por meio de um novo símbolo.

“O corno”, ele admitiu, “é uma instituição secular da nossa cidade e quem sou eu para acabar com ela?”

A nova egrégora poderia repetir-se, formando um novo monstro do mar ou outra plasmação qualquer, talvez uma grande ave gasosa que atravessasse as matérias terrenas soltando grasnidos apavorantes. Seriam claras advertências àqueles que comem os parceiros dos outros:  pérfidos, pois não há dor maior do que chifres a nascer de testas inocentes!

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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