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Posts Tagged ‘mulata’

Encontrei J.G. Pearson num bairro longínquo da cidade, usando o nome falso de John Smith e conhecido na região como “o gringo”. Estava acompanhado da porta-bandeira da Escola de Samba Boca Vermelha, a sensacional Govinda. Não sei o que é mais incrível: se a incompetência da polícia de descobrir fugitivos, ou a ousadia do americano que, além de estar sendo caçado em todo o território nacional, é um dos primeiros da lista de inimigos públicos da Interpol. Que coisa: o cara ali, a menos de dois quilômetros de uma delegacia de bairro, passeando com um mulheraço famoso na cidade, e ninguém fica sabendo.

Eu mesmo o vi por acaso, apesar de fazer parte do grupo que o caça há tanto tempo. Estava voltando da casa de uma das minhas namoradas, a Séza, que mora por ali, quando me chamou a atenção o Mercedes do ano e a mulata ao volante. Govinda é um fenômeno, gostosíssima. Ela e o americano trocavam olhares de paixão.

O cabelo do cara é branco, de tão louro, e pensei comigo: ‘caralho, os gringos só são racistas na terra deles.’ Mas meu raciocínio é lento, reconheço. Levei muito tempo para me dar conta de que conhecia aquelas duas figuras. Só que aí não havia como alcançá-los. Mesmo assim, dei meia-volta e saí tesourando o trânsito das seis da tarde, com sirene e tudo, gritando palavrões para os babacas na minha frente, mas ninguém mais respeita nem polícia na hora dos congestionamentos. Até entendo: esta cidade está muito sofrida.

De qualquer maneira, seria fácil chegar a Govinda. Algum tempo depois, consegui o endereço. Fui lá direto. Era uma rua só de casas, calçada de paralelepípedos e cheia de árvores antigas. Crianças brincando, carrões entrando e saindo de garagens amplas. Lugar muito agradável. Minha paquera, que é do mesmo bairro, ou melhor, dos fundos do bairro, mora numa rua de merda, de asfalto carcomido e um buraco de esgoto sempre aberto, porque alguém rouba as tampas.

A casa de Govinda, dois andares, escada em S, estilo modernoso, estava fechada. Cheguei a cochilar na campana, poderia até ter sido assaltado: afinal, uso um carro de chapa fria. Mas está caindo aos pedaços, não serve nem pra desmanche.

A mulata voltou três horas depois, sozinha no Mercedes. Por mais que trepasse bem e posasse nua, jamais arrumaria dinheiro para comprar aquela máquina. Ali tinha grana pesada de J.G., como a gente o chama na polícia.

Porra, e agora? Poderia invadir a casa, dar um aperto na gostosa, mas J.G. não é burro: aquele não era seu real endereço. Fiquei rodando feito um peru pela rua, dei uma parada na padaria da esquina, lugar de viado, com um cafezinho três vezes mais caro do que o da rua da Séza. O cara do café, um tal de Riche, uniformizado, com bonezinho, todo falante, me entregou o ouro: Govinda comprava bebida light quase todo dia; chegava sacolejando os peitos, num decote criminoso, e aí o tempo parava, ouviam-se as moscas tentando pousar nos pães doces. Clientes embevecidos. Ela, de vez em quando, vinha acompanhada do gringo.

“Acho que sei quem é; acho até que já vi esse cara na televisão. Parece americano. Será que é artista?”, arrisquei.

“Nada, é trambiqueiro”, respondeu prontamente Riche. Sabe, tipo largadão, tatuagem no braço. Como é que ele iria comprar um Mercedes?”

“É mesmo. Que trambique seria?”

“Para com isso, cara. Tudo: pó, armas, essas coisas. O gringo é polivalente.”

Pedi licença, dei uma volta nos quarteirões vizinhos. Voltei à rua, não havia ninguém, subi na ponta dos pés e observei a casa. Só vi o rabo do Mercedes na garagem e um jardinzinho com cheiro de jasmim.

Voltei para mais um café; o Riche continuava excitado.

“Que você faz?”, ele me perguntou.

“Fiscal da Defesa do Consumidor. Estou procurando padarias que explorem os clientes com cafezinhos de ouro… Você acha mesmo que esta porra de café vale tudo isso?”

“O nosso é mistura: brasileiro e colombiano importado. Vale.”

“Vai-te à merda. Isso é café de supermercado, só que muito forte.”

Ainda estava reclamando quando uma visão do paraíso surgiu à minha frente. Não sabia que Govinda era mais alta do que eu. Porra! Também com aqueles tamancões que mais pareciam palanques de comício… Observei-a cientificamente, como ensinam na academia. Deu até pra medir, assim no olho, o diâmetro dos mamilos, colados à blusa branca. Usava uma calça comprida, também branca, de tecido muito leve, colada mas nem tanto, com a calcinha mínima a marcá-la. Eu, se fosse bandido rico, também investiria naquele produto.

“Quero falar com o senhor, meu senhor.”

Ela veio de dedo pra cima de mim, apesar do “senhor”.

“Eu? Nem me conheces, ó monumento!”

“Deixa meu homem em paz…”, ela pediu, baixando um pouco a voz.

Olhei para o Riche. Traíra, filho da mãe. Avisara à mulata. Bati no revólver debaixo da camisa.

“Sabe por que traíra não tem filho?”, perguntei ao puto.

“Não, não sei”. Ele estava sério, agora.

“Porque não vive pra isso. Traíra morre mais ou menos com a sua idade.

“Tá me ameaçando?”

“Claro que tô, imbecil! Depois a gente conversa.”

“Deixa o Riche em paz, o negócio é comigo”, interrompeu a esplendorosa.

“Cadê o J.G.?” Fui chegando perto dela com a mão na cintura. Ela deu dois passos para trás, os peitinhos tremeluziram como estrelas meninas no céu de Minas Gerais.

“O nome dele é John, ô tira. Deixa a gente em paz! A gente se ama. John não agüenta mais polícia atrás dele.”

“Por que? Quantos vieram aqui?”

“Você é o quarto.”

“Os outros pegaram bola?” Fui chegando mais perto.

“Que é que você acha?”

“Que pegaram.”

Disse isso e agarrei o braço da mulata. A pele era feita de chocolate meio amargo, importado. Senti o gosto. Riche, quando viu que eu não estava brincando, desapareceu dali.

“Não sou corrupto, poderosa. Não porque seja honesto. É que tenho vergonha de aparecer na televisão, no jornal das oito, tentando esconder a cara.”

“Que é que você quer de mim?”

“Faz isso comigo não, nega… Olha que eu digo! Mas uma das coisas que quero de você é dica. Informação.”

“Não vou trair meu amor.” Disse isso baixinho, já saindo, olhando por cima do meu ombro pra ver se tinha alguém por perto. Eu fui atrás.

“Você tem uma carreira pela frente”, falei no ouvido dela, sorrindo, embevecido, sentindo a flagrância do seu perfume floral. “A cidade vai cair aos seus pés, lindona. Acho que esse seu amor é um homem morto. Se a gente não o pegar, a Máfia italiana vai metê-lo numa mó de moinho. Até as digitais desaparecem. Sabe, ele está muito encrencado.”

“Ai, meu Deus!” O timbre da voz de Govinda já era de viúva.

“Vamos lá, conversar na sua casa. Pode deixar que eu dou um jeito dele passar o Mercedes pro teu nome.”

E lá fomos. De vez em quando eu espiava às minhas costas. Riche poderia ter uns amigos metidos. Ainda perguntei à gostosa de onde tinha tirado “Govinda”, já que deveria se chamar Lucineide ou coisa assim. Ela disse que achou o nome numa loja de produtos naturais. Estava calminha. Já se conformara. Conheço quando alguém está prestes a abrir o bico.

“Vou lhe dizer uma coisa, majestosa: você tem os seios mais lindos que já vi na minha vida. São irmãos gêmeos, idênticos, mas têm vida própria, cada um deles. Não pode haver poesia e nem música sem os seus seios por perto. Deus exagerou quando fez você…”

Depois me arrependi um pouco do que disse. A gente não deve tomar liberdades com informantes.

Do livro “Allegro” – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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