Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘O Homem dentro de um Cão’

Papatcho abriu mais uma garrafa de aguardente, enfiou o gargalo na boca e o líquido começou a descer, como se fosse um refrigerante. Era a terceira garrafa, as outras duas ele dividira com Zezão e Ribamar, que já se haviam apagado sobre as mesas do botequim.

“Há algum problema com esse boliviano”, comentou seu Crispim, que passara por ali somente para comprar cigarros. “É impossível suportar tanto álcool sem entrar em coma.”

Manero, o mestre-de-obras que, apesar de beber pouco, passava as noites e algumas madrugadas no bar, contando histórias de mulheres devassas que jamais existiram, balançou a cabeça, preocupado. Ele já fora amigo de Papatcho, no tempo em que o boliviano esculpia animais, com perfeição, aproveitando troncos velhos de árvores caídas.

“Ele bebe assim”, disse Manero para Getúlio, seu companheiro de garrafa, “desde que a dona Mora não o quis como motorista. Mas como pode uma pessoa imaginar que é ‘casado’ com alguém que não lhe dá a menor atenção? Papatcho apaixonou-se por ela, isso acontece, mas ele exagerou: inventou, para si mesmo, que vivia um romance com a dona, que se beijavam e coisa e tal. Acho que foi por isso que ela lhe meteu o pé na bunda. O boliviano devia lhe encher o saco.”

Getúlio não demonstrou nenhum interesse pela história, e aí Manero, contrariando sua rotina, engoliu o copo de cerveja de um gole. “Ô vida de merda! Só sofrimento, só amor contrariado! E ninguém ouve a gente… Puta que o pariu!”, berrou, assustando o companheiro e o pessoal das mesas próximas.

Papatcho continuava de pé mas, a julgar pela direção dos seus olhares, não via mais nada. Ou melhor, via sim: dirigia-se agora a um personagem imaginário, que chamou, respeitosamente, de Señor Díaz Sarmiento, e de quem ouviu notícias aterradoras.

Todos testemunharam: os olhos baços do boliviano foram-se arregalando para depois encharcarem-se de lágrimas, que derramou sobre o ombro de seu Julião, o dono do botequim. Seu Julião, por outro lado, era um verdadeiro demônio para todos os alcoólatras do lugar. Quando esses atingiam o estágio final, seu Julião preparava-lhes uma mistura secreta de vários ingredientes, em que sobressaíam a raspa de chifre e a jurubeba. Os homens bebiam aquilo, vomitavam as tripas e jamais conseguiam pôr novamente um gole de álcool na boca. Era beber e vomitar. Mas seu Julião sempre fora honesto: só preparava a mistura a pedido da vítima, ou da sua família desesperada. E não enganava o desgraçado: “Nunca mais você vai beber, peste, mas que vai morrer de vontade, ah, vai! Eh, eh! Quer mesmo tomar a gororoba?” Pressionado pela família, desmoralizado, nas últimas, os bebuns aquiesciam e começavam a viver o inferno do desejo insatisfeito. Não há maldição pior.

Agora, Papatcho pedia ao velho bodegueiro que, pelo amor de Deus, lhe desse um pouco da mistura.

“Com a morte da minha amada”, disse-lhe o boliviano, com seu sotaque forte, “quero apressar minha ida para o Além. A mistura é o melhor caminho. Quero morrer vomitando a mim mesmo.”

“Que história é essa de que dona Mora morreu?”

“Assassinada. Esfaqueada. Os lindos olhos abertos. O canto da boca de lábios grossos com um filete de sangue a escorrer.”

‘Ainda bem que ele falou tudo isso no meu ouvido’, pensou seu Julião, que trabalhava secretamente para dona Mora, a grande latifundiária da região. Ninguém sabia mais das coisas e das pessoas do que seu Julião. Um botequim, como um táxi, é uma central de informações. Grandes negócios dona Mora havia feito a partir da ajuda dele. Ainda ontem falara com ela, por telefone. Como, morta? E, ainda por cima, esfaqueada?

Seu Julião chamou Manero, somente com uma flexão de cabeça, e o mestre-de-obras o atendeu imediatamente.

“Manero, segura o Papatcho aqui que eu vou ver se ainda tenho um pouco da mistura.”

“Chegue com ela perto de mim não, seu Julião. Deus me defenda.”

“Você não precisa, meu filho.”

Seu Julião esgueirou-se pelas sombras até os fundos do prédio, assustou os ratos e chegou ao telefone que escondia de todo mundo, para que não lhe pedissem emprestado. Ligou diretamente para a casa da patroa. Era amigo de Neusa, a empregada com dez anos de casa.

“Desculpe a hora, Neusa, mas eu queria saber se dona Mora está bem…”

“Por que, Julião, ela estaria mal?”

“Sei lá, uns boatos que correram aqui. Disseram até que foi esfaqueada.”

“Meu Deus! Que gente demente! Eu não a vi chegar, mas ouvi o barulho do carro, e não vou lá em cima acordar a mulher e perguntar se ela foi morta nem que a vaca tussa.”

“Esquece, Neusa, foi loucura do povo daqui.”

Acabou de dizer isso, tentou pôr o fone no gancho, errou por causa da escuridão. Virou-se para voltar ao bar e acabou tropeçando em algo que ele juraria ser um corpo humano. Sentiu um odor almiscarado, nada comum naquele depósito.

Soy Díaz Sarmiento, amigo de Papatcho. Cuando dudan de mi palabra soy enojado. La mujer es difunta. Mucho sangre. Está con los ojos abiertos”, disse a voz.

“Minha nossa!”, gemeu seu Julião, de pernas bambas, apressando o passo, perdendo o equilíbrio e caindo sobre umas latas velhas de tinta e cal que sobraram da reforma do bar. “Bêbado pode inventar coisas, mas morto- vivo não falha…”

Manero estranhou a cor de seu Julião na hora em que ele voltou ao balcão.

“Papatcho aqui está dando a maior trabalheira”, disse o mestre-de-obras. “Quer, de qualquer jeito, beber a mistura do senhor.”

“Quem vai beber a minha mistura sou eu, Manero”, disse seu Julião, com uma vozinha de nada. Esse negócio de beber todo dia, nem que seja um tantinho, como nós fazemos, pode levar a gente à loucura.”

Neste momento, Papatcho empertigou-se, esquivou-se do braço enorme do mestre-de-obras, que lhe enlaçava os ombros, e fixou os olhos no vazio.

“Caralho”, disse seu Julião, já recuperando a energia da voz e dirigindo-se diretamente ao boliviano, “o que é que o señor Díaz Sarmiento está dizendo para você agora, boliviano?”

Papatcho continuou mudo. Um sorriso apalermado foi-lhe tomando o rosto.

“Que foi, Papatcho? Desembucha!”, gritou agora seu Julião. O que é que o señor quer?”

“Não é o señor. É a senhora. La Señora madre del mundo. Diz que vai amparar a alma do meu amor.”

Seu Julião e Manero olharam-se, com um certo desespero.

“Eu vou lá embaixo buscar a mistura”, disse seu Julião. “Mas só vou se você for comigo, Manero.”

“Vou ressabiado, seu Julião. O senhor voltou de lá branco que só leite.”

“Você é homem ou não é, Manero? Porque eu não sou.”

“Vamos ver”, resmungou o mestre-de-obras.

Os dois largaram o bebum de pé, que ouvia extasiado a pregação da Virgem, e se dirigiram vagarosamente, em câmara lenta mesmo, aos fundos do botequim. Aquele pensamento recorrente, de vender o bar e comprar um pequeno açougue, voltou com toda a força à cabeça do comerciante. Ou haveria possibilidade do mundo do Além se intrometer com carnes cruas, como fazia com os alcoólicos?

Do livro “O Homem dentro de um Cão”, Editora Terceiro Nome, 2007

Read Full Post »