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Posts Tagged ‘padre’

“Sabe, dona Glorinha? Tem alguma coisa estranha com esse padre.”

“Tem nada. É um santo.”

“Eu ouvi.”

“Ouviu o que, Jandira?”

“A cantoria às três, quatro da manhã.”

“Melhor você se aquietar e não ficar espionando o homem, ouvindo por trás das portas.”

“Faço isso, não, dona Glorinha. Mas é que sofro de insônia, também. Ontem mesmo tomei quase um litro de chá de folha de maracujá, e nada, nada. É um inferno. Aí fiquei rodando pela casa, feito alma penada, e aí ouvi: ele cantando umas músicas de… amor.”

“De amor nada. É bossa- nova.”

“Ué, mas falava de ‘meu amor, minha coisinha, minha namorada’.”

“E o que é que você tem com isso, Jandira?”

“Deus me perdoe, tenho nada não. Tou dando graças ao Pai de ter arrumado esse trabalho depois de ter feito cinquenta anos. Tava me vendo na rua, pedindo esmola… Se a senhora quiser eu paro de falar. A senhora é minha chefa.”

“Que chefa, Jandira. Sou a coordenadora da Casa Paroquial, e só.”

“Hum… poderosa a senhora é. Mas eu tenho, sabe, a maior simpatia pelo padre Bicalho. Só achei engraçado ele ficar cantando às quatro da manhã, lá no quarto dele.”

“Olha, Jandira, você é bem esperta. Vou contar pra você, mas que isso não saia daqui; se eu ficar sabendo que você fofocou, você tá na rua.”

“Eu, fofocar? Credo em cruz!”

“Sabe, Jandira, isso é amor.”

“Amor? Amor de quem? Como?”

“O padre é um zumbi. Não dorme. No máximo, duas ou três horas por noite, só. Pensando na sirigaita.”

“Ah, é, dona Glorinha? Dor de cotovelo braba?”

“De arrasar, coitado… E esses ataques batem nele à noite. Ele sempre cantou, dizem, desde jovem, eu só estou aqui há vinte anos. Tocava bem violão, mas teve a artrite, aí…”

“Quantos anos padre Bicalho tem, dona Glorinha?”

“Setenta e lá vai chumbo.”

“Mas que tesão, quer dizer, me perdoe, que afeição.”

“Há uns seis meses comprou um karaokê moderno. Ele liga lá e vai cantando, acompanhando a música. Mês passado perdi a conta de uma tal de ‘Dindi’ que ele cantou. Virgem, eu não posso mais ouvir esse nome: Dindi.”

“A senhora também tem insônia, né, dona Glorinha?”

“Pesada. Hoje em dia, quem não tem? Mas olha, Jandira, você não fale isso pra ninguém.”

“Falar pra quem? Não tenho marido, nem filhos, minha família já morreu toda, só converso com a senhora.”

“Acho que esse foi o problema.”

“Que problema?”

“Do padre. Não poder ter família, filhos. Por Deus, Jandira, acho que a Igreja devia deixar os pobrezinhos se casarem.”

“Senhora acha?”

“Cê vê: um homem velho, um santo, tudo bem, nunca ouvi falar nada dele, mas um homem sem paz, sem sossego, por causa de uma sirigaita.”

“Ela era bonita?”

“Linda, de cinema. Vinha à missa todo dia.”

“Rica?”

“Milionária. Vinha de motorista. Loura. Sempre de roupa escura. Perfume importado. Ardia no nariz dos fiéis. Os lábios eram tão rosados que ela não precisava usar batom. Não era mulherzinha, não. Muito séria, não rebolava, nada. Mas sentava na primeira fila. De olho nele. E ele, coitado, levantando a eucaristia e de olho mole nela.”

“Que situação…”

“É padre mas não tá morto, né mesmo? Aí nasceu a paixão, homem com mulher, já viu…”

“Mas eles chegaram a se…”

“Pêra aí, Jandira. Como é que vou saber de uma coisa dessas se eu não estava aqui?”

“Como a senhora não estava?”

“Essas coisas já fazem muito tempo. Não sou tão velha assim.”

“Pera aí! A loura a senhora conheceu, não foi?”

“De ouvir falar.”

“Meu Deus: a senhora me descrevendo eu vi a mulher na minha frente.”

“É, foi o que me contaram.”

“Dona Glorinha, vamos pensar assim: se as pessoas que lhe contaram inventaram, digamos, uma historinha, isso quer dizer que não houve romance nenhum.”

“Ah, houve.”

“Mas a senhora não viu. E a senhora até dizia que ele é um santo.”

“Agora é santinho, sim. Velho é mais fácil. O apetite já não é o mesmo. O mundo todo viu a loura, Jandira. Caso sério.”

“Padre Bicalho pode ser inocente.”

“Que disse?”

“Pensando comigo… Ele pode gostar só de cantar… como é mesmo o nome das músicas?”

“Bossa-nova. Que inocente, nada! É homem. Tem aquilo, Jandira. Não escapa. Eu já o ouvi cantando uma tal de ‘Se todos fossem iguais a você’ com o maior sentimento! Pensando na loura. Só faltava chorar.”

“Coitado do padre Bicalho.”

“Por que coitado, Jandira?”

“Por nada não. É que neste mundo tem pecador demais.”

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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UM

“Em nome do Pai do Filho e do Espirito Santo.”

(O som é ótimo).

“Há quanto tempo você não se confessa, menina?”

“Faz uma semana.”

“Então, vá: conte seus pecados.”

(Ele derrama as frases, engraçado; que pieguice).

“São pecados veniais e pecados mortais. O senhor quer que comece pelos veniais ou pelos mortais?”

“Diga os mortais, menina.”

(Às vezes, a voz da menina fica longe. Deve ser o microfone que está mais perto do padre, não é?).

“Eu pequei contra a castidade.”

“Ah… mas foi sozinha? Ou acompanhada?”

“Tenho de dizer o nome?”

“Não… não é preciso. Quero saber se você estava sozinha, se foi um pecado solitário ou se você estava com um amigo, ou uma amiguinha, ou um bichinho…”

(Que é que é isso, sô?)

“Acompanhada. Com o Geraldo, um amigo do meu irmão…”

“Menina: se não me engano não é a primeira vez.”

“É a quinta.”

“Que foi, minha filha?”

“Que foi o quê?”

(Burra, ou se faz de burra).

“Que foi que você fez com ele?”

“Nada.”

“Minha filha, você disse que pecou contra a castidade com o rapaz. E agora diz que não fez nada? Explique melhor.”

“Não fiz nada… dessa vez. Nós juramos, sabe? Eu não tocava nele, nem ele tocava em mim… Fizemos até promessa…”

“Vocês dois cumpriram o juramento?”

“Mais ou menos…”

(Ela é demais! Pô, conta logo!)

“Menina, não seja boba: eu estou aqui para perdoar os seus pecados. Agora, o que eu não posso é perder tempo. Há pessoas na fila da confissão. Você não deve ter medo de contar suas faltas; de qualquer forma será absolvida. Para isso você veio aqui…”

“Eu conto tudo: eu e o Geraldo ficamos nus um na frente do outro no quarto da empregada. Mas a gente só se viu…”

(Ah…)

“E ele não quis tocar em você?”

“Querer quis.”

“Então…”

“Eu não deixei… não quis… não, eu quis…”

“Deixou?”

(Puxa, que masturbação!)

“Só um pouquinho…”

“Onde? Fale.”

“Foi só um poquinho…”

“Menina, você está vendo? Se eu não tivesse perguntado, insistido tanto, você cairia num pecado mortal de omissão, mil vezes pior. E amanhã iria comungar em estado de pecado mortal. É sacrilégio, você sabe. O diabo tomaria conta do seu corpo. Mas não… também não precisa chorar… Que é isso? Não se chora na confissão.”

“O Geraldo me tocou nos seios, nos dois; e depois ficou me agradando…”

“Psssss… fale mais baixo, menina!”

“E depois a gente ouviu barulho de gente e o Geraldo ficou debaixo da  cama e eu vesti a roupa por trás do guarda-roupa…”

“Mais algum outro pecado mortal?”

“Não senhor, só venial. Eu menti para…”

(Volta, por favor, esse finalzinho da fita, só esse finalzinho…)

“… raldo me tocou nos seios, nos dois; e depois ficou me agradando…”

DOIS

Sentados na cama do hotel, os dois homens se olham de maneira diferente: o vendedor de livros, o mais velho, gorducho, fumando um cigarro sem filtro, tem um olhar superior; e os olhos do rapaz, o fazendeiro, brilham como o esmalte dos seus dentes jovens e as gotinhas de suor na testa – ele está excitadíssimo. Entre os dois, o gravador.

“Livraria, esse negócio é melhor do que aqueles livrinhos de sacanagem, com aqueles desenhos… você sabe.”

O outro, coçando o nariz:

“Tem coisa melhor ainda. Sabe o velho Juca? Se você tivesse ouvido a confissão dele não iria estranhar quando o padre falou dos bichinhos…”

O fazendeiro cruza a descruza as pernas, os olhos acompanham o movimento dos lábios do vendedor, suplicando mais segredos, mais depressa. O outro percebe, e explora:

“Tem mais tarados do que você imagina, mulher casada com histórias sensacionais e tem uns caras que não são tão machos como parecem.”

Um segundo de pânico no rosto do rapaz também não escapa ao vendedor:

“Mas de uma coisa você fique certo: da sua família e da família do capitão Cipriano não há confissões.”

Outro susto no fazendeiro. Ele agora está imóvel.

“Livraria, você não gravou ninguém da família do capitão? Por quê?”

O vendedor segura o cigarro nos lábios e penteia os cabelos com a mão direita, da frente para trás.

“São as duas famílias que disputam a prefeitura, não? A sua e a do capitão.”

“Barrabás! Você pensou em vender isso para o capitão? Você teria coragem de pôr isso nas mãos daquele bandido? Você sabe que o que ele faria com isso?”

O homem continua a pentear os cabelos com a mão.

“É mais um motivo para você aceitar meu preço.”

O rapaz se levanta da cama, ela range; examina a bandeja com a xícara, o pão intocado, os restos de mamão do café da manhã.

“Você pediu demais. Trinta é demais.”

O vendedor inclina-se para o chão, apaga o cigarro com o pé. A cama range de novo.

“Tenho a impressão que o capitão pagaria quarenta. Todos dizem que ele tem mais dinheiro que vocês.”

O vendedor se levanta, a cama dá um rangido mais longo; ele faz um ar sincero, de pai:

“Mas sou honesto. Eu poderia ter mostrado as fitas primeiro ao capitão. Mas sei que sua família usará esses segredos com cuidado, como gente fina, política. Sei que o capitão é um filho da mãe.”

O rapaz volta-se para a janela e fica olhando os telhados vermelhos da cidade, por uma fresta da cortina. O vendedor sorri, caminha preguiçosamente para o banheiro, desabotoando a braguilha.

TRÊS

“Em nome do Pai e do Filho e do Espirito Santo. Há quanto tempo não se confessa?”

“Faz dois dias que nós conversamos.”

“Ah, é você.”

“Quer saber os meus pecados? Acabei de vender a fita para os Almeida Brito. Não deu muito trabalho convencer aquele rapazinho, o fazendeiro.”

O padre segura as duas extremidades da estola, que lhe dá a volta ao pescoço, e a movimenta para cima e para baixo.

“Por quanto fez negócio?”

“Dez.”

“Mas você não ia pedir trinta? Não era trinta?”

Dentro da igreja, o eco de pequenos ruídos: estalos dos bancos de madeira, um missal caindo no chão, passos.

“Ficou por dez.”

“Santíssima! Bom vendedor você é. Nem os livros, que você finge vender, você vende direito.”

O movimento da estola vai aumentando.

“Vou embora, seu padre. Já marquei passagem no expresso. Deixo o seu cheque dobrado aí de lado, aí no chão. É melhor descontar na capital. Vou embora. Não gosto de ficar ajoelhado.”

“De quanto é o cheque?”

“Ué, o que nós combinamos. Meio a meio. Cinco.”

Ele pára com a estola. Os vitrais da igreja filtram luzes vermelhas, laranja, azul, verde, roxa: elas caem no corredor central, a nave, iluminam os bancos, refletem nos sapatos de lona do padre.

“Com cinco milhões não posso nem começar a construir o Asilo Paroquial…”

“Não se queixe, seu padre. Não é dinheiro de Deus, é do diabo.”

“Confesso ao senhor que nunca tive nem um terço desse dinheiro na vida. Essa paróquia, essa cidade é uma falência! O óbulo paroquial é uma miséria. Eu só tenho duas batinas velhas, de algodão. Vou contar um segredo para o senhor: estou precisando até de cuecas ouviu, de cuecas! Só tenho três e estão  em frangalhos…”

O vendedor muda o apoio para o joelho esquerdo.

“Ah, cala a boca! Não chora, seu padre…”

Duas mulheres, camponesas, de véu branco, formam fila para a confissão. A da frente usa tranças, amarradas nas pontas com elástico. No confessionário, o padre passa as mãos no rosto, nervoso.

“O senhor acha que os Almeida Brito vão usar aquelas fitas para o mal?”

“Ah, seu padre, que pergunta! Vão usar para o bem deles. Mas desculpe a ignorância, seu padre, o senhor quer dar uma de bom… está me chateando. Eu vou dizer: estou até com raiva do senhor. O senhor não podia se meter com um vigarista como eu. Nem participar de uma sujeira dessas. O senhor é padre.”

O movimento da estola de novo, para cima e para baixo.

“Você não me engana, vendedor. Você vive disso. Você vai a toda cidadezinha fazendo esse mesmo jogo. Convence as pessoas de boa fé, como eu…”

“Agora sim! O senhor foi o primeiro padre de ‘boa fé’. Só escolho padre velho, meio cego, que não vê o microfone grudado com durex. Quando eu cheguei aqui e vi que o senhor era moço, quis voltar. Mas arrisquei. E pensei até que seria preso, quando o senhor descobriu. Preso nada. O senhor é mais canalha do que eu.”

“Não fala assim!”

“Falo, falo o que quiser. E vou embora de uma vez. Preciso correr. Agora com esse modernismo de confissão coletiva, todo mundo absolvido de uma vez e fazendo penitência em casa, isso vai acabar com os confessionários…”

Perto da pia de água benta, duas meninas cochicham, riem. Pela primeira vez o padre encara a tela de palha do confessionário, nota os olhos do vendedor atrás dela.

“Excomungado!”

“Sou mesmo, seu padre. Deixo aí o cheque, aí de lado.”

O homem se levanta, estalando as juntas. O padre cisca o chão com as mãos, procurando o cheque. A mulher de branco, primeira da fila de duas, adianta-se. O cheque é só um pedaço de cartolina, sem nada escrito. Alguma dor contrai o rosto do padre, ele fica arranhando com as unhas a tela de palha sem perceber o espanto da mulher, ali ajoelhada. Depois, levanta-se da cadeira fazendo barulho, olha por cima do confessionário, vê a outra mulher que sobrou na fila. Bate com força na madeira.

“O próximo!”

E a de tranças, perto dele:

“Tô eu já aqui, seu padre.”

“E por que não avisou? Em nome do Pai e do Filho e do Espirito Santo.”

O vendedor ficou parado no meio da nave, esperando a reação que não veio, nem um olhar em sua direção. Ele se dirige para a porta de saída, gorducho, com seu andar arrastado. As luzes coloridas dos vitrais iluminam sua figura: entre um passo e outro, ele fica vermelho, laranja, azul, verde e roxo.

Do livro “Querido Senhor Assassino” – Editora Símbolo, São Paulo, 1979.

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