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Posts Tagged ‘pão’

Meti meio pão francês com manteiga na caneca cheia de café; deixei encharcar um pouco, até a manteiga vazar e manchar o líquido escuro, e aí fui puxando com os dentes pequenos nacos do pão, que ora chupava, ora deixava desfazer na boca. Não existe nada mais delicioso neste mundo do que isso.

Ando gostando muito de comer, fico até preocupado. Não posso me entregar a prazer algum, não vou amolecer, distrair-me. Daqui a pouco o herdeiro vai entrar pela porta principal do restaurante, com os dois seguranças. Tenho certeza de que vai escolher a mesa próxima do toalete, que é a mais protegida, apesar do cheiro de mijo que se espalha por uns três metros quadrados. Mas o herdeiro é gordo e glutão: quando come, não vê nem ouve nada, não sente cheiro de porra nenhuma. Por isso será fácil matá-lo. O problema são os seguranças. O gordo os troca a cada quinze dias.

Estou na campana há muito tempo, desde o final do ano passado. Sei tudo desse filho da puta obeso. Sei, inclusive, que a sua pior tara é a de só se excitar quando vê sofrimento. Por isso bate tanto nas mulheres. Há certas pessoas que não deveriam vir ao mundo, eu talvez seja até uma delas, mas esse gordo é pior do que eu. Eu, pelo menos, tenho a minha ética e jamais apaguei um pai de família ou alguém reconhecido pela comunidade como um benfeitor. Tive de encarar Brejo Preto, quando ele veio me contratar para queimar o juiz.

“Sabe quantas crianças estão vivas por causa daquele doutor, Brejo Preto?”, eu perguntei, porque até meu irmão Lourenço tinha mandado dois órfãos para a casa de caridade que o juiz mantinha.

“Tô cagando.”

“Tá não, Brejo Preto. O homem cuida de sessenta crianças, levanta dinheiro até do padre Júlio, que é a pessoa mais avara que já conheci. Se esse homem morre, quem vai tocar o orfanato?”

“Que se foda.”

Acabou de falar e os miolos foram parar no teto. Dizem que uns pedacinhos pretos estão lá até hoje, grudados. Os três capangas que vieram com ele nem esperaram pra carregar o corpo. Olharam pra mim com cara de bunda e saíram correndo. Não se faz mais capanga como antigamente. Eu mesmo me surpreendi com aquilo. Será que agi de reflexo? Acho que foi. Não suporto ver gente egoísta, porque o mundo é uma massa que só se move quando todos empurram. Quer dizer, um depende do outro e é o povo que dá a direção. Tem que ter gente nesta merda pra cuidar dos abandonados. O juiz mandou três amigos meus pra cadeia, mas é um homem decente.

Nossa! Agora, cheguei até a lamber a ponta dos dedos e passei a língua nos beiços. Que pão gostoso, caceta! Torradinho, saído do forno inda agora. E a manteiga… daquelas de Minas que só se vende em lata.

Péra aí: deve ter alguma coisa errada nesta história. Não conheço ninguém no restaurante. Das vezes em que estive aqui por perto, na campana do gordo, jamais entrei neste lugar. Ficava de longe, no máximo perto da porta, fingindo de motorista cansado que precisa esticar as pernas, ou observava de dentro do caminhão. Fiquei meses nisso. Sou um profissional. O sujeito que me atendeu deve ser o dono, anda de roupa comum, enquanto os garçons se vestem com um avental azul. Foi o dono que me serviu o pão e a manteiga de lata. Por quê?

Daqui a pouco o gordo vai atravessar a porta e eu não deveria me mexer daqui. Mas não gostei da descoberta: quem sou eu, um desconhecido, para merecer o melhor bocado da casa? A menos que…

Levantei-me com calma, olhando para todos os ângulos do grande salão, até para o que se passava às minhas costas, através do espelho redondo no ângulo da parede, e foi pelo espelho que vi o dono do restaurante empalidecer só pelo fato de eu me ter mexido. Voltei-me para ele, andei em sua direção, com passadas moles, mas olhando-o nos olhos. Ele ficou hipnotizado. Cheguei muito perto e disse, rindo, que queria falar com ele dentro do banheiro. Ele obedeceu, tremendo.

“Que foi, meu senhor?”

“Você vai me dizer. Serve manteiga de lata pra todo mundo aqui? E esse pão torradinho, de onde veio?”

“Meu senhor, eu sei quem o senhor é. Queria só agradar…”

“Você e mais quem?”

“Só eu, meu senhor. Não converso essas coisas com empregado.”

“Tire a roupa.”

“Mas, meu senhor…”

“Vamos trocar de personalidade. Temos o mesmo tamanho. Sente no lugar onde eu estava, com a minha roupa. Eu vou servir manteiguinha mineira pra você.”

“Os garçons vão notar.”

“Se notarem, vão entender que é melhor ficar quietos. Ou vão todos pro céu. Tenho bala aqui pra matar mais de cinquenta.”

Na hora em que saíamos do banheiro, o gordo chegava com os dois seguranças que, pelo menos, eram os mesmos da última vez que vi o desgraçado.

O dono do bar sentou-se no lugar onde eu estava e começou a brincar com a lata de azeite de soja em cima da mesa. Eu peguei a primeira bandeja que achei e, diante dos olhares assustados da mocinha da caixa, que não conseguiu compreender minha súbita presença com as roupas do patrão, peguei o pão e os potinhos de manteiga. Esta, com certeza, de quinta categoria. A bandeja encobria a pistola.

Fui pelas costas dos seguranças levar o couvert. Era uma excelente posição. O gordo na minha frente. Os seguranças de costas. A mulher do pai daquele puto, a segunda, me contratara para matar o enteado. O velho não viveria muito, com cirrose avançada, e não havia mais herdeiros, além do gordo.

“Mas a senhora tem direito à metade”, eu disse à mulher, que não me parecia má pessoa.

“Não é dinheiro, senhor. É medo. Ele está se preparando para me matar. Sinto no olhar dele.”

“Aí a senhora se antecipa…”

“Isso.”

“Vou aceitar o serviço porque aquele gordo não vale o que o gato cobre. Quase matou de pancada uma amiga minha.”

“Meu Deus! Por quê?”

“Só para vê-la sofrendo. Sentindo dor.”

Lembrei-me do diálogo no momento em que me aproximei da mesa do herdeiro. Os seguranças viram que era o homem do restaurante vindo e me deram as costas. O gordo já estava de cabeça baixa, arrasando um saco de batatas fritas.

Acertei à queima- roupa a cabeça de cada um. Eles caíram de um jeito que parecia de brincadeira: como quem dança capoeira, chutando as mesas e cadeiras de plástico. O gordo ainda levantou a cabeça, mas o corpo dele não se mexeu. Aí foi fácil: mais um tiro no meio dos olhos. Meu silenciador é tão eficiente que uma parte do pessoal, dentro do restaurante, não percebeu o que estava acontecendo.

O herdeiro caiu de costas, junto com a cadeira, e não largou o saco de batatas fritas. Eu passei por cima dele, carregando a bandeja, quando as pessoas começaram a gritar e a correr para longe do prédio, e me dirigi diretamente ao dono do bar, que usava minhas roupas.

“Obrigado, meu caro, pela manteiga de Minas e o pão torradinho. Sabe, eu lambi os beiços.”

O homem sorriu, cúmplice, enquanto as pessoas gritavam cada vez mais alto.

“Quando quiser essas coisas, venha comer aqui”, ele disse. “Lugar onde ninguém vê nada é o melhor do mundo.”

“Pode deixar que eu volto, amigão.”

Meu plano de fuga já estava pronto há muito tempo. Saí pela lateral, fui até o pequeno depósito de pneus e outras velharias, num puxado do restaurante, onde também guardavam caixas de cerveja; peguei a bicicleta e saí tranquilamente, como um capiau qualquer, sem pressa pra chegar em casa. Ainda ouvi umas sirenas de polícia, ou de ambulância, nunca sei ao certo, enquanto me aproximava da servidão onde guardei o carro. Com o lucro do serviço, poderia ficar três meses pescando no meu sítio em Goiás. Um dia ainda iria convidar o amigo lá do restaurante. Ele certamente não conhece a emoção de pegar um pacu e comer na hora, na brasa. Hum…

Do livro “O Homem dentro de um Cão”, Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2007.

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