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Posts Tagged ‘personagens’

Não preciso viver muitas vidas, ou participar de múltiplas experiências, para criar personagens ricas.

Não preciso sentir o que outros sentem para, somente a partir daí, ter acesso às suas almas, torná-los pusilânimes, canalhas ou santos.

Personagens já vêm assim, já o são. Guardo na mente as mesmas figuras que me aporrinhavam ou acalentavam desde quando tinha sete anos, ou até menos, e não acreditava mais naquelas histórias de pecado. Não acreditava porque elas, as personagens, viviam me esclarecendo sobre minha real natureza. Especialmente o velhinho.

Me lembro de Joanides (pronuncia-se Roanides, é “J” castelhano), no primeiro dia em que me surgiu, o da minha primeira comunhão. Ele me dizia, bondosamente, que eu não deveria entrar em pânico por causa dos meus pensamentos tortos. Que eu não era um pecador compulsivo, como imaginava. Meu problema limitava-se a um certo desequilíbrio na produção de testosterona.

Jamais me esquecerei dele, com suas barbas brancas, sua magreza romântica, a voz pausada e doce, quase feminina. “Calma, calma, meu rapaz, não precisa se confessar de novo.”

Naquela época, quando comentava sobre as coisas que Joanides me dizia, os adultos faziam cara de susto. “Onde esta criança leu isto? O que está acontecendo?”

Eu explicava: “Joanides me contou”. (Ou Márcia Salamandra, Quinzinho Belo, Giloca…)

“Mas onde você viu essa gente, onde?”

E eu detalhava: “Joanides gosta de aparecer quando estou em apuros. Em certas provas do colégio, por exemplo, e em outros que não quero falar. Fica do meu lado direito, às vezes se abaixa tanto para conversar comigo (ele é muito alto) que chego a sentir um certo hálito amargo, sei lá, como se ele não comesse nada há tempo. Sinto o mesmo, às vezes, no hálito da minha mãe.”

“Mas , você o vê como a uma pessoa normal?”

Eu suspirava de apreensão ou um certo enjoo com a infantilidade dos adultos. Como, pessoa normal? Personagens são criações da mente, e a visão deles é uma outra criação da mente, eu repetia e repetia, extenuado.

“Mas, menino, onde foi que você leu a palavra testosterona?”

“Que coisa, meu Deus. Não li nada. Foi Joanides que me contou.”

Papai me levou ao primeiro psiquiatra antes que eu completasse oito anos. Era um homem gordo, de pele lisa e fria. Os braços não tinham pelos. Olhos de sátiro. Madre Josefina, ao meu lado, profetizou: “Ele vai tentar violentar a filha da empregada, mas não conseguirá. Gordo nojento.”

Contei a mamãe e ao meu irmão Lucas o que o gordo iria aprontar, mas eles acharam que eu queria mesmo me livrar dos remédios que me dopavam o dia inteiro; certa vez, cheguei a dormir sobre a carteira do colégio.

“Papai, mamãe, eu não estou doente. O médico está me matando.”

“Você está ficando perigoso, moleque”, dizia meu pai, ainda irritado com a história da tentativa de estupro. “Você vai se complicar, um dia, com essa sua imaginação louca.”

Mas, pouco tempo depois, ele mudou de opinião a meu respeito. Entrou na sala, lívido, com o jornal na mão e mostrou-o à mamãe. O gordo havia sido preso por abuso sexual contra uma menina de oito anos, filha de sua empregada.

“Estou com medo deste guri”, papai confessou à mamãe e eu ouvi tudo através de leitura labial, uma técnica que Jota Perito me ensinou.

“Não se preocupe comigo, pai. Não vou fazer mal a ninguém. Eu amo vocês.”

“Pô, e agora ele adivinha…”, meu pai começou a se irritar novamente.

A verdade é que me deram um pouco mais de liberdade, a partir daquele episódio; mas se afastaram de mim. Como se tivessem medo, mesmo. Papai tinha muitos problemas com sua produção de autopeças: as multinacionais começavam a comprar todas as fábricas, médias e pequenas, e ele não conseguia preço dos fornecedores para competir. Sem recursos, a casa foi ficando mais triste a cada dia e eu tive de mudar para uma escola pública. Joanides, sempre a meu lado, ajudava como podia. Ele só veio a falecer, digo, como personagem, em mil novecentos e oitenta e seis, quando escrevi “Areia grossa, areia fina”. Joanides pontificou até o capítulo dezoito, morrendo de causas naturais.

Por isso insisto com vocês que posso escrever à vontade sobre a ala feminina desta clínica sem precisar ter sido internado nela ou vivenciar seu dia a dia, até porque sou homem. Sabem, não me levem a mal, mas eu sei exatamente o que uma mulher sente durante um ato sexual imaginário, que é a coisa mais comum naquela ala. Klotilde (é com “K” mesmo, frescura de quem escolheu o nome) me contou tudo, com detalhes. Quem é Klotilde? Ora, doutores, é a principal personagem do meu livro, a elitista que foi jogada aqui dentro por vingança dos parentes. Devo, inclusive, adverti-los de que terão problemas, em breve, com Maria Eulália e Cacilda, porque elas estão se envolvendo emocionalmente cada vez mais. Ninguém suporta, por muito tempo, atos sexuais imaginários.

Se eu vejo fantasmas? Meu Deus, desde criança eu insisto que personagens são criaturas de ficção e que só existem em função de mentes treinadas à onisciência, como é o meu caso. Eles são meus queridos amigos. Mesmo aqueles que experimentaram vidas miseráveis nas minhas histórias. Se vocês usassem suas mentes saberiam um pouco mais de medicina, saberiam até, através de sinais orgânicos, o momento exato de suas próprias mortes. Aliás, um de vocês está muito perto disso, acontecerá por esses dias. Madre Josefina jamais falhou em suas previsões.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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Não preciso viver muitas vidas, ou participar de múltiplas experiências, para criar personagens ricas.

Não preciso sentir o que outros sentem para, somente a partir daí, ter acesso às suas almas, torná-los pusilânimes, canalhas ou santos.

Personagens já vêm assim, já o são. Guardo na mente as mesmas figuras que me aporrinhavam ou acalentavam desde quando tinha sete anos, ou até menos, e não acreditava mais naquelas histórias de pecado. Não acreditava porque elas, as personagens, viviam me esclarecendo sobre minha real natureza. Especialmente o velhinho.

Me lembro de Joanides (pronuncia-se Roanides, é “J” castelhano), no primeiro dia em que me surgiu, o da minha primeira comunhão. Ele me dizia, bondosamente, que eu não deveria entrar em pânico por causa dos meus pensamentos tortos. Que eu não era um pecador compulsivo, como imaginava. Meu problema limitava-se a um certo desequilíbrio na produção de testosterona.

Jamais me esquecerei dele, com suas barbas brancas, sua magreza romântica, a voz pausada e doce, quase feminina. “Calma, calma, meu rapaz, não precisa se confessar de novo.”

Naquela época, quando comentava sobre as coisas que Joanides me dizia, os adultos faziam cara de susto. “Onde esta criança leu isto? O que está acontecendo?”

Eu explicava: “Joanides me contou”. (Ou Márcia Salamandra, Quinzinho Belo, Giloca…)

“Mas onde você viu essa gente, onde?”

E eu detalhava: “Joanides gosta de aparecer quando estou em apuros. Em certas provas do colégio, por exemplo, e em outros que não quero falar. Fica do meu lado direito, às vezes se abaixa tanto para conversar comigo (ele é muito alto) que chego a sentir um certo hálito amargo, sei lá, como se ele não comesse nada há tempo. Sinto o mesmo, às vezes, no hálito da minha mãe.”

“Mas , você o vê como a uma pessoa normal?”

Eu suspirava de apreensão ou um certo enjoo com a infantilidade dos adultos. Como, pessoa normal? Personagens são criações da mente, e a visão deles é uma outra criação da mente, eu repetia e repetia, extenuado.

“Mas, menino, onde foi que você leu a palavra testosterona?”

“Que coisa, meu Deus. Não li nada. Foi Joanides que me contou.”

Papai me levou ao primeiro psiquiatra antes que eu completasse oito anos. Era um homem gordo, de pele lisa e fria. Os braços não tinham pelos. Olhos de sátiro. Madre Josefina, ao meu lado, profetizou: “Ele vai tentar violentar a filha da empregada, mas não conseguirá. Gordo nojento.”

Contei a mamãe e ao meu irmão Lucas o que o gordo iria aprontar, mas eles acharam que eu queria mesmo me livrar dos remédios que me dopavam o dia inteiro; certa vez, cheguei a dormir sobre a carteira do colégio.

“Papai, mamãe, eu não estou doente. O médico está me matando.”

“Você está ficando perigoso, moleque”, dizia meu pai, ainda irritado com a história da tentativa de estupro. “Você vai se complicar, um dia, com essa sua imaginação louca.”

Mas, pouco tempo depois, ele mudou de opinião a meu respeito. Entrou na sala, lívido, com o jornal na mão e mostrou-o à mamãe. O gordo havia sido preso por abuso sexual contra uma menina de oito anos, filha de sua empregada.

“Estou com medo deste guri”, papai confessou à mamãe e eu ouvi tudo através de leitura labial, uma técnica que Jota Perito me ensinou.

“Não se preocupe comigo, pai. Não vou fazer mal a ninguém. Eu amo vocês.”

“Pô, e agora ele adivinha…”, meu pai começou a se irritar novamente.

A verdade é que me deram um pouco mais de liberdade, a partir daquele episódio; mas se afastaram de mim. Como se tivessem medo, mesmo. Papai tinha muitos problemas com sua produção de autopeças: as multinacionais começavam a comprar todas as fábricas, médias e pequenas, e ele não conseguia preço dos fornecedores para competir. Sem recursos, a casa foi ficando mais triste a cada dia e eu tive de mudar para uma escola pública. Joanides, sempre a meu lado, ajudava como podia. Ele só veio a falecer, digo, como personagem, em mil novecentos e oitenta e seis, quando escrevi “Areia grossa, areia fina”. Joanides pontificou até o capítulo dezoito, morrendo de causas naturais.

Por isso insisto com vocês que posso escrever à vontade sobre a ala feminina desta clínica sem precisar ter sido internado nela ou vivenciar seu dia a dia, até porque sou homem. Sabem, não me levem a mal, mas eu sei exatamente o que uma mulher sente durante um ato sexual imaginário, que é a coisa mais comum naquela ala. Klotilde (é com “K” mesmo, frescura de quem escolheu o nome) me contou tudo, com detalhes. Quem é Klotilde? Ora, doutores, é a principal personagem do meu livro, a elitista que foi jogada aqui dentro por vingança dos parentes. Devo, inclusive, adverti-los de que terão problemas, em breve, com Maria Eulália e Cacilda, porque elas estão se envolvendo emocionalmente cada vez mais. Ninguém suporta, por muito tempo, atos sexuais imaginários.

Se eu vejo fantasmas? Meu Deus, desde criança eu insisto que personagens são criaturas de ficção e que só existem em função de mentes treinadas à onisciência, como é o meu caso. Eles são meus queridos amigos. Mesmo aqueles que experimentaram vidas miseráveis nas minhas histórias. Se vocês usassem suas mentes saberiam um pouco mais de medicina, saberiam até, através de sinais orgânicos, o momento exato de suas próprias mortes. Aliás, um de vocês está muito perto disso, acontecerá por esses dias. Madre Josefina jamais falhou em suas previsões.

Do livro Allegro – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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