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Posts Tagged ‘peruca’

Gosto deste shopping. Ele dá a sensação de que os produtos que compramos aqui são exclusivos. Como conseguem isso, não sei. Nem estou certo, também, se tiveram essa intenção. Estratégias de marketing me parecem, às vezes, tiros no escuro que acabam dando certo por motivos jamais imaginados pelos próprios marqueteiros. Esta é uma discussão bastante complicada.

Mas é possível que tenha sido algo deliberado, sim, no momento em que decidiram que todas as lojas, sem exceção, teriam de ser aconchegantes, com gente sorridente, cores suaves, poltronas confortáveis, tudo organizado por meio de uma decoração discreta e de bom gosto. É interessante, por exemplo, que existam, na maioria das lojas, pequenas fontes de água corrente, das mínimas, que cabem em uma mesinha, às de um metro por um metro, graciosas e criativas, com anjinhos barrocos a fazer xixi. Água corrente sempre me fez bem; faz a todo mundo, acredito. Então, as lojas transformaram-se em sítios onde você compra sem pressa e, por isso mesmo, compra muito mais.

Já andei bastante por aqui, desde que inauguraram, há uns trinta e cinco anos. Para consumidores preguiçosos, como eu, um shopping é uma delícia: tudo próximo, tudo fácil. Houve uma época de trottoir, também, e muito flertei por estas ruas. Depois, usei o shopping para passear com meus filhos, da infância à adolescência. Consumir, sempre o fiz com alegria e bom humor. Hoje não vai ser diferente.

Mas o produto é novo para mim. Jamais imaginei que, um dia, fosse obrigado a usar uma peruca. Na verdade, não sou. Olhando-me no espelho, no entanto, senti que não tinha o direito de assustar as pessoas com a minha calvície súbita.

Vaidoso? Talvez. Estético, é a definição mais precisa. Encontrei-me com Roger Stelita, meu velho colega de faculdade que, apesar do adiantado da idade, continua desagradavelmente irreverente.

“Trajano!”, ele gritou na rua, quando me viu e demorou um pouco a me reconhecer, “você assim, careca, ficou igualzinho a uma caceta”!

As pessoas que passavam por perto olharam para ele (e para mim) com uma certa pena. Mas ele se dobrou de dar risada.

“Ai, meu Deus! Ai meu Deus! Você me mata de rir, Trajano! Olha, garoto, se você puser uma gola rulê cor-de-rosa vai ser preso por atentado ao pudor!”

“Muito bem, Roger, muito bem!”, eu disse, sem outro comentário a fazer, e fui saindo, de mansinho.

“Ei, figura, a gente não se vê há dez anos e você já está caindo fora? Venha cá, vamos tomar uma aqui perto.”

Fui mais por piedade. O terno dele: antigo e amassado, cheio de manchas; a gravata fininha, fora de moda, com um excesso de flores coloridas. Roger possuía, também, alguns problemas ortodônticos jamais corrigidos que, com a idade, tornaram-se, digamos, odiosos.

Seu rosário de queixas me pareceu inédito, mas ele o desfiava rindo. A tragédia rondava-lhe o lar (perdera um filho num acidente de automóvel; a esposa sofria do Mal de Alzheimer e confundia Roger com o próprio avô dela) e já não conseguia manter sua segunda casa, para onde a amante, trinta anos mais nova do que ele, levara toda a família. Eu não tinha dúvida de que, no final da conversa, Roger iria me pedir algum dinheiro emprestado, mas não foi isso o que aconteceu.

“Quando quiser, então, Trajano, vá me visitar. Certamente eu terei mais desgraças para lhe contar. Mas diga-me qual endereço você vai preferir, se o da matriz ou o da filial. A vantagem, na matriz, é que Débora não irá reconhecê-lo. Isso facilitaria o nosso papo, pois não?”

Ele ria, ria de si mesmo, e, antes de se despedir, deu-me um conselho.

“Trajano, por que você não compra uma peruca? Vai ficar ridículo, mas em compensação você remoçará vinte anos. Tudo na vida tem as suas vantagens e as suas desvantagens, né mesmo?”

Disse “vantagens” e “desvantagens” imitando um humorista famoso que já perdera a graça havia anos.

“Roger, eu vim pro shopping exatamente para isso: comprar uma peruca.”

“Pois não lhe ajudo por um motivo muito simples: quem tem duas famílias leoninas não pode perder tempo. Estou fechando um negócio sujo com o governo. É o único jeito de ganhar um dinheirinho mais grosso.”

“Roger”, eu o parei, tocando-lhe o ombro, “sabe que a sua mulher… verdadeira tem razão?”

“Ah, é? Em quê?”

“Você está a cara do avô dela.”

Ele morreu de rir, não se embaraçou nem um pouco.

“Você resolveu me imitar, figuraça?”

Não foi uma ideia fácil de digerir, a de imitá-lo, mas logo voltei à minha pesquisa comercial. Alguém me havia dito que a loja de perucas ficava logo atrás da casa de vinhos. E, realmente, lá estava: o nome da lojinha era “coberturas” e, na vitrine, imagens de carecas famosos usando perucas de photo shop. Um achado do marketing! Todos pareciam mais simpáticos.

Lá dentro, somente eu e uma outra cliente, mulher de uns trinta anos. Será que ela procurava uma peça para o marido, vítima de entradas cada vez mais fundas? Ou queria dar um presente no Dia dos Pais ao seu querido velhinho sem pelos? Uma vendedora baixinha, gorducha, muito jovem e linda de rosto, veio me atender com aquele sorriso aberto que era a marca registrada do shopping.

“Posso ajudá-lo?”

“Muito. A senhora me vê…, não, senhora, não, você parece uma filha mais nova, ou até uma neta… você vê esse meu problema?”. Disse-o apontando para a minha própria cabeça, a “caceta”. “Preciso cobrir-me de novo, menina. Quero ser feliz. Olhar-me no espelho sem me sentir um ET…”

“Temos dezenas de opções maravilhosas para o senhor”, continuou o sorriso. “De que cor eram os seus cabelos?” (”Eram”, disse ela; nem sequer uma energia etérica ficou no lugar das madeixas; a calva parecia mesmo irreversível).

Fiquei mudo por um tempo.

“Bem, eram grisalhos.”

“Sim, mas a cor original?”

“Pretos. Quer dizer, não exatamente. Castanho-escuros quase pretos. É possível uma cor assim?”

“Desculpe-me, senhor, mas há o preto, o castanho-escuro e o castanho-claro. E outros tons mais claros ainda, até chegar ao loiro. Temos perucas grisalhas também, com a cor básica que o senhor quiser.”

Levei quase uma hora experimentando as perucas: a cada olhada no espelho, via uma outra pessoa, com um outro nome e personalidade diversa da minha. Com uma “cobertura” curta, castanho-escuro, por exemplo, senti-me um general aposentado, arrogante e manipulador. Mas, em todos os rostos, percebi um certo ar clown, ridículo e postiço ao mesmo tempo, inerente aos peruquentos.

“Minha filha, acho que vou desistir. Eu me acho horrível sem cabelo, mas fico pior de peruca. Com qualquer uma delas.”
“Por que o senhor não tenta o aplique? Gasta-se um pouco de dinheiro, mas há um método novo que se faz fio a fio. Fica perfeito. Nós podemos tratar disso. E o senhor só paga em dez vezes, no cartão.”

“Há dois problemas”, ponderei. “Não sei se o meu médico permitiria qualquer intervenção física, mesmo micro, até um simples implante de cabelo. Outra, é que pessoas como eu não devem fazer compras a prazo.”

Ela fingiu que não entendeu.

“Quimioterapia é uma estratégia arriscada. Ela pode matar o paciente”, esclareci.

A mocinha fez desfilar um silêncio social.

“Talvez o senhor tenha razão”, ela disse. “Mas sabe que não parece que o senhor esteja fazendo químio?”, mentiu ela. “Em geral, as pessoas ficam muito abatidas.”

“Bem, de qualquer forma, tenho quarenta por cento de chance do meu cabelo voltar. Segundo as estatísticas.”

Ela me desejou felicidades, sempre sorrindo, e no íntimo revoltada, certamente, por perder tempo com um sujeito que, apesar de estar sessenta por cento morto, continuava vaidoso. Melhor dizendo, esteta.

 

Do livro “O Homem dentro de um Cão”, Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2007

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