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Posts Tagged ‘Porco-Mor’

E como se não bastasse o horror de sermos xifópagas, o Porco-Mor resolveu fundir-se a nós durante a Grande Bacanal de Setembro.

Grunhindo meio de lado (tão irônico, o Porco-Mor) ele foi-se chegando, de costas, e nós dormindo sob o totem florido, ele foi-se chegando, primeiro roçando aquele rabinho torcido, obsceno, na nossa barriga. Maria, ainda dormindo, deu umas risadinhas de cócegas; e eu, que acordei imediatamente, não sei por que não tive vontade de reagir. Um dia, tenho certeza, todos poderão me acusar de ter planejado aquela intromissão. O doutor não sabe, mas Deus sim, que isso não é verdade.

Mas, como ia dizendo, Maria só foi acordar com a dor, o sangue escorrendo por nossas pernas, eu quase desmaiada, e o Porco-Mor grunhindo alto, enfiando o focinho na terra ensanguentada por nosso corpo comum. Estava louco de prazer, o Porco-Mor.

Benfazeja, a nossa babá, quando descobriu o desastre já era tarde. Chorando alto, gritando “pobres princesas!”, ela ainda tentou apartar de nós o corpo nojento do Porco-Mor. Mas o senhor sabe, doutor, e Deus quis, já não havia jeito.

E a nossa difícil vida em comum, eu e Maria, teve de ser repartida com um animal repulsivo, mas inteligente. Maria não concordaria com isso, nunca, mas eu insisto na extraordinária inteligência do Porco-Mor. Unido a nós, ele iria sugando aos poucos as nossas qualidades racionais, as nossas almas. Benfazeja, a babá, escondeu tudo até de nossos pais, mas Deus e o doutor sabem, numa pequena aldeia como a nossa, o segredo é impossível. E, certo dia, um pastor de formigas nos surpreendeu a brincar debaixo do totem florido. O homem se assustou porque, a essa altura, o Porco-Mor já balbuciava algumas palavras: “dá-dá”, “neném”, “beja-beja”, esta última com certeza referindo-se ao nome da nossa babá que, coitada, era obrigada a conviver com aquele tríplice horror.

Pouco tempo depois, Maria e eu começamos a sentir que nossa pele se cobria de duros pelos (mas só do lado dela, não do meu) e que os olhos do Porco-Mor mudavam de tom, passando para o azul, cor dos nossos olhos.

Infelizmente, ou felizmente para mim, doutor, que sou uma egoísta, foi Maria quem começou a grunhir igual ao Porco-Mor, enquanto ele já se dirigia a mim com palavras claras: “Boneca”; “Perdição”; “Pedaço de mau caminho”; “Meu anjo”. Isso dito com aquele risinho de lado, que agora era um esgar humano, aquela velha ironia. Ele simpatizava comigo, estava claro, e não sei por que mecanismo biológico, sugava tudo, mas só de Maria, que já demonstrava sinais de irracionalidade, além do aspecto cada vez mais suíno, mais grotesco.

Ela já não podia reagir. Mais algum tempo e era ela quem chafurdava na terra, com o focinho que lhe crescera, debaixo do totem florido, jogando areia por cima de nós.

Não sei se fui má, na ocasião, mas comecei a tratar o meu novo lado inteligente de “Demetrius”, um nome que sempre me soou bem. Por causa disso, de eu não me mostrar ferida com o grande mal que ele fez à metade do meu corpo antigo, Demetrius tentou de todas as formas me envolver, me seduzir. Seus argumentos eram, de certo modo, aceitáveis. Eu não seria, na verdade, sua meia-irmã. E ele, apenas um estranho que simplesmente havia herdado de Maria as faculdades mentais e o aspecto humano. Eu resisti como pude. O senhor, doutor, não vai entender. Mas Deus sabe.

Um dia, Demetrius me beijou.

Não tenho palavras para descrever aquela sensação, doutor. Mas era como se uma onda de elétrons girasse por nossos corpos unidos, ora acumulando-se no lado dele, ora no meu, enfim, um pouco da felicidade que eu jamais sonhei acontecer.

Benfazeja, escondida atrás do segundo totem florido, viu tudo. E – ainda não havíamos separado os nossos lábios – ela correu sobre nós com um tacape, a cara de louca. À nossa frente, hesitou. Mas bateu. Bateu muito. Ela amava Demetrius, mesmo quando ele ainda era o Porco-Mor. Ciúme doido. Não sei por que ela não o matou. Correu chorando, respingada de sangue, com o tacape à mão. Agora o senhor entende, doutor? Entende por que eu lhe peço que nos salve, a Demetrius e a mim, pelo amor de Deus?

Eu amo tanto Demetrius, doutor.

Do livro “Leonora Premiada”, Editora Duas Cidades, São Paulo, 1974.

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