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Posts Tagged ‘projeciologia’

A primeira vez que ameacei sair do corpo foi no restaurante da empresa. Minha amiga Ciranes estava comigo e não percebeu nada. Eu devo ter perdido a cor e expressado uma certa confusão; a fome, perdi completamente, e abandonei o prato cheio na mesa. Ciranes olhava para mim, rindo, dizendo as coisas bobas de sempre.

É uma sensação desagradabilíssima ir saindo do corpo. (É bom deixar claro que não saí completamente; foi, digamos, uma ameaça.) Você pensa até que está morrendo, e não entende por quê. Depois imagina que é vítima de alguma moléstia cerebral. Estranho: nada dói e, mesmo a ponto de pular fora do corpo, você pode se levantar da mesa e cumprimentar alguém.

Fui voltando aos poucos, respondendo sim, sim, para Ciranes, que continuava a me tratar como uma pessoa normal. Quando tomei o cafezinho, entendi que o problema era bastante complexo. Logo depois, a estranha sensação passaria, e era como se nada tivesse acontecido. Então me fiz a pergunta dramática: mas o que, realmente, ameaçava sair de mim? Alguma coisa era. O eu, o meu eu, a consciência, teria condição de escapar da massa física e manter-se raciocinando? Mesmo sem contar com os cinco sentidos? Aí me lembrei que estava tomando Sulphur 1000, um medicamento homeopático, e no dia seguinte invadi o consultório do meu médico, após brigar com a atendente, que queria me fazer esperar quase um mês pela consulta.

“Talvez seja um efeito do Sulphur”, disse o doutor Madureira, economizando palavras, “mas talvez você esteja pronto para voar”.
“Está brincando.”

“Muita gente começa na sua idade. Na sua meia-idade.” O homeopata não tinha dúvidas.

Saí de lá do jeito que entrei: perplexo. Por enquanto, o maldito sintoma não se havia repetido, mas, por via das dúvidas, suspendi o almoço no bandejão e passei a comer sanduíches naturais na mesa do escritório, o que provocou um certo constrangimento entre os meus colegas, todos partidários de uma hora e meia de folga para as refeições. Eu, com meu sanduíche, gastava quinze minutos. Não foi minha intenção, mas, no final de dois meses, ganhei, como prêmio, uma viagem de férias, por uma semana, a uma praia distante, e com acompanhante. Ninguém teve dúvidas de que o prêmio se referia ao tempo gasto com a refeição e ao fato de não sair mais da mesa de trabalho. Eu, na verdade, não ficava por ali exatamente trabalhando, mas navegando pela internet, à procura de literatura sobre Projeciologia – a ciência que estuda as viagens fora do corpo.

Já que era divorciado e sem filhos, perguntei a Ciranes, que trabalhava em uma outra empresa, no andar de baixo, se gostaria de me acompanhar na viagem. Ela, que tinha duas semanas de folgas acumuladas, vibrou muito. E veio me perguntar se o convite incluía sexo.

“Claro que não!”, reagi. “Só companhia.”

“Por que ‘claro que não’? Eu gosto.”

Pausa longa.

“Não sei se consigo.”

“Tenho sempre viagra na bolsa.”

“Meu Deus! Você é promíscua?”

“Não. Prevenida.”

Acreditei. A ausência total de atrativos não lhe permitiria sequer a promiscuidade.

“Ciranes, o problema não é físico. É que não sei se consigo transar com amigas.”

“Ué, mas pelo menos se esforce. Vai ter de tirar a prova.”

Durante a primeira tentativa, dentro de um apartamento magnífico de um hotel cinco estrelas de frente para o mar, quando estávamos prestes a consumar o ato, senti-me saindo do corpo de novo. Foi horrível. O meu corpo, em abandono, perdeu o ritmo, suspendeu as flexões e desabou para o lado. Ciranes iria me contar, tempos depois, que meus olhos ficaram vidrados – e arregalados.

Eu, ou quem fosse, estava longe. Pairava pelo quarto, de pé direito bastante alto. O pior: começava a gostar daquilo. Ameacei sair pela janela aberta, como se quisesse escapar do ar-condicionado polar, mas recuei. Iria direto ao maravilhoso mar verde e translúcido daquela região do país e provavelmente sumiria nele. Via Ciranes na cama, mordendo o lençol e chorando um choro agressivo. Ao lado dela um homem parecendo morto. Olhão aberto, largado. Nem me reconheci.

Num dado momento, resolvi dar uma olhada no cordão prateado que deveria me segurar, segundo a teoria da Projeciologia, à desprezível carcaça. Esse cordão, que se esticava ao infinito, era uma referência quase unânime nas histórias de viagens fora do corpo – mas não vi cordão, nem liame algum, nada.

‘Então… estou morto!’

O susto foi tão grande que voltei abruptamente ao corpo nu e envelhecido daquele homem ao lado de Ciranes. A reentrada deve ter deslocado o ar, pois minha amiga deu um gritinho e quase caiu da cama, como se tivesse sido empurrada de baixo para cima.

Estava muito confuso. Ciranes, claro, não desconfiou que participara de um fenômeno mais ou menos raro. Meu fracasso sexual se transformou em humilhação para ela. Levou um bom tempo para me olhar no rosto, apesar dos meus insistentes pedidos de desculpas.

“O que há com você, cara? Na hora H…”, disse, de costas para mim.

Resolvi lhe contar tudo. Ela sentiu-se mais humilhada ainda. Choramingou.

“De todos os caras que fracassaram comigo, você foi o que arranjou a desculpa mais criativa. Você é um gênio!”

Para falar a verdade, eu já descobrira que aquela aventura fora do corpo substituía, com imensas vantagens, os gozos terrenos. Entre namorar com Ciranes ou com uma bela mulher, não importava, e voar sem asas por um quarto de hotel, eu sinceramente preferiria a segunda hipótese. Porque não era só voar, mas sentir-se uno com a natureza; experimentar a não-dor que é o abandono da matéria; vivenciar uma beatitude inexprimível – um êxtase superior.

Tempos depois, quando saí do corpo pela terceira vez, já havia perdido qualquer sentimento de medo. Estava no velório de um pobre diabo, sem família e sem amigos. Eu, ali, voava e voava, não como um pássaro, ou como uma nuvem, mas voava energeticamente, direcionando-me através da força do meu próprio pensamento, haurindo cada visão, cada cheiro de flor – e tantas havia naquele lugar!

Dei uma olhada, de soslaio, na cara do morto velado: eu mesmo, mas muito velho, um trapo murcho. Aos poucos, fui compreendendo o porquê de ter permanecido tanto tempo dentro daquela casca inútil: ofereceram-me uma aula de resistência, de sobrevivência na dor, ou uma descida aos infernos, para que eu justamente aprendesse a voar.

Eu aprendi. Depois disso, não houve mais limites, fronteiras ou resistências.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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