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Posts Tagged ‘quarto zagueiro’

Perplexos diante de tão nefasta campanha encetada contra nossa instituição, nosso querido Esquadrão Justiceiro S.A., valemo-nos desta para informar-lhe que é tudo mentira, calúnia, injúria dos nossos inimigos gratuitos. Quando da entrada de V. S. no quadro de sócios do querido Esquadrão Justiceiro, soube o senhor acionista de todos os nomes – inefáveis! – que compõem nossa equipe profissional, a mais gabaritada do País, quiçá do mundo. Lembra-se V. S., certamente, do começo de nossas atividades, tão alardeadas pela imprensa, de pronto combatidas pelos histéricos e histriônicos partidários do Comunismo Internacional, travestidos de liberal-democratas ou humanistas; mas, por outro lado, tão incentivadas pelo povo trabalhador desta querida terra, povo que já não suportava os revoltantes assassínios e toda espécie de barbárie cometida por tresloucados bandos de marginais. O povo nos deu ânimo para prosseguir em nossa luta contra uma situação quase insustentável. Outrossim, também deve lembrar-se V. S. do grande debate promovido pelas forças vivas do País quando do féretro do terrível marginal alcunhado “Boca de Mochila”, eliminado por nossos quadros profissionais em um dos mais sangrentos tiroteios já travados em nossa cidade, saindo feridos os companheiros de códigos SO-19, MT-15 e FR-08, este último pai de cinco filhos legítimos. No evento, quando a maioria absoluta do povo nos aplaudia de pé em frente aos seus televisores, ou mesmo nas ocasiões públicas e privadas em que todo o tipo de homenagem nos foi prestado, resolvemos transformar nossa razão social de Ltda. para S. A., tal era o número de brasileiros que nos procuravam e pediam o nosso auxílio contra os mais variegados tipos de delinquentes. Desde então, nossa cotação na Bolsa de Valores subiu a índices inimagináveis, até mesmo para nós, que, em dois meses, chegamos a construir prédios próprios, blindados e luxuosos, em todas as capitais do País e em algumas cidades importantes do interior. Nossa atuação conseguiu erradicar, por bom tempo, o que os negativistas chamavam de “vocação criminal” do nosso povo. Chegamos a erguer – nós sim, humanistas! – a Casa da Viúva Marginal para amparar mulheres inocentes, lamentavelmente envolvidas com as pústulas que eliminávamos. Agora, somos obrigados a admitir, nossa situação é delicada. Reconhecemos, sim, que o bandido cognominado “Ferreiro” possuía, pelas graças de Mefistófeles, uma extraordinária vocação para o “Football Association”. Reconhecemos que a sua atuação em gramados nacionais, nos últimos dois anos, o levaria fatalmente a um lugar privilegiado na Seleção Nacional. Ainda aceitamos a ideia de que ele seria considerado, possivelmente, o maior quarto-zagueiro  do mundo. Mas, Senhor Acionista, a absoluta seriedade de que se reveste nossa querida instituição, nos obriga a fechar os olhos diante de brilhos passageiros ou de disfarces – mesmo que excitem a ingenuidade do povo  – daqueles que, desviados de sua condição natural de “homo sapiens”, transformaram-se em “bestas-feras”. A eliminação do dito “Ferreiro” foi justa. Não havia sentido em preservá-lo. Sabe o Senhor Acionista – ou convém lembrar-lhe – que esse elemento foi responsável pelo defloramento criminoso, e consequente inserção na lama, de quatro de nossas filhas adolescentes, quase impúberes, nossas – filhas do povo! Já isso bastava para justificar seu desaparecimento. É-nos absolutamente constrangedora a circunstância de que, neste exato momento, ouvimos, cada vez mais próximo, o alarido de uma multidão a exigir nossa eliminação do palco da vida. Percebemos, agora, que a súcia desarvorada invadiu este prédio e o empastela, sendo que as primeiras pancadas já se fazem sentir à nossa porta, tornando iminente a ocupação deste escritório e nosso consequente trucidamento. Ainda assim, é nosso dever advertir a V.S., seja qual for o desfecho da pérfida campanha encetada contra nós, a partir da justa eliminação de “Ferreiro”,

Do livro “Querido Senhor Assassino” – Editora Símbolo, São Paulo, 1979; reescrito em junho  de 2010.

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