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Posts Tagged ‘refrigerante’

 

O menino gordo e sua mãe começaram a subir a ponte Duarte Coelho, debaixo de um sol assassino, ao meio-dia de domingo. Voltavam da última sessão da manhã, só de desenhos animados, no Cine São Luiz.

A mãe do menino gordo era magra e baixinha; já a criança puxara ao pai. Afrânio Júnior, o garoto, estava com dez anos; parecia bem mais velho. Usava calças curtas, exclusivas para as ocasiões sociais, como o cinema no centro da cidade, porque as coxas roçavam uma na outra e ele ficava todo assado.

Afrânio, ou Franinho, com preferiam chamá-lo em família, não podia ficar muito tempo sem pôr alguma coisa na boca. Sentia-se muito fraco e suava frio. Costumava beber um litro de refrigerante, de três ou quatro entornadas. O médico já o proibira disso e de outros exageros, mas dona Angelina, a mãe, tinha pena do garoto e fazia vista grossa. Costumava perguntar, a si mesma e aos outros: “Por que Deus o fez redondo?”

Deixá-lo devorar guloseimas e ingerir litros de refrigerante, quase sem controle, era uma forma, também, de compensá-lo pelo problema do pai. Afrânio, o adulto, obeso como o filho, era, além de gordo, alcoólatra. E o pior: só gostava de cerveja, deformando, ainda mais, o seu físico, fazendo-o idêntico a um barril.

Antes de chegar à metade da ponte, que era bastante inclinada, dona Angelina percebeu que o filho, em geral extremamente calorento, de encharcar a roupa como se estivesse molhado de chuva, começava a suar frio. Perguntou se ele estava sentindo alguma coisa, mas o moleque não respondeu. Seu passo diminuiu e a mão esquerda, que se agarrava à da mãe com um certo desespero, ficou mais pesada.

“Só mais um pouquinho que a gente já chega à sorveteria”, disse dona Angelina, procurando estimulá-lo, mas, quando olhou para ele pela segunda vez, viu que o garoto ficara branco de cera e revirava os olhos. Logo desabou, desacordado, arrastando a mãe até o chão.

Cinco populares, todos homens, dos poucos que enfrentavam o sol e o calor, àquela hora do dia, tentaram ajudá-la, primeiro puxando-a de baixo do corpanzil do filho; depois, tentando pôr o garoto sentado, para abanar-lhe o rosto, dar-lhe uns tapas nas bochechas, fazê-lo voltar a si. A mãe conseguiu se desvencilhar do peso do filho, suspensa pelos braços mais ou menos fortes de um dos homens, mas fazer o gorducho sentar-se foi bem mais difícil. Sem cor e inconsciente, o menino gordo parecia morto. Dona Angelina, com uma dor aguda no braço, que se machucara na queda, desesperou-se.

“O que é que eu faço de mim”, ela perguntou aos populares, “quando Afrânio souber que o menino morreu na rua, enquanto eu tomava conta dele?”

Cutucou agressivamente um dos rapazes, dando-lhe uns tapas nos ombros. “Hem? O que é que digo? Hem?”, ela inquiria.

Como o rapaz não reagisse, o tapa virou empurrão, e dona Angelina gritou, histérica: “Responde, rapaz, responde!” Ao que ele lhe perguntou, assustado: “Quem é Afrânio, dona?”

A pergunta a fez voltar à realidade, e dona Angelina, ainda chorando, respondeu a si mesma, em voz alta: “Se Afrânio soubesse quem é, de fato, a gente não estaria nesta situação… um menino doente, eu abandonada, ele à procura de uma identidade…”

Nesta hora, sem que ninguém pudesse explicar de onde havia surgido, um homem moreno, de cabelo curto, apareceu com uma cuia cheia de água que jogou incontinenti no rosto do menino gordo desabado no chão.

O garoto deu um suspiro de quem está se afogando, voltou a si, e, em pouco tempo, conseguiu sentar-se com a ajuda do pessoal.

“Ai, meu Deus! Ai, meu Deus! Você é tão bom, Senhor Deus, tão bom!”, gritou dona Angelina, acocorando-se para olhar o filho de perto. E, como se achasse um absurdo alguém chamar Deus de você, o pessoal saiu rápido dali. Só ficou o moreno com a cuia vazia na mão.

“Pode deixar, dona, que ele volta… Acho que é fome.”

“Não tenha dúvida. E sede também.”

O moreno se chamava Geodésio, era enfermeiro de profissão. Tinha uma força descomunal e conseguiu, além de levantar o menino gordo, segurá-lo para que não caísse novamente. Agora, lá iam os três andando, bem devagar, em direção ao final da ponte. Geodésio amparava o garoto pelos ombros, e dona Angelina, ao lado, massageava o próprio braço machucado.

“Vamos até a sorveteria”, ela disse, “o Franinho precisa comer alguma coisa.”

Ali começou o romance. O moreno a elogiou, no final da taça de sorvete: “A senhora tem uma pele tão branca que mais parece um lírio do campo”.

“Mas é tão branca assim? Então estou morta…”

Despediram-se, mas no dia seguinte ele ligou para ela em casa.

“Você é louco. Tenho marido.”

“Só queria saber do gordão.”

“Mais respeito. Do gordinho. Ele só tem dez anos.”

Um dia, ela saiu sozinha para comprar sianinhas, o moreno surgiu às suas costas, dizendo: “Se é branquinha assim, onde toma sol, imagine no lugar onde não toma”.

O estalo da bofetada foi ouvido a um quarteirão de distância (certamente pelo eco do beco estreito por onde ela passava) e o moreno se apaixonou de vez. “Uma mulher que se fazia respeitar, uma mulher séria”, ele lhe diria depois, sobre a imagem que construiu dela naquele dia do eco.

No encontro seguinte, naturalmente casual, quando o moreno apareceu de repente, Franinho estava junto, e ela, por algum motivo inconfessável, mostrava-se espiritualmente debilitada. Talvez, quem sabe, por causa de uma discussão que tivera com o obeso mais velho, pela manhã, quando ele estilhaçou uma compoteira, herança da família dela, contra a parede. Quando ocorriam essas brigas, que não eram raras, o menino gordo devorava o que via na sua frente.

Geodésio ficou impressionado com o aumento de peso do garoto, desde a última vez que o vira, um mês atrás. Franinho negou-se a cumprimentar o enfermeiro, e isso acendeu a desconfiança na mãe.

“Não me procure mais, homem”, disse Angelina, cochichando, ao apaixonado moreno. “Eu já não sou dona de mim mesma.”

No dia seguinte, ela acordou muito tarde, escovou os dentes e apareceu de robe na mesa de café. Os dois gordos, pai e filho, sentaram-se à mesa, também, mas já haviam devorado frutas, pães, bolos e carás, além de dois litros de café e leite. Afrânio, o adulto, parecia estranhamente sóbrio.

“Queremos falar com você, Angelina.”

“Como, queremos?”, ela respondeu, distraída, mordendo sem prazer uma torrada de glúten. “Vocês agora falam comigo em grupo?”

“Nós não queremos mais você, mãe”, disse o menino gordo, muito sério.

“Você nos traiu com um homem chamado Geodésio, um auxiliar de enfermagem, e ainda expôs o nosso Franinho nessa aventura louca”, completou Afrânio pai, sério como um abstêmio.

Angelina permaneceu imóvel, como uma imagem congelada, com um pedaço de torrada na boca, durante muito tempo. Ia gritar, “mas que loucura é essa de vocês?”, quando a inacreditável semelhança entre pai e filho, que os fazia parecer uma só matéria, harmônica, de carnes untuosas, lhe tirou todo o ânimo. Eles se mexiam, na mesa, como geleias marinhas, trêmulas e opalescentes. Eram, os dois, uma força inelutável, indestrutível. Impossível enfrentá-los, contestá-los, dissuadi-los. Ela se conscientizou de que não teria forças sequer para imaginar alguma saída.

Então se levantou, encaminhou-se até o quarto, pôs uma roupa de briga, de calças jeans e camiseta, e começou a arrumar as malas, sem pronunciar uma palavra. Na sua mente, formou-se uma esperança muito nítida, um resgate ou uma vingança: ela sairia daquela casa para uma nova vida, com ou sem Geodésio; aí voltaria a se casar, com quem fosse, e teria mais um filho, mais um, pelo menos, mas este teria de ser lépido e esguio. Nem precisava amá-la ou respeitá-la. Ela só o queria ver, contemplar, saciar aquela imensa fome estética.

Do livro “O Homem dentro de um Cão”, Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2007

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