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Posts Tagged ‘rifle’

Era ele! Ali, a uns dez metros do alcance do meu rifle. Estava muito escuro, eu tinha medo de abrir um pouco mais a janela, só que não tive dúvidas: pum! Acabei levando um coice da coronha da arma, coisa com que não contara, uma dor aguda tomou-me todo o ombro direito e correu espinha abaixo, até o cóccix. Liana Maria já chegou gritando “o que foi, Grotão?”, e o bebê começou a berrar no berço.

Fiquei fora de mim por algum tempo, acho, mas, quando abri os olhos, Liana Maria já havia acendido todas as luzes da casa, e o pior, os spots do terreno em volta. Doía muito, o ombro, mas me levantei, cambaleando. Liana Maria, que apanhara o rifle do chão, corria em direção a um vulto caído perto da caixa d’água. O menino, no berço, dobrava o choro, agora.

“Pera aí, Liana, pera aí! Tem cuidado que o monstro pode estar só ferido… Mas que eu acertei, acertei!”

Quando cheguei perto da minha mulher e do vulto no chão, fiquei gelado. Ali estava uma ovelha, que se desgarrara, não sei como, do curral. Dura e morta. O focinho branco, branco, de um jeito que nunca vira antes. Não restara uma gota de sangue na pobrezinha. Nem com as primeiras vítimas, as galinhas, um mês atrás, acontecera desse jeito. Assustador. E o bicho não levara nenhum tiro.

Liana Maria estava uma fera. Logo comigo. Jogou o rifle no chão e veio de dedo pra cima de mim.

“Seu merdinha, como é que me dá um susto desses no meio da noite?”

“Pera aí, Liana, eu estava tentando matar o chupa-cabras!”

“Pois antes que você o matasse, bobão, o bicho traçou essa aqui, ó. Mais um prejuízo e, além disso, um baita susto… Você tem é de pegar quem está fazendo isso, ô cara! Que chupa-cabras coisa nenhuma…”

“Liana, o menino está se esgoelando.”

“E você acha que eu sou surda, Grotão? Você é que deveria ir até lá, dar o peito pra ele…”

Ela saiu, feito um tufão, e eu ali com a ovelha exangue aos meus pés. O frio da madrugada piorando a dor no ombro. Que temperamento, o da minha mulher… Quando casei com ela, há um ano, não imaginava que fosse tão nervosa, tão estourada. Gostava dela, gosto dela, mas não posso deixar de sentir uma certa raiva, ou aversão, e até do menino, que chora demais, o tempo inteiro. Também não me agrada essa história de ela ficar me chamando pelo apelido antigo. Grotão… é a mãe!

O chupa-cabras, além de escapar mais uma vez, deixara um cadáver grande para enterrar. Aquilo já passava dos limites. Da primeira vez que atacou, quando entrei na casa carregando as duas galinhas mortas e sem sangue, Liana Maria armou um escândalo.

“Você não está vendo que isso aí é coisa de maníaco, Grotão? Algum pirado que invadiu a propriedade?”

“Mas, Liana, seu Felipe teria visto alguém… e os cachorros…”

“Não sei quem é mais covarde: se seu Felipe, que está com catarata avançada, ou esses seus cachorros bundões! Aliás, o seu Felipe, com todo respeito pela idade dele, é o primeiro suspeito.”

“Você acha que ele iria chupar todo o sangue das galinhas?”

“Sei lá. Pirou com a idade. É estranho, mas tem louco pra tudo neste mundo.”

Muito, muito esquisito: depois das galinhas, os gansos morreram chupados. E aí veio seu Felipe dizendo que viu um vulto perto da casinha deles. Um vulto de homem.

“Acho que o chupa-cabras é igualzinho a um homem, seu Grotão…”, disse o velho caseiro.

“Meu nome é Plácido.”

“Seu Plácido.”

“E que jeito tem esse homem?”

“Sei não. Vi de longe. Da altura do senhor, assim…”

“Por que não atirou? Cadê sua espingarda?”

“Descalibrada.”

Beber sangue. O gosto não deve ser ruim. Sempre comi, cozido, sangue de galinha. Galinha, aliás, é um bicho que só serve mesmo na panela. Minha mãe não deixava faltar o sangue no guisado, ela achava graça porque eu catava os pedacinhos pretos. Por algum motivo, não lamentei muito aquela ovelha. Não gosto delas, fazem um barulho chato, prefiro vê-las mortas.

Voltei devagar para casa, o menino já havia parado de chorar. Com certeza se empanturrava no peito da mãe. Nunca vi bebê tão esganado.

A mim me restava assumir o papel de homem da casa e acabar com o bicho estranho que atacava os nossos. Pela lógica, a próxima vítima seria o cavalo, ou uma das dez vacas, algo grande – ou até uma pessoa, por que não? O chupa-cabras começara com as galinhas e, hoje, deixara uma ovelha sem uma gota de sangue.

Aí uns pensamentos loucos me passaram pela cabeça (de vez em quando sou atacado por eles): e se, em vez daquele leite amarelo, que o menino, guloso, engole até se engasgar, Liana Maria vertesse sangue – bem vermelho – pelo peito?

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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