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Posts Tagged ‘sangue’

Sabíamos que não seria exatamente um paraíso, a nossa lua de mel, até porque já tínhamos feito o que havia por fazer, em matéria de sexo, muito antes do casamento. Chegamos até a consultar uma edição muito antiga do Kama Sutra, que meu avô guardava numa das caixas de despejo da garagem, dentro de um estojo de madeira, como se joia fosse. Em seis meses, havíamos realizado todos aqueles exercícios.

Taciana sofria de furores e queimações, e até de visão dupla, distúrbios que só se aliviavam quando ela praticava sexo, uma, duas, três vezes consecutivas. E eu, que fora desde criança iniciado com competência pelas meninas que o meu avô empregava, sabe-se lá pra quê, vivia em estado de perene excitação. Quando nos encontramos, foi como se tivéssemos entrado em um curto-circuito. Da primeira vez que a invadi, estávamos dentro do mar, e Taciana soltou um grito tão potente e melodioso que algumas pessoas, ali perto, imaginaram que se tratava de um soprano de férias. Vieram nos perguntar isso, depois, sem imaginar sequer o que fazíamos abraçados dentro d’água. Ufa!

Assim, seria fatal que nos casássemos muito cedo, pois o pai de Taciana, certamente consciente das inclinações da filha, pressionou o quanto pôde para que a cerimônia acontecesse rapidamente. Apesar dos nossos dezenove anos.

Meu pai nos cedeu uma casinha de periferia, a contragosto, é verdade, três ônibus longe do centro; era uma casa mais ou menos inútil, que lhe rendia uns trocados. Explicou que não dava peixe, ensinava a pescar, mas que, no nosso caso, dois pobres estudantes, ele seria um tanto quanto paternalista. Quando foi nos levar até a casa, meu pai chegou a se perder nas ruas caóticas da vila longínqua; quando localizou a rua, negou-se a adentrá-la com seu importado de pneus largos, por causa dos desníveis provocados pela erosão. Subimos uma ladeira sem fim, com as malas na mão, e chegamos tão exaustos à casinha que nem sexo fizemos naquele final de tarde.

A casinha: um ninho, verdadeiramente, mas para pequenos pássaros. Uma sala, um quarto, uma cozinha e um pobre banheiro onde não cabiam dois. Para compensar, um quintal amplo, com mangueiras, abacateiros e até um pé de carambola.

Ainda estávamos nos refazendo da subida, eu já havia bebido dois copos de água, quando bateram palmas no portão. Assustado, fui atender.

“Boa-tarde”, disse uma das cinco senhoras sorridentes, de bochechas rosadas de quem toma muito sol, “então são vocês os pombinhos?”

“Pombinhos? Sim, acho que sim”, eu gaguejei. E neste momento Taciana chegou e se postou às minhas costas, para o encantamento das mulheres.

“Olha, Georgina, que lindinha”, derreteu-se uma delas, chamando a atenção de outra.

“Que parzinho maravilhoso”, disse a outra. “Você é uma cinderela, menina…”

Vieram depois com bolos, tortas e frutas de quintal. Agradecemos, constrangidos, sorrisos amarelos. Em pouco tempo, havia crianças batendo palmas no portão só para nos ver de soslaio. Quando atendíamos, saíam correndo. As mulheres passavam, e riam. Um senhor muito alto e sério nos procurou e se apresentou como o doutor Ximenes, clínico geral. À nossa disposição, inclusive para testes de gravidez.

O assédio nos tirou um pouco da motivação e passamos a fazer sexo apenas três vezes por noite. Já às sete e meia da manhã, era dona Durvalina que trazia chás para quaisquer distúrbios, inclusive emocionais; Cleonides (“eu sou a primeira moradora da rua”) vinha, duas vezes por dia, repassar à Taciana seus conhecimentos de corte e costura, imprescindíveis a uma jovem esposa. Ardruíno, o aposentado, pediu desculpas pela intromissão e veio me perguntar por que eu não trabalhava. “Estou de férias, sou estudante ainda”, respondi, chateado. “E quem lhe sustenta, moleque?” “Meu pai…” “Seu pai? Humm…”

Mas a gota d’água foi dona Irvina com um pacotinho para presente, em tons rosa e azul.

“Sei que ainda é cedo, mas é melhor prevenir do que remediar”, disse, rindo gostosamente, balançando o ventre imenso.

Taciana abriu o pacote, trêmula, e encontrou sapatinhos de recém-nascido. Dois pares. Um azul e um rosa.

“Agora chega, Taci!”, eu me rebelei. “Precisamos afastar esses encostos…”

Passamos a noite a bolar um plano perfeito e, por isso, só fizemos sexo uma vez. Chegamos a desenhá-lo num papel, imaginando ações e reações. Medimos, inclusive, as consequências. E decidimos ir até o fim.

Dia seguinte, saí de casa debaixo de dezenas de olhares obsequiosos, e voltei uma hora depois, trazendo escondido dois dos objetos fundamentais à nossa ação criminosa: uma galinha viva e um longo facão de cozinha. Matamos a galinha com cuidado, extraindo todo o sangue que imediatamente misturamos ao vinagre, para não coagular. Taciana pôs seu único vestido branco, de inverno, com mangas longas. Mas logo o tirou: ficou tão linda que não foi possível postergar nossos desejos. Aí fizemos amor ali mesmo, de pé e com alguma pressa, porque acertamos o meio-dia como a hora ideal da ação. Não haveria homem algum na rua, apenas as alcoviteiras e as crianças. Até o aposentado Ardruíno teria se recolhido para a sesta.

Joguei o sangue sobre a minha mulher. Escorrendo pelo rosto, no cabelo, à altura dos seios. Ela tentava conter o riso, que vinha natural, despregado.

“Pelo amor de Deus, Taciana, você tem de fazer cara de pavor…”

“É difícil, estou feliz.”

“Imagina qualquer coisa ruim. Que um trem passou por cima de mim.”

“Cruz credo, João Sérgio, que desgraça!”

“Assim está ótimo, esta cara está ótima!”

Ao meio-dia e dez minutos a noiva branca, se esvaindo em sangue, apareceu na frente da casa aos gritos. Eu atrás, com o facão ensanguentado.

“Você vai morrer, sua puta!”

“Aiiiiii… aiiiiii, me socorram, aiiiii!!!”

Cambaleante, agonizante, ela ainda se dirigiu à lateral direita da casa. Na rua, as mulheres passaram a gritar como carpideiras, procurando esconder a cena horrível das crianças. Elas corriam de um lado para outro, sem rumo. Adolescentes passavam mal e vomitavam. Dona Georgina estacionou no meio da rua, começou a dar saltos e a arrancar os cabelos, berrando:

“A noiva se esvai em sangue! A noiva se esvai!”

De repente, alguém gritou mais alto: “polícia! polícia!”

Foi a senha para que nos recolhêssemos às pressas. Taciana entrou no banheiro para livrar-se de toda a sujeira enquanto eu jogava a roupa, o facão e os restos da galinha num grande buraco no quintal, aberto cuidadosamente de madrugada.

Dali a pouco chegaria a polícia, abriria a porta a pontapés e nos surpreenderia juntos, abraçados (e, depois, indignados), como dois jovens inocentes que tiveram sua lua-de-mel criminosamente interrompida pela calúnia de um bando de mulheres sádicas e suburbanas.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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Era ele! Ali, a uns dez metros do alcance do meu rifle. Estava muito escuro, eu tinha medo de abrir um pouco mais a janela, só que não tive dúvidas: pum! Acabei levando um coice da coronha da arma, coisa com que não contara, uma dor aguda tomou-me todo o ombro direito e correu espinha abaixo, até o cóccix. Liana Maria já chegou gritando “o que foi, Grotão?”, e o bebê começou a berrar no berço.

Fiquei fora de mim por algum tempo, acho, mas, quando abri os olhos, Liana Maria já havia acendido todas as luzes da casa, e o pior, os spots do terreno em volta. Doía muito, o ombro, mas me levantei, cambaleando. Liana Maria, que apanhara o rifle do chão, corria em direção a um vulto caído perto da caixa d’água. O menino, no berço, dobrava o choro, agora.

“Pera aí, Liana, pera aí! Tem cuidado que o monstro pode estar só ferido… Mas que eu acertei, acertei!”

Quando cheguei perto da minha mulher e do vulto no chão, fiquei gelado. Ali estava uma ovelha, que se desgarrara, não sei como, do curral. Dura e morta. O focinho branco, branco, de um jeito que nunca vira antes. Não restara uma gota de sangue na pobrezinha. Nem com as primeiras vítimas, as galinhas, um mês atrás, acontecera desse jeito. Assustador. E o bicho não levara nenhum tiro.

Liana Maria estava uma fera. Logo comigo. Jogou o rifle no chão e veio de dedo pra cima de mim.

“Seu merdinha, como é que me dá um susto desses no meio da noite?”

“Pera aí, Liana, eu estava tentando matar o chupa-cabras!”

“Pois antes que você o matasse, bobão, o bicho traçou essa aqui, ó. Mais um prejuízo e, além disso, um baita susto… Você tem é de pegar quem está fazendo isso, ô cara! Que chupa-cabras coisa nenhuma…”

“Liana, o menino está se esgoelando.”

“E você acha que eu sou surda, Grotão? Você é que deveria ir até lá, dar o peito pra ele…”

Ela saiu, feito um tufão, e eu ali com a ovelha exangue aos meus pés. O frio da madrugada piorando a dor no ombro. Que temperamento, o da minha mulher… Quando casei com ela, há um ano, não imaginava que fosse tão nervosa, tão estourada. Gostava dela, gosto dela, mas não posso deixar de sentir uma certa raiva, ou aversão, e até do menino, que chora demais, o tempo inteiro. Também não me agrada essa história de ela ficar me chamando pelo apelido antigo. Grotão… é a mãe!

O chupa-cabras, além de escapar mais uma vez, deixara um cadáver grande para enterrar. Aquilo já passava dos limites. Da primeira vez que atacou, quando entrei na casa carregando as duas galinhas mortas e sem sangue, Liana Maria armou um escândalo.

“Você não está vendo que isso aí é coisa de maníaco, Grotão? Algum pirado que invadiu a propriedade?”

“Mas, Liana, seu Felipe teria visto alguém… e os cachorros…”

“Não sei quem é mais covarde: se seu Felipe, que está com catarata avançada, ou esses seus cachorros bundões! Aliás, o seu Felipe, com todo respeito pela idade dele, é o primeiro suspeito.”

“Você acha que ele iria chupar todo o sangue das galinhas?”

“Sei lá. Pirou com a idade. É estranho, mas tem louco pra tudo neste mundo.”

Muito, muito esquisito: depois das galinhas, os gansos morreram chupados. E aí veio seu Felipe dizendo que viu um vulto perto da casinha deles. Um vulto de homem.

“Acho que o chupa-cabras é igualzinho a um homem, seu Grotão…”, disse o velho caseiro.

“Meu nome é Plácido.”

“Seu Plácido.”

“E que jeito tem esse homem?”

“Sei não. Vi de longe. Da altura do senhor, assim…”

“Por que não atirou? Cadê sua espingarda?”

“Descalibrada.”

Beber sangue. O gosto não deve ser ruim. Sempre comi, cozido, sangue de galinha. Galinha, aliás, é um bicho que só serve mesmo na panela. Minha mãe não deixava faltar o sangue no guisado, ela achava graça porque eu catava os pedacinhos pretos. Por algum motivo, não lamentei muito aquela ovelha. Não gosto delas, fazem um barulho chato, prefiro vê-las mortas.

Voltei devagar para casa, o menino já havia parado de chorar. Com certeza se empanturrava no peito da mãe. Nunca vi bebê tão esganado.

A mim me restava assumir o papel de homem da casa e acabar com o bicho estranho que atacava os nossos. Pela lógica, a próxima vítima seria o cavalo, ou uma das dez vacas, algo grande – ou até uma pessoa, por que não? O chupa-cabras começara com as galinhas e, hoje, deixara uma ovelha sem uma gota de sangue.

Aí uns pensamentos loucos me passaram pela cabeça (de vez em quando sou atacado por eles): e se, em vez daquele leite amarelo, que o menino, guloso, engole até se engasgar, Liana Maria vertesse sangue – bem vermelho – pelo peito?

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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