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José da Assumpção acabara de completar doze anos quando uma linda, angelical figura de mulher (em tamanho natural, mas de forma estranha, levemente transparente, tanto que os raios do sol a transpassavam, vestindo um manto azul sobre um outro manto branco, cabelos longos aureolados por uma luz colorida, imprecisa, que, quando em vez, tomava forma de guirlanda de flores do campo) surgiu para ele, sobre um outeiro repleto de coroas-de-frade. O primeiro pensamento de José da Assumpção foi de cuidado para com a ilustre dama: que ela não machucasse os pés nos espinhos da planta.

“Se avexe não”, disse a figura, adivinhando os pensamentos do menino, “as coisas da terra não podem me ferir”.

“Você é quem eu estou pensando?”, perguntou o garoto, muito famoso na região por sua esperteza.

“É claro, Zé”, disse a aparição, com a voz bondosa de santa mesmo. “Vamos ter de trabalhar”.

“Em quê?”

“Curando o povo doente desses confins.”

“Que é que eu tenho de fazer?”

“Tu me vens com a doença e eu passo o remédio…”

“Quanto eu ganho com isso?”

“Que menino interesseiro… Tu não ganhas nada! Esse vai ser um trabalho nosso: fazer o bem para o povo…”

José da Assumpção pensou um pouco, coçou o queixo, olhou de lado. Não havia ninguém ali, por enquanto, muito menos àquela hora em que o sol escaldava.

“Posso perguntar uma coisa, dona?” Ele estava meio sem jeito.

“Depende. Nem tudo posso falar.”

“Por que eu? Por que a senhora me escolheu? Não sou bom menino não, andei pecando hoje mesmo o tal do ‘pecado solitário’ que o padre me disse…”

“Eu sei. Você precisa parar com isso ou vai ficar magro feito uma vara e todo cansado, sem vontade de ir pra escola.”

“Mas, por que eu?”

“Ah, você é o mais esperto daqui…”

“Por isso mesmo não quero. Me tira dessa, dona santa. Se eu contar ao povo a verdade, que vi uma senhora de azul, do jeito que a senhora é, vão dizer que eu tô é doido. Fizeram isso com Chico Jurema, coitado. Foi até preso porque andou vendo uma senhora parecida com a senhora… Não foi a senhora mesma, não?”

“Pior é que foi, menino. Mas Chico Jurema aprontou comigo. Tentou me usar. E mentiu pro povo, disse que eu andava rodeada de Anjos. Cê tá vendo algum Anjo por aqui, tá?”

“Eu é que não.”

“Pois é. Eu apareço sozinha.”

“Mas a senhora poderia tentar uma outra pessoa maior do que eu. Zé do Coco, por exemplo. Se ele disser que viu a senhora, todo mundo vai acreditar. Ele já viu saci, lobisomem e a Mãe de Fogo…”

“Mentira. Viu nada. E você pensa que eu não tentei? Apareci pro Zé há uns três meses, assim, de noitinha, lá na casa dele.”

“E aí? Ele não gostou?”

“Gostar? Ficou verde de medo, deu um grito que se ouviu lá na serra e ainda cagou-se todo.”

“Sabia não que ele era frouxo assim.”

“Até coelho tem mais coragem. Já apareci, também, para outras pessoas, sabe, mas todo mundo medrou, me confundiu, não é fácil encontrar alguém que me entenda. E eu só quero ajudar.”

“Bem. Que é esquisito aparecer assim, é. Mas acho que conheço uma pessoa que pode quebrar nosso galho.”

“A velha Firmina? Nem pensar.”

“Nossa! Você adivinha mesmo. Por que não ela?”

“Não adivinhei nada. Você só poderia ter pensado nela porque é a maior beata do lugar. Se eu surgir para ela, como estou agora, ela vai endoidar de vez. Aí vai chorar, tentar se agarrar no meu manto e rezar uns cinco terços por dia, fora os três que ela já reza. Quem reza tanto não tem tempo de ajudar. Mas quem ajuda está rezando o tempo todo… Não, com a velha Firmina não há condição. Escuta: por que não você? Jamais consegui manter uma conversa assim, durante tanto tempo…”

Neste momento, o pai do garoto, seu Malaquias, vinha voltando com os animais no meio dos umbuzeiros e juremas que, naquela época do ano, por causa de chuvas generosas, exibiam tons de verde repletos de um brilho feliz. O melhor da vida voltara a se instalar na caatinga de inverno.

A figura angelical ainda disse, apressada, “té mais ver, Zé, depois eu volto” e sumiu na transparência de si mesma, como se fosse um pó brilhante que tivesse brotado das coroas-de-frade.

“Meu filho, vi você aí, falando sozinho. Zé, tu não tás doido, não, tás?”, perguntou seu Malaquias, que era baixo e entroncado, chamado pelo povo de “tronquinho de amarrar onça”. Mas era homem bom e temente a Deus.

“Tô não, pai. Impressão.”

“Hum…”

O garoto, na volta a casa, cinco quilômetros além da serra, pensou muito se contaria a alguém sobre a aparição. Ao padre, não seria possível. Além de não acreditar, ele não perderia a chance de falar do “pecado solitário”. Como gostava desse assunto! Aos pais, impossível. Eles correriam para contar ao padre. Não sobrava muita gente.

Pensou muito e acabou escolhendo o único interlocutor que lhe pareceu viável: Zé do Coco. Primeiro que era doido, mesmo. Depois que já havia visto a senhora.

O menino o procurou, no dia seguinte, no casebre afastado, onde morava sozinho com Tigrão, um cachorro velho, de orelhas comidas pelas moscas. Zé, como dizia o nome, vendia uns cocos murchos que os caminhoneiros traziam do litoral. Zé falava sozinho, exorcizava demônios, curava bebedeiras com umas misturas que, segundo o povo, tinha até chá de rato como ingrediente.

Mas a estranha figura gostava daquele menino de olho vivo. Ouviu toda a história, com ar preocupado, coçando a carapinha e, ao contrário do que o garoto esperava, não pareceu abalado:

“Se preocupe, não, Zé da Assumpção. Isso é um zombeteiro que anda por aqui desde mil novecentos e vinte. Se veste como a santa e fica procurando quem lhe dê trela. Muita gente já caiu. Você, que é menino esperto, ainda bem que veio me contar… Sentiu cheiro de enxofre, quando ele apareceu?

“Não era ele, Zé do Coco, era ela.”

“Zombeteiro aparece de todo jeito. Às vezes é homem, às vezes é mulher. Pode ser bicho, saci, lobisomem…”

“Quer dizer que todo esse povo que diz ter visto a Virgem pode ter sido enganado pelo zombeteiro?”

“É isso mesmo, oxente. Por que é que a santa iria aparecer logo aqui? Menino, se fosse a santa mesmo baixava lá na capital, pra gente conceituada.”

O garoto agradeceu, mas não se convenceu; decidiu, caso a aparição retornasse, submetê-la a um teste. Escolheria, para cobaia, a dona Justa, a melhor lavadeira da região, que gostava muito de beber. Dona Justa sofria do fígado. Seu pai lhe dissera que todo bêbado sofre desse mal. Dona Justa ingeria uma garrafa de cachaça diariamente. Se a santa fosse santa mesmo, curaria a coitada. Já se fosse o zombeteiro… bem, nem zombeteiro conseguiria piorar a situação da lavadeira. “De amanhã dona Justa não passa”, todo mundo dizia, há muito tempo.

Zé do Coco observou, com tristeza, o garoto a se afastar. Lamentou muito que, além dele próprio, estivesse surgindo um outro maluco, bastante precoce, na região. E parecia ser um menino tão esperto, ponderado, com um pai trabalhador e uma mãe cuidadosa.

Mas podia ser, também, refletia Zé do Coco, que o garoto estivesse falando a verdade, e aí a situação era mais complicada: aquele zombeteiro que quase lhe matara de susto, um dia, resolvera azucrinar outras pessoas. E escolhera, agora, o pobre do menino.

Zé do Coco fez o pelo-sinal. Um frio súbito lhe subiu pela espinha e ele se arrepiou todo. Tigrão levantou o que lhe restava de orelhas, meteu o rabo entre as pernas e foi saindo de mansinho.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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