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Posts Tagged ‘tarado’

O Serviço Secreto de Manfredo, o Sacrossanto, fez plantão desde as duas da manhã para esperar o tarado da praia. Mas o tarado chegou ao meio-dia, como um homem normal, de sandálias, maiô, camisa de meia, toalhinha no pescoço. E óculos escuros, naturalmente.

“Parece até um homem respeitável”, disse o Alferes-Um.

“Mas é ele, é ele! Olhe as fotos aqui, olhe aqui!”, disse o Alferes-Dois, nervoso, mostrando um saco de fotografias tiradas pelo Serviço, um trabalho perfeito que durou cerca de oito meses.

Ao ver as fotos, o Alferes-Um torceu a boca, enojado. Não se conteve:

“Crápula! Escândalo das criancinhas!”

“Calem-se, os dois!”, disse o Alferes-Chefe, atrás deles. “Vamos esperar o primeiro movimento suspeito. Aí o pegaremos em flagrante.”

“Há quanto tempo o sexo em público (pronunciou essas últimas palavras rapidamente, e gago) foi proibido?”, perguntou o Alferes-Um ao Alferes-Chefe.

“Você não se lembra, imbecil? Dez anos! Dez anos!”

“Sim senhor.”

O tarado sentou-se na areia. Não usava barraca. Puxou a camiseta pelo pescoço, sem o cuidado de tirar os óculos e os óculos caíram na areia. Ele apanhou os óculos e ao mesmo tempo uma senhora ao lado virou-se subitamente para ele, como se tivesse levado um beliscão, e comentou alguma coisa com a mocinha junto. As crianças, com baldinhos de areia e muita gritaria, corriam de um lado para outro.

“Transgrediu a primeira lei”, rosnou o Alferes-Chefe. Os outros dois ficaram olhando para ele, sem entender, e ele rosnou de novo:

“Não notaram, rapazes? Quando os óculos caíram, o bandido deve ter usado de pornofonia ilegal, o que assustou a senhora ali ao lado. Deve ter dito…

“Saco…”,  completou, alegre, o Alferes-Um.

“Vou anotar vinte chibatadas na minha carteirinha!” O Alferes-Chefe quase gritou, fazendo eco no esgoto onde os três se escondiam.

O Alferes-Um fez cara de choro, o Alferes-Dois pôs as mãos na cabeça, lamentando o companheiro.

“Eu me esqueci…”, disse, já chorando, o Alferes-Um.

“Vinte chibatadas, sem apelação!”, irritou-se de vez o Alferes-Chefe.

Lá longe, na praia, o tarado levantou-se, limpou a areia do maiô e seguiu para o mar. As pessoas, à sua frente, numa atitude estranha, olhavam fixamente para ele.

“O diabo é que ele está de costas! De costas!” O AIferes-Chefe quase gritou de novo. “Por que aquelas pessoas estão olhando tanto para ele? Ele já deve ter começado a agir e nós sem podermos fazer nada!”

“Desculpe-me, senhor”, disse o Alferes-Dois, que parecia o mais equilibrado ali. “Desculpe-me, mas não deveríamos ter trazido um outro companheiro para vigiar o homem de dentro do mar, num angulo oposto ao nosso?”

O Alferes-Chefe ia pedir ao rapaz para se calar. Mas só abriu a boca.

“…então, senhor, o nosso outro companheiro, no caso, já teria feito o flagrante. Nós só teremos chance na hora em que ele se virar de frente para nós, em se tratando de um exibicionista… O senhor…”

“Acho que você tem razão”, disse o Alferes-Chefe, mordendo os lábios (seu jeito de procurar soluções). “Vocês querem saber de uma coisa? Vou lá, vou lá!”

E sem dizer mais nada, saiu do esgoto e correu para a praia, com seu disfarce de salva-vidas.

Quando ele estava bem longe, o Alferes-Um virou-se para o Alferes-Dois.

“Genial, Dodô! Oh, Dodô, por que você é tão assim? Hem, Dodô?”

“Meu bem”, disse o Alferes-Dois, respirando forte e passando as mãos trêmulas sobre os cabelos (louros, sedosos) do outro. “Eu faço qualquer coisa para ficar sozinho com você…”

“Dodô”, suspirou o Alferes-Um, “você vai me dizer muito palavrão no ouvido, vai? Vai, vai?”

“Quantos você quiser, querido”, sussurrou o Alferes-Dois, procurando os lábios do rapaz e com o olho esquerdo atento à praia.

A praia depois do meio-dia, onde as crianças se multiplicavam, gritavam, sorriam, pulavam, corriam umas atrás das outras e, no meio delas, havia um cachorrinho Pequinês ma-ra-vi-lho-so.

Do livro “Leonora Premiada”, Editora Duas Cidades, São Paulo, 1974.

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