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Posts Tagged ‘umbigo’

Atendi Onofre Olavo. Hoje, atendo qualquer um que se imagine cantor e queira conversar comigo. Aprendi a lição depois que Ângela Schiavetto tentou me encontrar durante dois anos, e eu a esnobei; ela acabou nas mãos da gravadora concorrente e vendeu, até agora, dois milhões de cópias. Só não fui pra rua porque tenho um acordo tácito com Lea, minha secretária: ela fica calada enquanto eu lhe garanto o emprego para sempre.

Onofre Olavo me veio pelas mãos de Aderildo, um jornalista especializado em MPB, um cara meio sombrio, meio bicho grilo, que eu sempre encontro, um tanto bêbado, em coquetéis.

“Não deve ser uma merda tão grande”, disse a Lea sobre o novo pop star em potencial, “pois o Aderildo, teoricamente, tem bom gosto.”

“Já leu os artigos dele?”, perguntou minha eficiente secretária.

“Também é pedir demais, Lea.”

“Ele é louco. Confunde tudo. Ele acha, por exemplo, que esse tal de Onofre Olavo canta música country.”

“E não é isso?”

“Puro blues. Ouvi as fitas.”

“Presta?”

“É estranho. Uma voz metalizada.”

“Tinha efeito na fita?”

“Acho que não.”

Trabalhamos nesse mercado, Lea e eu, há vinte anos. Depois que a música brasileira se acabou, ficou fácil vender discos e produzir algum sucesso. Mas nós, para nós mesmos, gostamos de música de qualidade, ou seja, só ouvimos os antigos, especialmente bossa-nova, ou então música erudita, fazendo concessões a um ou outro new age e alguns pop estrangeiros. Mas viramos cínicos. A gravadora não quer investir e o público compra por outros impulsos. Temos até uma boa verba para empurrar o artista, mas ele precisa de alguma coisa marcante. Se não for a voz, ou a cara, tem de ser o comportamento. Estou simplificando, mas é mais ou menos assim. Ângela Schiavetto tinha cara e comportamento. A voz, merda viva. Está aí, passando dos dois milhões. Nunca fui tão burro na minha vida.

Então, que venha o tal da voz metálica. Que nome: Onofre Olavo. Por que não Olavo Onofre? Não, não vou gozá-lo. Disse à Lea que não gostaria de ouvir nada do cara; ele deveria vir com violão ou karaokê portátil. Trouxe o karaokê.

Gozado: não seria só a voz, metálica; ele está aqui, à minha frente, e parece todo feito de alumínio, o rosto muito branco e a pele lisa, o cabelo muito liso também, penteado à Carlos Gardel. Alto e magérrimo, meio encurvado. Calça e camisa azul-motorista, certamente compradas em camelô. Apertou minha mão, de um jeito distraído, e ficou procurando um lugar para pôr a engenhoca do karaokê. Já ia ligando, para cantar, mas o impedi.

“Prefere ir direto ao assunto? Uma conversadinha antes não seria melhor, ou, pelo menos, mais normal?”

(Lá estava eu, gozando de novo. Eu precisava me segurar com essas minhas tendências.)

“Pode ser”, ele ponderou. E foi sábio: “Eu estava tentando economizar seu tempo, se fosse o caso.”

“Não sou uma máquina de avaliação”, reagi, mas com um sorriso. “Sente-se, por favor, conte-me seu começo. É amigo do Aderildo, né mesmo?”

“Ele conhece o meu trabalho.”

“Tá bom: você não toca nada? Só canta?”

“Um pouco de teclado.”

“Ah! Estou vendo que você está ansioso pra cantar. Vamos lá. Comece.”

Ele ligou o karaokê e, com gestos grandiloqüentes, como se estivesse num palco, interpretou “Nós dois em Veneza”, uma versão debiloide de um lixo qualquer da também falecida música italiana contemporânea. No entanto, gostei da voz dele: estranhíssima! Nos agudos, era como se uma araponga fizesse corinho. Acabou a música, ele desligou o aparelho.

“Quer outra?”

“Não precisa. Em princípio, gostei muito. Sério.”

Ele sorriu pela primeira vez. Os dentes revelavam uma cor próxima à dos aparelhos corretivos. Mandei-o sentar e relaxar.

“Sabe, Onofre Olavo, eu gosto de saber um pouco mais dos meus meninos e meninas, meus artistas, então me fale um pouco de você, da sua infância…”

Silêncio completo, perturbador, até agressivo.

“Disse alguma coisa errada?”, perguntei, tentando me conter.

“Não. É que não gosto de mentir.”

“Então não minta, cara. Você admite que eu preciso saber alguma coisa de você, se quiser aproveitá-lo?”

“É claro. Não vou mentir, então. É que não sou deste planeta, a Terra.”

“Nem eu. Conheço outras pessoas na mesma situação.”

“Eu não nasci na Terra”, insistiu Onofre Olavo, e eu logo me surpreendi com a minha própria reação, imaginando como seria possível usar esse detalhe no marketing do primeiro cedê.

“Dá pra gente divulgar essa, digamos, experiência?”

“De forma alguma. Disse a você porque é importante que você saiba das minhas raízes.”

Voltou aquele silêncio pesado de antes.

“Não vamos ficar assim, meu caro”, ele continuou. “Eu já lhe provo o que estou dizendo e evitamos perplexidades.”

Acabou de falar e foi desabotoando a camisa. O peito magro de antiatleta tinha aquela cor quase macilenta. Não havia cabelos no seu pequenino tórax e, pelo jeito, em qualquer outro lugar. Aí ele começou a desapertar o cinto. Estava indo longe demais.

“Pera aí, ô Olavo, não vai ficar pelado aqui, né?”

“Não. É só para que você veja isto.”

O rapaz não tinha umbigo, simplesmente. Seu ventre, caso fosse possível chamar aquilo de ventre, mais parecia uma tábua aluminizada e, de onde eu o observava, a uma distância de metro e meio, não havia sinais de quaisquer objetos que provocassem aquele efeito, como uma cinta, por exemplo. ‘Será que ele sofreu um acidente? Será uma plástica?’, pensei comigo mesmo, mas logo depois relaxei e mandei-o sentar e abotoar a roupa. Ele o fez, de forma tranquila e mansa. Eu poderia estar diante do maior sucesso de todos os tempos e comecei a ficar muito excitado.

“Seguinte, Onofre Olavo, precisamos, nós dois, planejar com muito cuidado o seu lançamento, e fazer com que sua história de vida não se torne mais importante do que sua bela voz…”

“O senhor gostou mesmo do que cantei?”

“Mas é claro. Esse efeito ‘metal’ do seu timbre de voz levará você muito longe. Mas vamos pensar bem, sem afobações.”

Peguei o telefone para pedir a Lea que fosse preparando um contrato. O mais generoso possível.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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