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Posts Tagged ‘viciosos’

A mulher bem-vestida, quase bonita, de cabelos tratados e sapatos altos, irrompeu na calçada, parecendo perdida, andando de um lado para outro e olhando para cima, de vez em quando, para um prédio antigo que já fora chique, como se esperasse que alguém surgisse numa das janelas, às três da manhã.

Tudo sempre foi muito elegante nesta Rua das Amoreiras, meus avós diziam. Eles próprios frequentavam o Clube dos Chorões, num velho casarão mais acima, à altura do número dez. O clube fora local de reuniões concorridas de um grupo de músicos amadores, amantes daquele gênero musical que parecia definir um passado menos tenso e sofrido.

Hoje, na Rua das Amoreiras, há somente prédios decadentes, onde uma classe média empobrecida prepara sua volta a outras bairros; um casarão antigo, muito parecido com o do Clube dos Chorões, fora tombado pelo Patrimônio Histórico, mas a preservação oficial do prédio do clube, por causa de uma reforma no começo do século, que de certa forma o descaracterizou, sofre oposição de alguns conselheiros culturais, que preferem vê-lo demolido ou transformado num reles estacionamento.

Eu amo minha cidade. Talvez seja meu único amor, de fato, já que minhas três namoradas me abandonaram quando eu imaginava eternos os nossos relacionamentos. Jamais entendi o que aconteceu comigo, conosco. Tenho emprego garantido, modesto mas garantido, sou um sujeito fiel, bebo pouco, não fumo. Meus defeitos são gostar de ler e não ter ambições de espécie alguma.

Mas lá estou eu, de novo, ruminando minhas esquisitices, enquanto uma mulher bem vestida passeia pela calçada da Rua das Amoreiras numa hora em que só os mal-intencionados, os viciosos e os solitários estão a postos, tramando suas ilusões. Eu, aqui no bar, penúltimo cliente, talvez seja o único que não planeje nada, apenas me preocupo com a segurança da moça.

Ela insiste em olhar para o prédio pretensioso, mas apressou o passo: vai e volta, de um lado para outro, está mais nervosa, agora. À medida que a madrugada avança, o eco dos seus saltos contra o chão vai se tornando mais perceptível, mais nostálgico.

Acho até que conheço alguém naquele prédio: sim, a Regina Eulália, com quem saí duas vezes, anos atrás; ela tinha um problema qualquer com o pai, só falava dele, e mais ainda depois do quinto chope. Foi uma das poucas companhias que abandonei. Não é possível namorar duas pessoas ao mesmo tempo, mesmo que uma se disfarce de memória, além de ser homem. Regina Eulália possuía uma boa condição e me falava bem do prédio, apartamentos amplos, pé-direito muito alto e um síndico general reformado que, se não me engano, fora secretário de Segurança no tempo da ditadura e impunha respeito a todo mundo.

Mas, voltando à solitária da rua: quem seria o sujeito que, provavelmente, expulsara de casa aquela moça tão jeitosa, tão quase bonita, e de bom gosto nas roupas? Talvez eu pudesse ir até lá e oferecer meu ombro. Convidá-la para me acompanhar aqui no bar não seria o caso: já está fechando e Josué, o dono, assusta as mulheres com seus palavrões, a camiseta regata e a barba sempre por fazer, é incrível! Nunca consegui vê-lo com um rosto normal.

Agora ela parou, olhando para cima. Quantos anos terá? Trinta e dois? Vinte e nove? Teria um filho, que ganhou aos dezesseis anos, de um amor adolescente? Já foi assaltada? Estuprada? Alguém já provocou o estalo de uma bofetada no seu rosto?

Fico pensando: a esta hora, um grupo de loucos pode passar de carro, parar, agarrá-la e levá-la junto. E eu, ou o bêbado que quer ganhar na loteria, aqui perto de mim, ou mesmo o Josué, lá no fundo do bar, cochilando, que poderemos fazer diante da violência? Nada. Assistir a mais um crime na cidade e depois fugir da polícia, para não virar testemunha e ficar marcado pelos marginais.

Assim, é melhor que eu vá até lá e avise a moça dos riscos que ela corre. Que pode acontecer? Nós… conversarmos? Bem, talvez ela chore, olhando para mim, sem dizer uma palavra, mas eu sei o que é a dor de um relacionamento interrompido. Sou mestre nisso. E eu lhe direi “querida, fique calma, não diga nada agora; se quiser, posso levá-la pra casa de táxi; você tem pra onde ir, não tem?; porque, se não tiver, eu me escondo aqui pertinho e posso compartilhar meu espaço com você. Aliás, este tem sido o meu sonho: compartilhar. Até agora não foi possível.”

Ou talvez ela não diga nada e me mande para algum lugar. Improvável. As roupas, o jeito… Espera aí: as luzes da portaria do ex-prédio chique se acenderam; ou o vigia acordou ou é alguém que vai trabalhar cedo, pegar um avião, talvez. A nossa amiga parou de se agitar, pela primeira vez, e ficou bem em frente ao portão. Vem alguém. É… é Regina Eulália! De robe vermelho, cabelos soltos. A outra aqui, do lado de fora, se agarra às grades. Regina Eulália vai-se chegando, estou ouvindo alguma coisa que vem de lá… sim, choro, choro de mulher. Regina Eulália abre o portão e as duas se abraçam, chorando alto, sem vergonha da rua, da gente aqui quase em frente, e se beijam com uma paixão que eu não vejo nem em vídeo, há muito tempo.

Pronto, está resolvido. A moça bonita já voltou para o apartamento da amiga e não corre mais riscos. De um tempo para cá achei que a beleza do amor supera todo e qualquer limite, embora eu não possa me imaginar compartilhando com um homem o meu tempo de espera nesta vida. Mas me preocupa um pouco aquela mania de Regina Eulália falar do pai. Será que foi por isso que elas brigaram? Um triângulo amoroso com uma ponta virtual é coisa difícil de administrar. Eu não consegui.

Do livro “Allegro” – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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