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Posts Tagged ‘Vovô’

O buraco é muito fundo, tem uns três metros. Por que ele veio passear com o menino na área das demolições? O menino pediu, gostava de ver os ferros tortos, brotando das colunas semidestruídas.

O senhor Wernher, deitado no fundo do buraco, imóvel desde a queda, tenta levantar-se.

“Gilberto! Gilbertinho!”

Todo o corpo dói. A perna direita quase não se mexe sozinha. Uma fratura, talvez.

Na hora da queda, o menino não estava com ele. Isso foi mais ou menos há cinco minutos – ele franzia a testa e apertava os olhos, como se pudesse espremer a memória.

“Gilbertinho!”

Na hora da queda, o menino estava longe, correndo para um brinquedo perdido, um aviãozinho de plástico, meio encoberto de pó. No lugar daqueles esqueletos de casas, restaurantes e cinemas, uma área de dois quarteirões, a prefeitura construiria um complexo de viadutos, com espaço também para jardins e play-grounds. Todo dia, o baque das picaretas e dos grandes martelos derrubando as casas, e mais a gritaria abafada dos operários, pareciam assustar o menino. Mas, no domingo, o mundo destruído ficava deserto. Gilberto se aproximava, para certificar-se disso. O velho procurava desviar-lhe a atenção:

“Meu filho, vamos ver as lanchas no lago do parque, isso aí é perigoso, uma parede dessas pode cair em cima da gente, machucar o Gilbertinho…”

“Não, vovô, vamos ver as casas por dentro.”

Agora conseguiu agachar-se. Confundiu o ruído de um motor de carro, longe, com a queda de alguma parede. Viu Gilbertinho morto, esmagado. Gritou de novo, o pó coçou-lhe a garganta:

“Gilbertinho, pelo amor de Deus! Gilbertinho venha cá!”

O senhor Wernher está chorando. A mãe de Gilberto, sua filha, pedia sempre, rogava: “Papai, não leva o menino para a desapropriação; papai, olha duas vezes antes de atravessar a rua”.

Controlava-se: “Não tenham medo, não estou caduco”. E até compreendia tanto cuidado: era filho único. Mas insistia em passear com o menino. Gilberto gostava, corria em volta da praça, arrastava seus carrinhos, era mais sabido que os outros meninos, batia em todos. Temperamento forte, eh ,eh, como o meu.

“Vovô, vamos olhar para dentro das casas.”

“Gilberto, socorro, socorro! Caí no buraco!”

Dali só se via céu e ferro torto, apontando em todas as direções. Tudo meio encoberto por uma nuvem de poeira. Agora, no meio daquela nuvem, avistou o rosto do neto e o nariz de avião de plástico que ele trazia na mão.

“Ah, Gilberto, é você que está aí, meu filho? Ainda bem que você está aí.”

Teve forças, agora, para levantar meio corpo, apoiando-se com as costas na parede do buraco. Pontas de faca furaram-lhe os rins, por dentro.

“Você viu, Gilberto, vovô anda meio distraído caiu aqui nesta armadilha.”

“Vovô está caduco.”

Ele tinha frases assim, o Gilberto. Espantava a família. Mas uma revista deu a explicação: “Os filhos únicos são sempre muito inteligentes”.

“Não, Gilberto, vovô está só ferido.”

Apontou a perna direita:

“Vovô está ferido e precisa sair daqui, meu filho. Faça uma coisa: vá até a avenida, mas só até a calçada, não atravesse a rua, meu filho, vá até lá e chame alguém, qualquer pessoa. Diga que seu avô caiu no buraco. Traga gente até aqui, vá logo.”

O menino deitou-se no chão, pôs os dois braços para dentro do buraco e começou a escavar-lhe as bordas, com as asas do avião. Pedrinhas caíram sobre o velho.

“Saia daí, menino você cai!”

O velho tossiu seco, escarrou: sangue. Assustou-se, foi cedendo o corpo até sentar-se, gemeu. Examinou o fundo do buraco: terra vermelha, muita poeira, além de dois tijolos e um pedaço de tábua cheio de farpas. Mas a nuvem de pó sobre sua cabeça ia-se dissipando e Gilbertinho agora aparecia nítido, olhando para o avô.

“Gilbertinho, pelo amor de Deus, vá chamar…”

“Não.”

“Seu avô está muito machucado, vá logo, Gilberto…”

O menino se levantou, ágil, e desapareceu.

O velho fez força para escarrar, não pôde. Insistiu, teve um acesso de tosse. Cuspiu na palma da mão: filetes de sangue desenhados num catarro branco. Convenceu-se de que estava morrendo, depois pensou no menino: “Eu mesmo fui o culpado, sempre fiz tudo o que ele quis…”

“Socorro! Socorro! Venham aqui!”

Tijolos atingiram-lhe as costas e caíram ao seu lado, levantando pó. O inimigo se colocara na melhor posição. O velho procurou virar o rosto para trás e para cima; mais tijolos caíram sobre ele e, do ângulo em que os via, pareciam duas vezes maiores. Um deles atingiu-lhe o supercílio direito, o sangue encobriu-lhe a vista.

“Não faça isso, menino!”

Arrastou-se de quatro, gemendo alto, para a outra extremidade da trincheira. Granadas explodiram perto dos seus calcanhares, ele perdeu a noção das próprias pernas e tudo escureceu. As mãos, como garras, ainda colocaram-se às paredes do buraco. Baionetas atravessaram o resto do seu corpo e uma rajada de metralhadora estraçalhou sua cabeça, enquanto os porcos americanos e russos se preparavam para invadir a Chancelaria.

Do livro “Querido Senhor Assassino” – Editora Símbolo, São Paulo, 1979.

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Eu ainda gritei “Maria, desgraçada, não vai abrir a porta?”. Mas a campainha tocou de novo, após algum tempo. Um toque leve, de gente educada. Maria deveria ter saído cedinho. Pra namorar, com certeza. Maria ia acabar engravidando, aos dezesseis anos, e a gente seria obrigado a devolvê-la à família no interior.

“Já vai! Espere um pouco!”, berrei lá de dentro. Estava nu, preparando-me para o banho que tomava, pontualmente, às oito da manhã. Meus dois filhos àquela hora já haviam iniciado o trabalho na oficina mecânica, no prédio vizinho. Eu, com meus direitos de coroa, sempre chegava atrasado. E a vontade era a de atrasar mais, a cada dia. Também, cinquenta e três no costado… Trabalhando desde os doze…

Quem seria, àquela hora? Vesti a camiseta que estava jogada sobre o cesto. Meio fedida. Dane-se. A inútil da Maria ainda não recolhera a roupa suja. E se um dos meus rapazes transasse com ela? Não, não, eles tinham juízo, e arrumavam mulher quando e onde queriam. Igual ao pai.

Devo ter aberto a porta meio no tranco. A menina, uns dez anos, sobressaltou-se. Que gracinha! Simpatizei com ela imediatamente. Rostinho redondo, cabelo curto, lourinha. Covinha só de um lado. Usava uma roupa meio estranha, larga, parecida com uma jardineira. Um tecido… amarrotado, como se fosse papel. Já não havia visto aquela criança antes?

“Desculpe, minha filha, se assustei você…”

“Não… não…”, ela fez, com um sorriso lindo. Olhou para mim com muita curiosidade, como se procurasse alguma coisa no meu rosto.

“Então diga, minha filha, que você deseja? Já sei… O carro do seu pai ou da sua mãe quebrou.”

“Não…”, ela balbuciou novamente, e era extremamente gracioso o jeito de articular a palavra. “Nada disso, eu só vim te ver, vovô.”

E logo depois consertou:

“Eu não deveria ter vindo, mas vim. Desculpe. Sabe, amo você. Olhei pra você agora e amei você… ainda mais! Já amava antes.”

Eu sorri, meio forçado, até porque sentia que havia algum sentido naquela doidice. O rosto da menina me era familiar.

“Querida”, eu disse sorrindo, “deixe de brincadeira. Não sou avô, meus filhos têm vinte e dois e vinte e quatro anos, nem pensam em casar. Mas eu até gostaria mesmo de ter uma neta como você… assim… tão simpática”.

Uma pausa. Fui ficando nervoso. Quem resolvera tirar sarro da minha cara? E contratara uma menina inocente pra isso?

“Vô: não sou filha nem do Zezinho nem do Tião. Minha mãe é Inês, lá do Rio de Janeiro.”

Empalideci. Inês. Estava agora com a idade daquela menina na minha frente. Dez, onze anos. Duvidei todo esse tempo que Inês fosse minha filha. Sua mãe, Dora, tinha outros namorados. Mas ela sempre afirmara: “Mãe não se engana; Inês é sua!” Depois, magoada: “Sabe, se não vai assumir, o problema é seu! Deixe que eu dou conta…”

Fazia uns dois anos que eu não as via, Inês e a mãe. Ninguém sabia desse meu segredo. Nem os meus filhos. Só o padre, que não espalha pecado dos outros, e Rubens, meu amigo-irmão, meu confidente. Mas Rubens não iria fazer uma palhaçada dessas comigo. Até porque estava morrendo de cirrose. A pele verde, o olho branco.

“Minha querida: você é muita novinha pra ser usada numa brincadeira de mau gosto. Quem mandou você aqui? Diga, por favor, o que é que você quer?”

Acho que vi lágrimas em formação nos olhos da menina.

“Vô… desculpe. Eu não devia ter vindo. Mas eu precisava ver o senhor. Minha mãe fala tanto no senhor. Ela é apaixonada…”

“Querida, querida, escute aqui: eu não sei como você sabe de Inês, das minhas histórias no Rio, acho que alguém está me gozando, mas, pense bem: Inês deve ter a sua idade… é um pouco mais velha, talvez. Inês só poderia ter uma filha do seu tamanho daqui a uns vinte anos…”

Parei de falar porque comecei a ver na menina uns traços de minha mãe, do meu filho Tião e até meus, como o jeito de olhar de lado, o sorriso meio tímido. De repente, ela saiu correndo. Sem olhar para trás. “Tchau, vô, depois… depois a gente…” Não entendi o final da frase. Corria em câmara lenta, leve, sobre a calçada arborizada, como se fosse voar, a minha neta.

Do livro Memórias Embriagadas – Editora Noovha América, São Paulo, 2008.

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