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Archive for maio \23\UTC 2011

Cansei de dizer a Sizenando que o paladar é uma questão de educação, de repetição e de estudo. O paladar, em si mesmo, é uma força positiva, talvez uma dádiva. Eu sempre tive bom paladar, sempre consegui captar nuances de sólidos e líquidos, as marcações subliminares, o salgado mas nem tanto, o falso doce – e o agridoce.

Nasci assim. E foi por isso que me transformei em um dos maiores críticos de restaurantes do País. Se não fosse modesto, diria O maior!

Foi uma época feliz, a que vivi com Sizenando no começo do nosso caso. Eu já completara cinquenta e dois anos e Sizenando nem chegara aos vinte e cinco. É comum, eu sei, o “cabeça do casal” ser um pouco mais velho e possuir um poder aquisitivo estruturado. É comum também que o mais velho possua cultura, e o outro seja, digamos, emergente. Talvez fosse comum que o mais experiente, como era o meu caso, tivesse nascido no Sudeste, enquanto o companheiro fosse um nordestino ou um nortista.

Sizenando era nordestino. Que homem incrível! Eu o encontrei fazendo faxina numa loja de vinhos. Olhei para ele: um metro e oitenta de altura, apolíneo, o rosto esculpido em pedra, lindo, de uma beleza definitiva. Aproximei-me dele, perguntei da sua vida, e percebi, coitadinho, o quanto era carente. Não tivera pai, pouco vira a própria mãe, aos seis anos já andava pelas ruas da capital do seu estado pedindo comida. Ou seja, todo o seu encantamento e a sua estética natural (abdômen definido como jamais o vira, nem em fotos) provinha da Natureza, do acaso, ou, numa análise mais profunda, de Deus.

Eu o convidei a me visitar no meu apartamento, apesar do perigo que poderia estar correndo: quantos de nós, boa parte da minha geração, não haviam sido assassinados por meninos jovens, drogados, ou simplesmente gananciosos, à procura de tesouros escondidos nos nossos antiques de bichonas?

Tantos… E foi por isso que engoli o calmante da moda antes de Sizenando chegar. Tadinho: ele veio de calça cáqui que havia comprado na feira de Santana dos Aflitos, sua cidade, e de camisa alegre, com motivos quase carnavalescos, muito desbotada, apesar de ter sido lavada poucas vezes, como me confessou depois. A camisa se abria naturalmente por causa da largura dos seus ombros gregos. Eu, que já me sentia fisgado, fiquei mais. E ao contrário de um assassino de homessexuais, Sizenando foi tão doce!

“O senhor me chamou pelo motivo que estou pensando?” Foi assim, desse jeito gracinha, que ele me abordou. Procurei não ser falso.

“Claro, Sizenando, o que você acha que um homem de meia-idade quereria fazer com você?”

“O senhor poderia ser meu pai.”

“Poderia mas não sou, pombas!”

“Não quis agredir.” Ele era íntegro, mas… tão naif.

Para encurtar: fomos terrivelmente felizes nos primeiros três meses da relação. Eu paternal, ele dócil, mas consciente da sua masculinidade exacerbada, que não via obstáculos na diferenciação sexual… sei lá como explico! Era uma macchina.

Eu sempre o levava aos restaurantes, consciente de que os proprietários e os maitres, que tanto me bajulavam, procuravam os donos da revista, meus patrões, acusando-me, sobretudo se tivessem sido vítimas das minhas críticas: “O Fulano sempre vem aqui com um bofe!”.

Ou seja: como era tensa minha relação com meu próprio ganha-pão! E, no entanto, nunca vendi minha opinião, jamais tentei agradá-los de alguma forma, apesar dos presentes finos, dos vinhos caros que me enviavam. Minha profissão sobrevivia sobre um fio de navalha. Mas eu continuava a receber o prestígio dos meus empregadores. E isso anos a fio. Eu fazia questão de pagar as refeições de Sizenando, enquanto as minhas eram cobertas pela revista. Uma relação sadia.

Mas aí veio a desgraça. Numa noite, ao experimentar um fricassé de frango, senti-me o sangue fugir do rosto, fiquei gelado e pensei que iria desmaiar. Sizenando me levou ao toilette e vomitei. O maitre tentou invadir o banheiro, mas o impedi. ‘Ninguém pode saber dos meus segredos’, decidi comigo mesmo. Depois, refeito, disse ao maitre que havia me sentido mal por causa de estresse. Já Sizenando me olhou com um olho estranho.

“Paizinho”, disse, “achei que o senhor tava morrendo…”

“Me chamando de senhor de novo, Sizenando? A gente dorme juntos e você me chama de senhor?”

“É o costume, paizinho.”

“Costume o caralho.”

Naquele dia não pude julgar o fricassé. Tentei comer a sobremesa, um pudim de nozes, mas não fui feliz, uma vez mais. Tive de voltar ao toilette; Sizenando junto, contrafeito.

Vesícula. O médico me disse que deveria operá-la imediatamente, mas resisti. “Só depois do Festival de Inverno”, disse-lhe. “O senhor sabe, doutor, sou crítico de restaurantes e não posso deixar de trabalhar.”

“Mas é a sua vida”, disse o doutor, piedoso.

“É por isso mesmo: a crítica é a minha vida.”

Ele se calou e completou: “O senhor é que sabe.”

Eu sabia. Antes do festival, precisava escrever umas três críticas, dois restaurantes franceses e um italiano. O proprietário do italiano, Lugi Pastore, era um homem mau. Falava horrores de mim, profissionalmente. Insistia no que ele chamava de “ignorância atávica”. Sempre tive medo de que ele adentrasse outros terrenos, os pessoais, nas suas manifestações. Mas, até então, ele jamais me atacara por causa de preferências sexuais.

Escolhi o italiano como o primeiro a ser visitado. Mas chamei Sizenando e, gentilmente, fiz-lhe ver a minha real situação.

“Querido, estou vivendo à base de pílulas, não posso pôr nada na boca. Você vai ter de me ajudar…”

“Como, paizinho?”

“Seguinte: vamos ao restaurante, pedimos dois pratos, o seu meia-porção, e aí você vai comendo as coisas e me dizendo como elas são.”

“Mas eu só sei, paizinho, o que é doce e o que é salgado.”

“Sizenando: eu já lhe falei sobre paladar, não falei? Paladar é uma questão de educação, de repetição e de estudo. Você já me acompanha há muito tempo nesses jantares e pode, sim, discernir entre o bom e o menos bom. Já sabe o que é um vinho redondo e um ácido.”

“Mais ou menos, paizinho.”

“Nã, nã, você vai me ajudar. Eu faço o seguinte: entrevisto você. Vou pedir um prato, vou fingir que comi, aí a gente enrola o garçom, fica de olho no maitre, mas só quem come é você… OK?”

“Tá bom, paizinho.”

Luigi Pastore quis ficar na nossa mesa e esse foi o meu primeiro problema. Com jeito o afastei. “Você acha que eu sou pior companhia, gastromicamente falando, do que esse… esse rapaz?”, ele me perguntou, olhando feio para o meu querido garoto.

“Acho sim. Você é o dono e pode me inibir.”

“Tenha cuidado, garoto”, disse Luigi Pastore ao meu menino, “tem aí um comando nazista matando negros e nordestinos.”

“Eu corto o saco deles e dou pro senhor fazer uma dobradinha!”, respondeu Sizenando, sério. Eu, às vezes, me sentia muito orgulhoso do meu afilhado.

De repente, chegou, fumegando, um cabrito com “profumo del sud”, ou nome parecido. Todos os empregados do restaurante, além de Luigi, nos observavam. Fui obrigado a encará-los para ver se eles desviariam o olhar. Tivemos uma chance.

“Agora, Sizenando, morde aí a carne e me conta como está…”

Sizenando o fez, constrangido, mas se atrapalhou na análise: “Está com pouco sal e com muito gosto de mato”.

“São as ervas aromáticas, porra. Diga-me: elas são agradáveis ao seu paladar?”

“São uma bosta. Eu prefiro coentro com carne de bode.”

“Sizenando: me escuta. Estou fudido. Eu sustento você, lhe dou casa, comida e roupa lavada. Agora estou doente. Eu só quero que você me responda com alguma precisão às perguntas que lhe faço…”

“Desculpe, paizinho, é que às vezes eu tenho vergonha de ser marido de viado.”

“Que é isso, Sizenando?”

“De ser bofe.”

“Minha flor: você é apenas o meu companheiro emocional. Você poderia ser uma mulher, ou um cachorro, assim como eu poderia ser uma instituição, uma empresa… No fundo, no fundo, a gente, homem, mulher, viado, lésbica procura fugir da solidão. Por coincidência, eu sou a bicha velha e você o menininho. Mas eu preciso que você coma esta coisa aí e me diga mais ou menos o que você achou, ou eu perco o emprego.”

“Tá bom, paizinho, pode perguntar.”

“Obrigado. Então me diga: essas coisinhas verdes que vieram ao lado da carne de cabrito estão com gosto bom? Sabem a alho, quer dizer, parece que foram cozidas com alho?”

“Hummmm… mais ou menos.”

“Puta que o pariu, Sizenando: você é uma anta.”

“Prefiro mesmo carne de anta a essa coisa aqui. Sabe, fala lá pra tua revista que este restaurante é uma enganação. Não consegue nem agradar a quem já passou fome.”

“Olha, Sizenando, sinceramente: este é um ângulo novo e muito importante para mim.”

Talvez tenha sido a melhor crítica que escrevi, nos últimos tempos, a partir da rústica sensibilidade do meu amor. Não sobrou pedra sobre pedra do “ristorante”. Luigi Pastore enviou uma carta desaforada à direção da revista. Mas em nenhum momento aludiu à minha sexualidade. Acho-o arrogante, muito convencido, e até meio fascista. Mas é elegante, apesar de grosso, socialmente. Quem sabe, da próxima vez, ele não acerta a mão no tempero?

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Quando o carcereiro me chamou na cela, eu me levantei e olhei a cara do homem ao lado dele; aí me lembrei de uma cena do passado, dois, três anos atrás, que ficou muito marcada na minha mente.
Aquele homem ali, muito bem vestido, ao lado do carcereiro, era o advogado. Nós fomos apresentados, ou melhor, eu me apresentei a ele durante um assalto. Que eu pratiquei, é claro. Não me lembro do carro dele, mas era um importado de último tipo, rendeu uma nota. Na época, eu fazia dupla com Pixulé.
O advogado tinha mãos brancas, de mulher, e tremia muito, e gaguejava, tentando me levar no bico. Me lembrava Tabaréu, meu vira-latas de estimação, quando eu era bem criança. Tabaréu tremia e chorava quando meu velho batia na minha mãe.
Pena do advogado não tive. Meu velho me dizia que advogados são uns filhos da puta; até o que ele contratou, para tirá-lo da cadeia, o enganou e roubou, além de comer sua mulher na época.
Por isso olhei para o mão branca ali, pensei no meu velho, e não tive pena do cara. É isso: pena não tive, mas ódio não senti. Jamais senti ódio de alguém e motivos não me faltaram. O meu velho poderia ter sido o primeiro ódio da minha vida: o que ele fez com a gente, a mãe e três irmãos, não se faz nem com cachorro.
O advogado estava acompanhado de uma garota de uns dezoito anos, uns vinte a menos do que ele. Pixulé, meu bom amigo, que um ano depois iria morrer feito uma peneira, foi logo dizendo: “É caso”.
Olhei bem pro casal e falei: “Não é”.
Conheço piranha. Aquela não tinha cara nem jeito e se vestia decente, apesar dos tempos terem mudado e das meninas de escola estarem se prostituindo.
Mesmo assim, sou curioso pra caramba. Perguntei ao advogado: “Tás comendo a menina?”
“Minha filha.”
“Então puxou à mãe. Não se parece com o senhor.”
A mocinha não se mexia, não falava. Como se já tivesse passado por aquela situação outras vezes. Achei engraçado que ela andava com muito cuidado ali no terreno baldio. Como se tivesse medo de pisar em bosta.
“Puxou mesmo à mãe. É minha filha… fora do casamento”, disse o advogado. “É sobretudo por causa dela que vou pedir, meu rapaz: não mate a gente; estou tentando conseguir um emprego melhor para a menina, que nem terminou a faculdade ainda…”
Pixulé, que já havia puxado a pistola, ponderou: “Vamos bobear, não. Testemunha viva…”
Mas meu coração sempre foi mole e fiquei com pena do advogado e da filha. Sabe, o que mexeu comigo foi ser chamado de “meu rapaz”. Pixulé falou que eu estava louco, porque até carona dei praqueles dois, deixei eles num ponto de táxi.
Agora, dois, três anos depois, eu todo danado, aparecendo até na televisão, assaltante perigoso, etc., o carcereiro vem me trazer o homem da mão branca. Todo bem vestido. Um príncipe. Ele sorriu para mim de longe:
“Lembra-se? Nós nos conhecemos…”
“Pois é.” (Fiquei com medo de que viesse mais bronca.)
“Tô tirando você daqui…”, ele disse, enquanto o carcereiro abria a cela. “Não há provas contra você”.
Antes de me dispensar, o policial de plantão me falou no ouvido, todo bronqueado: “Você tem grandes amigos, mas a gente ainda te pega”.
Na rua, o advogado ainda me deu um monte de dinheiro.
“Não vou lhe dar conselho nenhum”, disse. “Mas nem sempre vou ficar sabendo quando lhe pegarem. Se souber, faço o possível pra livrar sua cara…”
“O senhor é bacana, doutor. O senhor sabe o que é uma amizade. Um favor. Só bandido age assim. Quer dizer, a maioria.”
“Vou ficar por aqui…”, ele sorriu. “Boa sorte”.
Me cumprimentou e fiquei de novo impressionado com a brancura das mãos dele. O aperto era frouxo, também.
“E a menina?”, eu perguntei. “Já se formou?”
“Menina… ah, sabe, preciso lhe confessar uma coisa…”
“Era comida.”
“Era.”
“Pixulé tava certo… Eu entrei… Coração mole.”
“Você teria feito a mesma coisa no meu lugar, meu rapaz. Tentei salvar minha pele.”
“Sim, claro. O senhor é um filho da puta, meu velho dizia que todo advogado é filho da puta. Mas o senhor é um filho da puta legal.”
O advogado riu alto e eu acabei rindo, também. Seria ótimo se a gente se encontrasse de novo. Mas assim, pra tomar uma quentinha num boteco.

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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