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Archive for outubro \09\UTC 2014

O Escuro, o Claro

Todos ali já esperavam a desgraça. Os cangaceiros ameaçaram invadir Tolentino várias vezes e se não o haviam feito, ainda, era porque seu comandante, o capitão Zé Crispim, tornara-se devoto da Santa.
Logo na entrada da vila, o major aposentado Bento Camargo, maior sitiante de Tolentino, montara uma gruta sempre florida acolhendo a imagem negra de Nossa Senhora Aparecida. Ele, homem de esperteza rara, sabia que Zé Crispim jamais arrasaria lugar onde houvesse a Santa por perto. Todos na cidade confiavam nisso.
Mas os macacos da polícia pegaram o capitão e parte da cambada lá na foz do São Francisco; e nem dos garotos tiveram pena, como um de quinze anos, chamado Itaguaçu. Os corpos chegaram ao Instituto Médico Legal da capital com mais de cinquenta buracos cada.
O finado Zé Crispim não era o mais importante dos chefes, naquele fim de mundo calorento, mas a morte dele foi comemorada pelo governo com foguete, cachaça grátis para a macacada e missa de ação de graças nas principais cidades do estado.
No entanto, toda Tolentino, onde não cabiam mais do que mil almas, chorou em vez de festejar: o capitão tinha prestígio. Até Bento Camargo ficou revoltado com a chacina. “Mesmo bandido merece morrer com decência”, criticou. O major aposentado também insistiu para que jamais deixassem a Santa sem flores, já que ela, em si mesma, era uma proteção.
Uma semana depois, um novo bando de cangaceiros apareceu ao pé da Serra da Capivara. Neco Choroso veio dar os recados à cidadezinha.
“Os homens me mandaram dizer que não querem ninguém armado, nem o major Bento. É pra jogar todas as armas na porta da igreja, arrumadas. Rifle junto de rifle. Pistola junto de pistola.”
“Quem é o chefe do grupo agora?”, perguntou Elesbão, que moldava bonequinhos de barro.
“O Escuro. Era um dos tenentes do finado capitão Crispim. Parece índio guarani. O que restou do bando se partiu em dois.”
“Quer dizer, Neco, que vamos nos desgraçar duas vezes?”
“Quer dizer.”
As ordens foram obedecidas. O major Bento Camargo queria se defender, sozinho, mas Turíbio, o sacristão que era quase padre, o convenceu de que a resistência de um só acabaria por matar muita gente inocente. Sem resistir, a chance de salvar todo mundo seria bem maior. E foi: os bandidos chegaram, pilharam tudo, se serviram de algumas mulheres, ficaram bêbados, dormiram e foram embora.
Mas todos em Tolentino sobreviveram, não só a essa invasão, mas à outra, feita pela segunda dissidência do bando, quinze dias depois, quando as pessoas ainda tentavam se recuperar da primeira humilhação. O mesmo Neco Choroso apareceu, desta vez mancando, porque um dos homens da segunda dissidência, que não simpatizara como ele, lhe esmagara os dedos do pé com o coldre do rifle.
“É engraçado”, disse Neco, “o bando de agora mandou fazer igualzinho ao outro: empilhar as armas no chão, mas não exigiu que fosse na porta da igreja, nem que pusessem tudo arrumadinho.”
“Não falou pra eles que não sobraram armas da primeira desgraça?”, perguntou Turíbio.
“Ficaram nervosos quando souberam que o Escuro já tinha aparecido aqui.”
“Disseram o quê?”
“Que iam comer pão com banha. Que queriam ser os primeiros a se servir das mulheres…”
“Quem é o chefe, agora?”
“É o Claro. Dizem que é filho de holandês. Galego danado de vermelho. Ele disse que se não tiver arma não carece pôr nada no chão. Mas se ele descobrir alguma, capa o safado que escondeu.”
O Claro entrou devagar em Tolentino, do mesmo jeito que o Escuro tinha feito. Mas não deixou seus cabras gritarem, nem dar tiros para o ar, como o Escuro fez. Nem destruiu, a tiros, o altar de Nossa Senhora Aparecida. Pelo contrário: parou na frente da gruta, no meio caminho entre o lugarejo e a Serra da Capivara, e fez o pelo-sinal.
O Claro se apresentou ao major Bento Camargo, que agora vivia em cima da cama, doente de desgosto, depois da invasão do Escuro. O cangaceiro exigiu que todas as pessoas da casa ficassem em pé, na varanda, e foi bastante objetivo:
“Pelo jeito não tem nada pra levar daqui. Só vou deixar os homens se aliviarem, que eles estão precisados.”
Disse isso e olhou para Janaína, filha única do major, que era viúvo. Janaína tremia e não parava de chorar. O major não disse nada. Foi como se a doença lhe tivesse tirado até a raiva.
“Né moça não, né?”, perguntou o Claro à menina, que acabara de completar quinze anos.
“O Escuro me fez mal”, ela balbuciou.
“Vou sangrar esse cabra depois”, garantiu o Claro.

Eu cresci ouvindo essas histórias, mas só fui entender melhor minhas origens quando tinha uns treze, quatorze anos. Zezinha e Amorina, as empregadas da casa, comentavam entre si, em voz baixa, toda vez que eu aprontava alguma coisa, como, por exemplo, o dia em que dei um chute, de raiva, na cadela Socó: “É coisa do Escuro”. Ou, quando eu obedecia, ou tirava nota boa na escola: “É jeito do Claro.”
Mãe sempre me disse que meu pai, um aventureiro, havia morrido muito cedo, eu nem nascido era, e que ele não passava tempo nenhum em casa. Fotografia dele? Dizia que não tinha.
Um dia puxei o assunto: “Mãe, a senhora é clara e eu sou claro. Eu puxei à senhora ou ao meu pai?”
“A mim”. E ela foi saindo para fechar a conversa.
“Meu pai era claro ou era escuro?”, eu insisti.
“Cor não faz vez pra gente aventureira”, ela disse, com o olho longe. “Igual camaleão: um dia é uma coisa, um dia é outra.”
Nunca mais perguntei nada. Mas sempre senti essa estranheza na vida: tem dia que me sinto Escuro, tem dia que me sinto Claro.

Do livro “Allegro” – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

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