Feeds:
Posts
Comentários

Archive for the ‘Histórias já publicadas’ Category

Bestunto tomaria conta da porta. Ele era mesmo o mais inteligente do grupo, e sabia conversar com as pessoas. Por exemplo: se, na hora do assalto, alguém quisesse entrar no restaurante, Bestunto daria um jeito de afastar esses clientes. E tudo na conversa, com calma.
Eu (meu nome é Debandinha, porque ando meio torto, pendendo para um lado por causa de uma bala que se alojou pra sempre no meu quadril esquerdo) e o Acuado renderíamos primeiro os manobristas, depois o caixa e os garçons. Eu me concentraria no caixa, apontando o revólver pra cabeça dele. Minha especialidade é a concentração. O assaltado sente quem é frio e quem não é. Sou frio: jamais tremi com um revólver apontado para o outro. No caso, o caixa deveria ser o próprio dono do restaurante, e os donos sabem mais do que ninguém que é melhor não reagir. Eu estava muito seguro, como sempre. Acuado seria o encarregado de pôr todos os empregados e alguns clientes (claro que haveria alguns clientes) na cozinha. Ele não é tão inteligente como Bestunto, mas é jeitoso, pede “por favor”, sem deixar de mostrar a pistola.
Praga de Mãe seguraria o pessoal na cozinha. Praga sabe fazer bem isso, segurar, até porque a cara dele assusta até bicho.
A gente imaginava chegar por volta das duas da manhã, talvez um pouco antes, quando só estivessem por ali alguns clientes meio bêbados e os garçons.
Mas ninguém estava feliz. Antigamente, um pequeno grupo, como o nosso, reunia-se, conversava, escolhia a estratégia, e assaltava. Tudo na hora. No impulso, está certo, sem grande planejamento, mas com aquela vontade de acertar, de enfiar um monte de dinheiro no bolso. Minha porcentagem pessoal no ano passado foi muito boa: quarenta e cinco assaltos, sessenta por cento dos quais limpos, sem mortos ou feridos. Meu faturamento, no entanto, não chegou a ser alto: cento e sessenta mil dólares. Mas, comparado a este período de agora, o ano passado foi uma glória. Já estamos em outubro e eu realizei apenas vinte e uma operações, com faturamento de oitenta mil dólares brutos (estou levando em conta o rateio, em partes iguais, menos para o coordenador, que leva quinze por cento), sem contar as taxas de vinte por cento, que antigamente não havia, é claro, quando a gente ainda era iniciativa individual.
A diferença é que, a partir deste ano, passamos a trabalhar sob comando do Partido. Não planejamos mais nossos próprios assaltos: vem tudo preparado da Comitê Central, e temos apenas de cumprir as ordens. Por exemplo: o assalto a este restaurante foi um trabalho da Diretoria de Planejamento. Escolheu o objetivo, estudou a melhor estratégia e apresentou o projeto ao Comitê Central, que, por sua vez, nos escalou para a execução.
Este é um outro problema: gosto muito dos meus companheiros, são meus irmãos, mas não escolheria, se fosse o responsável pela ação, um quadro como Praga de Mãe. Ele é muito burro e, fisicamente, repulsivo. Estava em outra equipe, que assaltava lojas de departamento, e era só ele pôr o pé num shopping que os clientes chamavam a segurança. Um sujeito com aquela cara só poderia ser tarado ou assaltante. Aí foi afastado. Passaram-no para nosso grupo, que se dedica a assaltos menos sociais. A gente não reclamou de pena dele. Mas o Praga atrapalha. As pessoas podem entrar em pânico só de olhar pra ele. Hoje em dia, assaltos são operações delicadas, não devem fazer vítimas, isso joga a opinião pública contra nós. Não somos bárbaros, somos expropriadores.
Mas, pelo Partido, tudo. Admito que alguma coisa melhorou. Agora, temos os melhores advogados do País. Poucos de nós ficam presos por muito tempo. E há, ainda, o Comando Cássio Pilar, que resgata os que não conseguiram se beneficiar da Justiça. Cássio Pilar foi um dos nossos que tombou, heroicamente, numa operação de resgate, logo no início da atuação do Partido.
Bem, voltando ao trabalho aqui. Recebemos um relatório completo das atividades deste restaurante: número presumido de clientes em todas as horas; número de garçons; posição do caixa; manobristas e seguranças, e seus respectivos lugares no palco das operações. Tudo furado. Os manobristas eram, na verdade, os próprios seguranças, obedecendo aos novos tempos, que obrigam o profissional a desempenhar várias funções ao mesmo tempo. Um dos seguranças eu até conhecia, havia cumprido uns três anos comigo, na Casa de Detenção. Outro furo foi o cálculo dos clientes. Os planejadores não perceberam que havia uma igreja evangélica próxima, e que nela aconteciam reuniões às terças e quintas, no começo da noite, e que, nesses dias, um bom número de participantes acabava jantando no restaurante, ou seja, terça e quinta seriam dias inviáveis para o nosso objetivo. Foi o Bestunto, muito esperto, que acabou descobrindo isso, simplesmente porque, superprofissional, decidiu dar uma olhada no local da operação, dias antes, o que é terminantemente proibido pelo Partido. (Bestunto, na verdade, veio com uma história de que descobrira esses detalhes porque já conhecia a região, mas ninguém nasceu ontem).
Então, tudo pronto, vamos lá. Chegamos, dois pela esquerda, dois pela direita, e pegamos fácil o único manobrista/segurança, porque o outro, justamente o meu colega, já havia saído. “Quieto, viado, passa pra cá o revólver.” “Não uso.” “Não usa uma porra!” E tome uma coronhada na cabeça. Discreta. Foi Bestunto que deu. “Passa logo, ou te mato aqui mesmo”, disse ele. O pobre diabo olhou pro Praga e resolveu pegar a arma, presa na botina. “Agora vá na frente, rapaz, que vou te trancar na cozinha”, disse Acuado, empurrando o cara com delicadeza.
Entramos eu, Acuado com o manobrista e Praga de Mãe. Na hora em que o caixa, que era o dono, nos viu, adivinhou tudo. Ficou branco. Nem se mexeu de onde estava. “Eu gosto assim”, eu disse a ele, “os bons meninos ficam quietinhos.” Mas o sujeito começou a tremer. Esperamos que dois dos três garçons chegassem do salão, onde serviam a apenas um casal. Praga de Mãe já tomava conta, dentro da cozinha, do manobrista, do cozinheiro e de um auxiliar. Praga de Mãe não ameaçava ninguém, assim, de mostrar revólver. Só apontava o volume debaixo da camisa. Não precisava de mais nada.
“Eu tenho de falar uma coisa com o senhor”, disse-me o caixa.
“Depois, moleque (ele era muito novinho). Vamos primeiro limpar o salão.”
“Limpar, como? Vai atirar nas pessoas?”
“Claro que não, babaca. Vou esperar que os garçons voltem do salão.”
E eles logo voltaram, eram dois, um deles trazendo uma bandeja pesadíssima. Ao nos ver, perdeu o equilíbrio e caiu tudo no chão. Restos de sobremesa, molho de tomate, uns nacos de carne, sujeira grossa. E o barulho? Mas um casal, em confabulações amorosas, deu somente uma olhada, rápida. Acuado não deixou que aquele garçom juntasse as coisas, já mandou os dois pra cozinha. Depois, foi até o salão e convidou o casal a se juntar ao pessoal. A moça ensaiou gritar. Acuado mostrou a arma, ela se conteve.
Aí eu me virei para o caixa. “Que é que você queria falar comigo?”
“Senhor, quero pedir desculpas, mas eu só tenho aqui dinheiro meu. No restaurante, só aceitamos cartão de crédito e cheque.”
“Caralho. Não diga!”
“Infelizmente, senhor. Mas eu tenho alguma coisa. Talvez o cliente tenha, também.”
“Não, cara, eu vim aqui pegar a féria.”
“Não tem.”
‘Partido de merda!’, eu tive vontade de comentar, mas me calei. Mandei o caixa se levantar.
“Vai me matar?”, ele perguntou, lívido.
“Não, porra. Só pensa nisso?”
Levei-o até a cozinha. Tinha um cheiro horrível, de bosta, lá dentro.
“Que cheiro é esse, Praga?”
“O cozinheiro se cagou todo.”
“Que foi que você fez, idiota? Assustou o cara?”
“Só perguntei se ele tinha lasanha. Deu fome, meu. Aí ele disse que o restaurante não serve lasanha e começou a chorar…”
Fiquei deprimido. Pegamos o dinheiro de todo mundo, não chegou a dois mil dólares. A equipe de planejamento se esqueceu de examinar o cardápio. Estava lá escrito: “Só aceitamos cartões de crédito ou cheques especiais, para evitar assaltos.” Se eu tivesse, sozinho, pesquisado o ponto, planejado e operado, nada disso teria acontecido. O Partido é muito burocrático. É uma espécie de repartição pública. Confio em Bestunto: vou comentar com ele que não estou feliz com esse jeito de trabalhar. Eu sei que ele também é contra. Mas, o que a gente pode fazer? Se cairmos fora, poderemos acabar assassinados pelos nossos próprios amigos, que se sentem mais seguros pertencendo a uma organização com muito dinheiro para contratar advogados, comprar policiais e juízes. Nossa situação é a mesma dos funcionários do governo: ganhamos uma merda mas estamos protegidos. Não, não quero ser acusado de individualista. Mas essa não é a vida que pedi a Deus.
Do livro “O Homem dentro de um Cão”, Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2007

Anúncios

Read Full Post »

Pediram-me para receber Sua Excelência com tapete vermelho e eu o fiz. Do meu jeito, é claro, e dentro das minhas modestas possibilidades. O chefe queria que tivesse gente no cais, na hora do embarque, que eu me virasse e arrebanhasse quem fosse, para dar volume ao evento. Eu só conheço puta, pescador e bêbado. E foram eles que levei.

Fiquei olhando Sua Excelência. Estava vestindo uma calça cáqui bem safada, dessas de lojinha, mas era nova em folha. Deve ter pensado: o povo lá é modesto e eu vou me vestir do jeito dele. Filho da puta. A camisa social parecia elegante, mas já estava meio velhinha. O cara se fantasiara de pobre! Depois da nossa pescaria, ele jogaria fora aquela roupa ou, no máximo, a entregaria ao asilo mais próximo. Cachorro.

Sua Excelência se arvorava em dono do projeto de pesca de tubarão que daria, segundo ele, mais de mil empregos para aquela comunidade sofrida da Praia do Breu. Mentira. Eu é que fiz o projeto e apresentei ao governo. Não me gabo não, não fiz nada de mais, sou pago para isso. Nem todo biólogo como eu trabalha para os gringos, roubando nossa flora e criando transgênicos. Pelo menos eu sou uma exceção. Penso no povo e gosto dele. O povo cheira bem; a elite fede, está podre.

Vocês sabem, tubarão é pesca nobre, nosso litoral aqui está superpovoado deles, por causa do desequilíbrio ecológico, então temos mesmo de eliminá-los. E desses bichos se aproveita tudo: carne para comer, pele para fazer sapato, tripa para ração, e até os ossos servem para artesanato. Sem falar nas barbatanas que a gente exporta pros japoneses fazerem sopa e endurecerem os pintinhos. Que coisa! As putas aqui da praia fizeram para mim sopa de barbatana de tubarão durante semanas e eu permaneci meia-boca. Mas acho que é a cachaça que anda me tirando o tesão.

Aí, o filho da puta de Sua Excelência veio com essa história de que o projeto era dele. E eu iria fazer o quê? Contestar? Não tenho tribuna, não tenho assessor de imprensa, sou um merda no meio do mundo.

Por falar em assessor de imprensa, deve ter sido ele o ladrão do projeto. É que esse puto me entrevistou há dois meses, e me tirou todas as informações que acabaram por se transformar no projeto “Tubarão é a Solução”. Aí Sua Excelência assinou embaixo… Veio televisão do sul, vieram até equipes estrangeiras, de programas ecológicos europeus. Sua Excelência falava e a minha pessoa, junto com a cambada de pescadores, servia como imagem de cobertura.

O assessor de imprensa, que eu acho que é viado, resolveu tirar uma casquinha maior da mídia (como jornalista é preguiçoso, aceita qualquer coisa sem checar…) e inventou essa história mandrake de Sua Excelência fazer a primeira pesca experimental de tubarão, abrindo o projeto.

Mais uma mentira. Eu venho pescando experimentalmente há dois meses. Eu e minha canalha. Seu Zé, Arrudão e Chico Bosta. Já sabemos direitinho como abarrotar um pesqueiro de tubarão. Mas Sua Excelência declara que vai “inaugurar” a pesca…

E veio, o puto. E, a conselho do assessor de imprensa, trouxe um cinegrafista. Eu tentei apavorar os dois, contei um monte de casos de gente que virou sobremesa de tubarão no meio do mar, de naufrágios em tempestades de pesadelo, falei até da Cobra d’Ouro, a serpente marinha que andou devorando alguns caíques por aqui. Eles não desistiram. Mas a cara do cinegrafista não me enganou. ‘Esse corno vai enjoar’, pensei. E minha primeira providência foi jogar fora os remédios para enjôo. ‘Quero que esses putos vomitem a alma’.

E lá fomos para o mar. No primeiro balanço, o cinegrafista desmontou. Sua Excelência estava agüentando bem, mas quando a terra firme desapareceu de vista, e ficamos nós, o mar e Deus, eu senti uma certa angústia no olho do escroto.

“Você sabe, doutor”, ele me disse, e acho que já havia esquecido até do meu nome, “eu tenho compromissos à noite, não podemos ir muito longe, muito além… Me garantiram que com duas horas de alto mar a gente já pega alguma coisa. Para mim basta pegar um ou dois bichos. É uma pesca simbólica…”

Eu respondi “positivo”, o que não quer dizer nada, e o nojento ficou ainda mais angustiado. O cinegrafista já havia vomitado bile. Pedi a Chico Bosta para tocar mais rápido, furando as ondas. O barquinho balançava legal.

Quando chegamos ao pesqueiro, percebemos, todos nós da equipe, que tubarão não iria faltar. Sua Excelência e o cinegrafista doentinho nem se deram conta.

E aí eu apelei, piscando o olho para Seu Zé e Arrudão. “Bem”, eu disse, “agora é hora de jogar o sangue.”

“Jogar o quê?”, quis saber Sua Excelência.

“Sangue de boi. Para atrair os bichos.”

Dito e feito. Cheiro de sangue morto enjoa e até eu me arrepio ao sentir. Sua Excelência se juntou ao cinegrafista e ficaram os dois, cada um de um lado, jogando as tripas pra fora, sujando o oceano.

E os bichinhos vieram com tudo! Nunca vi tantos juntos, a maioria cabeça chata, mas tinha tintureiro, lombo-preto… Seu Zé, que entendia muito daqueles meninos, quase não precisava de anzol para içá-los ao convés. Meia hora e já tínhamos pegado uns oito. Eles pulavam sobre o barco, tubarões são duros de morrer. Para piorar a situação, como Deus é bom, armou-se uma nuvem negra a sudeste, e eu pedi a Chico Bosta pra pôr o barco bem embaixo da maldita.

A água lavou minha alma. Era uma chuva doída na pele, e as rajadas de vento poderiam nos jogar longe, se não nos segurássemos em alguma coisa.

“Vamos morrer, não vamos?”

Eu até já me havia esquecido de Sua Excelência, um trapo molhado olhando para mim, a expressão suplicante. Perdera os óculos e, balbuciando, me avisava que o estreito porão do barco estava todo inundado.

“A coisa agora ficou preta mesmo!”, gritou Chico Bosta lá do leme, e eu não entendi se foi pra encagaçar ainda mais aqueles dois merdas ou se falava a sério. Arrudão, que tentava tirar a água do barco, era religioso e começara a rezar. Este não estava brincando. Mas eu mesmo já sofrera tempestades piores, sem comparação. Naufragara uma vez. Fora salvo por milagre.

“A gente vai morrer?” Sua Excelência perguntou de novo, o lábio inferior pendido.

Deve ser o meu coração português que fica mole nessas horas. Olhei bem para o cafajeste e gritei para que minha voz não se confundisse com o uivo do vento.

“Não se preocupe que o senhor não vai perder a porra do seu compromisso hoje à noite!”

Mas eu não tinha certeza disso.

Do livro de contos “Allegro” – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003

Read Full Post »

A notícia nos paralisou a todas. Janaína, Maria Nery, Cássia e Valdeci: mortas. Estavam muito feridas, mas deveriam escapar: Jônia e Helena. O restante, trinta e duas moças e o motorista do ônibus, com ferimentos leves. A única pergunta que todas nós fizemos às superioras: não seria algum engano? Os mortos são sempre os outros.

A verdade é que jamais estamos preparados para uma notícia dessas. Não acreditamos nela. Um rodamoinho se instalou na minha mente. Emudeci e me escondi na capela. Olhei de lado: as outras tiveram uma reação parecida. Pensei: noviças são quase iguais. Têm mais ou menos a mesma idade. Imaginam que possuem vocação idêntica. Sofrem os mesmos condicionamentos na sua educação. É lógico que reajam tão… coletivamente.

Não, nada é lógico. Quatro meninas, quase meninas, mortas. A dor seria diferente, mais intensa, talvez, se elas fossem meninas do mundo, com amores oficializados, casamentos marcados e sonhos de organizar famílias no futuro? A nossa dor é, quem sabe, mais modesta, e previamente consolada, pois as nossas meninas mortas são (seriam) meninas de Deus. Pobrezinhas, sem amores e (podemos dizer ou é crueldade?) sem futuro.

Que horror! É claro que possuíam um futuro, coitadas, eventualmente brilhante, porque se preparavam para servir à humanidade, de várias formas, dentro de hospitais de periferia, ou até nos confins do mundo (Maria Nery falava, o tempo todo, em trabalhar na África), ou, ainda, administrando o gigantesco patrimônio da nossa organização, que não deixa de ser uma multinacional de gerenciamento complexo.

Não teriam filhos, não trocariam beijos com os homens… ou, melhor, nem isso importava, já que poderiam até trocá-los se abandonassem o claustro e mergulhassem nas ilusões que o mundo oferece além desses muros altos.

Cássia, com quem tanto conversei sobre emoções e desejos, tinha muitas dúvidas da sua função no mundo. Os confrontos políticos a atraíam. Torcia quando surgiam, na tevê, reportagens sobre movimentos populares. Ela acreditava na inevitável igualdade das classes, e até das religiões, quando todos os terráqueos se sentissem exaustos da autodestruição, por meio de bombas ou de armas mais sutis da economia. Costumava dizer, a minha colega morta, que o potencial de destruição de um banqueiro era infinitamente maior do que o de um general enlouquecido. As pessoas falam isso como uma piada, mas não é, ela explicava, com sua rara inteligência, o quanto o dinheiro do povo se presta a lucros e jogadas financeiras. Seria um gênio da oposição, essa menina morta. Talvez não convivesse conosco durante muito mais tempo. O mundo lá fora a exigia.

É engraçado como, nessas horas, a minha mente, e eu desconfio que a mente de todas nós, se afasta da imensa consolação, tão grande como teórica, de uma vida no além. Em nenhum momento imaginei as quatro meninas a vivenciar uma realidade transcendente, como a chegada ao seio da Divindade. Talvez eu não tenha mesmo fé. Mas não sei se isso é grave. Depois de quatro mortes tão próximas, os conceitos se esgarçam e alguns podem sucumbir para sempre. A partir de hoje, eu sou outra pessoa.

Janaína é a minha dor maior. Na verdade, a minha única amiga, amiga pra valer. Talvez só eu e o confessor soubéssemos que ela estava apaixonada. Contou-me a mim, a mais amiga e confiável, os detalhes do seu sentimento, sem tocar no nome do ser amado. E eu a respeitei, não lhe fiz perguntas. Apenas indaguei a mim mesma: um dos técnicos em computação, que nos visitam freqüentemente? O coordenador do curso de Letras? O leiteiro? Ou alguém que ela conheceu numa visita à cidade, dentro de uma livraria, talvez?

Não me interessa, sobretudo agora. “Eu não entendo como um pecado”, ela me dizia, de olhos brilhando, “mas como um milagre que tomou conta de mim e me faz sentir viva, parte do mundo, porque essa é, também, uma linguagem carnal.”

Seria mais fácil afastar-se do desejo, pensei, mas Janaína valorizava mais o lado espiritualizado da sua paixão. Seria melhor que ela sentisse o apelo da carne, como se dizia antigamente, o impulso de entregar-se, como uma fêmea em ânsias, ao desejo do macho exasperado, repetindo a Natureza.

Por que ela jamais me contou quem lhe falava a linguagem do corpo?

Quando tento responder a essa pergunta, a minha dor progride e me toma por inteiro, projetando-se no meu próprio futuro. Ao me eleger confidente, até com certa insistência, Janaína poderia estar-me dizendo que não havia propriamente alguém amorável fora da nossa comunidade; que o Amor estava à sua frente: eu.

A mim, então, que jamais tive sensibilidade suficiente para assimilar linguagens sutis ou intensas, que fui privada pela Natureza das armadilhas do irracional, agora só me resta perplexidade, além da dor.

Pior: estou me culpando de ser a perfeita, a verdadeira e incorruptível menina de Deus. O que há de errado em mim que não me permite sequer correr o risco de cair nos regalos da carne, e, talvez daí, nas trevas exteriores, como os outros?

Do livro “Allegro” – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

Read Full Post »

A festa na rua me enojou. Tive mesmo vontade de vomitar. Ouvi gente dando vivas ao presidente, como se ele tivesse algo a ver com o time campeão do mundo. Até o craque preferido do general, um sujeito esquisito chamado Dadá Maravilha, nem pisou em campo. ‘Não vai ser fácil fazer esse povo ter consciência dos seus direitos, e ensiná-lo a construir o futuro’, pensei. Mas, em seguida, ocorreu-me a ideia de que a cidade de São Paulo não tinha a exclusividade dessa alienação. O povo dançava e cantava em todo o território nacional. Tricampeonato do mundo. Bom, não era pouco.

Esta cidade, imaginava, talvez fosse a que melhor aceitaria a nossa Revolução Popular. Era um lugar onde todo mundo trabalhava, e muito, o tempo todo. Luxo, só na elite. A maioria das pessoas, burgueses inclusive, pensava apenas em progredir. Aquilo me impressionava. E não era reação de nordestino classe média. Conheci outras cidades grandes. Estive em Milão, até, num congresso da UNE.

A vibração de São Paulo mexia muito comigo, as pessoas correndo de lá pra cá, todo mundo tentando executar com capricho suas obrigações, atendendo rápido nos restaurantes populares, nos cafés. Descobri que até os mendigos eram mais objetivos, pediam e não ficavam olhando pra sua cara, como quem diz “filho da puta burguês, não pode me dar um tostão?” Nada. As pessoas os desprezavam e eles partiam rápido para outras. Cidade incrível.

Os companheiros me diziam que o Rio, sim, era politizado. E eu pensava comigo: com toda aquela gente escrota, pelada, passando o dia inteiro na praia? A Revolução Popular teria de ter muito cuidado, no futuro, para não ser avacalhada por lugares como o Rio e Salvador. Todo mundo me advertia, “olha, não generaliza”, mas o Brasil da beira mar sempre me pareceu indolente, falso e reacionário.

Eu chegara há duas semanas a São Paulo com ordens expressas de me isolar em uma quitinete de um bairro chamado Aclimação. Um “aparelho”, como a imprensa apelidava esses esconderijos. Cabo Genro, meu chefe imediato, só me revelara, genericamente, a missão: uma ou duas apropriações, ou assalto a banco. Treinara durante três meses em uma fazenda do norte de Minas e, por causa da missão, fora obrigado a adiar uma viagem a Havana, onde iria me aprimorar no manejo de outras armas. Mas eu me virava muito bem com a metralhadora Ina. E ainda metia uma 45 por baixo da cintura, do lado esquerdo.  “Eu faço o trabalho em São Paulo e depois vou a Cuba, Cabo Genro. Não fico chateado, não.”

O Cabo, que talvez tivesse escolhido esse nome de guerra por ter sido, no passado, um militar modesto, era um pai para todos nós. Duro, exigente, até grosso, mas um pai.

 

 

Giovanna eu vi no meio da feira. Ali mesmo, na Aclimação. Ela se virou pra mim, pediu troco para uma nota de dez. Eu tinha, dei. Ela não passava de uns vinte, vinte e um anos. Mignon, magra, olhos negros enormes.

Ela: “Oi”.

E eu: “Oi”. Poderia ter-lhe dito: “eu já não lhe fiz o favor, troquei o dinheiro? Menina: sou um guerrilheiro e não tenho futuro pra você, tão linda que é, franzina, mas expressiva, expondo essa boca vermelha que promete beijos especiais”.

Como posso explicar uma coisa dessas? A visão de Giovanna, desde aquele primeiro momento, me despertava a vontade de sexo, algo louco, automático, eu me excitava mesmo, pra valer, olhando seus cabelos escuros penteados de lado, a curva terna dos seios sobre a blusa azul claro. Havia acabado de conhecer a moça e já experimentara a primeira ereção, em sua homenagem. Pensei: ‘estou carente demais’.

“Tá sempre por aqui, comprando?” Ela.

“Não, é a primeira vez”.

“Não se envolva”, dizia o Cabo Genro. “Um soldado é mais forte do que um santo”.

Eu não era bem assim. Alucinado pelos olhos negros da moça, me deixei levar por ela, naquela primeira vez, até o grande jardim do bairro, um parque imenso com lago que servia a namorados e babás. Uma semana depois já trocávamos beijos de fogo, ela dizendo que não entendia o que lhe estava acontecendo, tão recatada, e eu, já com ciúmes, achando que seria apenas uma de suas trepadinhas pequeno-burguesas. Mas eu corria perigo: durante os dois anos de treinamento fora celibatário; nós todos, os companheiros, concordáramos em não levar mulheres à fazenda; e não havia como procurar profissionais nas cidades próximas. Enfim, estava mesmo descompensado. De sexo e de amor. 

E já me apaixonara por Giovanna. A ponto de visitar sua casa singela, com quintal, e conhecer seus pais, filhos de imigrantes italianos que conservavam, até nos pequenos detalhes, toda a mística do país de origem. Enquanto meus companheiros não me contatavam, eu ia bebendo aquele vinho honesto, na mesa alegre, ao som de tarantelas, e, reservadamente, sob o caramanchão, acariciava, sugava, comprimia os seios da minha amada.  Houve uma tarde em que lhe tirei a blusa, completamente, e corremos grande risco.

“Amore mio”, ela me dizia baixinho no ouvido, enquanto se deixava possuir por meus dedos loucos, nem um pouco incomodada com meu apetite agressivo. Havia um quarto de despejo, nos fundos. Giovanna arrumou um colchão velho, não sei onde, e pudemos nos despir. 

“Não é mais virgem, Giovanna”?

“Ninguém mais é virgem”.

Reagi feito criança, fiquei meio quieto, mas não quis lhe perguntar sobre o número um. Na minha terra não seria tão simples, mas aqui em São Paulo, não.

Menti, a ela e aos pais, dizendo-lhe que preparava o vestibular de Direito e que não a deixaria visitar meu apartamento (“é pobre e tenho vergonha”), enquanto ela me levava a conhecer sua enorme cidade, do Zoológico ao Pico do Jaraguá, do estádio do Pacaembu ao centrão, no Pátio do Colégio. Mas gostava da zona chique. Era fascinada por uma loja de roupas, Marie Claire, e sonhava vestir um daqueles conjuntos elegantes. Que eu jamais lhe poderia dar. São Paulo (e essa descoberta foi inquietante) começava a me encantar com seus cheiros. Claro, eu me fixava na colônia de capim-limão, ingênua e nostálgica, que Giovanna usava.

Foi em São Paulo que fui obrigado a usar batom de cacau, pela primeira vez, porque meus lábios se rachavam com o frio; tive de vestir pulôver e ainda uma japona por cima. Vi-me no espelho da casa de Giovanna com toda essa roupa e gostei de mim. Fiquei preocupado com isso.

Nos fins de tarde, um odor mais profundo, de vaga fumaça, me enchia os pulmões e, por algum motivo que jamais soube explicar, me deixava feliz. E nem me senti estranho quando Giovanna me apresentou à Galeria Metrópole, perto da Rua São Luís, de apartamentos imensos onde a elite morava e curtia seus vícios. A Galeria, com um cinema confortável e alguns bares, fazia desfilar uma alegria supérflua e frouxa, mas eu já não tinha forças para odiá-la.  Tinha gente famosa por lá. Uma tarde, vi Milton Nascimento sentado em uma das mesas, parecendo um pouco triste.

 

 

Certo dia, chegou um companheiro, um tal de “Regente”, lá no apartamento, e se identificou segundo o combinado com o Cabo Genro.

“Os quadros da organização estão sumindo”, ele disse. “Tem lido os jornais? (Não tinha). Caiu muita gente no último mês. Precisamos de recursos. Você vai ter de cumprir sua primeira missão. Mas vai ser só você e uma cobertura…”

“Qual o objetivo?”

“Um banco na Rua dos Pinheiros”. Deu-me um papel com o endereço, horário, outras indicações.

“Onde encontro a cobertura?”

“Na hora, lá mesmo.”

“Não tem perigo da meganha aparecer? Seremos somente dois…”

“Confie, né? O Cabo Genro que mandou.”

A apropriação aconteceria às onze da manhã de uma terça-feira. Seríamos dois homens contra uma multidão de clientes imprevisíveis, sem contar a segurança armada. Muito arriscado. Na segunda à noite, véspera da missão, quebrei todas as regras e levei Giovanna ao meu aparelho. Mas tive o cuidado de esconder a Ina, a pistola, as caixas de balas e umas bananas de dinamite que guardava para qualquer imprevisto.

Ela olhou a quitinete sem móveis, com o colchonete no chão, disse-me que eu precisava de um pouco mais de conforto. Caímos no pobre leito e logo fugimos dele, rolando sobre o piso, animais alegres, eu cada vez mais intrigado com a fome de amor da minha amada. Fizemos o que nem eu conhecia. Ela comandava. ‘Onde aprendeu tudo isso? Será que houve muitos caras além daquele primeiro que a inaugurou?’ No fundo, eu me envergonhava dessas considerações, afinal machistas, e me sentia incapaz de qualquer outro sentimento que não uma espécie de encanto demente, quando ela repetiasono tua, sono tua, sono mille volte tua…”

No dia seguinte, não apareci na Rua dos Pinheiros.  

 

 

Foi muito dura minha conversa com o Cabo Genro. Disquei o número de telefone que havia decorado e que só poderia usar uma vez, segundo o trato. Meu velho líder estava irreconhecível. Me chamou de sacana e filho da puta umas dez vezes. Eu poderia ter dito que adoecera, uma febre súbita, e por isso não apareci no banco. Mas, de que adiantaria?

“Isso deve ser puta, isso deve ser puta!”, ele esbravejava no telefone. “Você se corrompeu, cachorro! Se aburguesou! Não toleramos traição, você sabe!”

“Puta é a sua mãe, velho corno!”

 

 

Agora estou aqui, olhando as manchas no colchonete que me despertam o êxtase e me deixam em transe, sentindo que talvez seja possível viver outra vida que não esta, tão falsa e provisória, suicida; talvez revele meu verdadeiro nome a Giovanna, além de confessar que se ela não repetisse tanto “amore mio, amore mio, amore mio”, eu não teria me transformado em um desertor, um rato, um filho da puta infiel. Ou talvez não diga nada, assuma os documentos falsos e morra para a vida revolucionária. Tenho sentido a sensação estranha de que, ao apaixonar-me por Giovanna, passei a gostar de mim mesmo, e muito, de um jeito que jamais imaginara.

Não estou bem. Minha cabeça não funciona direito. Há dois dias não apareço na casa dela, na verdade nem saio deste aparelho e não sinto o cheiro esfumaçado da cidade. A qualquer hora, alguém vai tocar a campainha. Pode ser Giovanna, com sua respiração curta de paixão. Pode ser um mensageiro do meu velho líder quase pai. Não vão me justiçar sem que eu reaja. Tenho amores a defender.    

 

  

 

Read Full Post »

 Lá estava o moreno, ali no canto da sala de espera, com a mão na boca, cabisbaixo. Valéria, dentista de classe média, de bairro emergente, não tinha hora para ele, mas sempre morreu de pena das dores do povo. A secretária, com seu horário de seis da tarde vencido, também se apiedara dele: “atende, doutora…”

Valéria, na verdade, não se sentia exatamente feliz por tratar de dentes elegantes, trocando cáries irremediáveis por lindas porcelanas. Para ela, odontologia era um trabalho de sobrevivência, e só. Dava para manter um apartamento, um automóvel e viajar de vez em quando. Muita gente sonharia com isso, mas ela achava muito pouco. Gostaria de fazer algo real, social, que lhe desse o prazer da solidariedade. Desde criança, a humanidade lhe parecia o objetivo maior. Votar não bastava.

Pelo menos andava dando sua colaboração de dentista numa organização religiosa, aos sábados de manhã, o que lhe minorava as culpas sociais. Naqueles dias, voltava para casa sorridente, dormia um pouco à tarde e reunia-se com os amigos à noite, bebericando um pouco de vinho. Vida besta.

Definitivamente, não teria horário para o moreno dolorido. A não ser que passasse das nove da noite. Mas, coitado, ele ali, meio caído de lado na poltrona, a mão direita na bochecha; quase não entendeu o que ele falou. Apenas um balbucio: “dói muito”. O moreno usava camiseta, calças de vincos permanentes e tênis. Deixou-o por último.

Já passava das oito da noite quando o mandou entrar. Estava virada para a cadeira, higienizando-a, quando se assustou com a batida da porta e o ruído da chave na fechadura. Estavam completamente sós, ali. Chegara, finalmente, o momento que ela mais temera nos últimos anos.

Era um homem muito jovem e muito feio. Antes que ele dissesse qualquer coisa, Valéria perguntou, impassível:

“Vai querer dinheiro ou sexo? Dinheiro tenho algum aqui, mas sexo não posso lhe dar. A não ser que você queira ir pro céu.”

O homem perdeu a iniciativa, mas puxou o revólver da cintura, coberto pela camiseta.

“Vou comer você todinha…”

“Olha, cara, até que eu gostaria que alguém me comesse todinha. Estou no atraso há mais de seis meses. Ninguém quer comer aidético, sabia?”

“Você está mentindo, sua vaca! Quer me enganar…”

Valéria sentiu um certo tremor na voz dele; a mão com o revólver balançou um pouco. Ela se manteve com a mesma calma.

“Posso abrir aqui, a gavetinha? Quero lhe mostrar uma coisa. Não tem arma aqui, tá certo? Posso? Obrigada.”

Puxou, devagar, um vidro de remédio importado.

“Está vendo aqui? É isto que é o AZT. Tome, dê uma olhada.”

Ela pôs o vidro no balcão, próximo dele. Ele olhou, sem jeito.

“Você está me enganando, sua vaca…”

“Tá bom, então vamos tirar a dúvida com alguém. Se eu ligar para meu médico, você vai continuar a dizer que eu estou lhe enganando. Então pegue aí o telefone e ligue você para quem quiser. Pergunte que remédio é este…”

Houve uma pausa de séculos. Havia uma raiva frustrada nos olhos do homem.

“Esperei duas horas e meia por você, sua puta…”

“Já não sei mais o que dizer, cara.”

“Quanto você tem aí? Tem dólar?”

“Quem vai guardar dólar em consultório, hem? Tenho algum, mas é dinheiro normal, não é muito, mas também não é pouco.”

Devagar, acercou-se de uma outra gaveta, e pegou um envelope cheio de notas. Alguns clientes, que preferiam pagar assim, haviam quitado naquele dia suas dívidas. ‘Pode ser minha salvação’, ela pensou.

“Está aqui, rapaz. Lamento muito. Se você quiser, posso lhe dar uma carona. Onde você mora?”

A sombra negra no rosto do homem foi-se dissipando.

“Pode deixar. Não caio nessa. Depois, é um lugar perigoso. Eu vou de ônibus.”

O moreno saiu quase se desculpando. Ela desabou na cadeira dos pacientes, as pernas dormentes, uma súbita dor de cabeça que se direcionava à coluna. Uma dor lancinante, como uma punhalada, mas passou logo. Repetiu sua própria mãe, que costumava chamar-se pelo nome, em voz alta:

“Valéria, Valéria, você se saiu muito bem como atriz do seu ato único.”

Levantou-se para beber um pouco de água. Guardou o anestésico importado que mostrara ao moreno.

“Coitado do cara”, ela disse, ainda em voz alta, “só faltou se desculpar. E esses bostas de políticos ainda dizem que as causas da violência não são sociais… O meu estuprador vai de ônibus para casa, pensando nas suas vítimas e correndo risco de assalto…”

Decidiu guardar suas opiniões para si mesma. Seus amigos a chamariam de louca, de esquerda festiva, essas coisas.

Do livro “Allegro” – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

Read Full Post »

Ela já deveria ter atendido um monte de gente e talvez por isso nem me olhou direito.

“Pois não…”, disse, meio distraída, ajeitando umas fichas na gaveta da mesinha. Eu permaneci calado.

“Pois não”, repetiu, e levantou os olhos, encarando-me. Gosto de ser encarado. Ela sorriu um sorriso débil. Deveria estar mesmo exausta. Esse pessoal caridoso trabalha o dia inteiro e estica a noite atendendo a gentalha. Ela:

“Por que o irmão veio nos procurar? Todos os problemas são resolvidos por Jesus. Todos.”

“O meu, não sei não.”

“O seu, o meu.” Apesar de murcho, o sorriso era bonito. Dentes grandes, gengiva bem vermelha. “Jesus resolve o problema de todo mundo, irmão.”

Suspirei fundo, como quem procura coragem.

“Até o problema de alguém que matou sua própria esposa?”

No começo, silêncio. Mas os olhos dela se abriram mais, encarando-me com aflição. A boca estremeceu, de forma sutil. E aquela expressão de cansaço sumiu de repente. Eu me agitei na cadeira, eu era gozo puro. Ela olhou para os lados, discreta, onde uns outros dez voluntários ouviam misérias.

“E isso…”, ela conseguiu balbuciar, “já faz tempo?”

Olhei o relógio, disse: “Duas horas e meia, mais ou menos. Deixei o cadáver lá e vim.”

“Pra cá, diretamente?”

A voz dela se elevara um pouco.

“Dizem que aqui as pessoas entendem a gente…”

Longa pausa. Agora, os lábios da mulher (uns trinta anos, gostosinha) tremiam como se fizesse muito frio.

“Jesus entende a todos nós”, ela ainda disse, engolindo em seco. Súbito, pôs a mão na boca. “Desculpe, não estou me sentindo bem…” Levantou-se, trôpega. “Desculpe, preciso ir ao toalete…”

Fechei os olhos. Atingira o máximo da excitação. “Grande garoto!”, eu me disse. “Teu desempenho foi perfeito!”

Aí me lembrei de outros momentos, bons e maus, em que exerci minha arte.

No Centro Espírita da Zona Leste, eu:

“O tal do maníaco que já matou dez mulheres não é quem a polícia está pensando. Sou eu.”

“Muito prazer. Eu me chamo Nossa Senhora de Achiropita”, disse a quarentona de olhos azuis. Uma mulher sisuda, fechada, sem dor. Admito: eu vacilei.

“A senhora não acredita em mim?”

“Não. Já me apareceram uns três caras dizendo que são o maníaco. Fora os outros que passaram pelos meus colegas. Mas, se quiser conversar sério, estou às ordens. O senhor, pelo jeito, precisa mesmo de ajuda.”

Aquilo foi uma lição. Aí eu decidi aprimorar a técnica, ser perfeito na minha arte.

Na Igreja do Cristo Redivivo, eu:

“Desculpe se estou chorando (estava). Sabe, sou gay. O meu marido acaba de morrer de um vírus terrível. Não pense que é Aids. É o vírus Ebola. Ele pegou na África. Acho que me contaminou. Vai contaminar o Brasil. Meu Deus…”

A mocinha, bem nova mesmo, com as últimas espinhas da adolescência no rosto, não entendeu direito. Eu repeti. “Estávamos casados há vinte anos. Nos conhecemos em Paris. Alfredo.”

Ela não conseguiu falar direito. Olhou para mim como se pedisse socorro. Pedia socorro. Levou um tempo assim.

“Sinto muito…”, foi a única coisa que disse a coitadinha.

“Eu também”, respondi. Estava excitadíssimo. É uma sensação de liberdade, de plenitude – só os deuses a conhecem.

Que magia, que delícia! Mas não procuro padres católicos, eles se escondem por trás de telas. Seriam os primeiros a tremer. Eu quero encarar. Quero olho no olho. Ver o outro sem saída, gente se engasgando de medo de mim.

Read Full Post »

Toda a família dera graças a Deus: após anos de internações por alcoolismo, perda de muitos empregos (chegara a perder, até, um emprego público), lágrimas e dor dentro de casa, com os filhos adolescentes revoltados, os irmãos ajudando com as despesas, muita novena e promessas, Yuri conseguira se acertar na vida. E tudo isso por causa do japonês.

Mestre Nagayama, como era chamado, muito mais do que um patrão compreensivo e generoso, era um verdadeiro guru para todos os seus empregados. Quando aceitou que Yuri tomasse conta da contabilidade da sua pequena indústria de produção de patinetes, foi logo avisando:

“Tomei informações do senhor e sei que tem problemas com a bebida, mas que é um profissional honesto. Se me permitir curá-lo do seu problema, seu emprego estará garantido. Se não, o senhor já sabe o que vai acontecer: o mesmo que ocorreu nos outros lugares onde esteve.”

A postura direta e generosa do novo patrão mexeu com os brios de Yuri e ele aceitou tentar curar-se. Já tentara de tudo, inclusive os Alcoólicos Anônimos, mas nada dera certo. Epifânia, sua mulher, perdera qualquer esperança, arrumara um jeito de faturar alguma coisa, vendendo perfumes naturais, do contrário ela e o casal de filhos iriam de vez para a miséria.

A transformação do ainda jovem contador foi pouco mais do que um milagre. Epifânia, os filhos, todo mundo, ninguém acreditou, nos primeiros meses. Não que Yuri fosse agitado ou violento, não era, fazia mais o estilo bêbado deprimido, que chora e pede desculpas. Mas a sua própria situação instável o deixava com os nervos à flor da pele, gaguejando, esquecendo-se de tudo, esbarrando nas portas, mexendo sem controle alguns músculos do rosto, como um piscar de olhos sem fim.

Agora, não. Sem beber um gole, pelo menos dentro de casa, tornara-se pacífico, afetuoso, compreensivo. E até fizera amor com Epifânia, numa sessão de ternuras e delicadezas que durara uma noite inteira de sábado.

“Foi o japonês também que ensinou essas técnicas pra você?”, perguntou a esposa, alegremente exausta.

“Foi. É Tantra Yoga. Nós nos tocamos, e nos tocamos, e não cansamos de nos tocar, porque você é minha deusa e eu sou o seu deus…”

“Foi o melhor jeito de fazer, Yuri, mas eu teria ficado mais feliz se você tivesse, ham, chegado lá.”

“Não, não. Se eu chegasse lá teria desperdiçado o meu amor. Seria o fim da comunhão entre nós dois. E seria a prova de que não consigo dominar meu próprio corpo.”

“Mas eu cheguei, Yuri, e nunca senti isso antes…”

“Quero que você seja feliz”, disse ele, enigmático.

Já se passara um ano de paz em casa e Epifânia participou à família, filhos inclusive, que o marido estava curado. Ganhara até um aumento na empresa, apesar da conta da livraria, um absurdo, e só de livros de meditação, espiritualismo, budismo, yoga.

Yuri evoluía mais. Tentava convencer os filhos sobre as excelências de um tal Quarto Caminho, mas não teve muito sucesso, assim como não conseguiu levar Epifânia às reuniões regulares do Grupo do Lótus Cambiante, presidido pelo genial Nagayama, cujos empregados acabavam de ganhar um prêmio de produtividade da Associação das Pequenas e Médias Indústrias. “Usamos técnicas de meditação transcendental”, ele explicara ao maior jornal da cidade, muito interessado no assunto. Na foto do grupo de meditação, lá estava Yuri, na primeira fila.

O contador, agora, pedia a Epifânia que liberasse o quarto de casal durante duas horas por dia, pois ele estava tentando mais uma técnica espiritual de equilíbrio psicossomático.

“Mas, meu amor, está tão bom assim… Você é outro homem com essas novidades todas, não precisa fazer mais nada.”

“Querida esposa: não há volta neste meu caminho. É a minha evolução, estou cuidando do meu futuro espiritual…”

Pelos livros que andava lendo e por algumas conversas ao telefone com outros adeptos, Epifânia e os filhos descobriram que Yuri tentava chegar à levitação, naquelas horas em que se recolhia ao quarto.

Certo dia, Ramiro, o filho mais velho, chegou pálido junto à mãe, que via televisão na sala, expulsa do seu canto preferido.

“Mãe, mãe, eu… estava olhando o pai pela fresta da janela…”

“O que, Ramiro, você fez isso?”

“Fiz, mãe, desculpe, mas é coisa mais séria, mãe: o pai está suspenso no ar lá dentro. Está a uns dez centímetros do chão…”

“Mentira.”

“Juro, mãe, juro. Vai lá ver.”

“Eu não. Eu respeito a privacidade do seu pai.”

Tempos depois, Epifânia respondia com alguma tristeza a quem da família perguntasse se tudo continuava bem entre eles. Ela mordia o lábio inferior (seu jeito de demonstrar preocupação) e balançava a cabeça, afirmativamente, mas não convencia. Estava tudo ótimo, ela dizia; melhor impossível, na verdade. Yuri é que andava bastante diferente. Os gestos cada vez mais lentos, harmoniosos. A fala mansa e cheia de pausas. Agora só comia arroz integral, verduras e frutas, perdera mais de vinte quilos e ganhara uma saúde inabalável. O lado afetivo, bem, desse ela não podia se queixar, mesmo. Mas alguma força superior se apoderara dele, força do bem, é claro, pois ele andava, assim, alheio ao que não fosse sua obrigação para com a família e a evolução do eu superior.

Ela não sabia se explicar direito, mas sentia que Yuri não conseguia pôr os pés no chão (literalmente, até) e isso não poderia ser, na verdade, o melhor dos mundos. Não combinava com a humanidade das pessoas e muito menos com a crueza da cidade. Talvez um pouco de boemia, de sacanagem, até uma certa inconseqüência, fizesse bem à vida dele e da família. Mas já perdera as esperanças.

Do livro “Allegro” – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.

Read Full Post »

Older Posts »