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Archive for julho \15\UTC 2012

A Mãe

Veja só: usava o nome de Aurelina. Que bobeira. Gringa, cabelo de palha, sarda no rosto e escrito lá, Aurelina, na carteira falsa de identidade. Conservou o sobrenome, que é seu mesmo, Smith, talvez porque seja extremamente comum. Aurelina Smith Proença, a maior cafetina de todos os tempos.

Quando a pegamos, ela deveria estar com uns quarenta e dois, quarenta e cinco anos, se tanto. Na carteira, tinha apenas trinta e sete. Nenhum do grupo que fez a tocaia vai esquecer da cena: uma fazenda maravilhosa, com três piscinas, campo de golfe, futebol society, futebol de campo, quadras de tênis, etc., etc., e, lá dentro, vinte e oito mulheres deslumbrantes.

Que top model, que miss, que nada! Aquelas eram as mulheres mais lindas que já vi em toda a minha vida, a mais nova havia completado dezoito anos, a mais velha não passava de vinte e quatro. A fazenda era o jardim do Éden, o próprio, e eu, como chefe da turma, tive de me impor com mão grande: Aparício e Jota Carlos tentaram tirar casquinhas das meninas. E os outros três, se a gente facilitasse… Mas, nessas horas, o profissional tem de se impor. Por maior que seja a tentação.

Eu gostaria de ter chegado de uma forma mais discreta, mas havia uma informação reservada de que encontraríamos uma possível resistência. Que nada! O único homem por perto era o jardineiro, com mais de sessenta; o resto dos serviçais, todas mulheres. E havia quatro cachorros, grandes e vira-latas, que nos receberam com rabos em festa.

Chegamos em jipes camuflados e alguns dos meus meninos pularam das viaturas com metralhadoras à mão, gritando “polícia! polícia!” Ê zona… Ainda ouvi uns gritinhos, uma das moças desmaiou, mas a maioria conservou a calma. E Aurelina, cujo nome real a Interpol ainda não descobriu, aproximou-se de nós, na maior dignidade, e perguntou pelo responsável.

Eu me apresentei e não tive dúvidas: bati forte, pra desmoralizar.

“Eu sou o Piva, investigador Lourenço Piva, chefe da missão; você é a cafetina?”

Ela falava bem o português, mas o sotaque era triste. Respirou fundo, olhando-me nos olhos.

“O senhor, senhor Piva, deve cumprir o seu papel constitucional, vir até aqui, invadir minha propriedade, etc. Mas eu não sou uma cafetina; eu sou a Mãe. A verdadeira.”

As deusas começaram a se aproximar dela, carinhosamente, algumas chegaram a abraçá-la. Eram bonitas demais, aquelas moças, e até para um cara experimentado como eu ficava difícil acreditar que estava diante de putas. Dei ordem ao Aparício para pedir dois ônibus. As moças se desesperaram. Algumas começaram a chorar mais alto. Outras vieram, solícitas, de dentro do casarão, trazendo bandejas com champanhe. Fiquei irritado.

“Dona Mãe, é o seguinte: a senhora e suas filhas vão de ônibus para a cadeia, na capital. Não há outra solução. O meu pessoal vai esperar os ônibus, que deverão chegar em duas horas no máximo. Eles têm cantil para beber água, não aceitarão nada de vocês, são policiais experimentados. E eu vou rezar para que a senhora não me ofereça propinas, porque aí a sua situação se complica de vez. Outra coisa: ninguém vai fugir daqui. Temos pessoal de apoio cercando a fazenda.”

“O senhor é truculento…”

“A senhora não imagina o que é truculência.”

Pela experiência, eu sabia que prostitutas e travestis são passivos. Quando presos, não fogem. Aguardam o camburão, sofrendo, e seguem, lacrimosos, até o auge da humilhação, como se isso lhes compensasse a alma. Aquelas meninas entrariam nos ônibus, uma a uma, de olhos vermelhos mas altivas, apenas preocupadas com as fotos dos jornais e a repercussão diante das famílias e dos amigos. Agora mesmo, dentro da casa, algumas já deveriam estar ligando, através de celulares, para seus advogados. Os quais, com certeza, iriam alegar violência policial, constrangimento, até calúnia, injúria e difamação, já que não teríamos como provar que se tratava de prostitutas de luxo. Sempre o mesmo filme.

Desta vez, no entanto, iriam ter uma surpresa. Nossa operação se iniciara no cliente final, uma rede de boates da Europa, e toda a documentação da encomenda estava conosco, inclusive a programação das passagens na classe executiva.

“Posso falar com o senhor reservadamente?”, perguntou a Mãe.

“Claro, vamos até ali.”

Seguimos para uma varanda florida, com trepadeiras bem cuidadas. A Mãe recostou-se numa preguiçosa, me ofereceu outra, mas eu fiquei de pé.

“É desagradável para mim ficar olhando o senhor desse jeito. Não quero amolecê-lo”, ela sorriu, amarga. “Não vou resistir. Por favor, sente-se.”

Aí me sentei, não sem antes dirigir um olhar de advertência aos homens: nada de conversinhas com as ninfas.

“O senhor sabe, senhor investigador, que está destruindo sonhos?”

“Sonhos maus, pesadelos, sim, eu sei. As meninas vão chegar à Europa, serão engolidas pelo esquema sujo das próprias boates; vão se viciar em drogas leves, depois nas pesadas, aí destruirão a saúde, a auto-estima, e depois a beleza, o frescor da pele, e, decadentes, mudarão de empresa, irão baixando de nível cada vez mais até morrer num beco de cais do porto…”

“Visão machista e romântica do negócio do amor, o senhor me desculpe. As minhas meninas acabam se casando com os gringos, tendo filhos e voltando ao Brasil, às vezes como empresárias sérias e produtivas. Pessoas felizes. Ou o senhor acha que mulher gosta de ser profissional o resto da vida? Que não tem outros sonhos?”

“A senhora me chamou até aqui para dizer isto? A senhora acha que não conheço puta?”

“Por favor, senhor, modos…”

“Que modos… A história é a mesma, sempre, dona cafetina, desde o princípio do mundo.”

Levantei-me, irritado, e fui para junto dos meus. Começou um grande movimento na casa: as mocinhas trocavam de roupa; queriam ser presas de jeans. Umas se transformaram completamente, para disfarçar o mais que pudessem os traços fisionômicos; todas passaram a usar óculos escuros de grife.

Os ônibus chegaram na hora certa e achei que as meninas estavam muito confiantes, pois não quiseram levar as próprias malas. Meu pessoal não encontrou muita coisa na fazenda. Mas se impressionou com a infra-estrutura de esporte, com aparelhos importados que poucos clubes possuem, e com a quantidade de garrafas de champanhe francês, a única bebida alcoólica, aliás, que havia ali.

Subiram no ônibus, como eu imaginava: em silêncio, mas de cabeça erguida. A Mãe foi a última. Trouxe em mãos um álbum de capa dura que me entregou, discretamente. Subiram todas no ônibus. Nós fomos atrás, com nossos jipes ridículos, escoltando. Por algum motivo, não quis abrir o álbum na frente dos outros.

Preferi vê-lo em casa, com calma. Um susto: a cada duas páginas, havia um nome de mulher e fotos de famílias, em geral uma mulher bonita, um marido gringo e muitas crianças. Sorrisos. Parques temáticos. Pequenos paraísos, mares azuis. Crianças e o Mickey, na Disneyworld. A elegante esposa com os sogros felizes. Crianças sorrindo em Paris. Reconheci também Nova York, Londres e até cidades árabes, a julgar pelos minaretes. As putas da Mãe vivendo sua segunda vida, o sonho. Fiquei pensando: qual será a porcentagem dessas que renascem, ou nascem para uma vida normal, e desmentem minhas teorias?

Nunca mais fui o mesmo depois de folhear aquele álbum.

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